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Full text of "Academia dos humildes, e ignorantes. Dialogo entre hum theologo, hum filosofo, hum ermitao, e hum soldado, no sitio de Nossa Senhora da Consolaçaò .."

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k^ 




ACADEMIA 

HUMILDES, 

IGNORANTES 

NO SITIO DE N. S. DA CONSOLAÇÃO 

fua Prote^lora, 

Dialogo entre hum Tbeologo , hum Letrado » hum Filofo- 
fo , hum Ermitão , hum Eftudante , e hum Soldado , 

Qiie a todos os íeus Anjos , e Santos Advogados , 

efpecialmente a 

SANTA MARIA MAGDALENA, 
S. JOÃO NEPOMUCENO, 
SANTARITA DECASSIA, 

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA 

Dedica feu indigno Patrício 

Fr. JOAQUIM DE S7^ RlTA, 

A U G US T I N I A N o. 

TOMO VIL 



^ 



LISBOA, 

Na Officina de MIGUEL MANESCAL DA COSTA, 

Impreflbr do Santo Offlcio. Anno lyój. 

Com as licenças necefsdrias. 







V.7 





■ r 



Jf' 



'-*\ . « 



Obra utiliífima para todas as pefloas Ecclefiaf- 
tícas, e fcculares, que não tem livrarias próprias^ 
nem tempo para fe utilizarem dás^grandes públicas, 

Summa excellente de toda a Thcojogia Myftica ^ 
e Moral , Filofofia antiga , e moderna , Mathemati- 
ca , Direito Civil , e Canónico , de toda a Medici- 
na , fciencias , Artes liberaes , e mecânicas. 

Compendio breve de todas as noticias do mun« 
do , c foas partes ^ Impérios y Reinos , Cidades , 
VilJas j Cafiellos ^ fabricas , moniimentos , coftu- 
mes, ritos, eLeis. Da vida deChrifto Senhor noC- 
fo j de fua Mâi Santiílima, de todos os Santos, e 
Santas, e Veneráveis mais conhecidos, de todos os 
milagres , e finaes prodigiofos , certps , e authenti^ 
cos. Das vidas de todos os Sumtnos Pontífices ^ 
Emperadores, Reis, Principes , é peíTcas dignas 
de efpecial lembrança defde o principio do mundo 
até' a ' preícnte. De roda a Hi^oria Sagrada , Ec- 
cleíiaftica, é fecular, com a Chronologia dos tem- 
pos. De todas as obras admiráveis da natureza , c 
arte, mecànifmós, invenções, artefaftos antigos, c 
teoderíios. 



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íi 

I' 

■í 

> 



AO LEITOR. 

AMIGO. Sempre julguei me nao 
íaberias com certeza o nome y que 
te encubri nos primeiros féis To- 
rnos com as letras D.F.j. CD. RBH, que 
nada íignrfícavão, efó me encubriáo , ago- 
ra o maior , e mais fuave preceito me obri- 
ga a fahír a público, e nelle te digo que 
dei principio a efta obra , e por efte já an- 
tigo eílylo , por Eurrapelia ^ o mefmo fim 
me obriga a continualla , e communicar-te 
o muito que vi , li , e ouvi em todas as qua- 
tro partem do mundo entre as principaes na- 
ções da Europa , Mouros , Grentios , e Bár- 
baros. Se me notares erros , avifa-me com 
caridade , que me hei de emendar 9^0. hei 
de agradecer ; e fe murmurares de hunm 
virtude táo própria do meu eílado , Oeds 
te ha de caftigar , porque eu amo > e ve- 
nero a todos ^ e fendo o peior homem do 
mundo > náo fei murmurar. 

Vale. 



ACA- 



(O' 




ACADEMIA 



HXJMI^LBESí 

IGNORANTES. 
CONFERENCIAI. 

OR A O muitas , e fncceflivas as 
defgraças do Rct D. Affonfo Sr- 
bid depois daquella horrível tem* 
pejlade, caftigo dabLasfemia, qtti 
proferira. Lerantáráo-íe contra él- 
le os Reis Mouros j e feiídatarios 
dé Granada', JVÍurcia, eXerês-coM 
- 1^ j ( .;;.! ■ fiados .nos Reis de .Marrocos f».;ft 
Tunes.^ dccjíiein útAv.çrío- v4fi)llos/èpara'itieltvíf 
ekito^a-to mfidelidadè> ájnftá^So «ronn o9.Maur«9 
de Sevilha , icuide oRei eftavá a»bUcandD'a.Crl)]!f»f 
. GCíím. VIL A da ' 




{■> ) 

'3a ps^ Í"gáerTa , 4tfé o matalTem argtjn^s nó AT?f-' 
çar y nome Arábigo j que fignificaya Palácio fortifi- 
cado, e delicioso, eoofa introduzida pelos Mouros j 
na Hefpanha para defeza dos Reis , e confetrida;) 
tpelos Catholicos com o roefmo fim. Eriton D. Af- 
Ifpofo niiiagrofamente efte perigo com a jonrtda , 
■ qae fez a Caftella no ipefmo tempo , e os Mooroa» 
'tcftretanro deftrtiírão, efaqueárâo o melhor d»q«el-' 
la fértil Província , que fe refiaurou com rios de 
fanguetia campanfaa f^guinté*, at^ual finalizou per- 
doantlo a vida-aHudicrRei deMurcia, cuja coroa 
fe deo a Mahomad , .deixando-lhe fó rendas para 
Tiver com decência. Edificou D. ASbnff^ alguns Caí^ 
tellos, e^-Praçasiias.Tijlinhanças ddMurciafpartfuR 
maitír deftza : *èfcurfeceo todo o donceitO graríde^ 
qne deite fe fazia j faltando ao juramento , e ajufles 
com o Rei Mouro "de Granada , contra :quem aju- 
dou occiíltamente dsMburos de Cíuadix , e Mála- 
ga. Queíxpu-/e-UiepeffoalAKnteoR.ei^JN^uro, que 
defpedio cbíeíico', t etíé tíedíndo juftiçaf « Deos fe 
recolheo efcandalizado. No caminlio o hnlpedárão 
vários Grandes de Caftella , efpeciálqíêpte ÇJ^ Níj- 
no Gonfálvesde Laraj cafa, que lov fejDpre vivei- 
ro de traidores , «infames naHefpanha, qnc; o pcni-- 
fuadírão a fazer guerra aoRfei D-Afòufo, t}eqi|etn 
eftavão efcandalizados já pelos graAJcs tribitroé^s 
já pela Real prodigalidade , com t[Lic deo a Dona 
Martha fna prima, rtiulher do EmpewJor de, Con-i 
ftantinopia Balduina, ilepofto por Paleologo, e ca- 
tivo do Sultão do Egypto , ttinta mil marcos de 
prata para re%atalIo. Celebrou- o Rei com grande 
jttbilo a Mifia nova;do Infante. D. Sancho de Ara- 



($) 

^o 9 filho do Rei D. Jaime , eleito Ârcebifpo de 
Toledo , e as bodas de feu filho D. Fernando com 
Dona Branca , filha de S. Luiz Rei de França , a 
que fe fegoio o luto pela morte do Principe Con- 
ndino ^ chamado Rei de Nápoles y degollado em 
Praça pública y e o levantamento dos Grandes de 
Caftelia com o titulo de não poderem tolerar o tri- 
boco da Âlcavala. Com futnma brandura , indigna 
da Mageftade j tolerou D» ÂiFonfo efta oufadia , po<» 
dendo evitar logo todas as deígraças alturas , cor<^ 
«ando-lhes juftamente as cabeças^ Mandou-lhes Em<> 
faaixadores , celebrou Cortes , e nada bailou para 
iocegalios^ antes perdido o norte da fidelidade, fe 
precipitarão no abyfmo de convidarem Aben Jo- 
áephyEmperador de Marrocos, concra o feu natn* 
ral fenhor.. Entáo fe vio Hiefpanha na ultima def* 

graça ; e temendo-a os mefmos , que forâo caufa 
ella y morreo o traidor Nuno de Lara em huma 
batalha y onde os Mouros lhe cortáráo a cabeça y 
que o Emperador de Marrocos mandoa em huma 
lança io Rei de Granada^ que íentido de ver mor- 
ara o bemfeitor, a quem devia a Coroa y a mandou 
Qoxn decência a Córdova y para que os Catholicos 
« enterraflem com o corpo. O Infante Ârcebifpo 
ée Toledo y leal , mas pouco experimentado y fem 
^fperat. o General D. Lopo de Haro , fahio a de- 
fender aquelle Reino y e fendo cativo pelos Mou* 
ro^ no primeiro encontro y e queftionando muitos 
die quembavía de fer.prizioneiro 5 Atarfeiíhorde 
^aiaga omatou^dehumacftooadá, cujo corpo com 
A cabeça y 4i niSofeparadas.refgatou D.. Lopo de* 
fmi por muita oura Morreo nefie tempo cm Villa«> 
.' . : A ii Real 



(4;) 

Real o Príncipe D. Fernando , deixando dous fi« 
lhos y D. Sancho ^ e D. Fernando de Lacerda , aos 
quaes tirou logo a Coroa, que lhes competia , íea 
tio D. Sancho y filho iegundo de D. Afibnfo ^ que 
fendo vivo feu pai y lhe tomou o governo j dizendo 
eftava incapaz para iíTo , fez liga com os defcon- 
tentes , perfeguio os Mouros com notável deftreza y 
e na Hefpanha certamente nova , porque evitando 
batalhas, guarnecendo Praças , tomando-lhes os vi* 
veres y e derrotando os foccorros ^ lhes fez abater 
o orgulho em breves tempos. A Rainha Dona Vio- 
lante juftamente fentida de que feu marido confen- 
tiíTe foíTe jurado fucceíTor do Reino D.Sancho em 
prejuizo de feus netos, a quem fó pertencia o Rei- 
no , fe retirou com elles para Aragão. Intentarão 
os Reis vizinhos decidir efta fucceí^ão , juntando- 
fe com D. Afibnfo , mas D. Sancho os imppdio 
fempre ; e conftando-lhe que feu pai convocava 
Cortes geraes em Toledo, celebrou outras com os 
feus parciaes em Valhadolid , onde por fentença 
pública , e a mais iniqua , privou' a íeu pai D. Af- 
fonfo do governo, deixando- lhe fò o titulo de Rei ^ 
que lhe ofiereciáo também os infames parciaes , e 
não aceitou para melhor fe defender dos que. jufta- 
mente lhe eftranhaváo efta; acção. D» Afibníb def^ 
amparado de todos fe valeo do Emperador de Mar- 
rocos , a quem ( dizem os Hefpanhoes ) mandou a 
fua coroa, alfaia de extraordinário preço, e incom- 
parável eftimaçãp y ém penhor da ina. amizade. Veio 
com eâFeíto o Mouro foccorrello: contra o filh^; 
mas tão vil, e traidor, qne intentou prender o Rei 
D. Affòofo 9 o qual aviíado fe retirou para Sevilha^ 
i ;: e em 



(V) 

€ emTiuma íolémne Janta , celebrada a 8 de Nof- 
vembro de 1283 , com palavras horrorolas amaldi** 
coou poblicamente a feu filho D. Sancho , o qnal 
defprezando tudo , perfeguio com tal furor o pai-, 
ifiie o neçeffitou a pedir foccorro fegunda vez ao 
Empérador de Marrocos , logo ao Rei de Françaj, 
e ultimamente ao Papa y que nada pode confeguir 
com admoeftaçôes, e Legados 9 e acabou efta (cena 
morrendo D. ÂfFonío em Sevilha aos 21 de Abril 
de 1284. Ná hora da môfte renovou a maldição % 
fea filho D. Sancho , e a Rainha Dona Violante 
com fingular cuidado pagou as fuás muitas, e gran- 
des dívidas logo. Dezenove annos de idade tinha 
D.Sancho, por antonomafia o Bravo, quando duas 
vezes amaldiçoado por feu pai lhe fnccedeo injufta^ 
mente no throno : foi o quarto defte nome , e ftf- 
kagefimo quinto na Coroa principal de Hefpanha^ 
hum dos mais aborrecidos , que reinarão nella , € 
que melhor foube fuftentar-fe no throno , que ufur- 
pára. Os Reis de França embaraçados com agueii* 
ra de Siciiia nâo pudérao introduzir á força de at^ 
imas em CaUelIa feu neto D. Afibnfo de Lacerda , 
fobrenome , que lhe grangeou o defeito , com qut 
nafceo cuberto todo ae pello afpero, aque osHef^ 
panhoes chamão cerda. Quatro mil Cavalleiros prin^ 
cipaes em Badajoz , e quatrocentos em Talaveira j 
Villa principal <le Toledo , açclamárão o verdadei^ 
ro Rei , e fucceíFor legitimo D. Afibnfo ; porém 
D. Sancho , aue eftava cora fuperior partido , íct 
degollar a tdaos , e feitois ein* 'qiiartoâ os niandoè 
)>enddrarnos lugares mais públicos de todo orK^ 
no 4 borroroíb éipcâ:aculo ^ q«e inhindk) 'enir todcà 
Tom. VII. A iii per. 



perpetuo fileocio.- Os Inf«Qtes deshérdados ficarão 
com algumas Villas por mercê , e D« Sancho feu 
tio com a Coroa em paz j que lhe perturbarão os 
Mouros com a^umas entradas j e efpecialmente 
com o íitio de Tarifa , a quem governava D. A& 
fonfo de Gufmão , Var^o deetema memoria nas 
Hiftorias de Hefpanha ; porque cativando-lhe os 
Mouros hum filho em huma efcaramuça , e moí» 
trando-lho prezo y dizendo ^ que fe não entregava 
,â Praça ^ lhe tirariâo a vida , refpondeo da mura- 
lha y que mil deixaria degollar para a defender ; e 
lançando fobre os efquadrôes huma catana , diflct 
que fe não tinháo com que lhe cortar a cabeça y allí 
lha ofierecia. Daqui foi fentaríe á meza com íua 
mulher, ç. ouvindo hqm eftrondo na muralha , acu- 
dio comendo, edizendo-lhe erâo lagrimas dos foi* 
dados , porque eftavão os Mouros dégollando feu 
filho , refpondeo : Cuidei que era outra coufa ; e fem 
o menor çoçobro fe reítituio á meza íem commu* 
iiicar a fua mulher coufa alguma. Levantarão p$ 
Mouros o fitio j em que fe achou o Emperador de 
^arrocos com todo o feu poder : pouco depois 
morreo D. Sancho , deixando a Coroa a feu filho 
D. Fernando, Nefte meio tempo o Rei de Aragão 
.concluio a defejada paz com França , fendo media- 
neiro o Papa j e os Sicilianos vendo*fe defampara* 
dos de D. Jaime Rei de Aragão , e temendo cahir 
putra vez nas mãos dos Francezes bem lembrados 
^as vefperas Sicilianas, elçgêrão por feq Rei a D. 
Jpradique., irmão do Rei D. Jaltne , o qual fuften-^ 
tou aÇojroa cpntra todas as forças, edeftrezas de 
França^ Morreo D. Sancho no^smnp de 129$;, ten* 

do 



do reinado onze aonos , e quatroí dias \ deixou ích 
£iho na idade de dez annos y nomeou por Tutora 
delle a Rainha , e muito contra fua vontade , em 
íegundo lugar D. João de Lara ^ a quem pertendeô 
obcigarr com efta honra , para que.nãa pçrturba0^ 
ã Monarquia ; mas como efta lhe tinha tiaio^^ e ellc 
era executor do novo tributo da Siza j que inftituí* 
ra D. Sancho , os povos capitaneados de dtaimos 
orgulhofos defprezárâo as ordens , tomáráo as ar- 
mais , e commettêrâo os maiores infultos nas vidas ^ 
honras , e fazendas dos que não queriâo íeguir o 
levantamento. A provei tárâo*fe da occaíiáo os In« 
fantes de Lacerda amparados dos Reis de Aragão j 
e Portugal com o Infante D. João y irmão de D. 
Sancho defunto ^ e o exercito defta liga tomou aU 

Í rumas Praças , deftruio muitas j e a Kaiqha com 
eu filho fe vio reduzida ao ultimo perigo ^ fendei 
lhe neceflario íuftentar guerra contra o exercito d4 
liga , e a Cafa de Lara. Houve vaíTalio tão infamo 
traidor, que para tirar a Coroa ao menino perten- 
deô par? mulher a mãi , dizendo-lhe, que f6 tendi) 
p}ãrí(jto poderia confervar o filho ; * mas eUa coiq 
Real , e memorável exemplo lhe refpondeo , que 
mulheres da fua qualidade cafavão huma fó vez pa* 
ra confervação das Monarquias , e que Deos er^ 
Pai y e Efpofo. das viuvas oaftas. ^cn o e^cperi^ 
mentpu y porque ofiFerecendo fua filha Qona Beatriz 
ao Rei de Portugal , e pedindo Dona Confiai^ 
Infanta noíF^ para feu filho , fe desfez a jiga ; po^ 
rém o Rei de Aragão, que tinha nelle outro inte- 
^eiie maiprvintroduzio D. Aflbnfo de Lacerda no 
Reino [deMurcia, onde foi acdamado, e em agrar 

de- 



deciinentó 46 ò ekvdr po throao por alguns àitsj 
lhe cedeo logo muitas Praças y qu€ o Rei de Âra«- 
fâo pertendia. Finalizou efta Comedia , nomean* 
lo-fe poif árbitros da luccefsão de Hefpanha os 
Reiá^de Árag;S(o ^ e Portugal , que declararão ver^*» 
diádeiro ilbcceâbr D. Fernando j obrigarão a D. Âf- 
fbnfo de Lacerda renunciafle o direito , que tinha 
á Goftka'^ e para íe manter com decoro, e grande^ 
sa de Infante , e feu irmão lhe nomeárSo algumas 
Praças I e terras , que elle ao principio defprezou ; 
Dias vendo-fe em fumma pobre» , mandou tomar 
poíTe delias , que' todas hoje compõem o Ducado 
dê Medina Coeli em feus defcendentes. Unírâo-fe 
logo os Reis contra os Mouros j que vencerão em 
duas batalhas , mas nem õ de AragSo pode con*- 

ãuiftar Almeria , nem o de Caftella Algezira, e fó 
epois tomou Gibraltar , Praça em todos os feculos 
importantiíEma« Morreo D. Fernando de repente 
em Jaen , tendo vinte e quatro annos , e nove roe- 
zes de idade, quatònse^e alguns dias de reinado: 
foi dèpoíitado o feu cadáver em Córdova , porque 
âs calmas do mez de Setembro , em que faleceo , 
tiâo permittírâo conduzillo a Sevilha : deixou Co- 
roa a feu filho D. Afibnfo , que tinha de idade 
hum anno , e vinte e féis dias. Em quanto durou a 
xtienoridadé do Rei D. Affonfo XI y e Rei ièxage- 
fimo fetimo , padedép JGaftella os maiores traba- 
lhos, guerras Civis, eínfultos, que deCde afua ref- 
tauraçSo tinha experimentado ^ fendo a origem de 
tudo a ambição de creaí o Rei para governar o 
Reino. Chamo^lhe Affotifo undécimo na opinião 
daqu^llfes > qti« numerãõ D; Affottifo Rei de Ara- 
gão , 



(9) 

gao ;, que hullamente- caíóu com Dona Urraca 1, € 
lhe chamâo D. AâFonfo fetinio , fe* bem outros ò 
não contao^ e lhe chámáo undécimo ^le no numero 
dos Reis fexagefimo oitaroi ; e como efte he o ulr 
timo dos Âffonfos ^ que reinarão em Caftella^ e t 
matéria curiofa , antes de lhe contar a Tida ajuftaf 
rei o feu numero , conforme a opinião dos Hiíliài» 
riadores , que merecem nefta. matéria efpecial credi« 
to. Na Monarquia dos Godos o primeiro foi Ata* 
ulfo , 2. Sigerico, 5. Walia , 4. Theodoredo , 5í..Ttt* 
rifmundo , 6. Theodoríco ^ 7. Eurico/ S^LÀlarico^ 
9* Gezaleico , lo. Amalarico y ti^ Theudio 9 12. 
Theudifelo, 13. Agila, 14. Athanagildo^ i5'..Liur 
va, ló. Leovigildo, 17. Recaredo^ 18. Liuva fe- 

Êundo 9 19. Viâerico , 20. Gundemaro , 21» Sizet 
uto , 22. Recaredo fecundo , 23. Suinthilá 9.24^ 
Sizenando, 25*. Chintila, 26.Tulga9 27. ChindaÃ- 
vintho:, 28é Reccefvintho", 2:9. Wamba , 30. Flá- 
vio E^vigio y 31. Egica y 32. Witiza, 33..D« Ro- 
drigo, ultimo RéiGodo, 34. D.Peiaio^ ^fvD.Far 
vila, 3^; D. Afibnfo L chamado o Cdtbolic0v3:7f 
D. Froila , 38, D. Aurélio ^ 39. D* Silo ,' 40. Pj. 
Miuregato , 41. D.Bermudo chamado o Diac^n^^ 
42. EX Aâbnfo IL chamado o Gafto, 434 D.; Ra- 
miro L 44* DwOrdonhoL 4$i« D. Aifonío: III chy 
mado o Grande , 46. D. Garcia y 47; D. Ordbnbò ÍU 
48* D. Hroila 11. chamado o Cruel j ou Leprofp, 
49, D.:Afe>nfo lY, chamado o Monge, ^5> d. D. Rar 
miro 11. $':x^;D. Ordonho HL 5:2^ D» Sancho t 
chamado oGojrda> s^rOiR^miroIIL 4'4* tXBerr 
jnudaiU^ châmiido o'Gdtk>ro.,. jy. £); Afibnío V> 
56»D.Beriin)ãoIIL S7»Oi Femando:.!. chaina^^ 

o Gran* 



(IO) 

f> Grande-, 5*8. D. Sancho IL $?• I^« Affonfo VL 
^o. D. Afonfo (aqai he a diícordia nos Hiftoria- 
dores fobre nuroecar D. £Fonfo de Aragão , que 
nem ibi , nem podia fen Rei , pelo que fem o con* 
tarmos no numero dos Reis, o incluímos, como fi- 
«eráo ^k melhores , no numero dos Afibnfos , e a 
efte j cpaé foi o herdeiro da Coroa , e a poíTuio , 
chamaremos) Ylii. 6j. D« Sancho HL oDefejado, 
^2. O. Afbofo IX. 63. 0« Henrique I. 64. D. Fer- 
nando IL o Sanca 6f.:D* AfiFoníoX. o Sabio, 66. 
j3^Sancho IV. ò Bravo, ^7%^ Dr Fernando liL 68;, 
D; AâSkiib XL a quem outros chamão fexageíimo 
íecimo^, co&io:en ag6ra difle , porque náo querem 
numerar D; Sancho !¥« o Bravo , que tyrannizou 
o Rtino ^ fcus fclbrmhos iegirímos herdeiros , 69* 
D. Pedro oGrúel, 70; D. Henrique IL 71. D João L 
71. D. Henrique III. chamado o Doente , 7^. D. 
Joáo IL 74- D- Henrique IV. 75:. Dl Fernando V* 
76. IX Fiiippe L (efta he jfegunda diícordia ^^ porq- 
ue v&o ohftabte íer elle iicciamadò , e reconhecia 
, muitos chamão {eptuageCmafexta 'a Carlos I; 
que no Imperiokle. Alemanha foi CarIo$ V.) ??• Cár- 
Jôs* L 78i JFiiippe IL 79^ FiiippelIL . 80. Fiiippe IV. 
«1. Gàrlos IL 8^. Fiiippe V^ 83. Fernando VL 
-^4. Cat-Ios IIL qtiè hojcirelna.' Efte he^ o áielhor 
modo db hotAer^v os^^ReW^ dé Heíjpanha >, entiíe/ os 
quaes diíemos âgorW fei D. Aâbníci XI. fexageíimo 
Ditava •Emqiiamio pois *daroa a fua menoridade, 
e depois de Aiuitas akerau^Ôes , e dlIputas.,^OTèr* 
TTárâo â MDnáéqain^oài »^nm locego Jua 'avá Db^ 
nti Marié^, Dt Joíor,'ít ©.* Pedro ^ tios pateraos*, 
W 46MS iúMtí» i tettHia^infeliz . eaqpeâiçlo .^oitra ^os 
-i*^i?. xi Mou- 



z 



( ti ) 

Mouros > na (pai morrêcáo ambo$% Entiáâò no 
governo o Infante DéFilíppe ^ tio doReiyiX Joâò 
Manoel , e D. João Seohar: âe: Bifaria ; pobém uefta 
mtiltidáo de cabeças excttoitjiónras ^/c-tniaiòres di& 
cordiasy qiie durarão ainda uiepobai c|u6:EX ÃflFoníb 
entrou no governo.^ porque íendo efte o meio pam 
o fócego publico, o Rei o perturbou, convidando 
a . D. João Conde de Goipofcòa para bma ban^iifiK 
te> no qual lhe tirarão a vidada foldados dalguar* 
da. Abominarão oá Grandes^efta acção, e parecem 
do-lhes fora aconfelhada por Do^ Alvará ^noes 
Oibrio , Qu por hum Judeo chamado Jòfé , a quem 
^CtoiyC^o Biéi .rooftravaoi grapde affeApí, matárââ 
am22Qs;;,ier£esrta^;p!roceflò depois/ de -mqrtos ^flbe» 
cDnfifc4rãairD9JÍiens..Acahádia jcfta (perturbação V^UÊf 
os CaftélhánosLGontão com muita íincerídade:r,*i€S 
o Rei Jíiga' comPdrtUgal ^^ eAragãa contra 09 Mouk 
ro3> íi dos. quaes^^alcátaçon ^uma vdâoria^ c Blcatiç*i 
ríaiíinuicástv fe nãoiimsffe a miltxia de <fc «atregatf 
aod.ambres de Doba Leonor )d6 Gufmao/:,:fianhor« 
ricay i)h]ft^, vinvarde D. Joaoide Velafco , ^aquiA 
teve o (Reii dez £ttios ',' idos quaeâ. ífeCcendem jnobk 
liffinbas iCafás iia:He(paDfaa; EntmtarHo oJBLei^do 
Grimadai/íocGÒEtidbípDK. Aboaqeiiqtte *y fiíhojdp GLc3 
de MárirocoEs ^ reftaurouiimiito^ do.que. tinbâ perdik 
do , tomou Gnardamar , e Algezira , e faqueou o 

tenno^ de^'€cffdwj.***xmfliiou^iififlii*Hic"&,"A'flwf* 

fo , porém. jiefertái;âo t;antos Cavalheiros ^^ foJiía= 
dos ' áp ;eiôékit0 V^'^icjí; ncHe ; tâf ff é)mç\^tt^ liU 
k aTtevèo*'á^ffrefetitâfi-'ftatâlha , kntes fci liiiína paz 
com os Mouros pouco honrada; Tudo.' ifto canfá- 
rão os defcuidos do Rei no caftigo dos íiiblevados , 

e rc- 



e rebeldes ; porédi elle conheceiido o erro , man- 
dou cortar a cabeça a D. João de Haro, tomou os 
eftados dos Laras, antiga pefte, e Temente de trai- 
dores, defterrou muitos Grandes , e fubjugou a to- 
dos. Náo ceísárão'poréi!Í os íeus trabalhos, edef- 
goâos, efpecialmenee depois dehuma completa ri- 
âoría naval , que os Mouros alcançarão dos Hef- 
panhoes , .com a qual ameaçarão aChrifiandade pa- 
ra a iiltima.raína. Por canfellio dos mais pruden- 
tes j e leaes vàflallos fe únio o Rei com os de Por- 
tugal, e Aragão, todos, e osGenovezes formarão 
nova armada, e juntarão o maior exercito , que lhes 
foi poíEvel :,^ com o! qual buícárSo. o dds Mouros, 
que fe compunha de i^uméravelr g^nte,-.£ cercava 
Tarifa. O intento dos Gatholicos^ ei'a obrigallos a 
batalha campal, e os Mouros conhecendo a necef- 
fidade, em que os havião depor dú aaceitar', quei-* 
márão todas as maquinas , e uiftrumentos , còm que 
expugnavãò os moros^ c pnzcrão o arraial no^fitia 
mais eminente ,^è fegnro. No .diá 30 de^Onaibro 
de 1340 fe confefsáráO', e cònunnngárão píiblifca- 
mente os trcz Reis , exemplo ,xjue feguírâò todos 
os Gabos , c a^ maior partb dos.íoldados , e feito 
final i coníeçáráp^ a:paflFlf o^rio Salado. , que divi- 
dia.os dous exercit09>,'íe'deo'nome a efta> batalha. 



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„ o A , Na. Offiçlna ,dc; J^iguel Manefcal da 

Coiia i ígipreíÇar da S. . 0|G[cio. Ánijò 1763. 

• I Com todas as licenças necejfarias. 

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CONFERENCIA H. 







Overaayáo a vanguarda D.Joâprde Lara> 
c D. João Manoel novamente admittidoâ 
á graça do Rei D. Afibnfo por empenhos 
de íea fogro Rei de Portugal. Eftes. tanto 
cfue^chegácáo ao no , e encontrarão os iGavalIeiroci 
Moiiros ^ t}ueLdffputavao dp^ flof Czcrão^aito f e tot 
âo. o exercito Cá tholico^^jingoa;: que eftavão nova? 
mente conjurados , e qneriáó entregar os trez Reis.| 
e exércitos aos Mouros , de forte que os dous irmãos 
D. Gonfaio La^To ^ e;.D; Garcia iLaíTo tomarão d 
pQOtCk^iederâOkjpriocipio á^batalha^ èmr.que morrêt 
rgo-duz^DtSos mH Mouros^ fkiárâo innuoieraveís c«% 
tivQ5€om precicifos defpojos ^ e fó perderão as vi-^ 
das.viotcCathoUcos^ prodigio muito femelhanto 
ao 4as:Navas .de Toloía^ A armada não fez acçã<^ 
algwna ^ porque os Artoopeoes medrofos riÍo levá-» 
X^" as) ancoras V9 gaftando^ ò tempo em fingidas dirr 
ifgencías. Mandou o Rer D. Affonfo a Roma D^ 
João Martins de Leiva por Embaixador ao PapafJ 
que havia concedido a Cruzada para efta guerra 9 e 
entre muitas poufas , de que conftava b;pre(ente^ 
lhe maqdott cem cavallos dos Mouros com cem al^r 
fanges , ecem adargas penduradas nos arções das 
feias , vinte e quatro bandeiras dos mefmos, o.ef-í 
tendarteReal de D. AfFonfo^ ocavallo, em que en« 
troa 71a piel^ija j e. outras couías efpeciaes ^ que fc 
tomarão heila. iotentõu.o Reircontinuar a guerra) 
^ apròyptar-fe daJEuga,' que V:argoa3iofatbeote í^tsh 
Tom: VIL B ^x^- 



a 



( u ) 

prehendeo logo o Rei de Marrocos j temendo que 
feu filtoen^ Afrrca tbe aflirt^ílb Rçfticf, fabendo 
ue fora vetTcído , porém' éftava Caftella exbauíta 
e dinheiros , e também de viveres j de forte que não 
pode compIetirCàei&unm das mnjftasenmrèzfs^^jtiç 
ideava. Seguiorfe lo^F^e, que aflijo todaKel^i 

Sanha y e acabou adillei D. Afibnfo i vida a a6 <Íé 
larço dt 1350 na idade dé trinta e oito aimos , féis 
mezed , e vinte e trez dias. Eftava cercaadpGibral^ 
tar, quando morrep '^ pipio que fe kvantoa o fitio y - 
eo eserd to acompanhou até Se^ifaía" o corpo j c co^ 
meçoli logo a gemer o Reino , temendo o génio af- 
pêro de íeu filho, efucceíTor D.Pedro. No feu rei- 
nado dizem' huos tivertf fMrincipio ,' outros que (é 
renovara a antiga ) e cândida- xeretiKxita ddimitait 
os Condes 9mCaftelIá# Biti>huíii vofo oheio de^vi* 
nlio em lugar ;pubiico lançava o Rei trez ptdaçòa 
depáo, eeraindo bem eníopados, tirava cooiaiâtò 
hum 5 e o offerecia ao Conde novo y dizendo: tinud 
Gi9fri?.Efte Tem aceitar 9 tirara outra fopa coifi fl 
mão , ea òíFerecia ao Rei j dizendo zTmalReii lift^ 
Vezes íaziâo reciprdcambtice^efta offert á , até que O 
Rei aceitava a fopa , e a comia , e logo o' Conde a 
outra f ao que fe feguiâo as vozes do povo : Fiva ê 
Rti , vivãio Gmde j Imitia o Cêndei Àb de Tra(-« 
tâmara concedeo o Rei D. Affbnfo ter tK^ eterckó 
caldeira i e cozinha feparada, e particular bandeira^ 
Fundou a Ordem da Monteza fujeita á de Càlatra* 
va 9 cujo habito foi* himia Cruz encarnada fimples 
em manto branco , e tomou o norpe da Villa àe Mot\^ 
teza ^ onde teve priácipio. Também fundou a Or«- 
dem , e Gavallaría) da Banda, de que foi pt^imeiro 

- / 'Grão 



í ^s )) 

GrâoMfcftre: entravia.ne&i £5 Fidalgos 7 e i^obres^ 
qac tinhao fervido dez annos na guerra^ ou no Pa^ 
ço. A fua iníignia era huma banda carn)ezim da lar- 
gara^ de quatro dedos , lançada do hombro direito 
para o Jado efquerdo com borlas y e ornato , cOmò. 
hcge usâo entre nós os Gabos da milicia , quando 
eftâo em adbxal exercício dopòfto j huma rede de re»- 
troz encarnado j ufo , qne muitos querem tivefle prin- 
cipio nefta Ordem da Banda, contra a melhor opinião 
dos que aflentão ier muito , e muito mais aotigo éP* 
te ufo entre os militares:, c nos torneios, e Juftas^ 
com divérfas cotes em humas , e outras funções^, don- 
de nafceó pintarem nos efcudos huma , ou muitas 
bandas, de que ufárâo nas divérfas batalhas, em qne 
vencera , ou juftas ,' e torneios , em que forâo pre^ 
miadoSé D. Pedro Rei de Aragão em lugar da guer- 
ra contra os infiéis tomou os Eftados a feu fobri- 
nho Rei deMalhorca, inreíHdnra, que lhe dera fea 
avÔL D. Jaime primeiro. O Emperador Andronico 
chamou os Catalães para o defenderem , e a Conf^ 
tantinopla dos Turcos, o que fizerâo quatro mil in^ 
fantes, e quinhentos decavallo , que na primeira ba- 
talha degollárão quinze milTurcos. A remuneração 
foi matarem os Gregos aleirofamente aRiigier Ge<- 
neral dos Catalães na Corte , e cercarem GallipoU 
para extinguirem os mais, qne em duas batalhas ma^ 
tárão vinte e íeis mil Gregos^ a quem foccorrêrão os 
Genorezes , e depois de queimarem a armada dè 
Catalunha , fizerão prizioneiro a BerencueLEnten-» 
fa , fucceflbr de Rugier/ Confenr4rão< !os Heípa* 
nhoes defd^ o Gentilifmo a ridicularta ., p fuperftj^ 
ção dos^agonrqs y e vendd^iqi)eDé Pedro tomavd 
-í. :-i B ii pof* 



poflTé da Bleinó eiií tentpbxriclco^ara os .Cataláéè 
ao Oficnte i^jalgárâo todos qàe feria iníeliciíSma^ 
mas não adirinhárão qíieelles igualmente o haviâo 
rde fen Ficou em GalUpoli fubftituto de Berenguel 
.Eatenfa o memorável Capitão 'Roberto de Roca-* 
fort , o. qual vingou a prisão dó feu General ^de- 
joilando muitos mil Gregos^ éGenoNrezes, até que 
[oito Berenguel j veio a Catalunha y vendeo os feus 
Eftados , juntou novo exercito , com que paflbu a 
-Grécia^ e defunindo^fe defeu amigo ^ e companhei* 
ro Rocafort y lhe preíentou batalha y em que foi 
morto. Seguio-fe numa horrível guerra entre os 
Catalães dos dous partidos, e Rocafort depois de 
vencer algumas vezes os feus contrários y foi pre- 
zo , e conduzido a Itália , ondt acabou a vida. Fi- 
carão muitos Catalães valerofos em Grécia , 08 
quaes y perdido o amor da pátria com o defejo da 
honra y conquiftárão Áthenas y e outras Cidades ^ 
que offerecêrão a D. Fradique Rei de Sicilia com 
o titulo de Ducado y efte lhes mandou Governado- 
res para as Cidades , e Capitães para a guerra ., c 
daqui nafceo chamarem-fe os Reis de Hefpanha 
Duques de Athenas, eNeopatria depois que íbrão 
fenhores de Aragão, e Sicilia. Quinze annos^.e fe- 
te mezcs tinha D. Pedro , quando tomou o fceptro 
de Caftella ; e fuccedendo pouco^ depois adoecer 
tão gravemente y que os Médicos defconfiárão da 
fua vida y os Grandes do Reino fizerão algumas 
juntas , em que fe queftionou quem lhe havia de 
fucceder. Recuperou a. faude D. Pedro , e conftan- 
do-lhe o que os Grandes tinhão feito y e que íe fal- 
lára em feiis irmãos > filhos de feju-pai y e de Dona 

( Leo- 



(«7) 

Bedmír .Nanes: de GttfmMo^i a mandúti prender ^ é 
depois matar ^è o mefmo fez a todos os Grandes ^ 
que lhe nâa pudérâo fugir , e a feus irmãos , e fi- 
Uios de Doea Leonor U.:João Nunes, Grão Mef-^ 
tce-de Calatrava , e D/sFrádique , Grão Meftre de 
Saot^Iago.:) Entregourfe tfcaodalofamente^aos amo* 
res- de Done Maria de Padilba còm tal ezceíTo , que 
ehegando^lhe:dÊíFjraoçji..íiia efpofa Dona Branca , 
£Df So néceflariãs todas asínftancias dos VarÓes mais 
antfaorizadòs:para o obrigar]feni arcohíunmiar úina^ 
tríoMNiioii^ dft 4Ual fe fet»(à>ii. paffiidos áaui dias^ 
êi ultimamente annuHou , xomo quiz f para* cafai? 
com Dona Joanna de Caftro , viuva de D^ Diogo 
deHaro^ que tambiem deixou. em poucos dias. Ta<^ 
do em Gaftella ;erâolagrimaáI,\fufpiros f e lutos:^ 
pQrjtjue òs mortósi éfao iúmimcraTeia fem culpa ^ 
proéeflb ^ nem fentençáv^ de íbrce que até ifaandoa 
enforcar hiun menino , quê vendo queriâo matav 
fettjpat já velho, innocenteménte diflê queria mor-* 
ter.por ellê. Ddafioa.o Rei. de Aragão , porque 
poportíDde S..Lticar tomáÉíoduas 0áas da ma froiy 
taroatras Girnovezas á tempo f que o Rei, fe diveí^í 
tia. vendo. .copejar os aituos.. O Rei de Aragâò quia 
Attisfáeelio :^ porém foi tkfprezado;: Dv Ifenríque > 
tG. Tella^qiie eíbv^o re&giedos tm^ag^a dei!) 
^er« mortetde iua inãí Dona Leonor de Gnfíiiâoq^ 
cnfcaa irmíoa^derfotárãol^p; exercito dc$ Càftelh^ 
eò Rot tolericomapdou logo tirar > vida aos ou-f 
troa dou»- irmãos feus y e dos iobredi tos ; Infantes ; 
daà (mães bum tinha quatorze^.outro: dezoito aiH 
oos^^Vulirão^^íeiDOSiiMoaroSi (tbmo:fempfe:) dieáU» 
défmioetv » Q« ifedro tcmGndpipa:«ufo(;pfz coo^rO 
,3gwn.YU: ' Biii • Rei 



% 



logo foi prezo naQdade deSorik*, e oatro deDò* 
nar JMarit jde Padiiha y que efte^e prezo em di?er-« 
foá Caftellof,: e tnorreÒTio de Toledo. De outro , 
e;i^iQia ifilha Iduridáofss Hefpanhocs l e/>a]guQSi ffS 
dh vcdiiáa odar mâis^ . Triom le íihdo*: aaiios tinha. Dj 
^^nriou^ y quando tfobádciatiuidoí íèganda vez Rél 
dei CaáoUa .'coin< foaiina alegria ^^ deCque íè fazia a«« 
ehedor pekaíuas iniiita8.,preiidas y^^oio docilj a& 
fMd ,' je 4Hi^tií&iAcCIOppi»BcrSUcie^iKé muitos per«< 
tiiukntrà áíGàlcqif^xií^t^^^wcipásB-BaíSia o Dnqae 
deofieiKzaftrety^hao 4e'Edaardo IH Kei de Ii^Uh 
têrrá.^:ppp.áia'mQlhér.Dona' Gonftan^a^ filha de 
D. Polrai^oeidt Rainha: Dona Branca; D. Feman- 
do^díecBomgaiiçicâiiiabífoçtQ de D. Sancho^Rei 
étjCkStd\m;i'tí£>.Béáta^Qi.Âng^ pfci 

dttl^^iirC^vChiqinm d ^nfiiAie wnbdrò!.pvomettido 
fMdvHalehrofa entrega da Rei D.: Pedro ^ e íoldoa 
do lêíierQitOL, mas <udo íatisfcsc DiiíHearique; .^do* 
poÍ9 deiobrig&r^.isrpbtKmckqtea /Al embainharei!^ «as 
efoaâ«ri^ aan^diâiinQGpiiròvaiIà^ icontrat)a.ki« 
gltzeo-f 9 o^^fmíifíenQrabBocaQigni oDOLhi^marcx^ 
eelletite ahinda ronceora Iilgleza^ qne. foi ^ maior 
íbccorre- piía^JSràinçi.^ Com efte. fibliz Rd ahiado 
de todos refpinmOifteUa v mas quando feftejata 
fltoÍ9*a^i£irin9nKV>ooReLjde'<[irán^ que têmcp 
fe^.o^cotnptefnèntaddir^ luMn/lAimo 

de^ibuitaó eobfniixecídíasiy-ie entre ellas huns dboi^ 
zeguin» Muuriícòi envenenados. Ufon delles tiRei 
bum fò:df9 na ca^^^ibas iiTo baftou paratér íogo 
eoftvii1s6ea:de nérvàst^o^e. lhe. ttrárSu» a lu^^-com 
eWrw ftàdade/ idfe iHe^nfaa> ioda*» iqoc. toà»\ a gauH 
tiV/AR va 



(11) 

«1 com jeípecialífineiífc''iFi)i depbfitado jdòm ó mn^ 
ioV fáiiíBo naiGora da" Sé dèlBurgos ,-eí>f asladàcici 
para a Capella y.qae fundara na Sé ide Toledo no 
mefmo fitio ^ cm que di^cm puzenr aVíirgem Se-^ 
nhora os pés i^ ouando fállou a Santo ild^fonío, 4 
lhe deo. a GafuJa. Mandou que o entcrraflera no 
habito de S« Domingos feu parente ^ éuja Religião 
augmentou quanto lhe foi poíEveL A Capcila do 
. feu enterro mudou o Emperador Carlos V para o 
lugar , em que hoje le venera y com trinta e féis 
Capelíães, aue celebrâo nella os Officios Divinos ^ 
e nella manaou enterrar feu filho j neto:, e mulher 
res em féis maufoleos primorofos. Na hora da mor- 
te deixou a feu filho herdeiro por eTpecial legado 
os avifos feguintes efcritos pelo Biípo de Siguen- 
ça^ que foi o feu (^nfeífor , e agonizante: que te« 
tn^Bfi A Deos j e defeodefle a Igreja : que confer- 
vafle Q exercito , e paz com 'França : que déffe li- 
berdade aos cativos Chriftãos:*que tiveífe bons a- 
migos , os melhores Minifkros , e criados : qcne ;con<* 
fervalTís nas mercês, e hciur^s os que tinháo.íegui* 
do a : íua paircialidade i mà^ que temefici nelles tem- 
pre Incon&Hticiá y t falta de lealdade: que fiaíTe to-t 
dosioa govjernos:-, e -empregos daquelles y que fe- 
guírão a íeu irmão D* Pedro contra clle , porque 
eftesrerão capazes de.dar.t vida para slhe defender 
a Coroa , pof ferem ileaes j iconftaqtes:^ e fieis ^.os 
quaos .cdm bons vfer Viços farião eíquec^r os aggra- 
vos paífados: (coro letras de ouro deviâo eftar ef* 
critas eAas palavras em todas %s pedras ^ de que 
são conipoAas as cafas , e ruas de todas as Monar- 
quias^ para qué leíTem .os vaífallos. de£ie meninos 
-, quan- 



( 22 ) 

quanto vale fôrerô leaés ^ éifidacdhftán temente -aos 
Soberanos) . que não déflTecojffiáosynèm fe fiafle da* 
queiles ^ àiit no tempo, da gaerra còm feu irmáo 
eftiverão neutraes ^ porque eftes nem amavâo o 
Rei y nem o vReino^ie tà bufcavao a fua conreni* 
encia. Chamácâo ao Rei D. Henrique II o Princí* 
pc das Ãercês pelas muitas y grandes , e quotidia- 
nas , com que fez innumerareis raflallos ricos com 
grande politica , porque lhe acudiâo com tudo o 
lue tinhâo todos ; melhor porém lhe chamariâo o 
\ahiOj e com mais razSo do que a D. Áffoníb Af^ 
tf ologo .) porque fò quem he fabio conhece o que 
são vaflallos defte modo j e deixa taes confelhos a 
hum filho; Goncedeo grandes privilégios , confir- 
mou as Behetrias, que D. Pedro quiz extinguir ^ e 
já vos difle he voz Grregá j que fignifica boa com-^ 
panhia y .ou goverqa popular com igualdade , de 
que ha muito em Hefpanha ^ e em Portugal fò na 
Minho. Eftabeleceo que os Confeífores dos Reis 
de Hefpanha foflem da Sagrada Ordem dos Préga«* 
dores , honrofo emprego , que tiverâo at^ que treio 
de França Filippe V. Foi cafado com Dpna Joan-& 
na Manoel, fillu do Iníâhte D.João Manoel, ne- 
ta do Santo R.ei D. gemando III , da qual teve 
D. João , que lhe fuccedeo ,' Dona Leonor ,- que 
cafou com Carlos IIL Rei de Navarra ,, outro fii^^ho^ 
cujo nome fe. ignora , e muitos ei^urios. Vinte e 
hum annos:^.e.trez mezes tiiiha D. João I ^ quan* 
do foi acclamado em Burgos Rei de Caftella , re* 
novou as pazes ctm França , e para maior firmeza 
mandou a Londres huma grande armada ,1 que en-» 
trando no rio Taáiefis , fez notável asilragoí. Qslfi^ 
..u:, gle- 



^eseá para Iirípedireb c&$s viâçriús fecorrârão a 
Portugal ,; oade mandouv tropas , que ientráráo em 
Cafolhi) e antes da batalha íe cotiçloio a? pax, oue 
durou pouco ç.porquç morrehdo o noflb.Rei Oi; 
Ferbando.) pertendeo ò Rei D^^JpSo^^efté Reioq 
pòrffua ttiúlher Dona Beatriz com o niáo^ f ucceflb ^ 
qée:rempre lamentará Hdpaoha^ ân q^antti> lem^ 
bráb o nonie do' Santo (3okide D; Nuno^iAlrareã 
Refèira ^ doique tudo já: vos démo^ notícia^ na vida 
dopRei D João I dé PortogiL: O de OaftôIII ptís 
atuado dt todos pela do^ira^ e íaJBãibHidade dò iett 
reniO) a que fe unia valor y prudência ^ e generòíi^ 
lade^ Mandou huma embaixada àò Sultão ao £gyp4 
XOj pedindo^he déíTe libeixláde^i Ijeãói Rei4e : Ar-^ 
men^ ^^ a querti tinha préao xpat^taltlgoci^ quç lié 
fome y e angttftia (ihe tinh^o mbrridò apouco anteb 
mulher /^ ftuma filha« Liyrr à> remetteo com os 
Embaixadores por França^^ oiMÍfs nenhum cafo <fi2e<^ 
râo delle-^ e em Heípanha foi :'reaebido çoqio Rei^ 
e para; £eu decprp ^lefQftefatadhexoalisiilou PJíoio 
as^Vflias delMa^fid y e Anda^f.^Pafloa depom^fl 
França para rniír-aqiiella^^otiBnda òomlhglater^^ 
contra òs infiéis-^ e>morré0:l5mPariz^ onde jas n^ 
Gapclla niór dbsTMongea:Gè1eítíbosJ>Celebrou o 
Rei <Dones, 9 neUasíe queixarão q« Abbades dot 
Moftdroé ;de^&<BerMÍci deHdf>dnh(^>'que os Padrò^ 
úrtfs yexavâo oa habitadoíes daa fuffi» herdades jd 
com 'tributos , já quebrando os privilégios ^ e avo^ 

çaado.4ciI.jas..(:auía$,.QV£iis^ eq^mes^^Siu^tâo-ie 
Juizes para Jecidir^efta fúpplica, os quaes.mandáT 
r$o gi^írdtff os priv^^ilegios/dos Mòfteit^^ o Rei 
tomôii a pfbtecçáo de^dcios ', ^úe baftoú 'jpara re- 



(^4) 

prtmie ti • ambição > é avaríiza dofi íioderofos j e coi^'; 
fervaf para^iempre os privilégios' iUcíw j como ve- 
mps . emj Portugal noâ Mòftcíros Benedidlmc» , e 
Cifierdeniftai^ e aindainoísrque íbijâp feas*,' e^^hojo 
poh IbdiilMol!k:|joffdiicQ^[sãD vde outra^ <Rídrgíâe> 
corno older(Sei)e<^cqiro&r':tónBXOÍi ao'Coilegíb*!de 
Goimfhraí dpsrEremitas dé Santo: 'Agoftinha y cujo 
Prefidéàter^ ^ c}beCÍepi:cfeQtar)a Reitor do -íbbredito 
CóUffiiai^befOioridár oomlçodafa adçadá y Tribit4 
Bàir^ jlifiiipí^^sè líiraíàrraiircati Tjodo.á t^(áf)o /iqaè 
Itíà dbrob aipáÉ'idq30b^da)^iièff]a;G^MB Portugal, 
e Daqtie de Alencaftre, ^ ndom cnja £lha: cafpu fea 
primogehitò D.' Henrique V gaftono Rei D. Jóáò 
eni.repai:aHTÀm{ilas:^iJáofttíTos^ Praças j e Gaí^el-^ 
lás^K^í^igecladréenyje arafbrmaDOoftuo^sr, p qtiaiH 
do ma€ores|eiitidadm eQ^ierava haféiDf)eioado Heí^ 
panha:, morreotlefgnçkdaméhte.vcahÍDdo'do ca-^ 
valí6 phiinsi dizem lOjhiejnai caça ^ muros, que no: pU 
cadtíro ). quando^ iotentava'enfinaQo; Reinou onzs 
aanòs f e« ibi i iMoisdba} Monak-oa^ r^ que ; melh or co» 
oheceo.V e foutie.di^^iaifl^a hotimí^rfalor , <3ÍmSafs^ 
cia 9 e fidelidade da 'oaoSDf Por jtiigwza j até^dí^^^ 
(como fe lê nos manuíoi^ttos do Cartório dos Da- 
quês de MfedinaQdiJiqise fe foíTc Rei dos.poncós 
Portuguezes 9 ql]e,oi'vênc|grâb;^tllí^Alj:ubarrota^ nSoi 
£6 havia-de Juncar ttiààâoé Moufbs' de He^^hi^^ 
ínas conquiftar: todas -AaJcerraardo» infiéis na Afrb 
ca^ e Afia. t- , 

LISBOA, Na pfficina de Miguel ]^ane(carjd» 
Com todas as licenças necejf árias. 



(»0 
CONFERENCIA HL 






FÂIeceo o Rei D.JoíoII no anno de 1390 ^ 
qneftiona-le o mez, e dia; e os que melhor 
opinão, dizem foi a 9 de Outubro. Succc- 
_^ deo-lhe feu filho D! Henrique III, chama- 
do o Doente , porque na idade de dezefete annos 
enfejrmoudemelancoiiahypocondriaca, achaque eol 
todos osCèculos incurável , de quem diz Riverio 
fora fempre flagello, eopprobrio dos Médicos. Ti- 
nha doze annos , quando fubio ao throno y fe bem 
aos dezefeis he que tomou poíTe do governo. En^ 
tretanto fe confervou a Monarquia com focego, 
porque os Grandes , que iatentavâo governar to* 
dos y vendo que não havia para tantos , fe conten- 
tarão em que o Arcebifpo de Toledo, e D. Diogo 
Furtado de Mendonça foflem 0$ tutores , e que ra- 
voreceflTem aos principaes com os bens da Coroa; 
Elles cumprirão com tal pontualidade eíl:^ iniquo , 
e infame ajufte , que o Rei , quando entrou a go- 
vernar , fe achou íó com o nome , de forte que vm-* 
do da caça com fome , e ordenando lhe deíFem a 
cea , refpondêrão os familiares , que nada havia em 
caía para comer , nem dinheiro para o comprar. 
Mandou o Rei empenhar hum gabão , e com o di- 
nheiro fe comprarão huns arrates de carneiro , que 
forão todos os guizados da cea para elle , a Rai<* 
nha, e mais familia. Em quanto fe fez efta diligen^ 
cia, foube o Rei que em cafa do Arcebifpo deTo« 
ledo ceavão muitos Grandes^ e elle disfarçado en-f 
Tora. VIL C woii 



( »o 

trou até á porta da fala, em que o Arcebifpo dava 
o banquete^ vio nella íeu tio D.Fradique, o Con- 
de de Tfaftama , o de Medina Coeli , D. Henrique 
de Vilhena , D. João de Velafco , e D, AíFonfo de 
Gufmâo. Ficou aíTombrado de ver a profusão ^ e 
delicadeza dos guizados , e muito mais de ouvir di- 
zer a todos : Bem haja quem o adquiria para nós co^ 
tnermos. Que terd o Rei para cear hoje ? Pobre bo^ 
mem\ e outros infames defatinos, que o fizerão re- 
tirar para os não ouvir maiores. Na manhã feguin«* 
te mandou entrar no Palácio com disfarce muita 
gente de guerra , e mandou dizer aosGhindes que 
eftava muito enfermo , e neceíEtava vieíTem logo 
todos aíEftir-lhe para o aconfelharem em muitas 
coufas , e ferem teftemunhas no feu teítamento. 
Juntárão-fe com brevidade todos em huma fala , na 
qual enttou o Rei armado com todas as armas , e 
a efpada nua na mão , fentou-fe, e perguntou a ca- 
da hum quantos Reis tinha conhecido na Hefpa- 
nha 9 e Reino de Caftella. Refpondêráo conforme 
o numero dos que tinhâo conhecido , e o Rei fe- 
vero replicou , dizendo : Pois eu com ejies poucos an^ 
nos conheço mais de vinte Reis de Cajlella , que fois 
vós , mas eu lhe ponho o retnedio. Mandou entrar na 
fala os foldados j que eftavâo em outra occultos; 
e conhecendo todos que intentava matallos, inter- 
cedeo o Arcebifpo , pedindo as vidas com a condi» 
çâo de que fem fahirem do Paço reftituiíFem todas 
as Praças , e fazendas , que tínhSo ufurpado á Co-* 
roa j e grandes fomas em dinheiro peto que tinhâo 
injuftamente recebido. Sahírâo á noite fem jantar 
ezhauftos de bens^ e dinheiros^ todos triftes, e al- 
guns 



y 



guró defefperados ^ ficando o Rei opulento , e tão 
acautelado, que todos os feus cuidados norefto da 
vida empregou na cobrança, e augmento dafua fa^ 
zenda , de que fe feguio deixar grandes thefouros. 
Na lua menoridade foráo os Mouros duas vezes 
gloriofamente vencidos, e no fim daiuavida intea* 
tava com grande exercito expulfallos de Hefpanha , 
quando a ultima enfermidade em Toledo lhe tirou 
a vida no anno de 1406» Alli foi fepultado comièu 
pai, e avô, e acclamado feu filho legitimo D» Joáo>, 

Sue dons annos antes nafcêra de fua única efpoía 
>ona Catharina , filha do Duque de AJeocaftre, 
irmá da Rainha Dona Filippa de PortugaL Nâo 
falrirâo Grandes, que com fumma infâmia intenta- 
rão privar da Coroa o menino , e dar o Reino a 
feu tio o Infante D. Fernando ; mas eile nâo ob» 
ftante alguns efcandalos , que tinha do írniâo fale* 
eido , ós reprehendeo de traidores , e desleaes , pro«- 
tefbando dar a vida para defender o fobrinho na 
pofie da Coroa ; e como os Monarcas repreíèntao 
aDeos, efte fe obriga tanto dos que lhes são fieis^ 
<jue vifivelmente premiou Deos o Infante D. Fer- 
nando por efta lealdade ao feu Rei com trez co- 
roas , porque o fez depois Rei de Aragão , a íea 
filho D. Affonfo Rei de Nápoles , e ao fegundo fih 
Iho D.João Rei de Navarra. Entregou- fe o-goven- 
no do Reino deCaftella na menoridade de D.Joáo 
II á Rainha íua mãi , e a feu tio o memorável In^ 
fante D. Fernando , que regerão tudo com fumma 
prudência , juftiça , zelo , e defintereífe publico». 
Publicarão guerra contra os Mouros , governou^ 
Infante o exercito ^ conqui^oa Zabara ^ fi» JâVa» 

C ii tar 



(28) 

tar o iitio de Jaen , que conftava de cem mil Mou- 
ros, cercou Archidona, onde matou quinze mil, e 
a ultima conquifta foi Antequera , donde partío a 
tomar pofle do Reino de Aragão , como parente 
mais próximo de D. João , e D. Martinho , que 
morrerão fem filhos. Ficou a Rainha Dona Catha- 
rina fó no governo , e mandou conquiftar as Ilhas 
Canárias por Joáo de Betancur , Cavalheiro Fran- 
cez. Intentava emprezas maiores , filhas da fua al- 
ta comprehensâo , mas todas fe fruftrárâo com a 
morte no anno de 141 8. Entregou- fe oRd^jBO Ar- 
cebiípo de Toledo, o qual o cafou com CÍona Ma- 
ria , irmã de D. Affònfo Rei de Aragão , e lhe en- 
tregou o governo aos quatorze annos da fua idade 
para elle o dar logo a D. João , e D. Henrique , 
irmãos do Rei de Aragão, que o tiverâo comopri-* 
zioneiro, até que Ihesfugio hum dia na caça, maib- 
dou prender , e confifcar os bens de D. Henrique , 
que depois lhe reftituio com a liberdade por empe- 
nho dos Reis de Aragão , de que fe originarão 
guerras civis , e diíTensôes contínuas , frutos do fum- 
mo defcuido, que o Rei teve em humilhar a fober- 
ba dos Grandes no principio. Eftes confeguírão que 
o Principe herdeiro D, Henrique lhe negaíFe a o^ 
bediencia , e em fim opprimido de defgoftos mor- 
reo no anno. de 145:4 , fatal para a Chriftandade 
com a perda de Conftantinopla. Deixou trez filhos 
de fua fegunda mulher Dona Ifabel, filha do Infan- 
te D. João de Portugal , que forão D. Henrique IV, 
que lhe fuccedeo , U. A^onfo , e Dona Ifabel , que 
Adlceo a25' de Abril de 1451 , hum anno antes que 
D. Feraando em Aragão ^ dous Aftros feliciífimos 

da 



(*9) 
da Hefpanha , que Deos criou para expulfarem o9 
Mouros delia. Caufa horror a todo o vaíTallo leal 
contar , e ouvir o que fuccedeo no tempo deftes 
dousReis, ambos cândidos, benignos, e iinceros; 
porém neílas prendas naturaes tão exceíEvos , que 
abafando do exceíTo ós vaflallos , forâo mais que 
nunca traidores , infames , e atrevidos. Nunca Hef* 
panha ( dizem os Eícritores feus naturaes ) fe vio 
tão opprimída de guerras civis , como no tempo 
de Henrique IV , e feu pai , porque no daquelld 
chegarão a prendello , e nefte a depollo em eftatua,' 
e publico cadafalfo. Macularão o credito da Rai-» 
nha j ojfferecêrão aos dons irmãos a Coroa , e não fd 
perdeo a nação Caftelhana a fidelidade ao Soberano ^ 
mas também o juízo. O. Affbnfo morreo na campa* 
nha contra feu irmão , e Soberano, lendo cabeça aoa 
conjurados ; Dona Ifabel fua irmã não quiz aceitar 
a Coroa , que os traidores lhe offerecêrão , e oo* 
cultamente cafou com D. Fernando Rei de Aragão* 
Sentio iflb o Rei , temendo lhe intentafle tirar a 
Coroa , porém contentou-fc com fazer jurar por 
herdeira delia a Princeza Dona Joanna íua filha* 
Depois aconfelhado por D.João Pacheco intentou: 
prender os noivos , com quem tinha comido , e 
paíTeado em Segóvia , porem D. Fernando fe retip^ 
rou para Aragão , Dona líabel para huma Praç» 
forte , e tudo ceflbu morrendo logo D, Henrique 
no anno de 1474- ^^ na hora da morte nomeou 
por fucceíTora na Coroa a Princeza Dona Joanna y 
que depois da guerra com Portugal , e outros in- 
fortúnios , que já ouviftes y morreo oo Convent% 
de Santa Clara de Coirabra , <é focegáàkia^o^ rebèW 
Tpm. VIL C iii des 



(30) 

des forâò acclamados D. Fernando , e Dona Ifabel 
Reis de Caftella , e Aragão. Começou o feliz rei* 
nado de D. Fernando , e Dona Ifabel , eftabelecea- 
do na Hefpanha o Sagrado Tribunal do Santo Of- 
ficio. Quebrarão logo a paz os Mouros de Grana« 
da , bem coftumado no tempo das guerras civis , e 
pairarão á efpada todos os moradores da Cidade 
de Alhama , o mefmo fizerão os Catholicos aos 
Mouros de Zahara , e vizinhanças de Granada , de 
forte que defefperados os Mouros depuzerão o Rei 
cau& defta guerra , e em feu lugar acclamárâo Ali 
Mulei Alcfedarbil , a que vulgarmente chamão os 
Hiftoriadores o Rei Chiquito j que derrotou os 
Catholicos defordenados com as prezas , e elle 
pouco depois foi prezo, pelo Conde de Cabra* 
D.Fernando lhe concedeo liberdade com alta poli- 
tica para fomentar entre os Mouros huma fumma 
difcordia , porque na fua aufencia tinhão reftituido 
ao throno Alboazem antes depoAo ; e não poden- 
do tolerar a guerra civil entre os dous , elegêrãa 
terceiro chamado Mulei. Entretanto D. Fernanda 
tomou todas as Praças, qiie podião foccorrer Gra- 
nada , efpecialmente Málaga , em cuja defeza Mu- 
lei acabou a vida y e foi reeleito Boadil y con- 
auiftou logo com grande difficuldade Baza , Gua- 
ix, e Almeria^ amftiodo fempre no exercito a va-- 
ronil Rainha , que foi a caufa de profeguir a con- 
quifta , em que muitas vezes com grave fundamen- 
to vacilou o Rei , e Cabos do exercito temerão a 
ultima ruina de Hefpanha já pelos foccorros y que 
^ efpçravâo, e não vierão de Africa , já pela muK 
tidâioi e coaâ^Qcia doa bárbaros y cfinaln^ence por* 

.'\ Ij que 



(31 ) 

que o Sultão do Egypto mandou por féu Embaír 
xador hum Retigiofo de Sâo Francifco com cartas 
para o Rei D, Fernando , em que lhe dizia deixaf- 
íe viver em paz os Mouros deHefpanha, aliás cor- 
taria as cabeças a todos os Catholicos , que vivião 
nos feus domínios. Refpondeo-lhe o Rei com boas 
palavras, ehum notável prefente. Sitiou logo Gra* 
nada com todo o vigor , edificando em circuito 
delia huma nova Cidade chamada Santa Fé , que 
muitos annos depois exiftio. Em fim no anno de 
1492 íe rendeo a Cidade, ultimo refugio dos Ma-» 
hometanos na Hefpanha : veio Boabdil ultimo Rei 
Mouro nella entregar as chaves a D. Fernando, 

Sue as deo á Rainha , efta ao Principe , e eâe a 
)• Inhigo de Mendonça , Conde de Tendilha , que 
a ficou governando. As condições forão liberdade 
aos cativos Catholicos , fegu rança de vidas aos 
Mouros , que ficaíTem pagando os tributos , que 
antes lhes impuzerâo os feus Reis , e embarcações 
para todos os que quizeífem paífar para Africa , 
entre os quaes foi o Rei com muitas mil familias. 
Sahírão também nefle anno de Hefpanha oitocen^ 
tos mil Judeos, que não quizerão abraçar a Fé , e 
ficarão muitos mil , que fe baptizarão fó para go- 
zarem o que tinhâo , e inficionarem para fempre a« 
quelles Reinos. Nefte tempo fe lhe offereceo Chri- 
ftovão Cólon Genovez a defcubrir as índias Occi- 
dentaes, empreza utiliflíma, que nós defprezámos, 
e depois conhecemos era hum novo mundo. O Pa- 
pa Alexandre VI lhe. deo a inveftidura de tudo o 
que defcubriífe com obrigação de mandar para a-^ 
quellas terras Pregadores > que plantaífem a Fé Ca-^ 

tho- 



( 30 

tholica. Semiírao-fe as guerras de Itália contra 
Carlos Vlir Rei de França , que tirara o Reino de 
Nápoles a Fernando, fobrinho do Rei , que man- 
dou a eflfa expedição o fempre memorável General 
Gonfalo Fernandes de Córdova , chamado o gran- 
de Capitão por an to no máfia j que venceo os Fran- 
cezes , e reftituio o Reino a Fernando fegundo fi- 
lho do Rei D. AíFonfo depofto y e fobrinho de D. 
Fernando de Caftella. Abufou o novo Rei do be* 
neficio, chamando os Turcos a Itália , e depois de 
grandes queftôes na divisão de Nápoles entre Hef- 
panha , e França , fe <ieo a Coroa a D. Affbnfo , fi- 
lho fegundo do Rei de Caftella. Não foi efte iguala 
mente ditofo em íua caía, porque noanno de 1496 
lhe morreo o Principe herdeiro D. João , ficarão* 
lhe duas filhas , Dona Ifabel , que cafou com D. Af- 
fbnfo Principe de Portugal , e morreo paflados féis 
mezeS) eDonaJoanna, que cafou com Filippe Ar- 
chiduque de Auftria j da qual naíceo o Emperador 
Carlos V. Faleceo a Rainha Dona Ifabel depois 
do nafcimento de D. Carlos , que ordenou lhe íuc- 
cedefle na Coroa tanto que chegaíFe á idade de vin- 
te annos , e entretanto governaria feu marido D. 
Fernando j o qual perfuadido daquelle incompará- 
vel heroe o Cardeal Cifneiros da Ordem Seráfica y 
e fazendo elle todos os gaftos , mandou Pedro Na- 
varro com grande exercito a Africa , e tomou Orão» 
Quiz pouco depois íoccorrer o Papa JuIio , contra 
quem fe tinhão levantado em Itália muitos Car- 
deaes j e João de Lebet Rei de Navarra oppofto 
ao Papa lhe negou paíTagem pelos fens Eftados, do 
que refulcou a guerra , e fuccefsão de Navarra ^ de 

que 



(33) 

que daremos a fea tempo noticia. D« Fernando es- 
tragou a faude , ufahdo de bebidas ardentes para 
avivar o calor natural , de que lhe refulton huma 
hydropezía. D. Filíppe Ârchiduque de Auftria , fi- 
lho do Emperador Maximiliano , genro de D. Fer- 
nando , julgando fuppofto o teftamento da Rainha 
Dona líabel , veio a Hefpanha por mar , temendo 
lhe embaraçaíTem o paíTo em Aragão , e como os 
Grandes de Caftella já eftaváo divididos em bandos 
depois que virão D. Fernando enfermo , efie rece- 
beo a filha , e genro com todo o mimo em Valha- 
dolid ; e ferenando o Cardeal Arcebiípo de Tole- 
do as difierenças, que havia entre elles , foi accla- 
mado Filippe com íua mulher , e depois feu filho 
Carlos. Seguio-fe a morte dé D. Fernando , e de 
feu genro brevemente, huns dizem que deveneno^ 
outros que de apoplexia ao fahir de hum efplendi- 
do banquete j que lhe deo feu valido D. João Ma- 
noel j tendo fó vinte e oito annos de idade. Foi o 
homem mai^ gentil j e amável , que vio aquelle fe- 
ciiloy motivo 9 porque a Rainha enloqueceo de pe- 
na , (não dezelos antes da fua morte , como outros 
dizem) e para alivio da fua extremofa íaudade não 
permittio lhe deflem fepultura em quanto foi viva, 
confervando o tumulo na íua camera , e junto ao 
feu leito^ Governou aquella grande Monarquia o 
Cardeal Cifneiros com fommo acerto ^ ad.mittindo 
ao defpacho Adriano Florêncio , Meftre de Car- 
ios V , que antes de chegar a Hefpanha o aliviou 
jdo governo , e elle faleceo no adno de:iyi7 , não 
4e pena de yer qaal rpmunjjrada; a fiia. fidelidade, 
fiem òc veneno I cristo wmtfífiràjZQm^ p^a>nâo inr 
íbcmar Cark» 4Q9^^ur }hç lerlo 4)pt>9ftQ6 ^ «as fim 
•-•j de 



(34) 

de achaques, e bitentt e hnm annos de idade , pe«* 
lo que pedio a Cariou o aliviaflfe do governo para 
íe difpôr com íbcego para a morte. De Carlos V 
havemos de fallar nas vidas dos Emperadores ; dos 
Filippes 9 que lhe fuccedêrâo , já falíamos na ferie 
dos Reis de Pomigal , e a feu tempo diremos o 
pouco j que refta , como também as vidas de Filip-* 
pe V 9 c íèus filhos D, Fernando , e D. Carlos ; a- 
gora para maior percepçáo da Hiftoria de Hefpa- 
nha ouvi feparados em diverfas claflfes os Príncipes 
delia. Os Reis Godos , que a dominarão toda, são 
os que já ouviftes numerar até D. Rodrigo , que 
foi o trigeíimo terceiro , e ultimo ; agora os Reis 
de Âfturias , e Leão foráo D. Pelaio , D. Favila ^ 
D. Aâbnfo Catholico, D. Froila, D. Aurelio.Fra- 
tricida, D. Silo, D. Mauregato, D. Bermudo Di- 
ácono, D. AíFonfo II o Cafto, D. Ramiro, D. Or- 
donho , D. Affbnfo III o Grande , D. Garcia , D. 
Ordonho II , D» Froila II o Cruel , ou Leprofo j 
D. AflFonío IV o Monge , D. Ramiro II , D* Or- 
donho III, D. Sancho o Gordo , D. Ramiro III *, 
D. Bermudo II o Gotofo , D, AflFonfo V , D. Ber- 
mudo III , e ultimo dos que fó gozáráo eftes dous 
Reinos. Adverti mais , que a Monarquia dos Go- 
dos , conforme a Chronologia mais aceita , teve 
principio no anno de 4x1 do Naícin)ento de Chri«- 
tto j e acabou no de ft t ; a dos Reis de Âfturias ^ 
em que fe comprehende Oviedo , e Leão , começos 
em D. Pekio no anno de 716, e acabou em loiS* 
Seguíraò-fe os Reis de Âfturias, Caftella , eLeâo^ 
que foráo 06 Ibguintes , coda os annos , em que co^ 
TtiêçárâoP a reinâf ,^^po!^oe áeíái ent^o avultou t 
MonftrqQíakdeHeff|^ha%-D^ F^raando I o Grande 

em 



( Jsr ) 

em 1038 , D. Sancho II o Bravo cm 1066 , D. Af- 
fbnfo VI em 1073 , D. Affonfo^ que não foi ^ nem 
fe dere chamar Rei fctimo, em 1x09 , D. Affohfo 
VIII nomefmoanno, porqae era o Rei verdadeiro^ 
D. Sancho III oDefejado em nj?^ D. AflfoníblX 
em iiyS, D.Henrique I em 1ÍÍ4, D. Fernando II 
o Santo em iii6j Ò. AffbnfoX o Sábio em 1252, 
D. Sancho IV o Bravo em 1284 , D. AflFonfo XI 
em 13 12 y D. Pedro o Cruel em i35ro , D. Henri- 
que II em 13(^9 , -D; João I cm 1379, ^ D. Henri- 
que III em 1390 , D.João II em 1407 , D. Henri- 
que IV o Impotente èm 145*4 9 Dona Ifabel y que 
cafon com D. Fernando Rei de Aragão o Catholi- 
CO 9 em 1474. OsReisdeCaftella, Aragão, Leão^ 
e Afturias forão D. Fernanda j e D[ona Ifabel no 
fobredito anno ; D. FiUppe.L^ e Dona Joanna^á 
Louca em 15*05; D. Carlos. I,e no Império de A^ 
lemanha quinto, em ifiéi; D.FilippelI em i^sjíf 
D* Filippe III em 15'98, D. Filippe IV cm 1621 , 
D. Carlos II em» 1^6^ j IX , Filippe V. ent 1700» 
Os Reis 9 que fó dominarão Aragão^ forão D.Ra-!» 
miro I em 1035' , D. Sapcho I era 1067 y D. Pe* 
dro I em 1094^ D. Aâbnfo I em X102, D. Rami* 
ro II o Monge em íi34> Dona Petronilha em 1137, 
D. AflFonfo II o Cafto. em. 1162^ D. Pedro II emt 
1196^ D; Jaime I em i2X^, D. Pedro III em 1276^ 
D. AflFonfo III em. 1285* , Dj Jaime II cm 1291^ 
D. AflFonfo IV em 1327, D.Pedro IV o Ceremos 
niofo em 1336 , D; João I em 1395: y D. Fernando 
o Jufiaem 141 o ,.D. AflFonfo V o Sábio , e Mag- 
naniiho em 141a y D. João II em 1457 ^ D. Fer- 
nando II ^ qi2e caiou com Doéa líábel herdeira de 

CaftciJa • eiKiio' a» Coroas i.idç qnc cnr fcnhlírr: 

,., -...•..,.. . • . ^- .- com 



com a de Ârjgâo, em 1479. Os Reis de Navarra^ 
e Sobrarve até fe unir aquella Coroa á de Caftella 
forâo Garcia Inhiguez em 75*8 , Fortum Garcia em 
802 y Sancho Garcia em 815^ , Ximeno Garda em 
85^3 j Inhigo Arifta em 870 , Garcia Inhigaez II em 
888 y D. Sancho Abarca em 905^ , Garci Sanches 
em 926 j Sancho Garcia , e D. Ramiro feii irmSo 
cm ^66 , Garci II o Tremedor em 99) , D. San- 
cho o Maior em 1000 , D. Garcia V em 1035', 
D. Sancho IV , e primeiro de Aragão em 1076 y 
D. Garcia VI filho de Ramiro em 1134 j D. San- 
cho entre os de Navarra o Sábio em iis^o, Theo-^ 
baldo Conde de Campanha em 1234 , TheobaldoII 
cm i2jr2, Henrique irmão de Theobaldo em 1270^ 
Dona Joanna , que cafoa-^om Filippe o Formofo 
Rei de França , e primeiro do home em Navarra 9 
em 1279, Luiz Hucim, decimo da França, e pri- 
meiro de Navarra , fegundo dos Francezes y em 
1313 , Filippe Longo de França , e Navarra pri- 
meiro do nome nella:, em J31; 9 Carlos oFormoíb 
em 1311 , Dona Jodnna filha de Luiz Hutim em 
1318 , Carlos II em 1343 , Carlos III em 1387 ^ 
Dona Branca , filha de Carlos III j em i425r 9 D, 
João I, marido de Dona Branca ^ em 1441 , Dona 
Leonor de Aragão em 1479 > Francifco Febo de 
Fòix em 1479 , Dona Çatharina , irmã de Febo^ 
cafada com João de Lebret Francez , em 1487. A 
efies tirou o Reino de Navarra D. Fernando Rei 
de Caftella, Aragão, Leão, e Afturias, e o deo a 
feu filho , a quem fuccedêrão em todos os Reinos 
Dona Joanna a Louca , e D. Filippe o Formofo , e 
a eftes Carlos V , e fcus fucceflTores até o prefente* 

LISBO À , Na OflScina de Miguei Manefcal da' Cofta , Impreflbr do 
Saato Offitío. Anno 176 y C^m teias m Uanfêi ncajfmêu 




(57) 

'•■■ CONFEB,ENCf A ■IV.'/-; 

Ei&i|iL|odàsi. as' novickas proniettidai >y c& 
o: \á"comiçaà'tLé'\ e alguin d«^\^-twt5r6tartfttJ 

ilos: '«oplíqi» IbrcvemefKe' o que he íFôrtifi* 
ti?r^ -Tcaçâoij^ieíciw tennosc, coma tambôm- par^ 
lxS'^'qiwperttrlhcd.AI(iiliciat «a Cttmpairha^^.porqaa 
idití-eíT» Itt^ néS(i)ÍEn£cx:lc{iaftiç3ci$v cQnirèó$;i^mioo 
eáteocCèneiofiidaa raerraa^ eacçôès hefoicasi, ique fe 
eftio referiado/ &ire]:'goftofo (reípondeo o Solda*!* 
da)^o.<|ue:me enfinoti o: grande , e memorável Anr 
diiéi Ribeiro Coutinho ^ eí/liipa iTida ..deinhama;jB 
CSouiilFaa-y coropòfia pdo iveneuvel RelígiQ(b'/:é 
inflgbè '^íEonario Fr.. Jorge da Prefencaçãoi':, da 
Ordem dos Eremitas de Santo Ágoftinho, filho do 
Defeoibargador Manoel Pinto de Mira , Embaixa«* 
dor, do IVei D. João V na: Corte da Perfia: po^- or^ 
dem de JóáQ::de;Saidan1ia da Gamai A FcMificdçSo 
cobidfou em vai lados , que divtdião os domínios^ 
e. impediãoy como hoje ^ os damnos , qqe fazem noà 
alheios os animaes domeftícos : a defeza xiatnrál 
dcpoJs imrentotí os Muros.fracos j e Ameias ^ qubti^ 
do víráo áugmâEt!a.d4s |]fél3:odia flSvândAiftrias^^e 
conquiftas; e porque chegando o inimigo ao pé da 
muralha j o nâo viáo os^ defeníores da parte fupe- 
rior delia^ e eraquaíi inotil tòda^a défeza, ihe^ee* 
tio xfármh deip^edentês.jre coofid&rartdo^depGâa 
de'tfl}Htmajsr*iofc6tíidades:;qiie !eftes Gonpos avançai 
d<>s bao^ot^váa a' força, neceflaria y^ihventáraoas 
?Forrí39 \qtiad radas ^ejedondos ^ que durarão até o 
.Xom. VU- D * an:. 



(3?) 

anno de 137S ^ em que Bartholomeu Schaarts in- 
ventou f polvqrá ,j (jiej oflirç aij^e^ j cni^4<Hcrt*) náo 
foi õ Âiithoír dt\\à) cõrià o'^ qde ficarão inúteis as 
Fortificações antigas ; e poraue alguma parte das 
37orre« náo íe vio do cotpo da Praçaif éí!o6 M^^* 
tos livremente, faziâo o feu oíEoio y remedUrâo om 
4tmnoi, eftendendo os lado» das Torres até^acabi- 
rem em hum angulo , e chamarão a toda cfta^ra 
antiga ,. e nova Balatftes. Divide-fe a Fortificação 
eoi T^gular ^ e irregular: a primeira he aquella^ 
cujas partes femelbantes sâa iguaes. entre fi ^.ifto 
he, todas as faces , flancos i&c. são iguaes no coiift^ 
primento j e altura : a íegunda pelo contrario he a 
^ue não tem èfta igualdade , porque* o terreno hb 
impropòrcionajdo^ea-nio permitte : huni&> è-Wt^ 
tia Jie repartida; em figuras, de lados y e pelo feii 
numero (e lhe determina o nome ; a todos poréal 
genericamente chamâo Polygono y mas ao de qaa* 
tro lados Quadrado j ao de finco Pentágono y aò 
Ò€ Íeis Heiagono ^ ao de fete Heptagono y aa dè 
pito O£logono , ao de nove Enneagono, ao de dez 
Decagono , ao de onze Undecagono , ao de doze 
Duodecagono y Scc. e todos íe fbrtificão com miw 
falhas^ e fbtfos. Ifto fuppofto , melhor percebereis 
cft^s coBÍks ao fegiiinte Abcedario* 

A 

• 

ANguh da efpalãa he a inclinação « ou conta- 
£lo do flanco com;aface^ oqoal aeve fer ob« 
tolo para dar capacidader^ao orelhão ', ou eíp^ílda^ 
cxirbrir o flanco immedtatOi Angulo Jlanquiudo he 
aqaelle y qqe k ^ma pela inclinação y e conta-lo 

* - --..-.. oas 



( 3P ) 

dás sitias ftceè: V' qu0 for ve&x^ beo mtfnior/|>dfâ 
que de fer mais agudo nafce diminuir- fe o flanto^ 
e pofta a bateria a huma face j arruina-fe grande 
parte da outra, e de fer mais obtufo fegue-fe Ec^^ 

inimigo^iEÒnTliama fdbateHadiias^ibreoHas^ijfif^KJb 
fianqueaio^ he àqneile y que fe forma pelaindinadío f 
on contado 'do íflaitco conta cortina , e por iflo^ 
éMjfxoíyAnguiOf^ áãiChmtíMij too i Jngído i do Fimcêi: Jiél 
W'£eiOtt\ú{^iitid^.Qpto^oiíki^ \ para (pie ie^ii»hem 
âdfefididas todas^a ^arte^ da 'Biliitfrte oppòfto ^oá 
wá qxji^^Àhtí coúrefymtáev» íB^ella. Anguto fulietuíe dá 
eamrMjimpa he «qudle, que fe fiSrma ' pela: inclina-* 
çàpyíè cb>ma6lo>dt64uastcaimral8fcarpas diante dos 
Angiilòsí. iBinqt)eadM. Afigulà témfírakte . iJét contrai 
^f^/irlieaqueUe^ qae fe fdrma^ela inolinaçSío^ e 
câíntaâo^ das duas contraefcarpas diante da coitiy 
na^ , qor fehipre férá obtiufo , e tanto ^ que todo a 
fogodpflanoo poflaVatr^y^^d iallq^ear todo ò p1^ 
no da fioCb;/' Uos mais ÂngàloS^jj qiiâ'sâo os* dtf 
C^entrbvda Bafç>^ do Pol^gAifo^da Gol«^ da Te^ 
nàlhâ j e Diminuto y efcuíaís notícias , porque si6 
Ângulos imaginários y e que f(( formSo na idéa ,« 
f libo 06 í£h^b!s;ii«s parr edr^eaveM iti» Praias. 
4^á^ he tâa: a obrtf^ que condáz pará^l&zer bí^e^ 
ehtf tm huimiPraçan: confia* de Tf^indhenrâb , Apto^ 
chesydèdaAoa^ fiateriaa, Sapa ^ e Qakría. jffro^ 
tbes^V hulib^foflbs d« dezoito paímos de larguray 
tu^àtff^ie indo de alto ^oueomoiftelbor pareCtt 
aÒ0 BcríJeQbeálospermitte o verrenoyr tempio^>pe^ 
W>ai]aé^ !o6' expugnadoreb de hbafá > |tf aça -cubef^ 
tos » chegâo^ 4 elk com *hàimití y ^ «lof auMtitotf 

'^^'i D ii até 



(40) 

a^é fazer fepa y galerÍA <^: mina , &ç.: O ittaisréxpl»!» 

caremos .depois. i:i;> i:,.'; ■■>■ '• • 

B 



.^ ■• -'• r» ■ ■. ■ 7 » n . • .;*■• 



A> 



íi -7 






I • 



B^tífortfhs. huiè: cbrpo íjf^roíTaide terra ^toaipiM 
titndídó: .por:idàu9*flancoá > ie duhs faces y: que 
j^rtoâo huma. garganta^ a que dizmio GoW.: pôde 
fer xihieio j vazio > truncado f deíliacádo /, e plano. 
E^ :íe íÒrcna febre huma Jioha tòâa^ cujdxonifNri^* 
wmntoícm efta obra ficatájiQdcfiqníaTehf-ic.coiDfeUir 
& , criiBao 9 e eocóatrãò^ afi> de&zas :gòot ts ^òs Jli«4 
luartcs collateraes y o. que tado feiaz^íÓ lemxaíbi 
de neceí&dade y por exceder .o comprimento da cor«^ 
tma ao tina de.moíqttete! , e^pela Jdcfèioioíà ílargto^ 
Tãáo{otto.\Baí$Mrte deJlMado .bc Qqiut.dká Upan^ 
do do Gdrpô da Pracfl y cercadq dei toiTojCcxlo ^ e 
o ^ preftimoibe detetídeir alguma iòbr^^ euupaite 
firaca da mefma P/ruça ^ on fÒra della^ Balutirtt truti^ 
C4do Jie:aqàelk»f|(HÍIí ponMi íe/òtaia emiaMgulo re* 
ÍBtraiite:^oiiid{e (eoAlbtjà qual forma ieJhêidá ipan 
ra xi^ fi,ce^j'£kii íinba reélb/O efpaço isomprehendi^ 
do eptrA a^ fu^^if^patas.,: ficando occultá^ e íem íe 
flanqu^AC algttma ;parte:.delle. Baluarfe vazuf^ be^iflr 
queUç> «Hjo-tçprjifplepo idão chega «QCeu rficnúo:^ 
ctà Ihc^^uarDeçeiofcfeus^ flancoa, oâíoe».^ ca^Sd^ 
porqxie nâo d4. lugar .a ^ver conr<4iira.:jr-oiif:iari? 
cheira np; xtmpO: ^^ brêcbí feita , que nSO fiqup. de- 
baixo, do fggp: dp inimigo inteiramente?,.} ^^^ ^^ 
f íscellénteí! çftíSc Baluartes. , .pctrqiúís ift :pio$Í9U|} fa^o 
cm todp.-Q.terfçop iÇpm.poaCo.crabaUio í:.£iriõí tnitj 
migo abr^.ffiin^^.he ííicií:a contramiea^' fe lhe deíí 

ta bombaaiá (odas/çahe(hinoJea.y42Ío « e fic^ q9 

-.i íol- 



(41) 

fofdadds totaioiShte^Iitres. vdovfeoíidaàinor S/iIuiàtê 
cbeia^ he aquelle , cujo cehtxo he tão folido de ter« 
rapiéno^ como o reparo ^(aqué chamais: feni diT^ 
tinçâo /nucalha): e por âOTo ie la^ioimíga lhe fazirrè^ 
€lmyifaa»mneUr.Q3!de£eftfofea;ccntaâ ioSkiri 

parapeitos j tmihobvm^imifit défendciem. daleij^ 
veftuia ^ e at:aqUí^;ve íe ojkiiibigo ieiakya na(br» 
Gha:^^t1em poçiHTç^ríicãfaf^tfílas^QOvas tíbtú í^querdé 
dffcpfoTies: leg^jfautB) çxpQiblâ;aaríeu^fegonJ(fe/a 
Biilii&nrtt hft «qfaélbcp^itdrt^.tyQ^aRaiyiqur/^íe/fórii^ 
denhuni(flanaí>i^tâ)huina:ifftse:» «ii^mnad^^zeaiíeacàii 
nofreiQin to idas^^ Praças: ^ itnaa*, ai mi ordtriarij^ l"fl*f 
he-noa homaveques yrohraa cc^na^^ coroas ^'.&cl 
4?r^^ife^:he a ^ruind.^que asl^s dos caohôes., 0a 
fego^dál mioMrfái maumtifllitíís ^^ c Reparos 1^: do 
íbitte;^i& poceUaíiTobein^ cljentxab.nn^l^ca^a. os^ict*! 
tíÚgo&.sâátt^uçfa^hQiiyama ffeqâeáa eltívaçâo ^e t^t 
1^9; ^Bio degrát)^fi0td9rf>ara peito ipela parte ia4 
t^ior da Prftça^^na: faá aWca ordinária -he ^e pé ú 
omio. 9 iervf^ pBÍs^ Oftjijiefetifer^ vejètò por £ma dtt 
<k«liyjidadk .da:[^r^eitò)0fjíí»flb .yícsttivartmi^á^ 
«timígo ry que o . fiotep ta peflai^ ; BoKKete M'Clerign 
he?huma obra em tud<> íemelhante^árteo^lha^dobre ^ 
Bpme mais ufado ^eifódiflFerB eiil ter os-ntoatí* pat% 
r»Jll€)ÍP5., ^^r^í^ç Ite twibem -hiMoa obrft :da>/efpecifl 
dsi réveliAi) â qual cotbivaaUoeiKe fe dâeftaQaT^e/fa'^ 
he da explanada para idçrQbr^inaralguma^decJividaVi 
de : nlo tem fotíb 9 <x fen paírapôitò tem .trez péa 
de alto , a qnem cerca hitm^paliflada^ outra n« 
çaoipanh^.emdiftancia.de^ea^.^.ou doze paíTos: eoí 
tudo he:©c9Qr que o /eV^fD)97 íjnajOl he outra coih 

fa mi§. ciue J3.«» ^^ií^A^)f^9iáA^Vi%Xi<i%Aor:MAri3 
Xom. Vir. D iii m^ 



( 4» ) 

rtira d^eriva^fe^ do verba aâivo Fnibon BimrAr^^ 
que íignifica fechar com buma j ou muitas barras : 
são humas eftacadas attas quatro , ou finco pés , e 
diftances humas de ov trás crez y; ou quatro com as 
pontas das^eftacas armadas ode ferro , como^floréa 
de l]2i yie^xrtisadas conibarras do mefmo, páo&Ve 
taboas giipfias , de forte que fe'pofsáo bem defetw 
éer , [fe ferem atacadasr pelos inimigos. Fatem-fe 
as Barreiras nas^efitadasiy pelas qu^esa Praça (e 
commuiiica'0ofn' a campánba ^ e ^cet^ os Tiveres ^ 
fixcorresv; &C. pàtu que fe não utilizem osí inimí-» 
BQs defties neceflarios^caminhos : còftumão ter mo^ 
ilnetes nos lados para fahir por hum, e entrar bt]« 
ma fó peflba , e ontro para o meímo eficito na* 
carr^iageM , e beftad ^ e aâkn chamamos Barreiraé 
de hum Refn* jJSiàuàc f iFroviocia y ou Dominiò 
tudo o que lhe defende 'as^eí!ttiià^s*BãtériMSÍo 
Kuns fbrte^y que os expiígnadore^ fazem nasFarsA^ 
Mas j ott iPraças de armas da campaytifaa diad«â^ dá 
Fraca > q«e «istentão* . otooaiftar , «9 quaes cercão 
d^foib^/fetcompôMÍiideeftâeap-^terri, facdsy «d^ 
\ t6es ^fite. pava 'cubi^M jogarem aatcilharia de 
bater y^emortaífos contra to£ís as defezas , eobraé 
dos fidflíAos. BmiaMtf hc hbm 'Regimento , porém 
boje dlo io mefmo «Mfte á aoMf adé , tefça , ouquir-^ 
ta par^ delk-, dizendo r Pur/í^ > tf Regimenta êm 
áous ) OH área hMãlbíis '^^ fíf^c Btigndlfire he hum Co* 
tofieí mais afitigo^^, q»e /^verna íeis, ou mais Re* 
gimentos ,. qtie chamâd* Bt^igáda , de foitte que hum 
Exercfto & diridi^ em^ l^rigad^ , as Brigadas em 
Bastai K($iÈii, oú Kegkneutbâ^^ e 'na ordem Sc pelejar 
es Regimentou) éa'&Ét&âi($ei íe tômão a^^fubdivi* 

j: V » ' dir 



(43:) 

dir em corpos menores chamados taxnbem Brigai» 
das , e eftas taes Brigadas em Pelotões. O Exerci* 
to nâo tem numero certo de Brigadas^ nem deRe« 
gimentosf oo Batalhões ^ porém ak Brigadas^ que 
íe formão dos Batalhões y e Brigadas*^ ttm numero 
certo de Pebtões^ que por força háo de fer finco , 
e nunca menos ^ porque dando fogo hum y neceífi* 
ta para carregar ^ atacar , è dar outra viez fogo o 
teitipo , t]tie íó em dar fogo focceíEramente gaftao 
os outros quatro.. O numero das Brigadas he ín^ 
certo , porque a regra he fó exhaurir ndlas a gen^ 
te do Batalhão : a frente dos Pelotões etta de feta 
até oito 9 mas podião itt mais ^ c o fundo trez , « 
íSio bafta para rós perceberes o qfiie oeâe humilde 
cDogrefio fe conca. -.r 

CJkhôneiras /qfve também íe chaiiitiò Bomhar^ 
iehras , sãò hm^s efpaçds abertos , que íe dev» 
Jâ^ no corpo dò parapeito para ferviço da artilha^ 
siã: éada homa na parte interior he alta rrez pés^ 
larga K\Vk9tXxKí e meio, e rta garganta em diftanck de 
dbus pés âã boca interior ttm dotis pés de largo; 
na parte txurior tem de altura pé ú meio dei^ o 
eordã0yt)u nivel do rerrflpkno, e de laírgura íete^ 
pard qae o fõgo^ nâo arriiine os merlões, a pe^ a^ 
tke tnavA àt hmn ponto 5 d os tiros ft pofsão cm^^ 
EST. Cimeira he huma obra femettianfe wó^ Cofire ^ 
« fò ^eteme enf que butfiasF vezes íe ki na erplau 
Md^ y out^tfs' i^a^ftradá eikrilltf Av ^ e osttas na 
íbfib* ! he etiten^adía ^uatroy dii'íirt€0 pá^^ « ^vâ^ 
da ídèré^tem fédbâis (iOiti^feHlrif^ycAècvra d* 

grof- 



(44) 

groíTâs vigas > pranchas, e terra: cofiuma ter vintb 
homens , para o que ha de ter feíTenta pés de coni* 
primento, dez, ou doze de largo. Camizãj oaFar^ 
te Camiza fei chama ao que tem femelhança com 
huma c^çnáida. Candieiros s2o huns pequenos pa4 
rapeitos de madeira cobertos de faxina y-cheíos^o 
terra da altura de pé e meio, os quaes fervem nos 
aproches , minas , e galerias para cobrirem , e reí« 
guardaram dos tiros. da Praça íitíada os trabi^lbat 
dores : fazenvfe .dfi taboas dobradas, de finca até 
kis pés de comprido , duas até trez polegadas tio 
groíTura, pregadas humas junto das outras emduas 
vigas a plumo cravadas fobre outra ao niyel, e br^ 
dinariamente.com rodas: tem. quando mais íeis pés 
de alto y e as taboas dobrâo-fe á. prova deuiio£^9^ 
te. Cúvalleiros são humas. efcadas de terra , e'ce(^ 
toes cheios da mefma com parapeito de ceííôes , e 
íacos Ao tiltimo degráo fupremo , divididos' eni 
merlôes , e canhoneiras para os fddados offe^d»^ 
rem^ e fe defenderam de.fortidas» Cçlumna he-hunt 
novo , e formidável fyftema de pelejar , chamado 
oOvo , porque Moní. Folard;0 accommodou ás ar-^ 
mas, e manejos defte feculo ^ mas na verdade anti-^ 
quiflímo j porque deveo aos Xebanos a fua inveiw 

J^ão, e ufo*: forma-fe de hum até féis Batalhoea^ Q 
egundo o numero dos foldados, que houver para 
a. fua formatura y fe determina a frente de vinte ^ 
vinte e quatro até trinta filas em terreno livre ^ 
mas no cubertp , embaraçado. ^ e de desfiladeiros 
p6de a frpnte fer de de^efeis até trinta e quatro^ 
Os Batalhões .devem fer, de quinhentos homens, 
dos quaes A .quinta parte fe arma de partazâpas, 

ar- 



( ^5" ) 

ihnasiji^iiie idev^érâo 4 (naAúrcoçio'.^ éinòmè'aos 
Pa^thos^^ e o reftosâo FúzileíroSi Divide-fe a co« 
lomna^emjttrez íefsôes y mas no combatei tácr imí- 
dabrfiiqu&ifá £cd. entre ellas^o meficno campo , que 
«edea emitias JElas/ÓâOificia es a guarnecem for- 
mando ;na; frcot)e dc: oada íefsâo hiuha .fileira de 
Seisi Gapitáes , féis Tenentes j e féis Sargentos y e 
oSiuiaia íe repartciA .pklos flâncos;^^.:Arma*íè a co- 
Iniima^fakenifliidò 9bn:dugJicandaf a. primeira, filei- 
xa..tleífolda]d08:'deix:ailB dkcsiy quesiol os! da frente;; 
^atagtiarda ^.e lados òonnopartazan^s^.) e:bmonetaF. 
AsjrCòmpanhias de Granadeiros cobtem -aiietagiiar-^ 
àt.y.oúÍK lhes dá outro emprego iiSra da qoliimna , 
porqtieccriUi:fem ^IJea ie^acha t>em defqndidii com 
aspartazanas ^ efpontÔes ^álabai^das ,ie .armas com 
])bÍQneÍ0S>rd,ejque tock eâá ouriçáda«'.Ò feà modo 
de jdar.fogò ou Jie por pelotões y ou por fileifasy 
começando. pélas jdoeentro j e quando eftas difpa- 
cãQyOS,íoldado9 daà primeiras fe lançâa de bruço» 
novebãa'^ para qi^ os-iontros menos deftros não fa- 
faojnoa feus corpos >o;:cftrago., que; Tó/intentaò h^ 
20r: nos* inimigos. Tem muitas>,edi verias evolu- 
ções , '.dividindo^ fe , e dobrando^íè .para os lados 
acsfnMSjqii^oKimpCi^silinha&ídfti^.inimi^ f ficando 
iStMQzes.q ceaitoeni íCplumQái para obrarão mef- 
moy è:]iompet os que. podem Âibrevir^ He admira- 
rei o feui fogo , união 9? peza , e facilidade , com 
qneuuía de todaa as j^as partes. Muitos louvâo 
«ft|p fyítemâjy Ahdré:Ribeiro GoittinliQ còm outros 
o:im[()ugnave parn.iiiQtjcia delle iflo Vosbafta. Cor^, 
técco heihum rolo de pergaminho j^^panno , ou pa- 
pel gr olíbi cheio do neceflj^rio para a carga de hum 

ca- 



canhã(^': luios^ sáo cheios de pólvora j iputros^^de 
ferros miúdos, como pedaços dccadeas, balas pé« 
quenas,. cabeças de pregos , canos de piilolas, ficCé 
a fim de fazer maior deftroço. Caftelh he hum l» 
gar rodeado de torres , e íbíTos , e algamas :TeiGC8 
fòrtíficado .de miirálha; com hum bom parapeito.: 
edificao-fe ctímmummente em lugares aomitiiíiiteB 
de alguima paflagem. Cava he hum caminho aberto 
na terra pairai aurtír os que trabalháo na trinchei ni 
ÇavaUeiríh he hum montei' de terra elevadd ^^humaa 
vezesuredoodo ^ontrasr. orado >'oUtvas quadrado^.; 
em que fe pôe hiima plataforma cercada de fett>pa«« 
rapeito para cubrir os canhóes: : he feita efta oopin 
para fe oppôr a alguma . bateeid , e deknbrir . me-* 
Hior a campanha. Cavallo. de Frissã' he nome deriva» 
dô da Villá;de Groeningen cm Frizíà , no fitio dá 
anal forão yiftos a primeira vez : he huma* tra^e 
de qiiafi hum pé de diâmetro de groflb , é oompri<* 
da dedez^até doze pés, lavrada por' finco, oa féis 
faces atravefiadas de eftacas^: com pontas de^feirois 
póe-fê nas |)áfla]g^ps, y pôr onde bSodetii^ as Ttò^ 

{)as inimíg;as , nas entradas das brechas , e feme-^ 
hantes partes. Gatida de^JÍndarinba hQ huma* obr^ 
d|eftacada y cujos ladoânâd são* panilellosy lalar^friK» 
do-fe para. a campanha: y 4! eftreítando^ie para ^o-pati» 
te da Praça. Bftaobiiaf^ qoaodo cobre a- cortinando 
corpo dá Praça ', e a ieu; revelím: , não differe da 
fimples tenaUia mais que em fer mais eftreita da 
parte dariPraça , feolfo os ramaes das tenalhai pa^ 
râkllos tínttc ã. Cazamatu hc huma praça; cui:ierta 
de abobada na parte do: flanco , que eftá junto da 
cortina , íeita^ para £izer fogo lobre o inimigo ^ 

que 



qbe àccpmaiettet face oppofta y ou o Foffò.:^ Cefiffes 
i2o: huns grandes coftos igualmente Itrgos em íl» 
ma >..e :em^hatxai dá quati^. até oitoi pés de diame^ 
tto ^ iidtíiícis ^tté dtz de dlmra.': encheiíFie de :ter4 
cé para: íer^iiem de iparaffeitò , algutnaa vezes fe 
Ibrmão còmelle&aS ínerlôes das baterias , outras 
▼ieseSrfe empregada nos aloj amentos ^de algam pof-^ 
to y ie.em mitrts: iemeihantes coufiia Cefpeie^^^o 

torrôds -de teifra. frefca v^r^n^^ V^^^^^^^ jde hef^ 
y%,y de quaíIHum^pé^de oomprimentó', e. meio pé 
dè groflò :.fervétai ^ara revàeftir o reparo jb para* 
peito j e foflb ^ e para guarnecer -as galerias.^ Ha 
tafiiheoi outra eípecíe de Cefpedes de hum pé do 
cxifQprida', meio pé de largo y*e quatro polegadas 
de groflb !por iguaJ. Chamada he o final v qor. eni 
tempo dé>fitio le £iz com o toque de caixa, ou de 
trombeta para íè tratar de al^macoufr. O'iadb/4 
he hum forte de^quatro até íeis baluartes edificada 
febre, algum' terreno ^' feparado da povoação pôií 
neiode.hqma explanada para fofter os povos xni 
réfpeito , e defeiidcUos fe o inimigo os <]uizefc íe* 
nborear. Circtêmvalafáa he buma cava^oue osr fitia^ 
dores, fazem a tiro de * canhão xla Praça ' em todo to 
ckx:uito do fen campo c he flanqueada ea diftanciaSs 
deyidas', e guarnecida > de parapeito ; fna^^oíiindíf 
dade he de fete até oito pés , e fua largura dèid&» 
se : ferve :paraí impedii; aos fitiados os oãmbois ^ e 
foccorros , e também para que ^)s íoldados úú^àsk 

xs&jo^. dsifittfiis^^. C4japQ« MrfsMMs»- .cava 

de féis até ícte pés. de alto np f^indo de hum foíFq 
fócO| caminhando através dofoífo em linhas paral- 
lelaâ de quinze até dezoito pés de intervallo , e 



guarnecida de feu parapeito de àous* pés re metovde 
alto com fhas feteiras ,'çi todò4> v^oTe cobre com 
mantas de madoira carregadas dê t^mi^Columna 4ie 
huma compoda filaideíbum exèrôíto ^y t^uánda vmií 
emmarcha;^^^!!!»^^?^ bei hatn jfodcorror^iqne i^opfta 
de Tropas,' dintteirò, e ihoniçôes.^ Cawi»ííjj7iw 
rnl ;he o terceiro OBicíal Geral* de todosos Rtgiw 
cnentâ8 4% Caviíllaria ligeira t examina) fe eftáo os 
Regtixieaco9c'em:boiileftadQ f>pafia^lhes tboftrái-^os 
obriga:. aos .Qfficiaes^ja ^erfàçáo Brifbâifobrij^açãòy 
Commijfarh ^. Guerra he hum Official^eítabeiecidò 
para. a: fpolUtica militar i^ p qual refolTe as-difficiiU 
dadeq y^tque íbccedeal nò tempa das marchas y go* 
Terna :Ó9 {viyandeiros ^«le difthíbuieos bilhetes^^toa 
boletos párdi^bs aldjamentos',.é «iÇifte ás hinftrsá^ 
Conpta',apr4íches:isio as obras^ que o^ fitiádos fazem 
para feirem imiteis os aprbches dos íitiadores. -Caru 
trábhàtôriaiho^híím^ hsítcria( oppofta á do inimiga. 
Câf^tn^ries. aao. Icertas. partes da muralha udiftames 
hmnar dqsroutráa.de quinze atei vinte pés y aravi 
çando^rfe o^ mais' que for' poffivel pára dentro do 
terróno ^. e íe ajuntão dgumas^ vezes por meio 'de 
arcxkrna : altura do cordão ;para foUerem aíEm me* 
UiaralgbnM^paírce ^ reparo ^:e. fortificar o tecra^i» 
fSkn&MoC^nnfãgfioriiaf y^^ iihràs^^ giioiw 

uecidás os; parapeitos I a^quaès fe levantão dédei»i* 
trp do Toflb diante da face ^ e do angulo flanqueai 
do(.'paraHoá.xotirervar«ii;j ■ i/ .r.<^.-':)oi 



. > t 



m 



r v\ ['''iiii I í ■ I iiT 



ISBOA ~, Na Olficina de Miguel Manefcal dá 
Cofta, ImpjeflTor do S. Officio. Anno 1763, ', 

Com todas as licenfas neçejfarias\ 



(49) 

CONFERENCIA V. 



COntramina he hum caminho fubterraneo^ 
que os íitiados fazem para acharem a mina 
do inimigo, e tirarem a pólvora , para que 
dando fogo ao raftilho , náo tenha a mina 
o defejado effeito. Também fe fazem as contrami- 
nas , quando fe edificão as Fortificações , para evi- 
tar o trabalho no tempo da necellldade. Contraef- 
carpa he a parte inclinada do foíTo mais próxima á 
campanha ; vulgarmente fe entende por efcarpa o 
caminho cuberto , e a explanada. Contravallação he 
hum foíTo guarnecido de parapeito flanqueado em 
diftancia de mofquete feito pelos íitiadores para ie 
cubrirem contra as fortidas dos íitiados. Cordão he 
huma banda , ou faixa de pedras de meia volta y 
que fe póe entre o fim da muralha , e principio do 
parapeito , cercando toda a praça em roda. Cornat 
são obras avançadas á campanha com dous baluar- 
tes na frente juntos por huma cortina , e commu- 
nicados á praça por dous ramaes. Coroa he huma 
obra deftacada da praça , e unida ao foíFo principal 

f)or meio de dous ramaês^ tendo na frente humba- 
uarte inteiro , e a cada lado hum meio baluarte, 
<|ue feajuntâo por duas cortinas: he guarnecida de 
parapeito , e tem feu foífo. Coronel he o Oflícial , 
que governa hum Regimento. Corpo de batalha he 
ogroflb do exercito, que marcha entre a vanguar-»» 
da , e retaguarda. Corpo da guarda he hum pofto 
guardado por íoldados governados por hum Offi- 
Tom.VlI. E ciai. 



ciai. Corpo de referva he hum deftacamcnto do cr- 
ercito pofto detrás das linhas no dia do combate 
para foccorrer os poftos mais fracos. Corredor he 
o mefmo que eftrada encuberta. Cortadura he hu- 
ma pequena linha de quatro até fínco toezas , que 
fe accrefcenta i cortina , e ao orelhão para fe for« 
mar a torre concava. Chama- íe também cortadura 
a obra , que os íitiados fazem , quando temem nao 
poderem fuftentar o pofto atacado. Cortina he a li- 
nha do reparo 9 que fempre junta dousflancos. Cau^ 
raças são Cavalleiros armados de couraças. 

D 

DEcagono he a figura de dez lados , ou de dez 
baluartes. Defcida dofojfo^ ou Sapa^ hehama 
cava na eftrada encuberta guarnecida por fima de 
páos y e taboas carregadas de terra para defender 
do fogo dos fitiados aos que querem defcer ao foC» 
fo. Defenfas são toda a íorte de obras , que flan* 
queão outras partes da fortificação. Demigola he a 
linha tirada do flanco ao angulo da gola. Desfilar 
he marchar a quatro , ou a féis por manga , ou por 
meia manga. Deftacamento he hum certo corpo de 
gente de guerra tirado de outro maior para ir obrar 
alguma acção. Diftancia dos Polygonos he a linha ti- 
rada do extremo do flanco junto á cortina até o 
lado exterior. Divisão he quando indo hum bata- 
lhão em marcha , fe fepara , e divide em féis cor- 
pos. Dobrar fileiras he hum mandamento dos íoU 
dados para de duas fileiras fazerem huma. Dormir 
d lerta , ou avançado , he paífar a noite com as ar- 
mas na mão« Dragões são foldados , que peleijão a 

ca- 



( n ) . 

cavallo, fe Mmbem a pé, são os primeiros, que vao 
á guarda dos ataques , e fervem de fentineías per- 
didas. 

E 

EMbofcada he o lugar , onde fe efconde algum 
corpo de gente para afialtar de repente o ini^ 
migo. Encravar o canhão he metter-lhe por força 
hum prego no fogão , a que chamais erradamente 
ouvido , para que íe não poíTa ufar delle. Enfiar he 
atirar por todo o comprimento de huma linha re- 
fta. Enneagono he hum polygono, ou figura de no- 
ve lados. Efcalada he hum ataque feito com efca- 
das, encoftando-as ás muralhas , para que fubindo 
por ellas, e por cada huma muitos foldados juntos^ 
poísão entrar a render a praça. Efcaramuça he a 
piileja de alguns foldados deftacados de hum, e ou- 
tro partido antes que os ^exércitos dem a batalha. 
Efcarpa he o talud, ou inclinação da muralha defi» 
ide o plano da praça até o foflb. Efpalda he o ef- 
-paço , ou terreno fronteiro ao angulo da efpalda. 
£Jpor4o he o mefmo que contraforte. EJquadroes 
«âo muitos Cavalleiros poílos em forma de peleija 
^m trez fileiras. Efquadra he a terça parte de hu- 
jna Companhia. Eftar de dia he ter o mando do a- 
4aque de hum fitio , ou de algumas Tropas por 
4:empo de vinte e quatro horas. Eftrada encubertã 
hc hum ramal de quatro até finco toezas á roda do 
foflb de toda a praça , e guarnecido de íeu para* 
{)eito. Eftrada de rondas he huma rua entre o terrai- 
-pleno ^ e a muralha para a pafiagem das rondaSé 
'EftrtíagemayíQ.z. ficção , que o ioimigo faz ^ ou fc 

E ii * faz ' 



faz âo inimigo. EJirella he huma obra de fiiaitas 
faces, cada huma das qiiaes flanquea a outra. Exa-- 
gono he o polygono , ou figura de féis lados. Ex^ 
planada hc o efpaço , que fica entre a Cidadela , e 
huma praça: também he o efpaço defde o parapei* 
to da eftrada encuberta até o terreno natural da 
campanha. Evoluções são os movimentos , e figu- 
ras , que fe mandão fazer aos batalhões , e efqua- 
drôes. 

F 

FAce he a parte do baluarte mais avançada á 
campanha , comprehendida entre o angulo da 
clpalda 9 e o do baluarte. Fachada de huma fortifica^ 
fão he toda a fortificação de hum lado exterior^ 
a faber , duas faces de dous bahiartes vizinhos, 
feus flancos , e a cortina y que os ata. Fachinas àão 
molhos de miúdas vergas de arvores de hum pé e 
meio de diâmetro , e quafi quatro pés de compri- 
do atados pelos extremos , e pelo meio : fervem 
para a fabrica dos candieiros , e efpaldas , para en- 
cher, e cegar os foflbs: algumas vezes fealcatroáo 
para queimar as galerias , e outras obras dos ini- 
migos. Falfahraga he hum pequeno reparo da lar- 
gura de quatro toezas guarnecido de parapeito , e 
banqueta, o qual cerca toda a praça, em roda: fer- 
ve ou para fazer mais regiamente fogo fobre o ini« 
migo , quando fe acha já tão avançado , que os d^ 
feníores o não podem bem defcubrir de fima do 
reparo do corpo da praça , ou para receber entr^ 
o feu parapeito , e a muralha as ruinas, que os ti- 
ros do inimigo causao no reparo da praça. Fazer 



\ 



(n) 

fiigo 4ie atirar fem ceflan lavLer alto hc parar. Fa^ 
gier patrulha he andar de noite pelos quartéis de- 
pois das horas de recolher para impedir algumas 
deíordens. Fazer ronJa he andar de noite foore as 
muralhas á i^pda da praça para elcutar fe fe perce* 
be final de inimigo ^ que a queira aflaitar^ e junta-*' 
mente ver ie as féntinelas tazem a fua >obrigaçâo« 
Fasier alto he pôr os foldados fobre as armas em 
prefença do Official j que tem o feu governo , ou 
íeja para fazer guarda ^ ou para aíEm efperarem aU 
guma peíToa principal j que vem chegando áquelle 
utio, ou para lhes deter o furor ^ e evitar a defor- 
dem. Figura ^ ou Polygono , he o defenho de huma 
Praça y que fe quer fortificar. Fi/a he huma linha 
direita , que os foldados fazem eftando formados 
huns diante dos outros : na Infantaria o numero 
dos homens de huma fila chega até íeis ; porém na 
flavallaria cada fila tem fó trez. Flanco he a parte 
do baluarte , que ata huma face , e huma cortina 
^o8 feus dous extremos , huma a hum : ferve para 
defender a face do baluarte oppofto. Flanco cuber^^ 
lOj ou retirado , he huma efpecie de cafamata, que 
tem huma plataforma retirada para junto da linha 
capital , e cuberta do orelhão. Flanco fix ante he a- 
.<)uelle , cujos tiros fe ímpregão na face do baluar- 
te oppofto. Flanco obliquo^ ou Flanco fecundar io ^ he 
huma , parte da cortina , que lava obliquamente a 
face do baluarte oppofto. Flanquear huma Praça he 
«dificar huma Praça com tal forma , que não haja 
nella parte alguma , que náo feja defendida , e da 

3 uai fe não poíTa bater o inimigo de face , e de la- 
o , e obrigallo a que fe retire. Fogão he o bura- 
./Tom. VIL E iii co. 



(5'4) 

CO , por onde fe dá fogo a qualquer ârina 5 s tpiè. 
vds coftumais chamar ouvido. Fornilho he huma 
concavidade de oito até dez pés de largo j e do3BV 
de fundo, a qual fe enche de barris, e íacos depot 
vora , entre os quaes fe mette huma falchicha com* 
prida, para que venha fahir a outro lugar, em que 
fe lhe dá fogo , para que voando o terreno , que 
fobre elies cSá , leve também comíigo os que alli 
fe acharem. Forfúlbo , ou Comera da mina , he hum 
buraco profundo fdco na groflura do reparo ^ or» 
dinariamente em forma quadrada : a fua carga he 
proporcionada ao terreno , que fe pertende fazer 
voar : a pólvora , que fe lhe mette , ou he em bar« 
ris de cem libras cada hum , ou em íacos de finco- 
enta libras , o que explicaremos depois. Forriel hc 
hum Oíficial , que tem o rol dos foldados de huma 
Companhia paralhesíàzerorepartimento dos quar- 
téis , e da pólvora. Forte de campanha he huma o- 
bra feita toda de trincheiras , e deílinada para oc- 
cupar qualquer pofto, fegurar apaflagem de algum 
rio , cercar algum monte , que fe quer confervar ^ 
e para fortificar as linhas , e quartéis de algum fi- 
tio. Fortim he huma pequena obra com forma de 
eilrella para fegurar o circuito das linhas de cir- 
cumvallaçâo. Foffo he huma profundidade larga em 
fua proporção , que rodea toda huma Praça , e fer- 
ve a fua pafiagem de grande impedimento ao ini- 
migo. Frente de bum batalhão he a primeira fileira 
de hum batalhão. Fuzileiros são os foldados infao^ 
tes com armas de fogo« 



Ga^ 



G ■ ■ " ; ■ •■■• 

G'^ Akria he ham corredor de madeira formado 
ir no fundo do íbflb , e as pranchas^ que o fe* 
chão pela parte de fiaia ^ carregadas de terra, para 

Siae ds mineiros pofsáo paflar cubertory femjqne o 
ogo , que o inimigo Jbes deitar, de fima y Jhes faça 
damno. Gola he a entrada do terrapleno de qnal^ 
quer baluarte ^ ou de outra obra ae forrificaçâow 
Gradet / ou Mantas y he bum paralielogramo pro-; 
lòngado feito de vergoutas de arvoreiS; béoíL entre^ 
laçadas hnmas por outras , e carregadas de tetras 
cobrem , e livrao dos fogos do inimigo 2ds que (e 
acháo em algum lugar expofto : fervem também de 
fazer firmes os lugares alagadiços , lançando-as fb» 
bre elles. Granada he huma pequena bola de ferro ^ 
ou fòUia de Flandes , páo y ou papelão , ooncavfi^ 
e chea de pólvora fina , na qual fe dá fogo por 
hum foguete , que em fi tem , a que chamao tem* 
po : deita- fe com a.máo em os lugares , onde oa 
toldados fe achão juntos, como nas trincheiras, a^ 
lojamentos , &c. Granadeiro he hum foldadp arnM4 
do de catana , efpingarda , embandoleira , e bnmit 
bolfa chea de granadas. Grande femidiametro he a 
4inha tirada do centro de huma praça até o angulo 
flanqueado do baluarte. Grandt guarda.hí^hxaà\i Q\jk 
muitos efquadrôes avançados meia légua, ao campa 
do inimigo ^ mandados por hum Officiaí , que dif- 
tribue outras pequenas guardas a diverfos póftos 
para obferrar mais exaâamente oa movimentos do 
«nimigo. Grojfo he hum pequeno corpo de Tropaa^ 
Crojfo de htm exercito he o corpo, quCiaM entre 4i 
'^ van- 



ÍS6) 

vanguarda y e retaguarda : alguofias vezes fc dá efle 
nome a todo o exercito, que fegue os deftacameo- 
tós, que fe tém fenhoreado das avenidas de biinni 
Praça j que fe auer íiciar. Guarda , abtolutamente 
fallando ^ he o íenMço , que fe faz em huma Praça 
para a ícgurar daè entreprezas dp inimigo. Gnorv 
da avançada he hõma guarda , que paíFa a noite no 
campo fobre as armas para fegurar os quartéis do 
exercito y oppor-fe aos ioccorros , e impedir as fob? 
prezas. Guaríta. he huma eípecie de torre de pe^ 
quena redondeza. feita de pedra, ou de páo, poftá 
no angulo dò' bakiarte , ou no meio da cortina pa- 
ra allí fe alojar a feotinela , aue vigia o foflo. Guar^ 
nifãoh^ a gente de guerra deftinada para defender 
huma Praça. 

Ommeque he o mefmo que corna , obra , qae 
os Engenheiros preferem a muitas , por fer 
nocavel a fua deíèza : pela frente fe forma de doas 
meios baluartes juntos por huma cortina : íerve dç 
eccupar eminências , e defcubrir procli vidades : o 
leu lugar he indifierente , porque humas vezes íe 
Êizení defrontb dos baluartes , outras defronte das 
cortinas ^ quando as defenías deftas sáo muito di<» 
latadas: os feus ramaes ou sâo..parallelo$, ouflan* 
qneados , bumas vezes fe eftreitSo pela parte da 
campanha ,; ouths pela da Praça. 




••» '^ 






INfantaria he o corpo de foldados j que peleja a 
péi Ingenbeiro he hum foldado fciente , e perito 
oa arte de deíephar todas as efpecies de obras , de 

re- 



i. ' \ 



reconhecer o forte , e o fraco de huma Praça , dev 
fender , e atacar algum pofto , &c. Invalido hê o 
foldado eftropeado na guerra , e incapaz de fervir, 
Invejlir bima Praça he fenhorear-fe das avenidas , 
e efperar o groflTo do exercito para a atacar. 

L 

LAdo exterior do Polygono he huma linha tirada 
do angulo do baluarte ao do baluarte proxi- 
mo. Lado interior do Polygono he a diftancia de hum 
angulo da gola ao angulo da gola próxima. Linha 
de hum exercito he adifpoíição de hum exercito for- 
mado em batalha, fazendo huma grande frente em 
linha re£la para náo fer cortado , nem carregado 
pelo inimigo. Linha he hum foíTo guarnecido de 
parapeito: cambem fe dá eíle nome a huma enfiada 
de ceílôes, ou facos de terra , que formão também 
huma linha para os foldados fe cubrirem do fogo 
do inimigo. Linha capital he a linha tirada do an- 
gulo da gola ao angulo flanaueado. Linha cogrital 
he a linha tirada do centro aa Praça á gola. Linha 
da dafenfa he huma linha reprefentada pelo tiro de 
ixiofquete para defender a face do baluarte oppof- 
to. Linha da defenfa fixante he huma linha tirada 
do angulo da cortina até o angulo do baluarte fém 
tocar a face. Linha da defenfa razante j ou Linha da 
Aefenfa flanqueante , he a linha tirada do ponto do 
flanco 9 donde a defenfa começa a defcubrir a face 
do baluarte oppofto até o angulo do mefmo balu- 
arte. Quando ha flanco fecundario , efta linha co- 
meça da parte da cortina , donde fe defcobre a fa- 
ce do baluarte oppoâo. Linhas de communicação são 

a3 



as trincheiras ^ que vão de hiima obra a ontra. Zi- 
nbas interiores sáo foíTos guarnecidos de parapeitos 
da parte do lado da Praça para impedir os defer* 
tores. Linhas exteriores são foflbs guarnecidos de 
parapeitos contra a campanha para impedir as fob-> 
prezas. Lunetas sáo humas pequenas ooras de duas 
faces poftas fobre o angulo , que o foíTo do corpo 
da Praça faz com o do revelim diante da cortina : 
também fe fazem no meio do foíTo em lugar de 
falfabraga para lhe difputar a paflagem : a largura 
do feu reparo não tem mais que finco toezas ^ e a 
do parapeito trez, 

M 

Mandamentos são as palavras do Official y que 
faz o exercicio aos foldados. Mantas são ta« 
boas unidas , e cubercas de folha de Flandes poftas 
fobre rodas , que os gaftadores trazem diante de ÍI 
na occafião do trabaltio para fe cubrirem contra o 
fogo do inimigo : a fua altura he de íinco até féis 
pés j e a largura de trez taboas. Manga he hum 
corpo pequeno de Infantaria de fincoenta , ou feí^ 
fenta homens. Merlão he a parte do parapeito, 
que eftá entre duas canhoneiras : ordinariamente m^ 
feu comprimento interior he de nove pés , e o ex- 
terior de féis. Meio baluarte he huma obra compot» 
ta de huma face, e hum flanco. Meia lua he huma 
pequena obra feita fobre a contra-efcarpa defronte 
do angulo flanqueado com fuás faces , e flancos 
guarnecidos de parapeito : também dâo efte nome 
aos revelins , mas impropriamente , porque eftes 
são as obras fronteiras ao meio da cortina. Mina 

he 



( S9 ) 

he hum caminho fubterraneo , que fe encaminha a 
hum , ou dous fornilhos cheios de barris de pólvo- 
ra , aos quaes íe dá fogo , quando fe quer fazer 
voar o lugar debaixo , de que elles eftâo. Mineiros 
sâo os foldados deftinados para o trabalho das mi« 
nas. Molinete he huma Cruz de páo pofta horizon- 
talmente fobre outro páo a plumo , em que anda á 
roda 9 e fe pôe nas entradas das barreiras , ou ao 
lado de cada entrada , e tem nos extremos (uas ar- 
golas 9 com que íc prendem , e ainda quando fe 
foltâo impedem o entrar de tropel. Montar a bre* 
chã he fubir pela brecha com a efpada na mão , e 
entrar a Praça por força. Morteiro he huma elpe- 
cie de canháo curto femelhante a hum íino y pofto 
fobre huma carreta de quatro rodas pequenas , o 
qual íe carrega de bombas / carcazes , ou pedras. 
Movimento he a mudança de pofto , que faz hum 
exercito. Moftra he a rcvifta , que fe faz aos folda- 
dos para lhes pagar , ou para faber quantos sâo ^ e 
os que faltão , ou para feparar dos bons os incapa- 
zes. Mofquete he huma arma de fogo ^ que trazem 
os foldados chamados Mofqueteiros , á qual fem 
differença de calibre , pezo , e comprimento cha- 
mais efpingarda. Mudar as guardas he a renovação 
das guardas ao romper da alva. Muralha he huma 
parede feita para íofter melhor a terra do reparo, 
para que fe não esboroe. 



N 



N 



Ivel da campanha he a fuperficie horizontal 
de hum terreno ^ que não defce y nem íòbe. 

Obras 



'( 6o ) 

o 

O Brás iejlacadas são as obras , que cobrem o 
corpo dâ Praça do lado da campanha. Obras 
exteriores sáo todas as obras íitiiadas do foflb para 
a parte da campanha , como revelins , meias luas ^ 
&c. Occupar buma altura he fenhorear-fe de algum 
Ingar fuperíor a outro. Oãogono he huma figura de 
oito lados. Orelhão he huma pequena redondeza 
reveftida de muralha , e avançada fobre a efpalda 
dos baluartes , onde fícâo as torres concavas para 
cubrir o canhão j que fica no flanco retirado. Or^ 
gãos são huns páos groíTos , e compridos , defuni* 
dos huns dos outros , armados de pontas de ferro 
em huma fó parte , e íufpendidos por cordas no ai* 
to das entradas das portas , as quaes cordas fe lhes 
cortâo em cafo de neceílidade para impedir a en- 
trada. Ouriço he huma trave guarnecida de grande 
quantidade de pregos com as pontas para fora: 
pôe-fe como em balança íobre hum páo a plumo ^ 
no qual anda como em couceira , e ferve para fo* 
char as entradas y e abrilias , quando for neceíTario. 



LISBOA , Na OfEcina de Miguel Manefcal da 
Cofta, Impreflbr do S. Oíficio. Anno 1763. 

Com todas as licenças necejf árias. 



CONFERENCIA VI. 




Alijfadas sâo eftacas altas de finco até fete 
pés agufladas no alto , c groflas de oito até 
nove poUegadas : põemle diante dos luga- 
res, a que fe lhes pôde chegar com amSo^ 
como na explanada , e na gola das obras deftaca- 
das : dev^m pôr-fe tão unidas , que não fique entre 
ellas mais vão ^ que o que baftar para caber hum 
pique , ou hum mofquete. Ponte de junco he huma 
ponte , ou efteira quadrada feita de molhos muito 

froflbs de junco , ligados htins com outros , e cu- 
ertos de pranchas : pôem-fe nos lugares húmidos 
para fer firme a paflagem. Fonte volante he huma união 
de duas, ou mais pontes de quatro até finco toezas 
de comprimento poftas humas fobre outras, de for- 
te que a de fima fe eftenda por meio de cordas paf- 
fadas por roldanas , que íe achão nos extremos da 
ponte , que eftá deba/xo , e que a fazem correr até 
que chegue ao lugar, onde fequer pôr: ferve prin- 
cipalmente nas fobprezas dos foflbs eftreitos. rmte 
àe barcas he feita efe bateis de cobre , ou folha de 
Flandes, e em cafo deneceflídade, de madeira leve : 
íbbre clles íe armão as pranchas , pelas quaes paf- 
são os exércitos os rios. Porta he huma união de 
pranchas para fechar a entrada de hum recinto. Por^ 
til f alfa he a que fe faz na parte mais baixa da cor- 
tina, ou detrás do orelhão, para fazer asfortidas, 
fem que o inimigo as perceba. Pofio he toda.a efpe* 
Tom. VIL F 




cie de terreno capaz de alojar foldados. Praça de 
armas he todo o lugar capaz de fe formarem nelle 
os efquâdrôes , du batalhões , que háode marchar 
para alguma parte. Praças de armas da ejirada encu^ 
berta são os efpaços , que a eftrada encuberta tem 
nos ângulos falientes , onde íe põem alguns falco» 
netes para fazer retirar aquelles, que quizerem che- 
gar á explanada. Praças fortificadas sâoaquellas, ekn 
que as linhas são conforme a arte dirpoftas ^ e bem 
flanqueadas. Praças irregulares sãoaquellas, cm que 
as linhas , e ângulos do mefmo nome sáo deíiguaes« 
Praças regulares sáo aquellas , cujas linhas , ^ ân- 
gulos do mefmo nome são iguaes entre fi 9 não fen- 
do huma face mftis comprida que outra > nem hum 
flanco mais pequeno que outro, Prefil he a réprc* 
fentação de huma obra com feus comprimentos, lar- 
guras , e alturas. Prebofie he o Oficial , a cujo car^ 
go eftá o prender, e caftigar os defertores , e mais 
foldados, e.q4e põe a taxa aos viveres do exercito: 
a efte chamão em Portugal Capitão da Prepofla, 
corrompendo o nome próprio. 

o. 

QUadrado hehuma obra:de quatro baluartes. Quar^^ 
íel da Corte he o alojamento do General da 
• exercito. Quartel debumfitio he o acampamen» 
to , que fe faz fobre huma das mais importantes paf». 
íagens , que feiaçhãp á roda de huma praça íltiada. 
p^ra impedir QS íbccorros , e qs combois. Quartel 
Mejlre General, he o OiHcial , a cujo cargo eiy o a*^ 
lojamento do exercito. Quartéis sâo as cafas feital 
para a guarnição de huima praça. 



( ^3 ) 

R 

RAçâo he huma certa porção de pão, ou de for- 
ragem , que fe diftribue a cada foldado. Ra- 
dio he a diftancia do centro até i circamfèrencia de 
hum circulo. Ramaes são huns grandes lados , que 
atão alguma parte da praça principal com as obras 
exteriores , ou fejão tenalhas , cornas , &c. Ramai 
da mina he o caminho íubterraneo , que guia aos for- 
nilhos« Ramal he huma trincheira comprida em li- 
nha refta para défehfa de alguma obra corna j ou 
coroada. Raftilbo he huma porta degrades, ou bar- 
ras de groffas vigas agudas nos extremos debaixo 
pofta á entrada da porta daPraça, efurpendida por 
huma corda atada a hum molinete , que fe corta em 
cafo de neceifidade para impedir a entrada. Recinto 
he a circumferencia de huma Praça ou eftcja guar- 
necida de baluartes , cortinas , ou não. Reconhecer 
huma Praça he advertir nas ventagens , e defeitos 
dcUa antes de formar o Ç\úo. Redutos são ok^íbl^ 
dados novos ) com que fe enchem as praças vazias , 
que feachãd nas companhias. Redentes são as obras 
feitas cm forma de ferra com ângulos reintrantes, 
e falientes , que fe defendem reciprocamente : tem 
o feu principal ufo nas entradas dos rios. Reduílo he 
hum pequeno forte quadrado fem mais dcfenfa que 
a da frente : fazem-fe ordinariamente nas trincheiras , 
nas circumvalaçôes , e contravalaç6es : algumas vq^ 
«es fcvfeveftem de muralha, quando fe fabricão em 
tugarbanhado de mar, ou rio. Refocete he hum pe- 
queno foflb de quatro toezas de largo , feito ordi- 
nariamente 00 meio dofoflb feco , iité que fe tope 
''■'■ Fii 5»wx 



comsgua: coftuma fazer-fe para difputar melhor ao 
inimigo a paíTagem do foíTo , e impedir-lhe as mi- 
nas. Regimento (talvez que ifto , e outros nomes conoh 
munsdaMilicia, que deixo dê explicar , ignoreis) be 
hum corpo de muitas companhias governado por hora 
Coronel. Retaguarda he a parte do exercito y que 
marcha nas coftas da batalha para guardar , e itn^ 
pedir os que auizerem defertar do campo. Retirada 
he huma trincheira formada de dous parapeitos com 
hum angulo reintrante , algumas vezes com foíTo 
guarnecido de parapeito , a qual fe faz nos lugares ^ 
em que íe dilputa o terreno , palmo a palmo. JRe- 
velim he huma pequena obra triangular compofta 
de duas faces : tabricâo*íe ordinariamente fobre o 
angulo reintrante do foflTo: diante da cortina. ReviJ^^ 
ta he a moftra das companhias em forma para ver 
fe eftáo completas ^ e em bom eftado ^ ou para lhes 
pagar. Revejlir he cercar huma obra com bom inu«* 
ro , ou com ceftões de terra. Rolar he mandar al- 
ternativamente , o que fuccede ^ quando fe acbão 
muitos Oíficiaes de igual Patente , e reputação , e 
fe lhes ordena que governe hum dia hum , e outro 
dia o outro , para que nâo haja em algum delles 
defconfiança da eftimação do feu preftimo , e mere-* 
cimento. Ronda he huma guarda de noite , que o 
OíEcial faz á roda da Praça fobre o parapeito , otl 
reparo delia , para obfervar a fidelidade, e vigilan-^ 
cia das fentineías. Reparo he a terra calcada , e bera 
folida,^ fobre a qual roda a artilharia, e fe fórmaa 
guarnição de huma Praça para a fua defeza, e m^iÉ 
funções militares , a qual pela parte do campo he 
guarneci4a á% mpr^lha. de cantaria. :. vós chamais 

mu? 



(6s) 

muralhas a tudo o que hc muralha , e reparo fera 
diftinção alguma j tendo muita , porque a muralha 
he hum muro de cantaria efcarpado com boa capa- 
ta , € lanços compridos para dentro y que o fuftentâo , 
e fe ligão com outros , e eftes vazios íe enchem de 
terra bem calcada^ efolida, ecfte he o reparo, tão 
largo ordinariamente , que fobre elle fe faz exercí- 
cio a muitos Regimentos , e fe formão novas obras 
deftruidas as primeiras. 



SJca de terra he hum faço de panno groflb , que 
leve pê e meio cubico de terra: ferve em varias 
occaíiòes , principalmente para fe cubrirem á preíTa 
contra o fogo dos inimigos. Salchicba he hum chou* 
rico de panno muito comprido com a coftura alca- 
troada , e cheio de pólvora : a fwa groíTura he de 
pouco mais que huma bala de mofquete : hum dos 
feus extremos fe mette na mina , fornilho , caixão 
de bombas , &c. e outro extremo fe eftende até o 
lugar j em que fe acha o Mineiro , que lhe ha de 
dar fogo. SalcbicbÕes são molhos de toda a cafta de 
madeira atados pelo meio , e pelos extremos , os 
quaes fervem em lugar de fachinas. Salvaguarda he 
huma guarda , que o General do exercito dá á al- 
gumas terras, que reduzio á obediência doíeuPrin- 
cipe , para os defender das tropas do mefmo , que 
por ignorância os podem invadir: também as coftu- 
mão dar osGeneraes a Conventos, e outras peífoas 
por benevolência , ou empenhos^ Sangrar hum fojfo 
he efgotallo da agua por caminhos fubterraneos , 
para que afllm lepofla piflar^ lattamdo primeiro fo« 
Tom. VIL Fiii \^t^ 



( 66') 

bre o lodo ramagens , vergonteas , ou ponte de jaa^ 
CO. Santo he o final de nome, que fe dá cada noite 
no exercito , ou na Praça pelo Official de tnaior 
graduação , o qual fe communlca em fegredo aos 
Oíficiaes , e foldados das guardas para fe aflegura» 
rcm contra as fobprezas , e communicaç6es do ini- 
migo , ou efpias. Sapa he a abertura , que fe faz na 
explanada, eeftrada encuberta: forma- fe de madei- 
ros , taboas , ramos , e terra para defender dos fo- 
gos artificiaes do inimigo: abre-fe deitando a terra 
para huma, e outra parte, e comella mefma fevâo 
cubrindo, e amparando. Segundo flanco hehumapaiw 
te da cortina , que defende obliquamente a face do 
baluarte oppoílo. Sentinelas perdidas são os folda- 
dos de cavallo tirados das companhias , que fe adi- 
antão ás tropas mandadas occupar algum poílo. Ser^ 
ra-fila he a ultima fileira de hum efquadráo. Sitio 
he o acampamento de hum exercito á roda de hu- 
ma Praça , que fe quer atacar. Soccorrer a Praça he 
fazer levantar o fitio. Senha , e Contrafenha he hum 
final, que dá o Official juntamente com o Santo pa- 
ra fe conhecerem melhor os inimigos , quando íe 
encontrão de noite. Sortida he a marcha das tropas 
da Praça , que fahem a aíFaltar o trabalho dos fitia- 
dores , póftos , alojamentos , aproches , quartéis ^ 
&c. 

T 

TAhoSes são groíTas pranchas, de que fe cobrem 
as plataformas para fuftentarem o rodar das 
carretas , impedindo que com o pezo dos canhões 
& não encravem as rodas na terra. Talud , veja-fe 
^fcarpa. Tempo he hum canado cqmo hum fogue«^^ 

te*' 



te i que fe mette no ouvido dos petardos ] e das 
bombas para por elle lhes dar fogo. Tenalha dobre j 
ou flanqueada , he huma obra , que tem na frente 

3uatro faces, que feflanqueão reciprocamente cada 
uas , e formão dous ângulos reintrantes , e trez fa* 
lientes. Tenalha Jlmples he huma obra , que tem na 
frente dous ângulos falientes , e hum reintrante , e 
fe compõe de duas faces. Terrapleno do reparo he a 
fuperficie horizontal do reparo, por onde andão os 
Toldados , e labora a artilharia. Tejlemunba he hu- 
ma certa altura de terra , que íe deixa no foíTo , ou 
em outra qualquer parte, donde fe tira terra, para 
que pela tal altura fe poíTa ver a da terra , que fe 
tirou. Tirar á barba he atirar por fima do parapei- 
to. Torre concava^ ou Cafamata^ he huma redonde- 
za formada pelo flanco retifado , e de dous fegmen« 
tos da cortina , e orelhão : nella fe poe mofquete- 
ria , e artilharia para defender a face do baluarte 
oppofto , foíFo , e eftrada encuberta , e vem a fer o 
xnefmo flanco retirado. Travejfa em fua fignificação 
geral he hum prolongado de terra levantada ou den- 
tro do baluarte, ou fobre a cortina, ou dentro da 
eftrada encuberta , ou em outra qualquer parte en- 
fiada do inimigo para fecubrir contra elle; mas or- 
dinariamente fignifica caminho de communicação, 
ifto he , hum pequeno foflb guarnecido de parapei- 
to, algumas vezes de ambos os lados, o qual atra- 
veflao foíTo do corpo da Praça , humas vezes cu- 
berto de pranchas carregadas de terra , outras ve-- 
zes fem eífe reíguardo. Os fitiadores fe fervem def- 
tes caminhos, ou traveífas para conduzirem os Mi- 
neiros cubertos até á face do baluarte ^ e por efta 



(6Z) 

razão fe chama algumas vezes Galeria , ou Líntii 
fortificada por fachinas , facos de terra y cefiôes , &c. 
Treim^ a que erradamente chamais trem, na paz he 
huma cafa , em que fe guardâo as armas todas ^ e 
o neceflario para elias : na campanha he hum lugar 
fora do tiro de canhão , em que eftão as munições 
de boca , e guerra , fogos artificiaes , artilharia y e 
tudo o que lhe pertence com guardas. Trem de cam^ 
fanha he tudo oneceflfario paraella, e em particular 
dizemos trem de artilharia y trem de bagagem , Scc 
e trem abfolutamente he tudo o neceíTario para o 
exercito, e função, para que marcha. Trincheira hc 
huma profundidade, ou foíTo, que os íitiadores fa- 
zem para chegarem cubertos á Praça , que querem 
atacar : algumas vezes fe fazem as trincheiras de ce£^ 
toes , facos de terra , ftcos de lã , falchichas , &a 
Trincbeirauwíto y veja-íe Retirada. 



VAnguarda he huma parte do exercito , que 
marcha diante do corpo da batalha. 
Para melhor vos explicar nas Conferencias fe- 
guintes o muito , e goftofo., util , e neceíTario per- 
tencente a todas as operações militares , e fortifi* 
cação, neceflito explicar- vos as medidas, e os feas 
nomes. Linha vale doze pontos. Pollegada he o com- 
primento de doze grãos de cevada poftos em huma 
linha, e juntos pelas fuás groíTuras. Palma são trez 
poUegadas regias. Palmo são oito poUegadas regias» 
Pé régio são doze pollegadas. Pé régio quadrado sâo 
cento e quarenta e quatro pollegadas quadradas. Pé 
cubico são 4I1Í1 íetecentas e vinte e oito pollegadas» 



Paffo andante são dons pés régios e meio. Pajp) cem^ 
mum he o mefmo ^ fe bem algumas vezes fe enten- 
de por elle trez pés geométricos. Pajfo geométrico 
são finco pés geométricos , ou régios. Covado he o 
comprimento de pé e meio. Covado geométrico são 
féis pés régios 9 ou feiscovadoscommnns. O grande 
covado são treze pés régios e meio, ou nove cova- 
dos communs. Braça são íeis pés régios. Toeza he 
o mefmo. Toeza quadrada são trinta e féis pés qua- 
drados. Toeza cubica são duzentos e dezeíeis pés 
cúbicos. Verga são dez pés geométricos : em algu* 
mas partes de Alemanha são doze, quinze, edeze- 
féis pés. Pereba são trez toezas , e algumas vezes 
vinte até vinte e dous pés régios. EJladio em Gré- 
cia era a diitancia de cento e vinte finco pés geomé- 
tricos. Parafanga medida da Perfia confta de trinta 
eftadios. Jugada são novecentas toezas quadradas. 
Légua he differente no numero dos paflbs em quafi 
todas as nações ^ e já diflb tiveftes noticia em outra 
Conferencia , agora bafta repetir que a das Hefpa- 
nhas confta de trez mil quatrocentos e vinte e oito 
paíFos, e na verdade confia dos paflbs que querem, 
porque em toda a Hefpanha não ha huma fó légua 
regular, medida, c certa. 

Todas as Praças de armas regulares , ou irre- 
gulares , (nomes , que já vos expliquei) tem fuás 
yentagens, e defeitos. O grande ThamazKoulikan, 
infigne Engenheiro , defenhou hum novo methoda 
4e fortificações , contra o que efcrevêrão hefta mi^ 
teria mil cento e dezenove Authores de todas as 
nações da Europa ; e fe bem julgarão muitos Enge- 
nheiros Hollaadezes.que ló aqaelle methodo nãa^ 

\2^ 



(70) 

tinha defeito , e era incooqniftaTel • Praça edíSoi» 
da com aquelle defenho y de que vos darei noticMi 
e figurr, Jorge Lalmet , Alemão Engenheiro infi* 
gn^ , prometteo ao Thamaz moftrar-Ihe coma lè 
podia render , quando ella fe acabafle , maa amboi 
acabárKo a vida primeiro. As Praças fitiiadaa em 
montanhas não podem íer minadas facilmente , ot 
íitiadores matâo«>fe na condacção da artilharia, qual* 
quer pequena. guarnição as defende j defcobrem o 
inimigo muito aoi longe , e podem impedir-'lhe à 
chegar, gozáó bons ares, não podem fer aflaltadat 
com efcadas , são bem fuccedidos fempre nas fortH* 
das , e necei&tão poucas obras para ferem bem íbrl 
tificadas ; mas ordinariamente não tem agua , he moi^ 
to difficultofa a conducçâb dos riveres , mutiiçòes^^ 
c introducçáo de íbccorro , os tiros para baixo fa^ 
zem pouco efieito, e os inimigos facilmente fe aUv 
jâo debaixo da artilharia. As Praças fitnadas na eí^ 
carpa de alguma rçôntanha, contra a opinião de al^ 
guns teimofos, sáo as melhores, porque ordinária^ 
mente tem boa agua j facilmente fe lhe introduzem 
viveres , munições , e foccorros , e tendo ( como de» 
vem ter) no alto da montanha Forte comeftrada dç 
communicaçâo , traveíTa , ou linha , fe o inimigo a 
entrar , não pôde fubfiftir , porque do Forte o hão 
de bater até defalojar: fó tem o defeito, que tom** 
do o Forte , eftá tomada a Praça ; porém tomar o 
Forte he a coufa mais difficultofa j como confidera* 
nos na Praça fituada no alto de hum monte» Aí 
Pjaça edificada em campo plano fem montes cavala 
leirois:, arvores , nem impedimentos julgarão mat< 
tos qne são cxccilepteS' } porém a experiência teni 

mof- 



(71) 

tnoftrado que são as peiores , porque além de fe- 
rem expoftas a baterias por todos os lados , por to- 
dos elles podem fer minadas y e lhes podem impe- 
dir os foccorros: acalma, efrio nellas he exccflivo, 
e fó quem nunca vio defpedir huma bomba deixará 
de lhe introduzir mil cada hora, tendo muitos* mor- 
teiros. As Praças fituadas em fitios alagadiços tem 
as me(hias y e mais ventagens que as fiindadas fobre 
montes , porque abfolutamentc não podem íer mina^ 
das y nem batidas com aproches , mas neceílltão mafs 
provimento de quinnaquinna , do que pólvora : he 
quaíi impoíEvel (bccorrellas j cuftâo dobrado a fa-* 
bricar, porque fe fundão em eftacas , em tempo de 
ceadas contínuas tem grande perigo por aíTalto , e 
boqueio. Ás Praças cercadas de mar são inexpug- 
náveis de Inverno , tendo viveres , mas no Verão , 
ainda que os tenhao y são as mais fujeitas a doenças , 
corrupções de alimentos y e menos capazes de foc-' 
corros. As Praças fituadas fobre margem de rio jul** 
gão os modernos ferem as melhores, mas a experi-* 
encia lhes moftrou emFlandes, e Alemanha que são 
as peiores , e quando lhes pareceo era fácil o íoc- 
cofro , excellentes para a defeza com pouca gente ^ 
e difficil ao inimigo opprimlllas por terra y, e agua, 
acharão que dominado com duas baterias , e poucas 
barcas o rio , era impoíllvel o íoccorro lem huma 
batalha , e fem ella , nem trabalhos grandes do ini- 
migo fc rendia a guarnição doente, e fatigada, de- 
vendo fer muita. Antes da invenção da pólvora to- 
das as Praças erão fortes, e muitas inexpugnáveis, 
tendo bons, e muitos defenfores; hoje as verdadei- 
ras Praças são os exércitos , as inexpugnáveis os comr 



(70 

poftos de Cabos 9 e Toldados fieis ao Rei, á pátria ^ 
e honra : cufta hiima Praça o que antigamente cq(^ 
tavão mil , já não tem numero a multiplicidade de 
obras interiores , e exteriores j mas todas (como coih 
fefsáo os mefmos , que as inventarão) de mais , oa 
menos facíl mina, ataque, econquifta, de forte que 
íe gaftão vinte, e mais annos em edificar com o ul- 
timo primor moderno o que em vinte , ou menos 
dias fe vê deftruido : aíEm o lamenta Alemanha ^ 
Flandes, Itália, e França, quando o irregulariffimo 
Caftello de Villa-Viçofa, por fer obra antiga, nâo 
obftante todos os defeitos , que lhe confiderão os 
modernos, ecriticos, conferva o nobíliflimo padrão 
(efcrito com balas cravadas no formigão dos fetis 
chamados baluartes) de inexpugnável, e viéloriofo 
de hum exercito Real dos maiores , que Hefpanha 
mandou contra efte Reino , defde a lua fundação. 
Ifto fuppofto, como o meu intento , e emprego não 
he enfinar-vos a defenhar, e fazer Praças , mas íim 
o de que ellas conftão , e como fe conquiftâo , ex- 
plicar- vos hei primeiro o que &ão armas de fogo, e 
o trabalho de as conduzir, e laborar, que tudo ig- 
norais, e depois vos direi os incríveis trabalhos, e 
modos , com que os fitiadores expugnão , e os iitia- 
dos fe defendem. 



LISBOA , Na Oflicina de Miguel Manefcal da 
Cofta, Impreflbr do S. OíRcio. Anno 1763. 

Com todas as licenças necejfarias. 




( 73 ) 

CONFERENCIA VIL 



Ebaixo do óome peça de artilharia fc en^ 
tendem as peças de quarenta e oito libras 
de bala ^ de trinta e íeis , rinte e quatro, 
dezoito y doze, íeis, quatro, e duas. He 
coufa .geral que todas eftas peças alcanção trezen- 
tas e fincoenta toezas de ponto em branco , e que 
fendo atiradas de cem até cento e rinte toezas^ 
ptffsâo duas toezas de boa terra , duas e meia fe a 
terra não he tão boa , e trez até quatro fe a terra 
he muito folta. A carga da peça de quarenta e oi* 
to são trinta e duas libras de pólvora , e a carga 
para a provar sâo trinta e íeis libras : a peça de 
trinta e íeis leva vinte e quatro libras de pólvora , 
e para as outras mais peças fe contâo fempre os 
dous terços do pezo da bala , aíEm a de vinte e 
<{mitro fe carrega com dezefeis libras de pólvora ^ 
&c. e no que toca á prova deftas peças , fe iguala 
neífa função a pólvora ao pezo da bala. Huma pe- 
ça de quarenta e oito péza fete mil libras , e para 
marchar neceíEta vinte e quatro pares de cavallos , 
ou malas, e tem de comprimento doze pés régios : 
á peça .de trinta e féis péza íii^ico miJ e duzentas 
libras, he tirada por dezoito pares de cavallos, oa 
mulas, e tem de comprido onze pés régios: a peça 
de vinte e quatro péza quatro mil e quinhentas li- 
bras, he tirada por doze tiros de cavallos, ou mu^^ 
las, e tem de comprimento dez pés^ régios ; de for- 
te que para cada duas libras de bala he neceífario 
Tom. VIL G hum 



i»* 



(76) 

itizem faltar f<5ra com pancadas os íitiados ', que fa- 
bem expor as vidas com honras : alguns carrcfgão os 
petardos de outro modo, porém cfte he o melhor. 
No que refpeita^ ás bocas dos petardos , hims a<^cttl 
mais larga do que a culatra, eftes fazem grande bre^ 
cha , não coftumão arrebentar , mas não tem tanti 
força como os fegundos , que tem a hbca igiral li 
culatra na largura , e groíTura : os terceiros- teth t 
culatra mais larga que a boca , arrebentâo facilinen^ 
te y pezão muito , e fazem menos eíFeito. O tnõdtf 
de os pôr nas portas he hnma das acções mais vIk 
leroías , e honradas da guerra , porque ha de ficar 
feguro com verrumas de ferro pelas argolas, oa a* 
zas de forte que oimpulfo o hâo fepare da porta, e 
jfto ordinariamente não (e obra em pouco tempo, 
nem os defenfores das Praças sSò como os Ciehtios 
de Alorna , que então fouberão que havia petardos 
no mundo , quando virão de repente as portas áe€- 
pedaçadas. No que refpeíta ás armas de atirar á es- 
ra , os arcabuzes de murrão , os mofquetôês , e mo(- 
quetes são bons para os íitiados , porque os defcan- 
ção nos parapeitos , por ferem muito pczados , e 
atirarem com bala de maior lote; mas para osfitia* 
dores as melhores armas são as efpingai-das deDie-* 
pe , que não fazem repucho algum , lánção a bala 
ao menos na mefma diftancia, em que o mofquetfe^ 
que são cento e vinte até cento e íincoenta toezas. 
Jáfabeis o que s^ morteiros, huns tem a boca igual 
ao íiindo ,' e em tudo são hum canhão curto , ou- 
tros tem a boca mais larga , como os finos , e am* 
bos tem Authores infignes feus apaixonados: todos 
tem braços encaixados em fêmeas, ou groífos at^ 

gOr. 



i77) 

g<»fóeí filcos Buíarfeta^ pu íftrída dp^qaffQ red^ç^ 
^fift fc Jh«s kv^nt^r mai§ , qm moços abpc* p#fa je> 
Ce», ç^fípedjr € bpmtea c:.Wi .i?$is, PH menos p^pr 
y#gãp par:a ç»hir na P/aça:, *t^tie^ a^jamçorp ^ PH 
jcpíalquf r Qtttea psrtç , §«# feiwtend* deftfWíir , quafH 
49 *rr«jbpitaf : kvatH^-ÍP mais, eu JWPOQ^ fiom pAr 

mft9§ ^ qoe síQ bsfaaç.mbpw^r^ffaj^íJfiMída*^ 

-(flfiiaií elftrp) ag»ç»$las , * adfilgagarfa^ çw ,^wn fé 

pá do lioho ftm ;gUftr4**. O»0r$eirQ fe.çaírcga hflè- 
l^e 0we!lhor qiie puoca fio*?) a§ lifera? ,4e pólvora , que 
p fr^mheifTQ ordena , €QQÍi^«ra(^ a íÍQ4 fortaleza ^ 
o p^iO 4a bomba , a (4H^IWÍ9 .,, e idki.r^çiío .do teor 
^o, ou fogtitfie deíla , d« forte q<he d^r negra ceitt 
Aefta matéria ^e^aftai" t^niipo de balfe, õtigar hof 
jactens y perder .polroca , e d^f^credkar Éogenheiroa» 
Para atacar o-mort^eirp ít lhe levanta a boca para o 
XZfio , e depois ( alguns tEc^ohetros ) em lugar ds 
J>UKa lhe intrpduziem jiutna roda .dee Ráo^ cortiça^ 
xprdas > Í!Pc. bemjufta , otttfos.{eonfoímando-fe<:oai 
ã isxp.erieocia v^ue tçm já ^a polirpra.^ comprimeor 
4» dotíro', .elevação , ijempo ^ i&c. ) fem iíTo usSo 
Jogo dej^ca peneirai , i; iia índia i^e; toda a Ma 
húmida., neíla pôe atrAsada £§km ia mefma terra n 
(bomba «iciaís^ oumeno^taipertada jcom^oscalcaxlore^, 
« t^ca , rçomo tal^ux), fis^rma-^ife o ouvido deitado o 
jmo«t«kp para oahir nelle:toda ;a pólvora neceíTaria., 
pertence iao Engenheiro dar fogo ao tempo , ou ío- 
:guete da bomba, e ao Artilheiro á eícorva, quaa- 
Jjo elleordieoa, porque como a fabrica do tempo hp 
«brado* Engenheira , affimcomo -ê do petardo , coo- 
iíMrme • comfto^^ da matevria .deUe ^ £ íaa ducaF- 
Tom. VII. G iii ^âo 



( 78 ) 

Í;áo dá elle , c manda dar fogo. Leroferd dava dons 
egundos fogo ao tempo antes do ouvido j e nun- 
ca errou bandeirola , mas preparava a matéria fó,c 
nunca diíTe as quantidades, fendo asufuaes, outros 
dáo a ponto , mas todos errão fe a Praça , ataque^ 
alojamento , &c. nâo he muito grande. Efta hortH 
vel maquina, que tanto horrorizou os militares em 
outro tempo , hoje nada vale , como direi logo. Na;» 
da valem as bombas fe a guarnição, e moradores da 
Praça são muito déftros: cem mil (numero incrível, 
mas noticia conftante na Perfia , e Turquia ) lançoa 
Thamaz Koulikan em huma Praça fortiffima doa 
Othomanos em 1732 , ecahindo todas dentro, não 
rebentou huma fó, porque tinha dentro féis Eogo- 
nheiros tão a^ivos , que inftruírão até os meninos 
fia arte de as íuíFocar , e eftes fuffbcárão muitas mil 
Para melhor perceberes ifto heneceflario advertires 
x\ne as bombas tem dous effeitos, o primeiro arrui- 
nar telhados, cahindo fobre elles com o feu grande 
pezo , e ofegundo he arruinar paredes , e matar gen- 
te comos feus eftilhaços rebentando : o primeiro 
eflFeito fe evita tirando as pedras das ruas , ou lai^ 
çando arêa, ou terra fina fobre ellas, ecubrindo oa 
telhados com colchões , facos pouco cheios de là, 
terra , farelios , &c. de (orte que, quando cahira 
bomba , feja fácil a qualquer peflba o fuíFocalla. Nt» 
telhados da Ada, onde eftava a Praça de Turquia, 
e em todas as defta Fronteira he faciliíCma couík 
ÍuíFocar bombas nos telhados, porque todos são de 
pedras íbbre abobadas , ou muito groífas vigas , e 
alguns de tijolos fobreasmefmas, de (orte que aicK 
da pezando ^ bomba vinte arrobas^ os não arruina::, 

ca-- 



:( 79 ) 

cahlndo fobre lã j facos de terra , ou de ferradura , 
&c. -mas como a Praça das carnes , e mais viveres he 
o melhor naqueilas povoações, e todas as fuás mui- 
tas ruas y e clauftros de caiarias ( tendo aliás terra- 
dos de tijolos todas) não tem paredes , nem traves 
para fuftentarem a queda de bombas de quinze y e 
maia arrobas , de que ufou o Thamaz j fundidas el- 
las , e os feus monftruofos morteiros nos meímos 
«alojamentos y e ataques do íitio , ondç ficárSo huns 
arrebentados , e encravados outros , apenas cahírão 
as primeiras bombas , e f e conheceo o perigo , cn^ 
cbêrão as ruas demaftros aplumo, e de huns a ou- 
tros paífárâo cordas com tal deftreza , que forma- 
(Tâo huma rede efpeífa , que cubrírão com colchões , 
• cfacos Jemelhantes a colchões da matéria ji dita, 
.tudo molhado em vinagre até onde chegou o que 
havia na Praça , e na falta delle com agua quente, 
em que fervião o efterco doscavallos, que naquelte 
Paiz fe alimentão com oriza , trigo, e legumes agref- 
tes, de que reíulta oíeu efterco feder a azedo mais 
que o vinagre. Omefmo fefez nas muralhas; e por- 
que os roídos deftas fica vão mais altos , e podião pe* 
netrallos pelos lados os eítilhaços , cubrírão eftes com 
jceftões de terra não como os communs na campa- 
nha, que depois vos explicarei , mas fim como os cu- 
bos , em que vem a Lisboa a fruta : fobre eftes tol- 
dos de cordas , e colchões fobreditos fazião fubir 
cada hora cem peflbas , em que entravão foldadós, 
paifanos , e meninos , numero fufficiente para fuflFo- 
car cento e feflenta bombas , qne era o menos , qu« 
Thamaz fazia lançar fobre a Praça em huma hora: 
tinhão vazilhas cheias da dita agua ^ e fempre quen- 



(8o) 

te, qoe miiiiílravJoasfníilhefcs poretttréoscêftiSãB^ 
iiella molharão cold^s , cuhercorei; doèrado^^ Ioê^ 
^oes ^ e toda a roupa , de imte qoe^ ;qnaiidio mhtt 
•haraa isomba , immedíatametite cabião foinre eUii 
apiinze.) rnue^^eoiais peflToas, cada hum eoaia fiúa 
xolcha , LeoçoeB , &c. bem molbadoscom fumina g^ 
-caria , ifaror , e emolaçâo a fnâbcalla oiaís do Iqne 
•o £iriao ie no iiseraio fitto icalhífle homa holià ^oa 
mil dobrões , e a hoiireíe de ^ozar o qoe iprimeiíiD 
dhe apertaíle m ixica. Thamax vendo 4iâo faziSb ie& 
ieito , mandou teoiperar de^fgrte os tempos j oa f»- 
«iie£es^ .qtue arrebentaiTem as bomlsas apenas cáhi^ 
•lem nos toldos j ou no ar antes de tocatlos. Suípei» 
.tárâo na E^aça efte arbítrio os Engenheiros, vendo 
ja tardança , eque depois delia fó vinha huma bcnn^ 
-ba j ordenarão que íe proftraílem todos nós toldos , 
e ninguém enTpreheQdeíTefuffòcalla., o que feito, vir 
Tão arrebentara no ar quaíi duas varas aí&ma do 
toldo : Teguio-íe logo hum chuveiro delias com o 
iinefmo«effeito, ávifta do que defcerâo todos os que 
cftavâo nos toldos -^ djâixando os colchões bem -ala-* 
gados , e tendo cuidado de os alagar de trez em tree 
^quartos. Temperiráo os fitiadores ainda melhor oo 
tempos , de force que arrebentav:ão em meia vara , ^ 
-pouoo flKii^ «de altura ibbre os toldos y fem chegi^ 
rem a tocaltos , deque fe íeguio >impedir aos iki»* 
dos o molhar bem os colchões , e padecerem o riÇ^ 
có de arderem eftes , e toda a rede., em que tinhão 
difpendido todo o couro dasbuxas , e toda a roupa 
cm tiras , porque até dos cortinados , e almofadas 
de fedas preciofasfefízerâo cordas ; porém tudo re- 
*mediou a^doftresa dos 'finados , findando de bruçoft 

3pf- co- 



(8i) 

como cobras febre os colchões , molhando buns, vK 
rando oiitros , e ncftc horrível trabalho piaíTárão trin» 
ta efeis dias, até que cnvcÃida quatro Tezes peios 
fitiadores a brccb* , mòrtos.t-rtntamil dejles no em^ 
penhó de montaHar, chegou -a noticia da pázentrc 
o Gráo Turco , e o PeTÍa^ levantou Thamaz o fi- 
tfo tSd^íaivofo , que irando» rebentar huns mortei- 
ros y encravar outros , onrefmo fez aos canhões mon& 
trtiofos , qtie fundio no campo , -c era impoíEvel con^ 
dtfzillos aHiffpahan, pára onde caminhou pela poíc- 
ta , e fe acclamou Rei da Per/ra , como diremos t 
fen tempo. Os carcazes bem feitos sâo peiores que 
-as bombas , e fendo bem temperado o tempo com 
ft díftancia, não bafta deitar-fe agente de bruços no 
xhâo -para evitar o damno., coiro Idccede com ais 
bombas, porque eftas fe nâo arrebentâo no ar, le^ 
vantâo-fe muito do chão antes de arrebentarem^ e 
não oíFendem os que ei^âo deitados , porque fempre 
arrebentâo para as ilhargas ; mas os carcâzes bem 
temperadcs arrebentâo para todas as partes colla- 
teraes , inferiores , e luperiores , e fó eícapa do feii 
efl?eito quem íe deita cuberto com hum colchão, on 
lhe lança emíima hum colchão molhado , porque são 
mais fáceis defufPocar do que as bombas, oquepro'^ 
cede de ler o tempo dos carcazes mais comprido, 
e profundado no faço, além de arrebentarem incom*- 
paravelmente com menos força , do que as bombas, 
porque a pólvora ^nelks eftá muito pouco opprimi- 
da, e padece menos violência do que na panella de 
ferro. As-granadas são bombas pequenas , as maio- 
Tes delias fe lanção coni morteiros pequenos , cha* 
mados morteiroa de bombas y e as ordinarias-com a. 

mão :; 



mão : fuffbcáo-fe como as bombas , e os mais dé& 
tros j e intrépidos (como erâo os memoráveis de^ 
fenfores do CafteHo deVilla-Viçofa) apenas cahein 
no dhâo, pegão nellas^ cantes que fe acabe o tem^ 
poy asiançâo fobre os inimigos, tíu nosfoíTos, oor 
de arrebentáo femcaufaremdamno. Depois que co^ 
do o mundo ufou de pólvora , prefcreveojtfftameatc 
á fortificação antiga j e a moderna em cada naçáo 
teve^. tem j e teri tempre djfferente defenho , e figtir 
ra y e tão difièrentes sâo ^ e ferâo as Praças , aindt 
fios mefmos Reinos 9 como os Engenheiros , que at 
deíenháráo, e os Authores, a quem feguírão , pro» 
vando cada hum com arrazoes, e experiências deC* 
tes que sáo melhores , e mais Qteis para a defèzc 
as fuás obras : concordâo todos no eíFencial , dífit> 
rem nos accidentes , que nefta matéria o sâo unicar 
mente, para explicar-me , porque nefta (ciência tor 
do he fubftancia , e até os modos o sâo para coiir 
fervar.aCoroa, a honra, e a vida. A primeira cou- 
fa eflenctal são as portas: nifto convém os Authòrea 
todos, mas difcordão no íitio, em que devem fer, 
e numero delias : as melhores são no meio das cor- 
tinas com boas abobadas debaixo do reparo , e enoi 
volta , para que o petardo , ou canhão não rompa de 
huma vez duas portas , o que fuccederia fe eAivelFem 
em linha re£la : no ineio fe fufpendem órgãos , que 
fedeixãocahir, quando he neceflTario, para impedir 
a entrada da (egunda porta , fc o inimigo rompe ft 
prifneira : jnos lados deita abobada eftão duas, que 
são os corpos de guarda, em que affiftem os folda- 
dos, cujo valor sao as verdadeiras portas: eftas sâo 
de carvaibo de trez ^oo quatro. pranchas bem jua-^ 

■ ij': tas* 



(83) 
tas, pregadas com grolTos pregos , ligadas comfon- 
tes chapas de ferro : em hum dos lados tem o pof- 
tigo de trez pés c meio de alto , c trcz de largo j 
fcKire o qual fe deixfio dous, ou trez buracos, que 
íefechãp por dentro, para verem as fentinelas quem 
cftá de fora antes que ar porta íe abra. As melho- 
res Praças são as quê tem menos portas , porque af«- 
fim evitâo o terem> muitas corpos de guarda, emul* 
^licar cuidados çmtaotas iuterprezas, quantas são 
m portas. Fara^^evitar eftas (fendo a porta cubertt 
com bum bom revelim) fe p6e ordinarÍ9 mente no meio 
delia hum grande corpo de guarda : alguns deftes 
corpos (e s^o os melhores) coftumâo ler guame- 
ddos de muralha com feteiras , de que fe fervem 
os foldados como de hum reduâo , retirando^íe a 
dle , quando já nâo podem fuftehtar o fogo do ini^ 
migo , e efia muralha para fer boa tem feu foífo de 
duas toezas de largo para. maior fegurança ; mas 
quando as portas não são cubertas comrevelins*, fé 
põe hum corpo de guarda no meio da ponte iobre 
traves de carvalho , ieparado do reifto da pente por 
outra levadjça : na entrada da primeira porta ha 
outro corpo de guarda, outro debaixo da porta, por 
opde fe fahe immediatamente .á Çraça , ç ejp. çafo. d^ 
aperto outro no íitio mais próximo, além do prin- 
cipal , que aLcqde a tpdo : cada corpo da guarda tem 
huma, ou duas chaminés, etarima alta para fe dei- 
tarem , caía i parte para o Cabo da guarda , fenda 
Alferes, Ajudante, edahi para fima*. A pólvora tem 
feus armazéns i parte em differentes lugares apar- 
tados do arfenal , em que fe guardâo os canhões , e 
armas : cofiumâo fer debaixo dos reparos cubertos 

coa 



( 84 ) 

com fortifliinas abobadas provadas com toda a ca& 
ta de bombas , e além diíTo íe cobrem de terra pa« 
ra aniquilar a força das bombas : eftes armazéns sáo 
forrados de groílas pranchas de carvalho para evi* 
tar a humidade , e por fer a madeira^ em que mtis 
devagar entra o fogo: sâocercados de fegundo òm^ 
ro, ctem íó humas freftas obliquas com fortes gra- 
des de ferro ^ e tem fentinellas continuas , como tam- 
bém os das munições , e viveres^ que fó sáo bóm^ 
fendo como os da pólvora ^ excepto o ferem cerc»^ 
dos de muro , porque nâo ha nelies o mefmo perÊ^ 
go. Os melhores quartéis são os de abobadas pro- 
vadas , com repartimentos de groflas paredes para 
evitar o fogo , que fe pôde atear em qualquer del^ 
les , e communicar-fe a todos fe nâo tiver eíle im- 
pedimento: em cada hum fe alojâo feís foldados em 
duas tarimas , que fendo mais ha defordens ,. e tci** 
mas : nâo tem janellas , para que os nâo penetre o 
Sol no Eftio j e o frio no Inverno : os melhores tem 
chaminés ^ e sao fabricados junto aos reparos , pa* 
ra que os foldados eííejio fempre mais promptos^ 
e vizinhos para defendellos. 



LISBOA , Na Oficina de Miguel Manefcal dâ 
Cofta, ImpreflTor do S. OiEcio. Anno 176^^. 

Com todas as licenças necejf árias. 



• \ 



i . ..j 



(8f ) 

CONFERENCIA VIIL 

NAs melhores Praças coftiimSo fazcr-fe as 
contraminas juntamente com todas as mais 
obras , porque entSo cuftão incomparavel- 
mente menos a obrar do que no tempo do 
fitio : as que nafcem com a Praça podem fer taes, 
cantas , e tão bem deíenhadas , que o inimigo náo 
forme aproche , bateria , ou alojamento , que lhe 
nâo facão voar : as que fe ^zem com incrivel tra- 
balho no tempo do íitio , fe profundâo até o olivel 
da agua do «foíTo ; e fe he feco , até o feu fundo: 
formâo-fe parallelas as faces aos flancos , e ás go* 
las, de íbrte aue formão o defenho de hum fegun* 
do baluarte ataftado do reveftimento do primeiro 
em diftancia de nove até dez pés da parte da Pra- 

fa : a fua altura he quatro pés , e trez de largura. 
>eftes caminhos fubterraneos nafcem outros, a que 
chamâo ramos , que chegâo a topar na camiza do 
reparo, os quaes fe fazem para efcntar de que lado 
vem minando o inimigo; e conhecendo aparte, por 
onde vem, fe caminha em direitura a elle , fiirando 
o corpo da muralha com hum petardo unido a hu- 
ma boa trave , e aílim affidgentâo logo daquelle íi* 
tio; e fe achâo fornilha já feito com barris, ou ia- 
cos de pólvora , os tirão fe ha tempo para iíFo , aliás 
fe corta com toda a preflTa a falchicha , e fe lança 
muita agua fobre a pólvora , até que feita inútil , (e 
defmancna o fornilho, e reftaura odamno, que fez 
O inimigo no edificio. As pontes melhores são as 
• Tora. VII. H mais 



(U) 

mais baixas , e de madeira fobre pilares de pedn , 

porque as altas sâo facilmente defcubertas pelos fi- 

tiadores , e as de pedra difficultofamente fe cortSo 

em cafo de neceílidade: as levadiças são indifpenfft- 

Teis junto ás portas da Praça , e fe levantâo todu 

as noites com groflfas cadeas de ferro. Áa portas f«L- 

fas y que fe fazem no través do orelhão , ou junto 

do angulo da cortina por baixo do reparo , são de 

abobadas largas fete até nove pés , e igualmente at» 

tas : fendo o foflb fecd , delias fe defce logo ao ícb 

fundo ; mas fendo aquático y fe lhe faz huma pc* 

quena ponte pouco mais alta que o olivel da agua 

para ficar aíCm melhor cuberta. Na explanada fe fiiN 

zem humas roturas largas dez pés , pelas quaesfahe^ 

e fe recolhe agente, que vai ásfortidas, para o que 

íe fazem além do fbífo eftradas de groflas vigas pa* 

ra a gente montar a contra-efcarpa , e fahir á caoiv 

panha : aíEm as portas falfas y como as roturas são 

fechadas com cancellas de carvalho. Os ceftóes são 

de trez efpecies y dobres y fimplices , e meios ceftòes : 

os dobres são os que tem íete , ou oito pés de dia^ 

metro, enove, ou dez pés de alto: os fimplices não 

tem mais qtie finco y ou íeis pés de diâmetro y nem 

mais de íete até oito de alto: os meios ceftôes, ten*» 

do féis pés de alto, tem de diâmetro trez, quatrp^ 

e quando mais finco. O úiodo de os. fazer he faciU 

bulcão- íe eílacas de trez até quatro poUegadas de 

diâmetro proporcionadas á altura do ceftão , que fc 

pertende n^er , agudas na parte debaixo quafi quar 

iro poUegadas , e eítaddo promptas, crava-fe hana 

pique na terra, defcreve-fe o circulo com hum cofr 

iSel atado oelle> cravão-fe aseftacas no rifco do cíqi; 



( 87 ) 

ciilo em toda a circumferencia-) entrelação-fe com 
ramos de falgueiros verdes, começando pelo pé, e 
acabando antes das extremidades féis pollegadas, 
fica hum cubo fem fundo , e eftando acabado , fe le» 
ya para o lugar , em que he neceíTario , e fe enche 
de boa terra para ferm de parapeito contra as ba- 
las. Os ceftos ordinários , que tem fó hum pé de 
alto , mais largos no fundo que na boca , na qual 
fem doze pollegadas , eoito no fundo de diâmetro^ 
ou pelo contrario mais largos na boca do que no 
funao , sâo excellentes para cubrirem os Mofque- 
teiros nas Praças , e nos aproches , e quando os não 
ha, fe valem dos Tacos de terra. Os órgãos são me^ 
Ihores do que os raílilbos , já porque fe compõem de 
vigas mais groíTas , já também porque cada huma delia 
cahe por lua vez , e muito unida á outra , e o raí« 
tilho cahe todo junto. Os mais inílrumentos de de* 
feza , como barreiras , báculos , &c. aflfás vos expli** 
cuei no Âbcedario. A primeira , e trabalhofa obra 
C08 que eftâo (itiados em huma Praça depois dos 
preparos, vigias, e cautelas dobradas , sãoas cor* 
taduras, que entáo fe fazem, quando temem que o 
inimigo os obrigue a perder algum pofto, e fe aloje 
nelle : ha cortaduras geraes , particulares , regula- 
tes , e irregulares : as primeiras , e regulares formão 
huma figura femelhante á com que o inimigo ataca: 
as particulares attendem ao pofto , que fe defende , 
(mais claro) demolido pelos inimigos hum baluarte, 
fefórma outro dentro na fua ruina, dentro de huma 
obra córnea outra da mefma efpecie , &c. de forte 
que efta palavra foa huma couía , e he outra , íoa 
folToy ou cava, ehe na realidade o contrario, por* 

Hii c^jie 



(88) 

qne he Iiama reftauraçâo tranfitoria do perdido con 
outro femelhante feito de ccfi6es , ceftos , íacos de 
terra y arcas , e baús cheios da mefma ^ eíkacas^ f» 
mos de anrores^ colchões 9 e tudo o que ininifti»à 
oeceffidade para efie ultimo remédio dòs íitiadcv; 
com a differença porém de que as cortaduras de quiU 
quer qualidade que fejâo hão de fer abertas para è 
parte da Praça para a ferventia y e mais baixas qim 
a primeira obra' perdida para nãòferem expoíbiar«ft 
inimigo. Â fegunda obra 9 a qne chamo fegunda ^ jMir 
fer menos trabalhofa na opintáo de muitos j sto ok 
contra- aproches , obra excellentiíCma , e que bafta 
para fazer levantar o maior íkio , quando na Pnot 
ha gente para tnda^ e para todo o trabalho. GrcSé 
qiie fó os Julga por obra de menos trabalho quem 
nunca os, fez 9 nem vio fazer , e para julgar o fea 
trabalho , e utilidade j bafta íaber que o maior exci«* 
citoficiador trabalha todo, e com fumma fadiga noi 
aproches , e eftes sâo os que' o afHigem de dia , e 
de noite, porquê nelles eftá pofta a fua total efpe** 
rança de abrir brecha , ganhar a eftrada encuDef«> 
ta , minar as obras , e muralha , e os fitiados y ane 
fieceí&tâo mais gente y acodem á defeza de toaoa 
os póftos y que todos y e qualquer delles podem íer 
dê noite, e de dia fobprendidos , e atacados^ ea» 
mefmo tempo fazem con tra- aproches , que sáo ou^ 
tros aproches no campo virados para o inimigo ^ 
e feus aproches paira lhe impedirem adiantallos ^ a» 
diantando os feus , matando os gaftadores , deí^ 
ffiontando?*lhe.oscanh6es, e'pondo*os em huma to^ 
tal defefperaçSo de ou levantar o fitio , ou envefti^ 
cem Qs contra-aproches ^ em que por força hâa dé 

per- 



(89) 

perder imiitos 9 e muitos mil homens ; e quando os 
ganhem 9 íe náo podem utilizar delles contra a Praça 
fem perderem outras tantas j ou mais vidas j porque 
como são abertos , ou delcubertos para a parte da 
Praça ^efta não perde bala nos que os entrarão , e 
querem preparar de forte queoffendão. Melhor per- 
cebereis ifto y quando logo tratarmos da fortificação 
offenílva j aproches , &c: Ás contramínas he a obra 
mais aftuciofa da guerra 9 e fortificação defenfiva y 
e fõbre todas a mais laboriofa : já vos expliquei as 
que fe fazem para aventar os fornilhos 9 e minas do 
inimigo 9 e as que me reftâo para vos dizer sáo as 
grandes 9 que em algumas Praças nafcêrâo com ellas : 
nas outras íe fazem cavando 9 rompendo a terra com 
incrível trabalho 9 fuftentando-a da parte de fima 
(excepto quando fe cava em piífarra 9 ou barreira 
íbliday que nâo tem perigo de cahir) com pranchas, 
e eftas nos lados com vigas , e barrotes até chegar 
debaixo de alguma bateria , ou alojamento do exer- 
cito inimigo, onde fe p6e niuitos barris de polvo^ 
ra 9 ou facos delia , e pofta a ialchicha , íe ataca a 
contramina com toda a cautela em grande diftan^ 
•cia 9 efe lhe dá fogo pela falchicha. A mais bem fuc« 
cedida contramina do noflb tempo foi a que fizerão 
DS Engenheiros deBergoopzoom noannode 1747 9 
que fez voar a melhor 9 e maior parte dos fitiado- 
res : eu fallei com hum foldado fidedigno j que fe 
achou neíta Praça em todo o tempo do fitio , c pc« 
dindo-lhe me explicaífe efla acção 9 que a Gazeta 
Portugueza referia com brevidade 9 me difie 9 que 
quando fe deo fogo a contramina 9 fazia muito ven^ 
to 9 tal 9 que levou immed ia ta mente o fumo da poi* 
Tom. VII. H iii vo- 



(90) 

vora , e o pouco pó da terra , que , por fcr qnafi pif- 
farra, o não produzio como qualquer outra, evirlo 
todos os que eftavâo nos reparos o ar cheio de íbl- 
dados cm pé tão direitos , e unidos , como cftavfio 
para avançar a Praça, fendo os que faziâo mais vit 
tofo o efpeftaculo os muitos Regimentos de Grans* 
deiros , e logo os virão também virar as cabeças ps» 
ra baixo todos , e fem união cahir difperfos , moiw 
tos j e defpedaçados , de forte que (acabava elle) 
já tinha vifto o medonho Cometa do tempo dos Ma^ 
chabeos compofto de verdadeiros homens armados; 
Algumas vezes fiiccede encontrar- fe com a mina dos 
fitiadores acontramina dosfitiados, e haver debaixo 
da terra hum combate entre os Mineiros de hum , c 
outro partido , matando*fe com as inchadas , e pi» 
caretas : aífim aconteceo no memorável fitio de Ala* ' 
zagâo y de que faltaremos a feu tempo. Em outras 
occafióes fuccede começar a contramina muito bai- 
xa , e paíTar á dos fitiadores fem fe encontrarem , nem 
os impedirem | c nefte cafo fempre o trabalho he bem 
empregado , porque dando-lhe fogo , deítroem a 
mina dos fitiadores totalmente : aflím o fizerão os 
Catalães cercados por Filippe IV. As contra- bate^ 
rias são o fruto dos contra«^aproches , cujo trabalha 
vos encareci , e melhor conhecereis na fortificação 
ofienfiva ; agora bafta dizer-vos que a mina de hu* 
ma Praça , pu campanha fe conhece pondo fobre o 
fitio, que feiufpeita eftão minando, huma caixa de 
guerra (a que vós chamais tambor, fendo efte o no- 
me próprio do que toca, enão do inftru mento) com 
huns dados «m uma , os quaey fe movem fubtiliflima- 
mente ^ e fazem na caixa hum leve fom todas as ve» 

zes> 



(91) 

2CS 9 qnc os Mineiros trabalhão. Também quando 
fe entra huma Praça por aflalto , ou brecha , e fuf- 
peicâo os vencedores que os vencidos deixarão as 
ruas, e outros fitios minados com falchichas lentas 
accezas, ou apagadas , ou (ó as minas feitas, o re*- 
medio para conhecer , e evitar efte perigo he man^ 
dar tocar huma caixa no principio da rua, ou íitio, 

3ue fe fuípeita eíbar minado , porque logo a grande 
ifFerença .do fom da caixa moftra que alii eftá lugar 
nenos cheio , ou totalmente vazio , e aílim fe vai. 
tocando em diverfas partes , obíervando o fom os 
Engenheiros , e fe defcobrem os hagares minados. 
As brechas são effeito das minas , e das baterias, 
cuja defeza he o nnico , <e mais laborioíb remédio 
dos fítia^dos, os quaes primeiro com cortaduras, de^ 
pois com abrolhos , ceítôes , panellas de fogo , ca* 
vallos de Friza , palliflTadas , ouriços , granadas , pe* 
dreiros , canhões , mofquetes, lenha , e carvSo em 
braza pela fubida da brecha , e tudo o mais , que 
pôde matar , defende que os íitiadores a montem; 
fe porém a multidão , e valor deftes , a pezar de mui- 
tas mil vidas , a fobem , e fe alojão nella , os íitia- 
dos fe retirSo para asr cortaduras , onde cuidão em 
repetir os tiros « lançar granadas , panellas, oubom-' 
bas, Scc para impedirem a fabrica do alojamento, 
e fubíiftencia do inimigo nelie ; porém não tendo 
effeito a defeza , c batendo já os íitiadores a corta- 
dura com protefto de paflTarem a guarnição á efpa- 
da y íe continuar na reíiftencia , faltando exercito ^ 
que íoccorra os íltiados , enveftindo as linhas , alo« 
jamentos, e baterias dos íitiadores , fazem os íitia- 

dos chamada ^ dão^-fe reféns mutuamente para a car 

pi- 



C 9* ) 

pitnlâçâo, e aíGnados os capitulos delia, fahetn os 
Sitiados pela brecha com mais , ou menos honras ^ 
conforme ajuftárão , e a neceíÉdade os obrigou « 
coníentirem. Adefeza da brecha, que íbí mais mo* 
inoravel em toda a Europa neílie feculo , e o fera 
^m todos os futuros , íem exemplo nas que contão 
as hiftorias eftranhas , foi a de Campo*Maior nefte 
Reino, de que cedo vos daremos indíTidual noticuu 
A fortificação o£Feníiva coníifte 4io alojamento d<^ 
exercito íitiador , nas circurtiraiaçôes , bateria^^^ •• 
proches, candíeiros^ mantas, pontes de junco , Ta- 
pas , galerias, minas, aíTaltos , e efcalas. Para o a* 
xrampamento , ou alojamento do exercito íitiador 
«ão neceíTarías muitas couías , que raras vezes fe 
achão juntas , e nem a maior parte delias , porque 
^uem edifica as Praças cuida em que a campanha ví^ 
zinha não tenha para osíltiadores coufaboa: a pri- 
meira he ^ que náo fique coufa aJguma do acamfMik 
mento entre montanhas ^ porque os fitiados , on ò 
feu exercito as pôde íenhorear; e fe nao pôde edi- 
tar- fe efte damno , he precifo que os fitiadores em 
cada monte formem huma bateria , coufa fum ma men-' 
te diíficultofa , e que lhe diminue as forças , o nn^ 
mero das peças , Scz. ou p6e em cada monte hum 
corpo de tropas alojadas , e fempre mal providas y 
efpecialmente de agua: a fegunda he, que o acam- 
pamento Ceja junto a algum rio , já pela commodi- 
dade da agua , já para evitar os fedores das carni* 
cerias, emaisimmundicias, quecorrompemosarea^ 
egerâo doenças contagiofas, mas ifto he o que ra^ 
ra vez feacha: a terceira he, que feja em lugar pla- 
Do y donde íe defcubra bem a rraça , e fe poíTa for- 
mar 



( 93 ) 
mar o exercito em batalha fe o dos fitíados vier en- 
veftillo : a qnarta , que feja em fitio abundante d€ 
lenha para cozinhar , eAacas para as baterias , e mais 
^bras, e de forragens para a Cavallaria, tudo cou- 
sas , que íó cm Alemanha , e Flandes fe achão jun*' 
tás perto dos acampamentos ', e muitas : a quinta^ 
4]ue tenha o campo muitos , ou alguns desfiladeiros : 
jdguns querem qué tenha hum fò para eftar mais fe^ 
^uroy como fe porefte fe pudeíTe conduzir tudo pa^- 
n tantos mil homens y e animaes. A falta de agua 
fe remedea laboriofamente com carros efcoltados de 
Dragões , ou obrigando os Paizanos vizinhos a que 
a conduzáo , tudo remédios failiveis : fe o campo 
Jbe alagadiço ^ remedea-fe o defeito com diques, 
refúgios j fangrias , aqueduâos , tudo obras tão 
cuftofas, eperigofaS) que excedem as outras todas 
na conquifta de muitas Praças : a falta de lenha , e 
forragens fe diftribue pelos homens do trem ^ e Ca- 
vallaria para a irem conduzir , efta as forragens nas 
.garupas , e aquelles a lenha nas beftas da bagagem , 
e artilharia ; porém ifto são acções tão perigoías , 
que ordinariamente fe o exercito dos íitiados eftá 
perto 9 (ainda que íeja pequeno) e as guardas dos 
povos j e Praças vizinhas , não tornâo para o exer- 
cito os que vão ã efte empenho y ou fe vol tão alguns j 
he fem forragem , nem lenha para melhor falvarem 
as vidas, e liberdade: as immundicias fe remedeâo 
enterrando-as ; mas ifto heoutro, e infupportavel tra- 
balho para quem de dra, c de noite tem muitos, e 
padece neceflidades ^ que sâoinnumersaveis todas as 
vezes , que o acampamento não tem rio próximo, 
lldhha j e forragens £íjd. perigo. Ifto íuppofto, para 

-;.. o 05- 



r-- 



O acampamento de hama Companhia de cem horaent 
he neceíTario hum terreno de trezentos pés régios 
de comprido, eWnte e quatro de largo ^ que fe t^ 
partem aí&m : quarenta pés para o alojamento do Cik 
pitáo\ vinte pés para a rua das bandeiras , e piques^, 
duzentos pés para ofi foldados y o refto , que sfe 
vinte pés 9 para cozinhas , e rÍTandeiros. Nadifpo* 
fição das barracas partem*íe os duzentos pés , qac 
|>ertencem aos foldados, em treZ' partes ignaes, de{^ 
tas a do 'meio he ma., e nas outras duas* dos Itfdot 
íe armão as barracas , tomando cada huma oito pét 
de comprido , finco até íeis de largo , ou menos de 
finco , todas com as portas para a rua , excepto a 
do Tenente, e Alferes, que atem para defronte do 
Capitão : íftas duas são as primeiras em cada rua , 
e logo as dos Sargentos : entre cada barraca fe dei* 
xa hum caminho , e fendo Inverno , as cercão com 
pequenos fofletes para as aguas. Para hum Regi* 
mento inteiro bem acampado fe pôe huma compa- 
nhia afafibada da outra oito , ou dez pés , o Coro- 
nel tem o feu alojamento nomeio dos Capitães, to* 
mando humefpaço de feflenta eoito até fetentajpés 
de largo, e quarenta de comprido, o Tenente Co« 
ronel t^m o feu alojamento defronte do Coronel ^ 
« detrás do Tenente Coronel fe deixa huma rua de 
dez pés' para oCapellão, e mais Oíficiaes da Fazen- 
da , fe acompanhão o Regimento: diftante dez pés 
defta fe deixa huma Praça de quarenta pés para co^ 
zinhas íeparadas da bagagem' do Coronel (que oc- 
cupa. outro tanto efpaço) por huma rua de dez pés. 
Defta íbrte fe aloja todo o exercito , deixando íincoAi 
enta pés de efpaço entre cadailegimento. A Cavala 

la- 



( 9S ) 
laria differe alguma couía no alojamento , e aíEm 
pára huma Companhia de oitenta Toldados decavallo 
fe toma omefmo efpaço^ que para a de Infantaria, 
que são trezentos pés de comprimento , roas a lar- 
gura he maior, porque são fetenta pés, que fe re- 
partem, dando quarenta para o Capitão, vinte pa- 
ra a rua detrás do feu alojamento , e duzentos pa- 
ra os foldados , íendo as primeiras barracas do Te- 
nente , e Alferes viradas para a do Capitão , como 
na Infantaria ,, e ãs mais para a rua: toda a Compa- 
nhia fe reparte neftas duas ordens de coáunodos , ca- 
da huma dasquaes confta de vinte barracas, porque 
em cada huma fe alojão dous foldados , e o mefmo 
he na Infantaria : nas coitas das barracas £cão as do$ 
cavalloa , nas quaes fe accommodão dous em cada 
hunla, e no fim da rua das barracas, e cavalharices 
fe deixa outra rua de vinte pés , e o refto para os 
vivandeiros. O General do exercito occupa no meio 
do acampamento huma Praça de trezentos pés de 
comprimento, efeiscentos de largo, i roda dofea 
alojamento fe deixa hum efpaço de duzentos e íin- 
coenta pés para Praça de armas , onde os foldados 
fejuntão em cafo deneceíEdade, etudo ifto fe cha- 
ma o Quartel da Corte. O General da Artilharia 
occupa outra Praça de trezentos pés de comprido, 
e quatrocentos e oitenta de largo. Os Officiaes fub- 
alternos , que não tem Regimentos , nem Compa- 
nhias , occupão hum efpaço proporcionado ao feu 
numero: a pólvora, e fogos artifíciaes são guarda- 
dos em redu6los , e a bagagem tem íua Praça fepa- 
râdá da maior grândezS pomvèl , déíprté que o gran- 
de oqmçrQ di$l)<ig^geUos y cí beftas do uem da ba- 



?. 



gagem ,€ artilharia fiquem bem accommodados^ por« 
ne fem elles j e cilas não fiibíifte o exercito , nem 
e pôde retirar, fenâo perdendo muitos milhões do 
Rei y e vaíTallos , que tanto importa o trem , e ba- 
gagens de hum corpo capaz deexpugnar humaPrt* 
ça. Eftemethodo de acampar he infallivel regra on» 
de ha terreno tão grande, que admitte eftas dift«n» 
cias, e medidas, que aliás náo o havendo, tado fe 
accommoda i pequenhez delle^ e pertence aos C»- 
oenheiros defenhar , como he poflivel , os comm»- 
dos, variando talvez o methodo em tudo. Onde ha 
Conventos , Palácios , quintas , ou Aldeãs proxi» 
inas j os Generaes difpensão o terreno , que lhes 
pertence j em beneficio dos Officiaes fubal ternos , Tol- 
dados , bagageiros , e vivandeiros , trem de tudo, 
e de todos , e fazem Qiiartel da Corte no melhor 
Convento, quinta^ ou Aldeã, e os outros Generaes 
na fua vizinhança. Acampado o exercito, íahem os 
Generaes com os Engenheiros , e boa efcoltS a re- 
conhecer a Praça , e determinar a parte mais pro- 
porcionada para osaproches, e baterias , o que fei- 
to , começão logo a fazer huma trincheira de efta- 
cas fortes em duas ordens , e terra no meio calca- 
da, a que chamáo circumvalaçâo , porque cerca to^ 
do o exercito , e o defende das fortidas dos.fitu- 
dos , que de dia , e noite o devem enveftir , e pei^ 
turbar as fuás obras, e do exercito, que fcdeveftií- 
peitar venha cada hora foccorrer os fitiados ^ e a^ 
fugentar os fitiadores. 



LISBOA, Na OfBcína de Miguel Manefcal da Çofta , Impreffor da 
Santo Officio. Anno 176}. C^m tóâas ãs iictÀgas mcejatias. 



(97) 

CONFERENCIA IX. 

» ■ I 

■ ! 

NO fnefino ternpo fe faz a contravalaçâo , que 
he hum foíCo guarnecido de parapeito j que 
corre por dentro da círcumvalaçâo : huma j 
e outra obra são largas ^ e profundas ^ con* 
forme as occafiôes o^permittem ^ mas ordinariamen- 
te tem quatro toezas de largo, e nove até dez pés 
die profundoT*. a altura , e largura do reparo, e do 
parapeito são proporcionadas, ao foflb , aquelle cof- 
tiima ter quatro toezas de largo 9 e dez pés de al- 
to^ e o parapeito . o meíhto,, fe ha commodidade pa-r 
rs :tan(K> , cjue tCQdo-^ ^ fSn&em: teinalhas ^ reduâos^ 
objrtsi ieftreila4âR f, j Q plataformas no foflb ^ em fim 
trabalha-fe femcenar até fazer de madeiros , terra , 
•eftóes y &Civhama Praça defronte da fitiada cora 
oiiafi tõdâs as obras , quetem a de pe4ra ,.e çal , mas 
leiApre mais' baíxaa por 6ilta de materíaes , e tem« 
po ineceflario para outras obras, que pedem igual ^ 
€iiiai>preíra;'A'roda da nova fortificação do acam- 
pamearo:/edâixa huma rua de cem pés de largo pa- 
ra fe formarem ailí as tropas , quando íntentâo fa- 
^et.fortídafs ^ optros Engenheiros formão efta Pra- 
f0'demai3«v ou. knenQs pés , e dentro no 0ani)po for- 
tifiçadU.y.o^qdal .para fer^regular em tudo ha de fer 
^traveíl^ido ide quatro grandes riias de fincoenta pés 
de' largo' -, : que vão dar á grande Praça de armas , 
g«»& tçm fekicentos.pés de^coft)prido,, e quatrocen- 
tos . e iifficcientai de largo 3^- e;^s. Qutrasf ri^s^ trinta« 
FoffCifiCad^kçoíOPbrasjnifcas Qe^cercico^ poâas cao- 
. Tom. VIL I cel- 



(98) 

cellas nas entradas , e artilharia nos póftos da defe« 
za, Te há muita, erteaiem a^mimi tilâiaf fcftídi da 
parte de algum borqué ^"^eftrada ^ des^adéiro , &c. (e 
começão os aproches , è baterias para defmontar a 
artilharia da rraça^ e abrir-Ibe' brecha; X^âíklyjM^ 
ria he huma Praça pequena com ibflb •,' potin! y r^ 
paro ) parapeito , íubida para elle ^ e cafa 6^ pól- 
vora com as medidas I que permitte o terreno; mas 
para ferem bdas hSo de ter dei^nove toezaa deroi»*. 
primento cadabuma^ que sfío quinze paradas peças:^ 
• duas para o parapeito de cada lado; mas como as 
peças são difierentes , também modão as medidas r 
a krgnra do parapeito sâò trez toezas da dianten 
rá I doze pés nos- lados ^«e íieis péa'de ahro : as çê^ 
flhoníeiras tem de ifondo tréz pés' jV ff^So oixú%t6 
âtí, de largo > e féis até fete de prõíímdo : entre*^ 
foflb, e bateria fedeixâo trez, oiv quatro pés jpara 
a berma, tifubida para a bateria* tem quinze pesr^^ 
efcarpa finco y a interior o meímo',' a do lado qiiaK 
tf o, a ponte xiez , ou doze de largo : detrás dsba^ 
teria íe deixa hum campo de trinta «féis pés dtlaiM 
go y que he o corpo defta pequena Praça > e onde 
defcançâo os qiie eftao de guarda nella f e fe veve- 
%Ío no trabalho : no lado da fubidá defte campo pa« 
ra a bateria fefaz hum foflb da lare;ura dedez pes^ 
e quatro de fímdo , em que fe guarda a pólvora cu^ 
bertacompraAchas, eíacos de fedas decavatlo, oa 
couros de bois molhados. Para fe fazer eftá obra ^ 
começão de noite os aproches diftantes da Praça diH 
zéUtSfs toezas y t ordinariamente em trez lugares ^ 
governados por trez Engenheiros, fàzem-íe cavan* 
âo ú teirra ^ e laiiçando-a para diante de fi ^ diftanda 



(99) 

09 cavadores hãitr do outro finco pés; os primei roá 
fó cavilo trez pés de terra de altura j de íorte que 
ficâo cubertos com féis y porque trez lhes dá a co- 
va 9 que fizerâo , e trez a terra ^ que delia tirarão : 
ièguem-fe outros y que continuâo a obra até ficar 
com quatorze , ou quinze pés de largura , augmen^ 
tando a profundidade quanto mais íe vâo chegan* 
do á Praça. Adiantados os aproches até onde jul*» 
gSo 08 Engenheiros y formão todos trez huma linha 
parallela y auenâo he outra coufa mais que hum foflo 
da mefma largura de cada aproche y que naquella 
diftancia fira menção de cercar a Praça : nos lados 
defta primeira linha fe levantâo duas baterias feitas 
como TOS emliquei agora y para defmontar as da 
Praça , e defender os trabalhadores y que logo vão 
continuando os aproches , ou eftradas profundas y em 
<|iie formão reduéèos para fecubrirem, alojamentos 
pju*a tjefcançarem y caminhatido em través para nâo 
íercm enfiados pela artilharia da Praça , até que fa» 
um fcgnnda linha parallela, enefta outras baterias. 
He brk> efpeòtai dos Cabos, que entrâo de guarda 
9C&as obtas y o adiancallas ; e como as baterias da 
^^undar, e terceira linha são mais altas , cobrem me^ 
Uiòr os trabalhadores y deímontão , ou diminue mais 
o furor dos.fitiados y e de prefla ganhão a contra-^ 
eícarpa^ ,. antes: da qual^cpnièça a lapa nefta fiSrnuu 
Tenao adiantado o ^aproche até finca ^ ou féis pé$ 
do angulo faliente da^ expJariada bara chegar cubei-^ 
to á contra^efearpa , fe começa aiazer aíapa, faíbin-^ 
dú úc noitCL dos aproches hom trabalhador, o qual 
pbfto. de^oelhets. ca^a d terra ^a esplanada tre% pés 
dc!altiuray^a4ue dèkamkka diatiíc defi fiqrfe ca-» 

I ii ber- 



( ICO ) 

berto com féis pés de altura de terra. IlEo feito ^ con^ 
tinúa a fua linha até o comprimento de huma toe- 
za. Em quanto alarga mais o primeiro trabalho j fèh- 
zendo-o de féis pés de largo , e féis de fundo , ou- 
tro gaftador vem fubftituir efte , e aperfeiçoa a obra , 
accrefcentando-lhe trez pés á largura , e trez á pro- 
fundidade y de forte que a fapa fique com no?e pés 
de largo , e os mefmos de fundo. Néfta proporção 
fe continua até á eftrada encuberta còm a fapa j on- 
de le fazem coro toda a preflfa muitos alojamentos 
;randes j e bem cubertos para lançar fóra dalii ot» 
itiados: osceftôes de terra poftos em trez , ou qua- 
tro ordens huns detrás dos outros sâo nefta obra 
utiliífimos. Em quanto fe fazem os alojamentos , ati- 
râo as baterias inceíFantemente contra a Praça . pa- 
ra que a mofquetaria delia não mate , ou retarae os 
gaftadores ; mas o que os defende melhor aíEm tift 
fabrica dos aproches , como da fapa são os candiei-' 
ros j ou mantas , que fe fazem defte modo. Efcolhcm- 
fe boas taboas dobradas de finco até féis pés de com- 
primento, e de duas até trez poUegadas de grofla-à 
ra, pregão-fe humas junto das otitras em duas vigas 
a plumo cravadas fobre outras ao òlivel, emqaeás 
vezes fe p6em pequenas rodas para as ftzer andar 
mais facilmente , provão*íe com tiros de mofquete 
em competente diftancia , e vendo que as balas as 
não pafsão , 9S vão conduzindo até ò lugar , em cpié 
os aproches , ou fapa fe continuão j e fe fazem as 
obras. Eftas maquinas y que tem féis pés de ako y não 
fó cobrem os trabalhadores ^ mas impedem aosfitia^ 
dos o verem tudo o que fe faz detris : em cafo dç 
neceífidade > e falta de boas .taboas fe fázen os caQn» 

í di. 



( lot ) 

díeiròs ^ ou mantas de facos de lã , e ordinaríamen* 
te de fachinas groflas. Reduzida a Praça a efte aper- 
to , defamparada a eftrada encuberta , e alojados nella 
os fitiadores \^ fe intenta a mina ou com artilharia , 
fazeodo-ra jogar iirceiTantemente das baterias já pro* 
zimas 9^011 com minas, e nefte fegundo cafo he ne- 
eeflario fabricar galerias y e outras obras para atra-* 
veflar o-foflfo: para ifto ie faz huma defcida cuber- 
tã por baixo da contra*efcarpa , ínrando defronte da 
firce do baluarte , e em chegando ao fofib , fe levat>> 
tio as duas primeiras eftacas da. galeria de oito até 
noYe pés de alto , féis ou fere pollegadas de grol- 
íb, afaftadas homa da outra fetepés, prezas em fi- 
na, e em baixo como caixilho com duas vigas iguaes 
Qa groífúra, etraveflas nos cantos: em diftancia de 
finco ^ òu féis pés te arma outra grade , e fe conti^ 
nua com outras até á efcarpa da face do baluarte : 
dehama grade até á outra fepóem taboas, e pran- 
chas das mais groflas cubertas de terra altura de 
dous pés , e ordinariamente fe forma o te6lo de dons 
ângulos , que terminSo em agudo , cubrindo tudo de 
folha de FJandes, e depois com terra : tapão-íe os 
lados com iguaes pranchas , deixando-Ihe freftas pa- 
ra yerem os Mineiros o que fazem , e acabada a 
galeria, fe começa a mina, picando o baluarte, fa- 
xendo os fornilhos , atacando-os , e dando-lhes fo- 
go, que fe faz bom effeito , íepulta a galeria nas fuás 
ruínas. Efta maquina fe ufa raras vezes , porque a 
experiência tem moftrado que por mais adlivo , e 
contínuo que feja o fogo das baterias , fempre os íi- 
tiados. tem meios para impedir a fabrica da galeria 
muitas vezes , ou fempre , matando os que traba« 
Tom. VII. liii Ihâo 



( 102 ) 

Ihâo nella , porque em fim efta acção , e a de fegp^ 
rar hum petardo são as mais perigofas 9 eefta mais, 
porque he fazer huma cafa forte de madeira bem co- 
berta junto a huma muralha , e no través de ha» 
foflb, para o qual ha portas falias , e roturas, ceai 
iima muitos mil homens , que percebem a obra j e 
tem mãos para lançar bombas , granadas j cal vic-í 
gem , azeite fervendo , barris de polrora deftapado»y 
e logo tições ardendo , &c. o que tudo podem £•-« 
zer amparados dos parapeitos , e Ce já eftâo demcvi 
lidos 9 de ceftôes , facos de terra jíij &c. Nunca fe 
ufou efta maquina em Hefpanha , e Portugal , e em 
lugar delia fe cobrem os Mineiros com os candiei-^ 
ros encoftados á efcarpa , e bem forrados de tudo 
o que reíifte ao fogo. He certo (difle o ErmLtíío)^ 
que todos os Ânthores: modernos mandão fabricar 
a galeria deflfa forte; mas viajando eu quaíi todo o 
mundo, e tendo lido muito, nSo me lembro deqne 
íe ufaflTe , ou confeguilTe fazer com bom fucceffb : 
vi fim entre os deipojos militares dos Turcos no 
cerco de Belgrado , a que AÍfifti vindo da Paleftk 
na , muitas galerias preparadas para minar a Praça 
feitas nos aproches com toda a fortaleza neceflaria 
para refiftirem a todos os fogos artificiaes , mas erão 
formadas íobre rodas , e com outra obra da partq 
da entrada com íeu telhado efconco , e lados , onr 
de íe haviâo de metter os que as haviâo emípurrar : 
depois me díflerão em Alemanha , que quando os 
fouos erão aquáticos , as fazião febre barcas de cch 
bre , e (e erão de lama , as rodavâo fobre a fachítui 
delgada , e muito bem direita , fazendo fempre da 
fapa até o folTo boa delcida ^ e bem eftirada. TudQ 

iro 



( 103 ) 

iiflb fei 9 (diíTe o foldado) e também fei que nem deflas 
galerias , nem de outras algumas usâo já os Enge- 
nheiros , porque os defenfores das Praças a todo o 
rifco lhes lançâo pedras de moinhos em íima , e na 
falta delias chegáráo já a lançar canhões , de forte 
que hoje a expugnaçSo confífte em bater inceflante- 
mente as muralhas, reparos, e parapeitos, lançan- 
do ao mefmo tempo milhões de balas ardentes nas 
Praças , de que fe fegue atear*re fogo em todos os 
edificios , arrebentarem abobadas , diminuirem*fe, 
ou ceflarem as baterias da Praça , abrirem-fe cedo 
brechas , e capitular a guarnição , ou fugir , como 
ha pouco tempo fuccedeo em Hanover. Aberta de 
qualquer modo a brecha , ou feja com artilharia , ou 
com mina, logo, logo a enveftem, e aífaltâo os íi-^ 
tiadores , porque ha^i^ndo dilação no aflalto , tem 
os íitiados tempo para fazerem muitas , e boas obras 
para a fua defeza , como já vos difle ; e fe o aíFal- 
to da brecha he immediato áfua abertura^ he tal o 
horror, e confusão na Praça, que mil Engenheiros, 
e Generaes não baftâo para a evitar , e fazer o que 
permitte a neceíEdade , e aperto , antes o certo he 
fazerem todos o contrario do que fe lhes manda , e 
he mais preciío. Marcha o exercito a inveftír a bre- 
cha , levando diante de fi algumas vezes gaftadores 
com fachinas , fe he neceífario entulhar alguma par- 
te do foíTo , quando he muito largo : na vanguarda 
vão os Regimentos mais antigos , e de foldados 
mais valerofos com as armas ordinárias, e fogos ar« 
tificiaes , e aíEm cahindo huns , e fubindo outros, 
montão a brecha , e ou fe alojão nella , havendo 
çortaduras, ou profeguem a vitoria > fenhoreando, 

c f a- 



( 104 ) 

e (aqueatido toda a Praça ; porém íe eftã tem Gâft 
tello , Torre force ^ Cidadela bem defendida y opi 
boas cortadoras, expugnão osiitiadores eftas oln^ 
çonmovos ataques 9 baterias, eartificios, domimin 
do íó o que nSo tem defeza , até que os í!tiadii| 
capitulâo , e íe rendem. Se a brecha he defendida ooifi 
valor, e fortuna, e o General dos íitiadores rê^qiM 
lhe morre no aflalto muita , e^ boa gente , maach 
tocar as caixas a recolher , eparã efta acção be pon^ 
ca «toda a prudência dos Cabos , porque a defordca 
he quafi infallivel na retirada 9 e os lltiados conh» 
cendo no toque a vidloria certa , e fortuna prorpâ^ 
cia , concebem tal brio , e intrepidez , que fegoeoi 
o& dtiadores y matando nelles até dentro dos apio» 
ches, fapias , alojamentos , e baterias, nas quaes .irai» 
lendo-fe da confusSo 9 encravâo peças , lançfio íbgo 
aos foflbs da pólvora , e fazem todos os damiíos^ 
que infpifa a cólera a hum vencedor. OaíTalto ( 
efcadas he ornais antigo methodo de expugnar 
pois qú^ (e inventarão no mundo as fortificações dá 
pedra, cal, e terra : hoje he pouco u fado, porqflia 
òs canhões poupão eflas vidas, e commummente fii 
usão as efcadas fó nas entreprezas das Praças , ca^ 
minhando o&expugnadores de noite, e arrimandío--aé 
ãs muralhas fèm íerem fentidos das fentinelas , íe» 
não quando eftas experímentão o furor dos iními^ 

SOS, e o fruto dos (eus defcuidos. Para evitar êftet 
amnos ha muitos remédios , e o melhor que vi j; 
são as fentinelas dobradas , rondas , e patrulhas noc 
foíTos vigilantes , eftacadas na eftrada encuberta , • 
tódosf os que vigião , e rondâo tocando muitas ve« 
zes caApainhas , a que refpoudem todas as fentínc» 
- ^ laa 



( io5r ) 

Ias com outras, o mie bafta para infundir terror no9 
inimigos , e evitar lobprezas. As efcadas melhores de 
efcalar sâo as mais largas de trez y e quatro vigas , 
mas são tão pezadas , que fó as usão os fítiadores 
acampados , conduzkido-as doze, e mais homens com 
grande trabalho de noite cnbertos com o fogo da 
artilharia , e depois que huns cegâo o foíTo com fa- 
xinas , as alvorão , e fobem féis j ou oito homens 
emparelhados por cada huma , e para ferem mais bem 
fuccedidos , e dividirem as forças dos defenfores y 
fobem verdadeiramente fó por huma parte , e Rn^ 
gem que fobem por muitas. Aexperiencia tem mof- 
trado que eftas acções raras vezes são bem fuccedi- 
das^ , ( fendo-o qnaii fempre as bem ordenadas fob-^ 
prezas) porque advertidos os fitiados , enchem as mu« 
talhas de luzes, lanção fobre os que fobem tudo o 
que já vos difle coftumavão lançar (obre as galerias y 
e Mineiros, entre os expugnadores tudo he confii- 
são, e como a noite não deixa ver o merecimento ^ 
e valor de cada hum, todos poupão à vida para ou- 
tra occafiao melhor^ As eícadasdas fobprezas são 
mms íái^às que as commuas , e admittem fó-dous 
homens quando muito: na Afia íbbem pelas efcadas 
de efcalar doze até vinte homens , porque sâo fei* 
tais de canas groflilfimas chamadas bambus, ocas^ 
fummamente leves '^ e igualmente fortes , de forte 
que dous homens conduzem , e alvorão^ efcada mais 
alta', e larga defta matéria , que fe pôde conduzir 
facilmente para a Europa, como também astabocaa 
do Brazil , que he^^ mefmo. Para fe fiindar huma 
Praça ordinariamente fe acha bom fitio , mas não 
boa cerva n^ue^hc 4) mais^Ncefiario : a das »oma^ 

\^í^ nbaa 



nhãs tem muito pedregulho , que he o peior terre^ 
no 9 porque nSo faz liga ^ nem ferve para os para- 
peitos abfolutamente : a arêa he o mefmo , ou pe^ 
lor: o alagadiço além das eftacadas, em que íe aif» 
pendem muitos mil cruzados , requerç muita cal 
branda , e nao obftante iíTo , abre enormes fendas j e 
fó podem edificar*fe no Eftio : o melhor terreno he 
o pingue 9 untuoío, forte na ligadura , e brando no 
taâo , de forte que na Aíia , para evitarem o traba- 
lho de efcolher terreno , fundão onde querem , e 
neceí&tao , e á força de cal (que he de caícas de oC» 
trás j e amêijoas , mas excellente) com azeite ^ agoa | 
aflucar de paloieiray e catú edificâo hum formigão | 
ou taipa tao forte (em muralha, que lhe não çntrm 
bala ordinariamente , e fe entra j fica fervindo de 
muralha com meio corpo de fora , de que Je Cegai 
fer impQÍ&vel á. brecha , e muito mais a mina.! nao? 
tivoy porque todas fe cooquiítâo áeicala. IftoTop» 
pofto 9 já fabeis 4is inoumeraveis obras y de que coch 
fta huma fortificação , e inftrumentos para.afua cU^ 
feza , como tambem^ 03 trabalhos , com. que a C3[« 
pugnão y e.defefadem^ e antes quç vos expliqtfe.o 
ultimo moderno deferiho de Thamaz KoulikAn' q€4 
ceflicoL. lembrar- vps o -que ji vos diflc y e vem a fâ 
com mais clareza que hum exercito acampado h9 
btimb Cidade feita; x:om excellepte.rifco , defenho^ 
eproporçâOi^cíe oa aproches, baterias > e alojanmH 
tos contra hun^Pf aça íitiacU hehtt<p l^by^intbor.dè 
grandes 9 4)equeoos , direitos, eatriavelTàdos foflba^ 
ottirnaa fubterraneaá muito alças "Com fuaí p^ue» 
oaaPraigasdtf armas y Qqsuarteistde/otldadojem d^rj* 
ios;íitíos:, tudp CQnttuflácavel, js$k(^i^gçuÍQ[PiiM^ 

dig- 



( Í07 ) 

digno de fe ver y e admirar depois qne fe imíentâo 
os ficiadores. Tudo ifto vio Thamaz Koulikan mui- 
tas vezes na Europa , e Afia, teve nefia matéria os 
maiores eftudos, e o maior engenho para lhe apro* 
veí tarem, communícou a idéa de huma Praça ínex-? 
pugnavel aos melhores Engenheiros do feu tempo, 
dizendo-lhes os materiaes , que a Aíia tinha para iflTo , 
e em fim defengatfado oom os feus votos* fez o de» 
lenho , e perfil, que já vos difle julgarão inconquif- 
tffvel muitoá ; e fogundo mo oommunicou o Padre 
Fr. Plácido 'Carmelita Defcalço (que muitos.aiTeiH 
tárâo fora Gon^flbr de Thamaz Koulikan , e que 
efte era Catholico com mais obngaçóe^ que os do 
Decálogo^ e Italiano , como o Padre Er. Plácido) 
he o feguinte : Hiiom Praça rotunda femmuralha^ pa^ 
ripekos , liem ^bms algumas antigas, nem moder* 
nas ^ os reparos de Formigão -decai , terra fina , azei«^ 
te com bítume da Arménia , e para fecapte humas 
folhas de arvores 4o mato reduzidas a pó fem fo-^ 
0> ,qtte julgarão exêediâô o catú , e fumagre ^ de 
forte qae provaódò-^fe huma parede defta, maf eria 
comtíros de toda a^afta ite canhòcs , nenhuma ba* 
)a lhe entrou , e fó lhe deizavâo hum final como quan- 
do febate huma grofifa prancha de chumbo com hum 
martelo :: toda a Praça cuberta de abobadas ,aífim 
caías, como ruas m altura^ dos reparos., e para luas 
claras bóias ^ (ooftome da Perfia nas .ruas , em que 
ie vende) asquaes fe havião de tirarem tempo de 
fitio, pondo em feu lugar pranthas.de bronze oofo 
buracos « e provadas as abobadas com toda a eípe- 
çie de bombas : duas ordens .pe canooneiras po re- 
paro > to^ £9X00 ocuIm .niutfQ hf^í^ÍMpAít^ ex^ 

te* 



( io8 ) 

terior, e ha interior da grandeza de hum canhão de 
lincoenta y cada huma com íua portinhola cubcrta de 
ferro, que abríflTe por dentro com corrediça, etrcs 
buracos pequenos em cada huma : a primeira ordem 
em quaíi meio reparo, que havia de fer muito alto , 
e a fegunda meio covado dos noflbft communs affi- 
ma dooHvel dofoITo: as chaminés de altura dehuaí 
palmo fora das abobadas com carapuças de ferro 
coado j huma ió porta , quatro falias , foflb muito 
targo com finco varas de alto , e trez í^hidas ptra 
fora. Efta a Praça , em que fó havia de habitar agiifuw 
nição neceflaria , e para fer de tudo bem pipyjdai 
lhe concedU cm todas as Luas huma feira frane««. Até 
aqut jnigário todos efta obra huma quimera , Qliiiirtl 
invcnçío '^ parto (ó digno de quem nunca vio gaei!» 
raV nem fotihou íér Engenheiro ; pdréioas (>Wii&«i« 
teriores he^que fizeráo mudar de conqeit^' os prnt 
dentes , quando as vírâo acabadas ejn nove.mezeft 
Derenhou*;íe a Praça em huma planície i que picA 
toda aparte nÍQ tinha cávalleiro od:diftanckr dç \e^ 
gua^e feiní^o:^Foflb9 dcfenhol^rThamai&, piv# Codtt 
es^lqttatrò partes Oriente , NafccntevNdrte^iMcíc» 
dia quatro fáhidas, oii ruas largas!, comçi«nif;AdM'pQt 
trflPveíTas humas a oti trás com alojamentos,, ..e bate* 
?ids' até quafi meia légua , tudo com minas profundes 
MS paflâgen8< reaes , e nas baterias grandes.,- ^m Bm 
4ium^priinOTOÍiffimo kbyrintho deaprophes pbrt)uii» 
tro' partes i^^canw' fé da Praça fahifle a guarnição' A 
coííqttiftar Quatro Praças fronteiras. : > - . ; i 



LISjBÍpAi NÍ bíikiaa; de [Miguel Manefcal cUCofta , ímpr^flbr fi 
* ' ' Ssiito í3má6.'AM6 I^'i5|« (km fiai às thé^iH oUtifMi^A 1£*^i 



( Í09 ) 

CONFERENCIA X. 

NEftas obras (dizia elle) havia deaífiftir ame- 
tade da guarnição todo oanno de dia , e de 
noite, mudancfo-fe ás vinte c quatro horas, 
e por todo o labyrintho rondar Cavallaria 
com huma companhia dé Infantes , e outra de Ar- 
tilheiros com trez peças da fua invenção , que não 
fahio á hiz , porque a fua morte fepuitou com elle 
as maiores idéas. Da Praça ficou fó efta noticia , e 
a terra para o labyrintho de contra-aproches cava-» 
da. O Padre Fr. Jorge da Prefentaçâo, quando in-- 
tentava dar á luz a vida de Thamaz , compofta do 
-oue vira, e ouvira delle, vio imprefla outra muito 
aiminuta , e desfigurada , motivo , por que diíTe a 
feu irmão o M. R. P. Jofé Pinto da Congregação 
do Oratório , que a laceraíTe , ou imprimiíTe em ou- 
tro nome , e ignoro que fim teve com o terremoto , 
e por íua morte , aífim como também fe imprimio 
na Itália do Padre Fr. Plácido o feu excellente livro 
Jijia apenas c$nhecida tantos feculos depois de commU' 
meada. Para quem não profeíTa Milicia o que eftá 
dirá nefta matéria bafta. 

Não convém ( difle o Letrado ) gaftar o tem- 
po com pouco fruto , qual he o que fe fegue de 
tratar com fumma brevidade o melhor da hiftoria , 
íem dar primeiro grande noticia delia , porque as 
fommas, e epithomes fe inventarão para facilmente 
cada hum renovar a lembrança do que lera , e ouvi- 
ra em mais dilatada biftoJria, como são as deMoreri 
Tom. VIL K a rcf- 



a refpeito do breviffimo epithome de João de BaP- 
fiers: eu me obrigo a referir» vos tudo o que fe con- 
tém naquella grande Obra, menos algumas coufaS| 
que lhe accrefêentárâo os tradu6lores fó para faze- 
rem a obra agigantada', emendando as ihnmr ará- 
veis equivocaçôes , e erros , de que por culpa dos 
amanuenfes (como delia confta) eftá inficionada , ac- 
crefcentando-Ihe o muito, e muito curiofo , que lhe 
falta, efpecialmente do noflfo Reino, fem repetir o 
que aqui fe tem <lito , nem dizer o que cada hnm 
com mais extensão deve contar , e em fim redazin- 
do a hum tomo o que hoje fe acha em tantos , e tSo 
grandes , porque nelles fe repetem muitas , e mui- 
tas vezes as mefmas hiftorias nas vidas de todos os 
fogeitos , de que tratâo ellas , além das impertinen^ 
tes , infrutíferas , e fuperfluas. Grande beneficio (dífler 
o Eftudante) étperamos receber de vós no que pro^ 
metteis ; mas no que refpeita aos accrefcentamen- 
tos , adverti que nos criticão muitos de menos ver- 
dadeiros , e juigâo fabulofas , c impoífiveis muitas 
das hiftorias , que eftão lendo em varias Conferen- 
cias. Socegai , ( difle o Theologo ) não vos dê cui- 
dado , nem vos firva aquella noticia de impedimen- 
to: a todos eíFes prefentes, e futuros refpondo coin 
oApoftolo S. João no cap. i. da íua primeira Car^ 
ta num. 3. O que vimos j e ouvimos be o que vos coh^ 
tamos. O que vi com os olhos , o que li em quaff 
innumeraveis livros em quarenta annos de eftudos 
contínuos , e goftofos , o que ouvi a mais de qui- 
nhentos Miflionafios doutos^ epios, eOfficiaes mi« 
íitares reputados pelos mais verdadeiros , a Monges. 
Sciíma ticos deigraçados penitentes auftéros , a pere-^ 



(III) 

grinos, eviageiros bemmorigerados, aosqiiaes ad- 
miaiftrei Sacramentos , e hofpedei por ojfficio , e em 
fim o qae me contarão outros muitos em todas as 
quatro partes do mundo , dizendo-me huns que vi- 
rão, outros que peíToas fidedignas lho contarão , he 
o que eu digo que ri, eouvi em nome de cada In* 
terlocutor defte humilde Dialogo. Se os Authores , 
que li , e leio , fe enganarão , ou forão enganados ^ 
como fuccedt a todos> e fe todos os que me difle^ 
rão^qtie lerão , yírão , e ouvirão me enganarão a mim , 
cu certamente não menti , nem vos enganei , refe- 
rindo (como finceramente faço) o que dles me aí-- 
feverárâo que tinhão vifto , oavido , e lido : de for- 
te, quef qaaodo em nome de;qnalquer deftes féis In- 
terlocntores digo vi , li, ouvi , humas vezes conto 
o que affim me fuccedeo , e outras fallo em nome 
de quem mo contou , ou de quem o difle a quem 
mo refisrío , e á vifta da verdade fincera , com que 
fallo., fó fará cryfes quem de cafo penfado quizér 
empregar mal o tempo. Já hum efcrupnlofo , mas 
amigo, medifle omefmo, pedindo-me lhe mofkraíTe 
os fragmentos de noticias, que meu pai adquirio na 
communicação com o grande Luiz de Couto Felisy 
quando efcreveo os índices da Torre do Tombo ^ que 
eziftem, e depois até áfua morte, e o que fefeguíò 
de os ver, e fe defenganar foi o appetite de os ler 
para fe inftruir, com tão bom fuccelTo, que os não 
vi mais , e já agora fó efpero vellos impreflbs em* 
nome de outrem , que efte diz lhos furtou, ajSim co-^ 
IDO me furtarão vinte e duas Conferencias , e me 
trasladarão os índices , de que não faço cafo , por- 
que os fragmentos poflb recuperallos com o que me 

K ií lem- 



•« • -' 



("4) 

de hum pequeno rio de Brabante. A(ã)us he huina 
Cidade cfoBifpado deMunfter íobre o. pequeno rio 
Aa , que entra no Regge : tem hum bom Caftello , 
difta trezle^a$ deCoesfèld, íinco do Oldeofeel (^ 
ra o Norte , celebre , porque nella morrea Chrífi- 
tovlo Bernardo Van-Galen, Bifpo de Munfter, tf^ 
fás memorável na guerra de Hol landa. JtthhCbarim 
he huma aldeã famofa nas montanhas de Judéa^* 
diftante duas léguas de Jerufalem^jonde dizem :mM 
ravâo S. Zacarias y e Santa Ifabd , pais do Bapttflu 
Aain^el^ginum foi huma antiga Cidade de Africa aá 
Provincia de Chaus , e Reino de Fés , fundada «n 
huma planicie cercada de grandes montanhas no cai* 
minhç ddfoffroi para Numidia: £gnifica eíbe nomíB 
fonte dos' idolos ^ porque fendo idolatras os Afrív 
canos 9 tinhão entre ella , e huma lagoa minha 
bum abominável templo , em que facrificavão hó» 
mensi e mulheres iguaes em o*numerò, e acabadoa 
os facrificios y exrinâas as luzes , cada hum ufava da 
mulher y que apprehendià : eftas em todo aquclle 
anno regeitavao os maridos , e os filhos , que pa^ 
f ião y (e criavão no templo , que deflruírão os Ma^ 
bometanos: chamoa-fe tambem.Hamliíman^ e Mam 
lifnanáb Aaiu-Mariam he huma fonte.cuberta de a« 
bobada nt raii* do monte Moría en^ Jentfalem ^ di£» 
taate duzentos palTos do chafariz, e tanque de Si» 
loe, para onde correm as &as aguas, por canos pnri 
fbpd«^ : defta agua dizem EÍava . a Virgem SantiA 
iim4 > emauantò aíEftiaién^j^cuíalpmi^.b.JidíIarià 
Uvâo os Mouros pitra' evitárrénv.a-jhaítttral fedor^j 
que fempre exhalâo osíeu8Gorposi':^j/^fir^9 veja!* 
K Alborg^ Jalen yyejZríc Aiakn ^ Ciái^^ deiDipM 



( "5) 

màtcz. Jai Cidade pequena da Noruega na Pro- 
víncia de Aggethus perto do monte Sula no paiz 
detíaltingdaT. Aama^CuHandin foi hum Rei de Ethyo- 
fÂino oitavo feci^la :fiiMa he Provincia de África , 
diftante xlé* Tunes :i^mi:e jornadas : tem perigofa 
entrada ^equafi.ihacoeffiTel fubida por hum fó pre* 
cipicio:ide rinté paSbs de largo , e finco léguas de 
comprido : heceroaida de xiWj que fe nâo podem 
▼adbar. íemi^graiide perigo por canfa xlás arêasí , a 
que emPpmigal chamao buns fardas , outros to^ 
3osyT>àtroá panelas, que abforbem tudo o que lhe 
*ià% pezp, de qne relultárão muitas fabulas: alguns 
antigamente ( hoje nâo ) chamar ja a eftes rios ma* 
rês :do Faraó 9 alJudíodo £ fubrièrsâo do fen exerci^ 
to no mani^oxo. ^ÀtfÂf',' Província 'de Eícocia , ve^ 
ja^fe Angus; Aar y rio o mais caudalofo de Suifla , 
a que os antigos chamarão Arula^nafce no' monte 
deS. Gothar ,. pouco diftante do nafcimento do Ro«^ 
dano ^ .c Tefin* j e te navegável d efde os lagos de 
Brient& , :e Tbum até^hafeufa , e Bafiiéà. Aar cha-^ 
mão tambéfti ao celebre rio de Alemanha y que tem 
qttatro nafcimentos, no Condada^de.Blankeaheim^ 
(?otrc;òs Oiicadbs de Treyerís/.Cdonia, ejuliersr 
entra nò Hhirn pobcoiaffima dè Lintz^^.fbi habi^ 
tádo daS'*Ripuaria5iy e ha.ò qite ainda ..hojr divide 
Alemanha fu per ior da. inferior. Aar chanião também 
â hnm pequeno rio de Heife em Alemanha, qi7e pafla 
por Dudinckaufen ^ e acaba no Oder^ \ií^ chamâo 
os Dioamarquezes a' Inima daa waís\ <»>nfideraveii 
Ilhas ) que dependem da principal daquella Coroa 
chamada Fujmen. Aarak he fanroa dás principaes Ci- 
dades da Província de Hircania no Reino da Per* 

íia. 



íxz.JânqffiiS V CiSd^e de Pfidia > a qác ufga 
máraoAfiaffis por equivoctçâo cdm optra áo mé^ 
mo noiney dècujOíBifpa Ka* nottctt eaiilgtiii& 
cíHqs .y e.erâ fimatià «mv Pirjrgui ^ oil Pamtia« 
hrg^y Cidade de SuiATa ao. Ganeao* de Bèrt» ^ 
hoje bum ÇaftçUo morálmeoce mcónquift^rèl 
cado do ria Aar :, duas vjezes a rediizio alciozrót) 
fegOy aprímeica oaaano de x^i^^e a fegunáft no 
d^ 1477.9 fibdttdo fcaqH'â;tlIexa alígreja : bsifittMt 
feguiidm da grande Gtâ deNeocáftel agovernértio 
como Soberanos y até que Pedro de Aaraberba^e 
veodeo' aos Cantões de Berna no anoo de ijf >^9 t» 
ttrando^fe elLes ^ eíen^idefcendences para Aoftria^ 
onde todos edificarão o CaAella de Aarabetga : cr* 
verlo logo governo de Republica ^ mas coroo oa 
naturaes são os menos femdhaates aos homens j fo» 
ffão taritas j e tâo ridículas as diíEensÔes j que exriím 
tos os Senadores > lhe puzerâo os de^Bema hiini 
Coníul com guami^a competente , que ji não rem ^ 
porque fedoóie&ioárão mmto :aJém:doí qne.fe efpè» 
rara da (eur bcntaL genic»^ Agrinargo he Cidade com 
adminatel Oaiftella hoi mefmo Cantão de Berna z tq« 
ma o nomcdoikia^Aar , que a banha , e defende^ 
he poctd , .c froQtdca jpara os. Cantões dè Soleora^ 
ei^Iiâoeana!) Bmporio do. comercio das crez ^ eide 
outras tnaisi^ pequena , rica , e fegura nos penhaf^ 
cos, emjqoèhoje tem a s- firas fortificações, qne fá 
ptacadas^admiriío^ a todos. Jardalffioerâ^ na língoa 
IjZtto» AaràaliutSifmt 4^ eTulgarmeote chamado ^Ai^ 
teu^fidèrd , he hum golfo do Oceano Septentríonal 
aas coftás de Bergen oa Noruega junto á Cidads 
de StavaogerJ Aara , a que os Latinos chamâo A^ 



« 



(117) 

brinca y he hum rio na cofta de Eiffel nos confins de 
Alemanha , entra nos Ducados de Trcviris , e Ju- 
liers ^ e no Rheno janto a Bona no Eleitorado de 
Colónia. * Aoámnum. Defte nome , e da fua fignifi- 
cação não teve noticia Moreri , e os fcns traduâo- 
res : era hnm lago navegarei debaixo da terra na 
antiga Provincia de Jnnnam co Império da Chioa 
com huma pequena ^ e dtfficaltoía entrada natnral y 
e muitas artificiaes ^ que ttie fizerlw os Chinas para 
tranfportarem em barcos os viveres de homas Al- 
deãs para outras , querendo antes navegar qnafi is 
efcuras por baixo da terra , do que caminhar as fer- 
ras afperas ^ que dividião as Cidades , Villas , e Al* 
deas defta grande Provincia , a qual toda fe fobver- 
teo nefte lago com o celebre terremoto de iss^y 
ou de i3f i , como dizem outros. Efte fez feparar 
os grandes penhafcos , que fbrmirão tantos fecu- 
los a admirável abobeda , que foftentava a Provín* 
cia , e cubria o lago , no qual era tão frequente a 
navegação , qne fe duvida onde n^orreo oiais gen- 
te , k nelle embarcada, ou nas caías da Provincia , 
de que fò ficou iliezo hum menino de peito , ícr^ 
Tindo-Jhe o berço de hãtco. Defcubrírão-íe nelle 
minas de hnm betume louro ^ e aromático, que deo 
efte nome ao lago , e concorrendo de todo o Impe* 
rio innumeravel gente a tirallo , abrirão tantas , e 
taes cavernas , humas para entrar a luz , e outras 
para defcubrir o betume nas margens áo lago, que 
quando tremeo a terra , cahio tudo , e ficou com 
menos agua , e circuito do que tinha , que hoje são 
oito léguas Portuguezas. ( Gabriel Timctheo , Anti^ 
gmdades &mcas ) O meíino nome derão os Chinas 

a cír 



(ii8) 

a eíiie menino y e individuo único y que fe falvou no 
berço fobre o lago , o qual educarão com fummo 
cuidado y prefumindo que os deofes o guardárSo 
para alguma efpecial fortuna da Republica. Elle 
Ibube aproveitar-fe defte agouro , e fendo dotado 
de tanta preguiça , como aftucia , apenas eftodou o 
que baftava para fer embufteiro y fíngio que lhe fat 
lavâo os Ídolos , e revelavâo futuros j que elle ca 
communicava com palavras equivocas ^ e myfterio^ 
fas, ou efcrevia com caraâeres novos , que fó elle 
depois lia, e interpretava de forte , que (empre a« 
divinhava o que via. Ifto lhe adquirio tal honra | 
e veneração y que o Emperador eitimou fe conten** 
taíFe em fer venerado por deos y e não afpiráfle ao 
íceptro y para que o convidava a maior parte <]o 
Império: edificárâo-lhe vários templos , em que foi 
fervido , e adorado por mulheres , as quaes dizem 
o matarão com veneno por induftria do Empera- 
dor, que nunca fe julgava feguro com tal deos ri« 
vo no Império. Innumeraveis feguírâo o feu inftí- 
tuto , mas com pouca fortuna , como fe dirá em 
feu lugar. * (O me/mo Author.) Aaron , nome He- 
braico, e emPortuguez Aarão, interpreta-fe mon- 
tanha. O mais famigerado , que teve elle nome, 
foi o primeiro Summo Sacerdote , ou Pontifico, que 
he o mefmo, dos Hebreos , da Tribu de Levi , £• 
lho de Amram , e Jocabed , irmão de Moyfés , a 
quem ícrvio de interprete perante Faraó , por ícr 
eloquente , e Moyfés tartamudo. Deos o nomeop 
primeiro Pontifice no deferto, e para confiar iíTo a 
todo o povo , confumio fogo do Ceo o primeiro 
facrificio , que offereceo. Ifto excitou a inveja dos 

mais 



( 119) 

mais ricos , e poderofos , dos quaes forão Coré^ 
Dathan^ eAbiron os primeiros , e em caftigo de fe 
opporem ao Aimmo Pontificado , os tragou a terra, 
e o Inferno vivos: depois duzentos e uncoenta op- 
poíitores morrerão queimados com fogo; cnãobaf- 
tando tantos prodígios para focegar os ânimos , por 
ordem de Deos poz Moyfés no Tabernáculo tantas 
varas, quantos lerâo os Cabeças dasTribus, e nel- 
las os feus nomes, e no dia feguinte acharão que a 
vara dei Âarâo tinha lançado flores , e produzida 
amêndoas. Antes de ler Pontífice fez o bezerro de 
ouro, que adorarão osHebreos nas faldas do monte 
Sinai , e depois de confagrado duvidou com Moyfés 
do poder de Deos , quanoo obrarão o milagre de fa* 
zer fahir agua de huma pedra , pelo que não entrou 
na terra de promifsão , mas fim foi defpojado das veí- 
tiduras Pontificaes no monte Hor, onde morreo no 
mez Sabba , que he Julho , e anno quarto depois da 
£ahida do Egypto. * Na palavra Ifraelita íe achará 
a melhor fumma da Hiftoria Sagrada. ^ Jaron , fi- 
lho de Miadi , a quem os Arábios chamão Harotm 
Al'Rafchidj foi Rei daPerfia, e o quinto Calife da 
familia dosAbbaflidas no fim do oitavo feculo : con- 
quiftou a Afia menor com hum exercito de trezen- 
tos mil homens ; venceo , e fez tributário o Empe- 
rador Niceforo ; foi o mais feliz Monarca daquelle 
Império ; não teve a correfpondencia com Carlos 
Magno , que dizem alguns Authores allegados por 
Moreri ; amoa os ioldados com tal extremo y que 
nunca na campanha comeo fenão depois de vifitar a 
cavallo todas as mezas , e lhe dizerem todos que 
eílâvãp fatisfeitos , e então a cavallo comia menos y 

e com^ 



( "O ) 

c com. menos regalo do que elles tinháo comido; 
repartia com elles igualmente todos os deípojos, 
íem refer^ar para íi mais que algumas armas ; mor- 
reo de quarenta etrez annos, e vinte e trez de go- 
verno y quando intentava conquiftar todo o mundo, 
(Timoth. Hijlor. Perf. ) Jaron Ben-afer foi hum Ra- 
bino celebre , que dizem inventara os pontos , c 
virgulas , que entre os Hebreos fubítituem as vo- 
gaes. Jacob Ben-Nephtali querem muitos tiveíTe par* 
te nefta invenção , de que damos em tratado típc^ 
ciai toda a noticia. Anrâo^ ou 4hram de Alexandria j 
foi Sacerdote 9 e Medico no fetimo feculo, efcreveo 
na lingua Syriaca trinta differentes tratados y aos 
quaes Sérgio accrefcentou dons , que depois fe tra- 
duzirão em Árabio : querem fejaefle o primeiro Âtt- 
thor y que tratou de bexigas , de que inferem come- 
çara eíte contagio no Egypto , e que os Arábios o 
adquirirão na (uaconquilía: he muito provável, qne 
naquelle feculo apenas era conhecido j porque EIío 
de Ámyda , que eícreveo no antecedente , o igno* 
rou, como também entre os Gregos nomefmo tem- 
po Paulo Egyneta , que na fua admirável obra pro- 
mctte tratar de todas as enfermidades. No anno de 
683 Maferjavvaih Judeo por ordem do Calife Mer- 
vvão traduzio na lingua Arábica todas as obras do 
infigne iMedico Aarão , que hoje tem as primeiras 
eftimaçôes bem merecidas entre os Gregos , Ará- 
bios y e outras nações do Oriente. 



LISBOA , Na Officina de Miguel Manefcal da 
Cofta, Impreflbr do Santo Officio. Anno 1763. 

Com todas as licenças necejfarias. 




(Ill ) 

CONFERENCIA XI. 

m p«...««- t 

i I 

jírâo Iféutc jfarão Greg/^ foi prizioneiro em 
Coríntho , (guando conquiftou eíVa Cidade 
Rogério Rei de Sicilia no anno de 1 148 , 
aprendeo em Itália com perfeição a^lingua 
do paiz j de forte que veio a fçr interprete do Em- 
perador Manoel Comneno , de cujo valimento aba- 
fou para arruinar Aleixo , hum dos principaes Fi- 
dalgos do Império , è caiado < com huma íbbrinha 
doEmperador: efte o amava com extremo, porque 
lhe adivinhava tudo o que pertendia faber , e para 
ter efla prenda , fe applicou ao eftudo da Magica j 
e de hum livro falfamente attribuido aSalamâo , em 
que fe achavâo conjuros , com que chamava demó- 
nios familiares , além do que por motivo ignorado 
confervava em ca fa huma tartanrga com hum vivo 
retrato de homem no cafco fuperior prezo.com gri- 
lhões y e fegnro com hum ppego pelo eftomago : de 
tildo iíèo foi acaifado , como fe o náo foíTe ; mas 
defcubrindo a Emperatriz que elle vendia os inte- 
refles do marido aos Embaixadores do Occidente, 
quando > na fua prefença explicava ambas as linguas, 
lhe cirár2o os. olhos , e confífcárâo os bens. Mof- 
trou o tempo que nenhuma deigraça emendava o 
feu coração , e perverfo génio , porque affim pobre , 
e cego perfuadio a Andronico Comneno , ufurpa- 
dor do Império , que não fó tirafle os olhos aosfeus 
inimigos^ mas lhes cortaífe as linguas , eDeos per- 
miftio que Ifaac fegundo ^ fucceíTociniquo de An* 
-Tom. VIÍ. L dro-. 



( 122 ) 

dronico primeiro, lhe cortafle a lingua em remune» 
ração dp* confeiho j que dera a feii anteceflor/c at 
fim veio a morrer cie paixão enorme ,' fe miferaveL 
Jarão Caraita foi hum Rabino celebre no anno de 
1300 , efcreveo hum Gomm^ntariò febre o Pftita- 
teuco , cujo original fe confery»^ na* Livraria dos Reis 
de França , e outro também manufcripto na d^ ^on« 

f regados de Pariz. Os Caraitas he huma íeita dos 
udeos , que feguem unicamente a Efcritura Sagra- 
da fem darem credito algum ás tradições. Aafchaour 
he huma das maiores feftaa^.que celebrão os Períaé 
em memoria dos £lhos de AU Hoflem , e HuíTeim 
com as ridiculas ceremonias , que Tavernier diz a 
vira celebrar emHifpaban no anno de 1667* Armão 
na Praça maior hum throno para o Rei ver eftas 
barbaras exéquias 9 entrãondla do2e Companhias de 
Infantes com os feus OíEci>aes competentes precedi-* 
das cada huma de trez cavallos á mão ricamente 
ajaezados ^ levando cada hum no arção da feia ar* 
CO , flechas , rodela , e ^alfange : na retaguarda de 
cada Companhia vem oito ^ ou dez homens conl 
humas andas ^ em que coftumão acarretar os enfer- 
mos y ornadas de folhagens preciofas de ouro ^ e pra-* 
ta ) e em cada huma hum caixão cuberto de broca* 
da Tanto que chega cada Companhia áprefença do 
Rei 9 os que levão os cavallos os obrigão a galo* 
pear, e dar faltos por fima do caixão , e ao mefmo 
tempo lanção para o ar os veftidos , toucas, e cin* 
tos , gritão efcumando como defefperados , dizen- 
do : Hujfeim Hocem , Hocem Hujfeim : efgrimem com 
ascatanas, ferem mutuamente com as mãos efquect 
das humas pedras y revolvem«£e no. pó tia Prafa ^ 

e a(»- 



( m) 

e acabada efta loucura , fe recolhem para os cantos 
delia : então vem duas Companhias da melhor Ca- 
vallaria acompanhando , como as outras doze, cada 
huma as fuás andas y e em cada huma delias hum 
caixão com huma figura dos defuntos, chorando to- 
dos o aíTaffino dos filhos de Ali. Acabadas eftas ce- 
remonias , hum Moula prega as exéquias por tem- 
po de meia hora , e dura efte defvario defde as fe^- 
te horas da manhã até o meio dia. AíTeverão os Per* 
fas, que nos dez dias, e noites feguintes eftão aber- 
tas as portas do Paraifo para entrarem nelle todos 
os Mahometanos , que morrerem neíTe tempo , no 

2nal dão grandes efmolas , e fazem taes extremos 
e fentimentoyquè muitos fe enterrão dias, e noi- 
tes até o pefcoço , e cobrem a cabeça com huma 
panela cheia de terra. Jb he nome do quinto mez 
dosHebreos, que conftava de trinta dias, e corref- 
pendia a Julho , memorável pelo jejum, de que falia 
o Profeta Zacharias em memoria das antigas mur- 
imiraçôes , que impedirão a feus pais o ingreíTo na 
terra de promifsão : nefte mez mandou Moyfés os 
eípias de Cades Barne a Canaan. Na língua Syria- 
CÊ^M he nome do ultimo mez do Eftio : entre os 
Hebreos também figoifica pai , de que refultou for- 
marem os Caldeos , e Syros a palavra Abba , e os 
Gregos Abbas , que fignificão o.meímo. Aba , ou 
Mba nas linguas Syriaca , e Ethyope quer dizer pai , 
eeftebe o titulo, que as Igrejas Syriacas, Cophtas , 
e Ethyopès dão aos feus Bifpos , e eftes ao feu Pa- 
triarca : os Catholicos primitivos derão o titulo de 
Jibba , ou Papa com o fignjficado de Grande Pai ao 
Patriarca de Alexandria ^ e foi o primeiro y que o 
fi L ii gp- 



\ 



\ 



( f»4 ) 

go^on na Igreja deDeos.Víi^, on Ahm^ aqric oihí 
tros chamão Alboinus y owAlboino^ Ubmus^ ÓvMj c 
Onon 9 foi o terceiro Rei Cathblico de Hnngria, 
cafado com humairmâ de Eftevâo /primeiro Senhor 
defta Coroa, queelle Iheufurpou noanno de 1041 , 
vencendo a Pedro Alemão fucceíTor deEftevâo, que 
fe retirou para Baviera j onde o favoreceo com geii» 
te , e dinheiros o Emperador Henrique IIL A efte 
quiz Aba aplacar, e nSo o podendo confegutr, le* 
vantou exercito , faqueoa Aiiftria , e Baviera , mcn* 
dou numerofas tropas contra os deCarinthia^ der- 
rotou os Húngaros governados por Alberta Mar- 
quez de Auftria , e preparava fe para a 4mais far^i^ 
nolenta^guerra , fem perder ioftante oa diHgencw dia 
paz , quando o Emperador^perfuadido pelo'Marqim 
de Auftria o cercou na Cidade dejRaab'Xom-:.ta) 
aperto , que elle pedio paz , e a^coDfeguio cbni d]& 
pendío de quaii todo o fèo^gratide theíouro. 0|ppdrí* 
mio depois os fenhores principaes de Hungria V- os 
quacs fc valérSo do Bmperador j que venceo Aba 
na primeira batalha: elle paífou o Danúbio affliâo^ 
e acompanhado de poucos vaflallos, que omatárflo 
00 lugar de Scòpa na anno dè 1044; foi fepultado 
BO de Stebe, Sebe^ ou Slebefpnde paflados annba . 
o acharão fncorniptO'^ e fem > menor cicfftríz^.dn * 
muitas feridas, que recebeo antes de nio/rery^pclè 
que o trasladarão para a Igreja do Mofteiro de Slhp 
ran , fundação fua ^ e Pedro Alemão for reftitaidtra* 
throno de Hungria , e jurado em Ratisbona.:.2Íiv 
he huma eelebré montanha da. Acmenlav da:.(pial' 
oafcemós rios fiufratesi^if Araxo',:'ev.qs<jeorgtiMhil 
lhe chamão Gaiopl^. AHãCúrgsy são • baiá^ pdvoa DidM- 



.( ^^s ) 

TOS da America meridional junto ao rio Madeira* 
Abacoa he huma Ilha dos Ingiezes na America fep- 
tentrional j tem doze léguas de comprimento j dif- 
ta deLucaioneta dezoito entre Jabaquem , e os bai- 
xos deBimini. Abacuc^ owHabacuc^ nome, que fig^ 
nifica lutador, he hum dos oito Profetas menores^, 
que muitos julgarão fer do Tribu de Simeâo , mas 
na verdade fe ignora de que Tribu foflfe , e em que 
tempo profetizaiTe. Os Judeos dizem que vaticinou 
no reinado de Manafles , ou Joaquim , pouco antes 
do primeiro cativeiro; Santo Epifânio qUe florecêra 
no reinado de Sedecias , e fora contemporâneo do 
Profeta Jeremias ; S. Jeronymo o faz Coliega de 
Daniel; a opinião mais provável , e fundada na fua 
Profecia he que floreceo no tempo de ManaíTes ; So^ 
comeno diz queZebeno Bifpo de Buteropolis naPa* 
leftina achara os corpos defte Santo Profeta , e o de 
iVf íqueas no quarto feculo. Houve outro Abacuc , a 
quem arrebatou pelos cabellos o Anjo para levar a 
Babylonia o comer a Daniel ; S. Jeronymo lhe at* 
tribiie a hiftoria de Suíanna , que anda no fim da 
Frokcíã de Daniel , fundado no titulo Grego do 
principio da hiftoria de Bel , que diz : Profecia de 
Abacuc afilho de Juda do Tribu de Levi. Abada ^ ani- 
mai bem conhecido em toda a contra-cofta de Afri- 
ca 9 efpecíalmente no Império do Mônomotapa , he 
hum cavallo fem mais difièrença dos outros do que 
ter natefta hum nervo groíTo, grande, ponteagudo^ 
fempre frouxo , e mole , como oa peruns , excepto 
quando quer defender «fe y oa oflFenaer , porque en- 
tí^ ò anima de forte, que com elle tudo rompe, e 
defpedaça líto matâoty fe eudurece efte nervo de 
Tom. Vn, L iii for- 



(ii6 ) 

forte y que da fua matéria fe fazem bengalas inteí-* 
ras y caixas de tabaco ^ e copos de todas as medi- 
das , que em Goa fe vendem para a Europa com o 
nome de copos y e caixas de unicórnio j fendo certo 
que nâo sáo de unicórnio , mas ílm de Abada, efem 
mais virtude , ou preftimo do que outra madeín. 
Abbade , derivado do Grego Abbas y e de Syriaoo 
Abba y íignifica pai : foi o primeiro titulo dos Prela* 
dos dos Monges , a que também chamarão Archi^ 
mandritas os Gregos. Os primeiros Abbades , e 
Abbadias forâo íujeitos aos Bifpos , como conftt 
dos Sagrados Concilios : depois nelles ti verão os 
primeiros aíTentos abaixo dos Bifpos com fingulares 
izençôes , e privilégios j que confervâo de ceJebnr 
Pontificaes com mitra j e bago , fagrar Altares , ca^* 
lices ^ &c. Innocencio VIIL concedeo aos de Cifier 
dar todas as Ordens y excepto a de Presbytero , e 
todos os Summos Pootifices , Emperadores ^ e Reis 
os dotarão com mão larga , de (orte que os Príncí* 
pes feculares , vendo- fe mais pobres , ufurpárâo aa 
rendas das Abbadias , e fe chamarão Abbades , íem 
bailarem para reprimir eAe abfurdo as cenfuras , e 
diligencias dos Papas, e Leis feculares , porque Fi- 
lippe L e Luiz VI. de França , e depois feus fuo- 
ceíibres os Duques de Orleans forão Abbades do 
Mofteiro de Santanhan de Orleans , os Duques de 
Aquicania Abbades de Santo Hilário dePotiers^ os 
Condes deAnju Abbades de Santaubin, os Condes 
de Vermandois Abbades de S. Quintino , &c. d« 
forte que comião todas as rendas da meza Abba^ 
ciai 9 e Communidade 9 nomea vão alguns hum Moo? 
ge para o governo da Gafa , a que chamarão Deâo^ 

GQOh 



( 1^7 ) 

confervavão quatro, ou finco Monges emcadaMoí- 
teiro para o culto Divino , e davâo-lhe o oue lhes 
parecia para o foftento. Durou efta deforaem em 
França, e Itália quinhentos annos , no decurfo dos 
quaes Pepino , Carlos Magno , e outros Príncipes 
a moderarão o que pudérão , até que vendo-fe os 
taes chamados Âbbades perfeguidos de cenfuras, 
pedirão que lhes deflem as ditas rendas das Abba- 
dias em Commendas, ficando em hnmas a renda da 
meza Abbacial para>os Monges , e em outras fò a 
do Mofteiro para elles , e os Commendadores fem 
jurifdicção alguma no Mofteiro , e Monges , como 
antes rinhão. Ultimamente Francifco L ajuftou 
com o Papa Leão X. nomear os Abbades Commen- 
datarios, eeftes impetrarem Bulias para gozarem as 
Commendas: em Portugal fez Commenda das ren* 
das de Alcobaça o Rei D. Sebaftião (como já fa- 
beis) para feu tio , a quem fuccedeo o Infante de 
Hefpanha D.Fernando. Houve alguns Âbbades Mon* 
ges, que fe^intitulavão Abbades Cardeaes, porque 
a fua Abbadia fe tinha dividido em muitas , ou por- 
que Jhe concederão efle titulo os Summos Pontifices , 
como o fez Califto ao Abbadc deCluni , que fe in- 
titulou por iflb Abbade dos Abbades em iiió^no 
Concilio Romano , onde lho impugnou João Caeta* 
BO y Chanceller do Papa ^ moftrando que eíFe titulo 
fó pertencia ao Abbade de Monte Caffino , a quem , 
por fer o primeiro da Ordem , chamavão os Sum^ 
mos Pontifices , e Emperadores Vigário de S« Ben- 
tQ.: Entre os Cregos os Abbades imitarão os Patri- 
arcas 9 chamando-fe alguns Abbades unirerfaes. Os 
Cónegos Regrantes de algumas Congregações cha? 
-íi ma- 



nitvão ÂblMdes aos feus Geraes> e Priom , ^e ca 
£m efte nome em alguns feculos £31 conamum aoa Pi» 
lidos Profinciaes y e locaes de todas as Ikéúglúei^ 
€ a tòdòs os Sacerdotes , qae;tínhâo joritdic^Sooi^ 
dinaria, como ainda hoje fe obferva nas Prciv^incitt 
do Minho i e Trás os Montes , e refere Da^Ganga 
de todos os Párocos , e Freguezias j nas quaea cria 
iofidliveis Abbade, Guardiáo^ que hoje chamSío Gn» 
fa, Sacriftâoy e Capeliâes. Também houv^ Biípos 
chamados ; Abbades ^ porque os feus Bifpado»'cai 
outro tempo forao Abbadias , e ainda hoje ói qéc 
tem Âbbadia anneza á Mitra j como os Ârcebifpos 
de Braga 9 (eintittilSo depois de Primazes, &c» Ab- 
bades de S.yiâor. OsGenoirezes chamaváo Abb«* 
de ao feu Doge , de forte aue de Pai do poro md- 
doa para Capitão delle, que tie o (ignificado de Dojçoi 
DnXy e Duque, depois do anno de 1307, em que 
00 tratado daquella Republica com Carlos Rei dé 
Sicília chamSo repetidas vezes Jbtaspojmli aoQbgc 
Nicoláo Ftêwbeíale^ Jbiaáejfake título idas Prela^ 
das 'de todas as Religiofas das Ordens Monacaes^ 
Ciericaes , Francifcanas , e omras muitas : teve ú 
feu principio muito depois dos Abbades y não ob^ 
ftante ferem mais antigas do que elles na Igfeja dé 
Deos /aa.Communidaoes de Virgens , mas porqoé 
ttéro quartaiecttlo TmSoem caías próprias^- oil 
dos parentes ^ é ainda depois de terem Mofteiroé 
muitos y e muitos hnnos não ti irerão Igrejas próprias ^ 
nas íim acompanhadas das Superioras aififtiao aM 
Officiòs DiTRios nas Freguezias : fó cóiiíeçárão a^bma 
fliafr-ie Abbadsflas , quando, os Btfpos as claufará^ 
rão do modo poflifel , permittirão Igrejas y e liiá^ 

meáp 



( "9 ) 

mearão , ou approvárão as Preladas , de qne fe fegiiío 
tal vaidade em alguiras , que intenrárao praticar 
aflos de jurifdicção no Clero , e authoridade para 
confeflfar as fuás Religiolas. * Abbadia mixta he a- 
quella ^ em que o Ábbade Regular depois da elei- 
ção , ou íem ella , depende totalmente da approva- 
ção y eleição , ou confirmação de Príncipe íecular 
por authoridade Apofiolica mediata , ou immedia- 
ta. Em França defde oanno de 1012 goza efte pri- 
vilegio a Cafa Real nas Abbadias do feu Padroa- 
do, o Rei entrega ao Abbade o Bago, e efte diz: 
Senhor , chego a fer vojfo vajfallo , e vos prometto Z^- 
aldade até árvorte. A mcfma regalia tiverão em Fran- 
ça , e Alemanha Princezas caiadas com o titulo de 
AhbsiácfCzs. ulbbadia branca foi titulo de hum Coiif* 
vento da Sagcada Ordem dos Pregadores na Ilha 
de 'Maumortier , ou Marmoutier em contrapoíição 
a hum Mofteiro de Benediélinos , que refpeitando 
a cor dos hábitos fe chamava Jbbadia negra. * De-* 
lois da fundação <le Cifter todos os Mofteiros de 
ao Bernardo fe chamarão Abbadias brancas, e os 
de S. Bento AbbaíJias negras. Âhadan he huma an- 
tiga Cidade , hoje pequena Aldeã , pertencente a 
Babylonia , iituada junto ao Golf© Perfico , vizinha 
de BaíTorá , porqne eftá em vinte e nove,, e aquçlía 
em trinta gráos de latitude. Âb-addur \\t termo. da 
infame my thologia da gentilidade , quer dizer DeoSj 
ou pai magnifico , edelle ufárão os Poetas parafig- 
Uificarem os pannos , em que fingirão envolvia o 
fcu Deo5 Saturno os filhos para 05. cçriier , e evitar 
que algum lhe tirafle o governo ^como lhe. tinhão 
proguQAicado^ Maddw qq Apoci^lypfe quer disec 

Rei 



( '30 ) 

Rei dos gafanhotos , e fignifica o demónio. Ahae* 
lar do vide Abaiiardo. Abaffi^ ou Apaffi ^ Miguel A* 
paíE , homem iUuilre, e valerofo de Tranfiivania, 
foi prizioneiro muitos annos dos Tártaros de Kri^ 
mea, e quando tinha a liberdade peia maior fortu- 
na , os íeus naturaes o elegêráo Príncipe, eÁHBa* 
icá. General dos exércitos do Sultão Mahomed IV 
em Hungria , approvou a eleição , e o protegeo , 
para que fcoppuzeflfe aos iCirninjanoSi que osTur«> 
cos haviáo expellido da Traníilvania , e o Empera- 
dor Leopoldo I intentava reftituir ás fuás terras , 
o que não pode confeguir o memorável General 
Montecucuh*. Reinou Z^iguel Âpaffi pacificamente 
protegido dos Turcos , e adquírio as Cidades de 
Giauiêmburgo ) e Zathmar : no anno de 1681 foc« 
correo os reoeldes de Hungria fiel ao Turco , até 
que a fortuna defte fe diminuio no cerco de Vien* 
na , então fe unio com o Empcrador , que lhe con- 
fervou a enveftidura, protecção, e aliança, quego- 
5sára com o Sultão : morreo enr Vveiffemburgo no 
anno de 1690, (uccedeo-Ihe em tudo feu filho Mi«> 
guel , a quem fe oppoz o Conde de Tekeli , e lhe 
ufurpóu muitas Praças com auxilio dos Turcos, 
que lhe derão a enveftidura deTranfilvania para fe 
vingarem da ingratidão do defunto Miguel Apafli. 
Na campanha de 1690 vencerão os Turcos o exer* 
cito Imperial , e conquiftirão muitas Praças , que 
o Emperador lhes havia tirado , mas defunidos os 
Turcos, não pode o Conde de Tekeli coníervar o 
domínio deTranfilvania, e oslmperiaes recobrarão 
tudo o que naquelle Principado havião perdido , 
que fe lhes cedeo na paz de 1698 , e para maior 

fe- 



(131) 

fegnrança chamou o Emperador á Corte o novo 
Príncipe Apaffi , e o obrigou a que renunciafle a 
eleição ) e direito ao Principado de Traníilvania , o 
que elle fez^ e £cou na Corte como particular, vi- 
vendo de huma pequena côngrua tão mal paga y 
que defgoftos lhe acabarão a vida na idade de trin- 
ta e íeis annos no de 171 3. Os Eftados de Tran^ 
£lvania reclamarão a renuncia y e elegerão por So- 
berano o Principe de Ragotski. jíbaga foi Rei dos 
Tártaros no fim do decimo terceiro feculo , ven- 
ceo , e fàbjugou os Perías y e perfeguio os Catho-r 
licos da Paleftina : dizem mandara huma embatia-^ 
da ao fegundo Concilio Geral em Leão de França. 
* O conrrario alfirmão os Monges de Santo Antão , 
e que o matara com veneqo hum efcravo j a quem 
amava mais do que íe foÍTe íeu filho^ Jbagawedri 
he huma excellente Provincia da Ethyopia entre os 
rios Nilo y Abanhi , e a deliciofa coíba de Camzi« 
bar. Ahagafcam , ou Kam , Rei dos Tártaros con-? 
quiftou o Império dos Turcos , onde deixou por 
íeu Lugartenente a Parvana , que o deixou culpa-^ 
▼elmente perder, Kam o reftaurou, e para caftigar 
Parvana , o mandou cortar em pedaços , e cozida a 
carne , a comeo com todos os Grandes , e Cabos 
do exercito. Ahagos ^ ou Ahafgimos são huns povos 
de Scythia vizinhos dos Sacas da parte , de cá do 
monte Imeo : receberão a Fé Catholica no fexto 
feailo por diligencias do Emperador Juftiniano , 
que lhes mandou edificar Igrejas , e períuadio não 
caftraíTem os filhos. ^ Hoje vivem como brutos^ 
f6m Lei y nem Soberano. Ahmlardo , ou Ahaelarda 
fin bum^ dos mats celebres Dentares no dtiodeckn» 

fc- 



fecalo, contemporâneo de S. Bccnardoí: ezcedeo i 
feus Meftres apenas recebeo delles a$ .primeiras lU 
çôcs ; porém a paixão de amor o fezdjfer infiel ao 
ièu maior amigo Fulberto Cónego de^ Pariz , que 
o tinha em cafa para Itieenfioar huma íbbrinha Hi> 
loifa, de quem teve hum filho ^ e á quefm j reptig« 
nandò élla , recebeo dandeíbinamente. Foi ponoo 
depois condemnado, por herege em dous Concilios 
de França , e ifto o obrigou a tomar o eftado de 
Ermitão, e depois de Monge a tempo ^ que HeJoi- 
fa já eftava Relígtofa j e elle lhe fervia déDiredlon 
Em fim depois de muitas perfeguiçôes ,. e trabalhos ^ 
que elle efcreveo como qi^z j veio a morrer na Ab- 
badia de Gluni. * Foi porém tâo douto , univer- 
fal, fubtil, e elegante, que emBertanha queftionáo 
o lugar , em que nafceo , que Moreri diz fer Pa* 
lais, ou Palets. ^ Abakakban foi o oitavo Empera*^ 
dor dos Mogores , * cuja memoria he aborrecida 
hoje de todos , porque extinguio as famílias mais 
antigas do Império , e todas as que por nobreza, 
riqueza , ou prendas erâo capazes ae afpirar ao 
throno. Nunca fe foube que Lei tinha , porque fa- 
vorecendo aos profeíTores de todas , e obfervando 
algumas ceremonias delias para os attrahir ao feu 
ferviço, nenhuma profeíTava. Foi o mais feliz Mo- 
narca daquelle vaftiíSmo Império, porque dominou 
quafi toda a Perfia , Bab]rlonia , e Mefopotamia , i^ 
bem dizem os Mogores nunca pode domar os Arra-s 
coes feus vizinhos , e confinantes bárbaros, nem ou- 
tros muitos. Reinou 17 annos , morreo no de 1281 
de veneno , que lhe miniftráfáo em hum vcftido novo* 

LISBOA, Na Officina de Miguel Manefcal da Cofta , Impreflbr do 
Saato Offiâo« Anno 1765. C^m toioi as Ihcngas ncccjltrias. 



CONFERENCIA XII. 



I .. 




Bala he hum porto de Sicília , onde fc re- 
colheoJiilioC>far com hum fó companhei- 
ro depois de o- vencer Pompeio. Âbaldar 
he palavra Indiana , que fignifica Governa- 
dor de huma Cidade : no anno de 1612 íugío hum 
de Juvoni com dez milhões em Ídolos de ouro , que 
roubou em diverfas romarias no tempo do feu go- 
verno /e os filhos o aflfogárão na paflfagem do rio 
Range, e dividido o thefouro, forão pedirem diver- 
fas partes o Baptifmo para fe livrarem da juftiça^ 
que os feguio debalde. Aballon^ onAbalão^ hé hu- 
ma Comarca na Ilha da Terra nova da America 
Sepcentrional , onde os Inglezes tem a Colónia cha- 
mada Ferreyland. Aboliu^ he huma Ilha no mar de 
Alemanha, cujas arvores diftilâohumarezina, a que 
muitos chamarão âmbar liquido: chamou- fe Baltíai 
c os Gentios^ que antigamente a povoarão, fazião 
cem ãntíos í^cn&cios is aJmas dos que fe aíFcigavão 
Hd mar vizinho , fe náo vinhão os feus corpos á praia. 
Abana he hum pequeno rio da Syria , que naíce no 
n^onte Líbano , e pafla por Damaíco , cujas aguas 
Julgava Naamâo ferem melhores que todas as da 
Paleftina Ifraelitica : os Hebreos lhe chamão Amanah. 
* Gabriel Timotheo , que o vio , aflfevera que as 
íiias aguas curão a melancolia prodigiofamente. Aban^ 
Ir^., ou Abanbusj ou Abantia^ he hum rio daEthyo* 
pia íuperion Abancai hebum rio do Perii na Ame- 
rica Meridional ^ naíce da ferra nevada • e acaba no 
^ 1. VIL M Xau- 



Xaiiza j ou rio Maranhão na Província de Lima. Ma* 
nico th^nomt Portusuez é e alÃÍ4.i>e(n iif«dá:ida9 
mulheres; mas he ceiebre num, que fe confcnrá no 
Convento deS. Filibcrto deToumus, e muito mais 
iingular o de Províld d^ Ordem dos Prégadjves , 
que ferviâo antigamente de cobrir o Sacerdote í*-nof- 
tia , e cali$ y fuftentadoa por Diáconos para^evi^r 
cahiíTem animaes , ou, iniroundicias fobre effas cou^ 
fas. Hoje fó o Papa 9 le.Q.ÈRiinenuflimo Senhor Caih 
deal Patriarca ufa eé#^ Mímicos com o nomeLati^ 
no i?//?^^/«/»^ ^; -Rits^ nuQCa no tempo do {acrificio^ 
JbanriQs são hnos póvoa de Mauritânia vizinhos dos 
Caprarienfes > huns y e outros conquiftados pelo 
Conde Theodoíio , pai do Emperador do mefmo 
nome. : Abano em Lstim Aponus he huma Freguezia 
do território de Pádua y pátria do grande Medico 
Pedro de Abano : terQ admiráveis fontes y e banhos ^ 
que Tbeodorico Rei dos Oftrogados fez cercar com 
admiráveis edificios y quando teve a Corte em Ra- 
Tenna. Abantes sáo hun$ povos de Trácia, que po-; 
Yoárâo em Grécia a Cíaade de Focia , edificarão 
outra chamada Abea y donde paflfárâo para a Ilha 
Negroponto, chamada Eubea nefle tempo y que quer 
dizer gordura na lingua .Grega pela muita y que ti* 
nhâo os gados adquirida nos feus admiráveis paf* 
tos : eftes povos bellicofos y e coftumados a vences 
lutando, imitirão os Curetes no coftume de terem 
cabello crefcído fó no toutiço. Abantidas filho de Pa* 
feas matou a Clinas , pai do celebre Aratus y primei* 
ro Magiftradp de Sycionia y tyrannizou o gover-^ 
no , e foi morto por Dinias y e Ariftoteles na pra* 
ça pública y em que oscoftarnsva ouvir dífputar eoi 

Bi- 



I ■ < 



( H9 ) 

F^lofofía. Jhantis j on Abmtidã , Comarca antiga 
de Bpiro, fundação dos Âbantes, e Lx)cnenres de- 
pois da deftruiçâo de Tróia; Abanzvivar Cawàeíáo y 
e Província principal de Hungria alta nas Frontei* 
ras de Polónia , cuja cabeça he CaíTovia , ou Cait 
chavv. Abaraner he Cidade da Arménia maior ío^ 
hxfi o rio Alingeac Cathedral. * Em outro tempo 
do Arcebifpo de Naxivan , e muito povoada de Ca- 
tholicos , hoje hiun monte de pedras com poucos 
Mouros pobreá , e alguns fcifmaticos. Aharbarea 
fiome de huma Naida^ na quai Bucaliao, filho ma- 
ior de Laomedonte , (fingíráo os Poetas) gerara 
Efepo , e Pedafo. Abarca foi appellido de D. San- 
cho , fegundo Rei de Navarra. Abarca , Jeronymo 
Abarca de Bolea e Portugal ^ íbi homem celebre 
no decimo fexto feculo, compoz a melhor Hiftoria 
dbs Reis de Aragão , donde era natural. Abarca ^ 
Martinho Abarca de Bolea eCaftro, Barão Arago- 
ncz , Senhor de Clâmofá , Sietaní , e outros Luga*» 
rfes , filho de Bernardo de Abarca ^ Vice Chanceller 
de Carlos V , e Fiiippe II , compoz obras excei- 
lentes , e não fe derão ao' prelo as melhores. Aba^ 
rim he a montanha da Arábia Pétrea , que fepara 
as Monarquias de Amonitas ^ e Moabitas na terra 
de Chanaan : Nebo , e Fafga , montes celebres na Ef- 
Critura Sagrada , (porque no primeiro morreo Moy- 
lés) erâo dous raifios defta montanha , que foi huitia 
das eftaçôes dos Ifraelitas , donde défcêrâo para as 
campinais de Moab nas margens do Jordão. * Defron- 
te defta montanha ehtre ójord^, e Jericó fingirão 
produzia a terra a herva Baaras , que de noite pare» 
tía chammá ^ matava quem- lhe feirava- a raiz da ter- 

M ii t^> 



( Il< ) 

n 9 e aflFugentava os demónios « i&biila , e aíTumpto 
de rifo para os moradores , e viageiros da Palefti- 
na. Jbarimom j p9l\z deScythia habitado de homens 
ialvagens , que por terem os calcanhares disformes 
no comprimento , fingirão que tinhâo os pés vira- 
dos para trás. * He certo que morrem tirados das 
brenhas, em que vivem, mas he porque de paixão 
não comem , nem bebem mais. Abarindo he hum 
promontório na Afia menor , para onde fugio Co- 
non com a íua armada vencido por Liíandro. Aba^ 
ris j filho de Scuthus , de nação Hyperboreo , ou 
Scytha , ignora- fe o tempo da fua exiftencia , foi 
Poeta infigne , e tão douto , que admirou Grécia ^ 
mas deixou na memoria das fuás acções hum grave 
fundamento para dizerem os Gregos fora o mais in- 
figne feiticeiro , e por iflb adivinhava terremotos , 
tempeftades , guerras , &c. como também deíappa- 
recia, quando lhe era neceflario. Abaritb he hum lu^ 
gar de Gallilea , cujos moradores obrarão admirá- 
veis façanhas na guerra dos Judeos contra os Ro- 
manos , vencerão , e defpojárão o Rei Agrippa , e 
fua irmã a Rainha Berice. Abarus he nome de hum 
Principe Arábio , que para deftruir aCrafib, o per- 
fuadio a que entrafle no Reino dos Parthos , onde 
morreo com todo o exercito. Abas \, Rei daPerfia, 
veja-fe ScbàlhAbas. AbaSj Rçi de Tofcana, reinou 
quinze annos,^e edificou a Cidade dos Abienfes no 
mefmo paiz. Aias , dnodecimo Rei de Argos , fi- 
lho de Lynceo , e de Hypermneftra , pai de Acri- 
fio, e Preto, mil trezentos e oitenta, e finco annos 
antes de Chrifio. ^6^« filho deHypothour, e.de 
Melanira , £ngírão os roeta^ quç .§,.d^ofa.Cere$, o 

■ .' con- 



( t37 ) 

convertera em lagarto ^ lançando fobre elle varias 
tintas mifturadas , com que lhe fez na pelle tantas 
cores em caftigo de efcarnecer dos feus facrificios, 
ou da demazíada prefla j com que bebia. Abas foi 
hum Centauro y filho de Ixion , e de huma nuvem , 
ficçáo Poética , e Gentilica , por fer grande , e li- 

Í»eiro caçador. Jbas , Capitão dos Latinos em Ita- 
ia, fez aliança com Eneas, a quem foccorreo com 
tropas de Populonia y Cidade maritima da antiga 
£truria , a que hoje chamamos Tofcana , defronte 
da Ilha de Élva» Abas agoureiro, ou Profeta Gen* 
tilico , e feiticeiro , filho de Linceo , e de Hyper« 
inneftra filha de Danais, foi Capitão do exercito de 
Jufandro , General dos Lacedemonios , o qual em 
temuneração dos ferviços lhe erigio no templo de 
Apolo huma eftatua feita por Paisão na Ilha Calau- 
*rea , hoje chamada Sidra na cofta de Peleponefo , 
ou Morea. Abas Efcritor antigo compoz huma hif- 
toria deTroia. Jbas o grande foi Rei da Perfia em 
>X5é4, filho terceiro deMahometoCodobende: go- 
vernava a Provincia de Arat , quando matarão a- 
leivofamente feu irmão fegundoEmirenfe; e temen- 
do que o mais velho, eRci Schãch Ifmael terceiro 
o matafle , confeguio que hum Barbeiro lhe tiraíTe 
«vida. Subio ao throno em x^2ç comuniverfal ap- 
plaufo , achou o Reino dividido em mais de vinte 
cabeças , de forte que lhe foi neceflfario conquifiar 
o que era feu , e para evitar outra divisão , extin* 
guio todas as familias dos Turcomanos , ou Cour- 
tches , que dominavão todo o Império : para iíTo 
extinguio o exercito Veterano , introduzio no Rei- 
no muitos milhares de Catholicos Georgianos , e 
Tom. Vn. M iii Ibc- 



( IJ8 ) 

rios j a maior parte feus efcravos , e vaíTalIos to- 
dos y aos quaes y como inimigos dos Courtches , deo 
as armas , e empregos civis y degollou então fem 
crimes , nem proceflb as famílias nobres , os feus Ec- 
çleíiafticos ^ e Juriftas , que he o mefmo entre os 
Mouros I muitos mil plebeos , e intentava fazer o 
mefmo aos Grandes, quando a guerra comosGeor» 

Sianos j Tártaros , e Turcos o obrigou a depender 
elles : conquiftou « Geórgia toda , matou o B ei 
delia j derrotou os Tártaros Usbecos , fez prizio- 
neiro o feu Príncipe , hum irmão , e trez filhos , que 
degollqu : venceo os Turcos , e vendo* fe em paz , 
efcolheo para Corte a Cidade delfpanhan, que fez 
admirável com ruas , Praças , e mefquitas y efpecial- 
mente a maior cliamada Mehedi. Inquietárao-<no os 
Turcos com hum exerciíto de quinhentos mil ho- 
mens y e para lhe. reíiftir foi morar em Tauris y on« 
de promettendo grandes foldos, e prémios por ca- 
da cabeça de Turco ^ fezCham ahumfoldado, que 
lhe prefentou em fatim dia finco,! Venceo em fim os 
Turcos em batalha campal decifiva , conquiftou a 
Cidade de Bagad , ou Bagdat y mandou cozer em 
hum couro frefco de boi o Governador nú y porque 
o efcarnecêra j e pofto^ao Sol, o fez morrer cruel- 
mente, quando o couro £ecando-íe o fufibcou. Me-^ 
ditava conquiftar^nos Ormus em 1622 unido com 
oslnglezes, então inimigos deCafteila, a quem ci- 
távamos fujeítos , quando morreo em Ferabat em 
1629 de enfermidade aos feíTenta e trez annos de 
idade , e quarenta e finco de reinado felicifiimo. 
Abas Mirize , filho de Mehemct Hodabendes Rei 
da Perfia^ foi Vice-&ei de Heri, Província grande 

per* 



( Í39 ) 

perto de Cabrel j que he a antiga Âracofia. Mlrize 
oalmas-Kan , primeiro Miniftro , o accufou de re- 
belde a feu pai falfamente^ dizendo-lhe não quize- 
ra mandar foccorro para a guerra ; mas conhecida 
a verdade , foi Mirize morto. Pouco depois foi af- 
faffinado Emir , Principe herdeiro , roorreo Mehe- 
met Hodabendes de pena junto ao fepulchro do fi- 
lho , fubio Abas ao throno j cafou com huma filha 
do Grão Kam da Tartaria , e eftabelcceo paz com 
aquella Monarquia. Jlbas he nome de hum rio da 
Arménia maior j junto ao qual Pompeio derrotou 
os Albanos : nafce das montanhas de Albânia , e 
acaba no mar Cafpio : o mefmo nome tem huma 
montanha defte paiz. Abafcosy ou Ahajfas ^ em La- 
tim Ahajji^ sâo huns povos bárbaros da Geórgia , a 
que os Perfas chamão commummente Abgones ^ 
yivem de rapinas , fem lei ^ nem Rei , em covas nos 
matos , como brutos , tem deftruido mil vezes as 
povoações mais notáveis dos Perfas 9 e a Corte no 
anno de 1733 , fendo nella Embaixador donoíToFi- 
deliflimo Soberano o M. R. P. Fr. Jorge da Pre- 
fen tacão , Eremita de Santo Agoftinho. Ahafcio he 
hum rio deMíngrelia em Afia , que entra noFaflb, 
e antigamente lhe chamavâo Glaucus. Abafenos são 
povos da Arábia vizinhos dos Adramitas, de quem 
foi General o celebre Arábio Abrahet , * nome ho- 
je o mais infame para os Mouros doutos , porque 
no mefmo anno , ou dia , em que nafceo Mafoma ^ 
oneimou a Cidade de Meca montado em hum ele-* 
lantc, e com grande exercito» O Alcorão no Capi- 
tulo do Elefante diz^ que indo Abrahet commetter 
e^e deliâo^ arrojara oloferno huma nuvem de pe- 
dras j 



( 140 ) 

dras, ecahlndo huma fobre cada Toldado, perecera 
o exercito. Ahajfaro foi Capitão do Rei Cyro , e 
hum dos que elle mandou a Jerufalem para reítau- 
rar o Templo deSalamão. Ahajfeniay Ahajjia^ Abaf* 
finta y Ahajjinos , veja-fe Abiffinia. Abajler ^ nome de 
hum dos cavallos de Plutão. Abatom , ou Abaton^ 
foi o celebre edifício de Rodes , onde íe não podia 
entrar, Morreo Maufolo Rei de Caria na Afia me- 
nor , que ficou governando fua mulher ArtemiíTa : 
os Rodios julgando-a incapaz do governo , entra- 
rão com huma grande armada no porto grande de 
Caria. ArtemiíTa tinha outra efcondida em hum pe- 
queno porto de Halicarnaío , e tanto que entrarão 
os Rodios , fez final nas muralhas para entregar a 
Cidade. Sahírão os inimigos em terra alegres , mas 
acudindo logo a armada de Caria , lhes tomou os 
navios , c na terra forão todos mortos. Mandou 
ArtemiíTa guarnecer os navios tomados , e com to- 
dos os finaes de vifloria entrarão em Rodes , on*^ 
de os receberão com feftas , ignorando ferem inimi-* 
gos. Sahírão livremente os Carios em terra , e con- 
quiílárão Rodes , onde ArtemiíTa mandou erigir 
para memoria duas eílatuas , huma fua , e outra a 
feus pés de Rodes cativa. Muitos annos depois de 
recuperarem os Rodios a liberdade , quizerão oc- 
cultar efte padrão da fua infâmia , e como os tro- 
feos erão coufa fagrada, claufurárão as eítatuas em 
huma como fortaleza , a que chamarão Abaton , pa- 
lavra Grega , que auer dizer : Onde níofe pode ir. 
Abalos fignifíca couía inacceffivel , he huma Ilha de 
Egypto na Lagoa de Mênfis , ou Lago de JVIeris , 
foi celebre ) porque nella efteve o fepulchâ do Rei 

Ofi^ 



híBmImíBm 



( 141 ) 

Ofiris i pròdnzia o linbo mais fino j e os arbnftos 
chamados Papirus , em cujas cortiças efcrevêrâo os 
antigos muitos íeculos , e donde veio o nome ao 
papel. Abancas foi hum Filofofo exemplar de ami- 
gos, porque fendo-lhe neceflario falvar de hum in* 
cendio fua mulher^ hum filho de fete annos, outro 
de peito , e hum amigo ferido pelos ladrões em hum 
mufculo na noite antecedente, falvou unicamente o 
amigo ás cofias , morreo o fiJho pequeno , eícapoa 
o maior com a mãi por acafo , e arguido por ifto 
Abaucas , rcfpondeo : Outra mulber , e outros filhos 
podia eu ter , mas outro amigo como efte não o havia 
de achar. Ahari y Abanbi y veja^^k Abanbo. Abaunos y 
ou Abaunusy he hum Jago deTurcomania. Abauzay 
Pedro de Âbaunza y natural de Sevilha , grande Le- 
trado , e Author do livro PraleUiones aà titul. Xy. 
lib. V. Decretai. Abazea , ou Abazeia , ceremonias 
gentílicas antigas inftituidas por Dionyfio filho de 
Capreo Rei de Afia , que fe ufa vão nos facrificios, 
em que fe guardava filencio* Abbas y filho deAbdal- 
mothleb y tio de Mafoma , fez guerra a feu fobri- 
nho y a quem julgava embifteiro , e tyranno , como 
na verdade era ; mas fendo vencido na batalha de 
Bedir y fe refgatou , e reconciliou com elle por ne- 
ceffidade, e foi feu General tão fiel, que fe lhe nâo 
valeife na batalha de Honain contra os Takethitas 
depois da conquifta de Meca, certamente nella aca- 
baria Mafoma com todo o feu exercito ; porém Ab- 
bas com voz forte, e animo intrépido fez voltar as 
caras aos fiiigitivos , formou os efquadrões , arte, 
em que foi defiro , e venceo a batalha : cfiudou o 
Alcocáo y vendo que fó aí&m podia fer feliz, e foi 

Dou- 



( ^4^ ) 

Dontof nelle tão vtnendoy queos Mufuhnanes, cí 
os Califes Ornar, eOtbman fc apeavâo para o fan- 
darem. Âbulabbas , ou Saffah feu neco foi Calife, 
e deo principio á Dinaítia do9 Abaíirdas , que poC- 
fnírão oCaliâdo quinhentos e vinte qitatro annos, 
em que bòiive trinta e fete Califes^ fucceífivos. M» 
bas^Ahdaltab Ebn^AbasAbdãllah , prhno com irmáo 
âe Mafoma, neto Abdalmotbleb, avô do mefmo j 
chamado volgármenteSahabah, que quer dizer com- 
panheiros do Profeta. * ^endo nome phirar , hoje 
dão fó a efte^ maior dos feifs Doutores , e the* 
feuro das tradições ^ que dizem lhe eníinára o Ar« 
chanjo S. Gabriel ^ quando do Ceo lhe trouxe o 
Alcorão , e lhe deo a perfeita inteliigencia delle , 
pelo que foi intitulado Interprete do Alcorão. Ab^ 
%ãfchoí ^ owAbbqffoSy veja^fe Abcaffos. Abbaffãy irmã 
de Aroan Rafchid ^ quinto Calife da cafta dos Ab- 
baíltdas , cafou com hum valido de íeu irmão cha- 
mado Giafar com a condição (fingem os Mouros) 
de dormirem feparados, cobrando o contrario y ti-* 
verão hu^ filho, que mandarão criar em Meca, 
Giafar perdeo a vida , Abbafla a íbrtnna , porqud 
Morreo defterrdda, epobriffima. Abbajftdasy ou deí^ 
tendentes dos Abbas , tio , e primo irmão de Ma* 
foma , de que agofa falíamos: veja-fe Calife ^ e C^- 
Hfado. Abbeforty oví Abbefoart ^ Cidade de Noruega 
com leguro porto lio governo de Aggerhus , vinte 
if)ilhas de Anfoya , vinte e finco , ou trinta de Sta-^ 
fanger. Abrvilla , ou Abbavilla , ou AbbaUs , Villa 
cabeça do Condado de Ponthieu em Picardia^ fobre 
ô rio Somma na Diécefe d^ Ami^A» y íinco^leguad 
diftance do HMrr , foi qwkíca de^^McrcMr^do» A&ibadc» 

de 



'( «43 ) 

de S. Riquier /depois Caftdlo com Priorado de- 
pendente da Âbbadia. Hugo Capeto j que foi Ab* 
bade íecular deftes Monges , lha tirou , e fez Praça 
forte contra os infultos dos bárbaros , que poíFuia 
feti; genro Hugo com o titulo de defenfor. Ángel^ 
2amo fea filho, efucceflbr, depois de matar o Con* 
de de Bolonha em huma batalha, e ç^&r^com avíu- 
ra delle , fez nefte lítio huma grande Ciààde , que 
pofluio com o titulo de Conde de Ponthieii y e AU 
caidc Mór defta feltz povoação , que nunca foi topf 
mada , e iempre fiel , pelo que lhe chamâo a Vir-< 
gem do Paiz: goza asReliquias de S. Vulfrano Bif» 
TO de Sens em huma Igreja Capitular, tem muitas 
Freguezias , Conventos i e privilégios antigos. Ji^ 
hony Normando , e Monge de S^ Germão dos Pra-« 
dos em Pariz , viveo no feculo nono , aíEftio no cer- 
co* de Pariz pelos Normandos, e obfcreveo elegan^ 
temente. Jbbon , Bifpo de SoiíTons , fucceíTor de 
Rodoino , fobfcreveo o Concilio de l?roffi , e o ds 
Reheims , confagrou em S. Medardo â Raolo , que 
fuccedeo a Carlos o Simples, e foi feu Chanceller, 
morreo no anno de 9^7. Mbmy ou Albão^ Abbadé 
de Fieuri , de cuja fefta tratâo os Martyrologios 
Beneditinos, e o de Pariz a 13 de Novembro, foi 
Santo, e doutiflimo, thamado vulgarmente o FíI(m 
fofo mais douto , e Mefire de toda a França. Pacificou 
as guerras civis de Inglaterra , e as differenças en* 
tre Arnoldo ArcebifpodeRebeims^ e o PapaGre- 
orio V , que intentava pôr Interdifto em toda a 
Vanca: foi morto violentamente emGaícunha por 
hum^ levantamento do povo, a quem intentoiv foce- 
garno anno de 1004. JÍbbot , Jorge Abbot Arcc- 

bif. 



F 



( 144) 

bifpo de Cântorberi era filho de hum Apizuador 
de pannos , oafceo em Guildfort Condado de Suiv 
rey era 1562 , foi Deão de Vvinchefter , Bifpo de 
Lmchcfield^ e ultimamente Arcebifpo Primaz. Foi 
aborrecido de muitos , e grandes Eccleíiafticos por 
delicado na meza , defprezador dos Sacerdotes , e 
amante dos feculares: julgárão-no privado da dig-. 
oida^e por hum homicidio involuntário > mas deter- 
minando o contrario muitos Biípos , gozou a digr 
nidade alguns annos , até que os febs inimigos o 
accuíárão de não approvar hum Sermão do Doutor 
Sibtorp da obediência á Sé Âpoftolica contra o que 
o Rei determinava , pelo que foi depofto de todas 
as funções Primaciaes , retirou^ fe para a fua pátria, 
e depois para o Cafteílo de Croyden y onde. tale- 
ceo, e jaz na Igreja de Guildfort. Foi hum dos ho- 
mens mais doutos de Inglaterra , como teftemunhão 
as fuás obras , e toda a fua defgraça nafceo de íe 
iiltroduzir em negócios politicos, impedindo oca- 
iamentò dó Principe de Gales com a Infanta de 
Hefpanha , acção , que Ihegrangeou o odio do Rei 
D. Jaime L Dizem fora a ma tolerância , e defcui- 
do caufa de fe propagarem naquelle Reino os No- 
conformiftas , e que podendo extinguir facilmente 
o fcifma, concorrera para a fua duração. Viveofeí^ 
fenta e hum annos occupado fempre em grandes 
eftudos. 



LISBOA , Na OfEcina de Miguel Manefcal da 

Cofta, ImpreíTor do Santo Officip. Ânno 1763, 

Com todas as licenças necejfarias. 



SSm 



('40 



J 




CONFERENCIA XIII. 

Bbot y RobertQ Abbot , irmão mais velho 
^^ Jorge Abbot , Doutor Theologo era 
Oxfort , Capellâo do Rei D.Jaime I , Len- 
te da mefma Univerfidade , e dous annos 
Bifpo deSalisburi, compoz o Kvro De Suprema Po» 
tejiate Regia. Abbot off Battle , o Abbade da Bata* 
lha y memorável em Inglaterra , porque entrando os 
Francezes no Condaoo de SuíTex , Abbot juntou 
milicías y fortificou Vvinchelfei , reíiftio ao cerco , e 
fez retirar os Francezes. Jbcaffosy on Abafchos são 
huns pòvps do monte Caucafo vizinhos de Mingre* 
lia y gentis , déftros , e valentes , habitâo em caba- 
nas nQS montes cercadas de foflbs para fe defende- 
rem huns dos outros y porque mutuamente fe íur- 
tão para íe venderem porefcravos aos Turcos , que 
os eftimão mais que todos y vivem dos fcus reba- 
nhos , e leite ^ abominâo o peixe y efpecialmente os 
caranguejos y de que os Mingrelios fazem os me- 
Ijioresguizados. Os feus enterros coníiftem em pen- 
durar o cadáver no mais alto de huma arvore com 
às fuás armas y logo fazem correr b. íeu cavallo á 
foda da arvore ate morrer, para que o vá fervir no 
outro mundo , e acabado o banquete , mettem o ca- 
dáver em hum nicho feito no grbíTo do tronco da 
oiefm^ arvore I cuberto com terra molhada para ta- 
par a ef)tra4a. ;^^^^ y pai de Adoniráo y cobrador 
dos tributos de Salamão. Âbdala , pai de Mafoma> 
ío'\ efcrávo ^ que ganhava para íeu fenhor no em- 
Tom. VII. N prer 




( 140 

prego de arrieiro dos mercadores Arábios no fim 
do fettô''J(bciilo. :Ab4aHa 'alho dç^M<fa\^, íi^tS^^de 
larer, irmao.de Ali, pertendeo o Califado, quan- 
do os Mouros dcfgoftofos dos Ommiadas intenta- 
rão dar aquetla fuprema dignidade ÍiQs'A6kíIidj 
cam« effièito na Gidade >de:Goufa^y>Qrtde 
íumm^meote venera<io^) fe fez* acdatmt 
mas durou^lhe pouco tempo aqncHa fnprema dig- 
nidade , porque os parcíaes de Merv^o U o lân^a^ 
râo fora ,:e Ahoumpdèm ,' patrono do^ Abaíldas. 
omándonr aflfaíBnar. Abdalla y filho de Zobair j íbi 
acclamado Galife dos Moía knane^ pèlM moradores 
de Meca , e Medina em otlro de Jefid II ^ que in- 
tentava extingoir a)^mHia de Ali : eítc Ihepromet- 
teo", o deixaria mer pacifico' em Meca fedepuzeflTe 
o Galifada.<|.ji)as como. áao aceitou ô partido y o 
eercocr én»Mieca^ depois de iàquear Medina, defen* 
deo-fe Abdaila valerofamente y morreo na empreza 
Jefid , rediòu^íe: o- exercita y e? foi"#ecotihècfdW por 
todas as^ProTíncK» da hniperio ^exceptcySyrfa-, e" 
Paleftiota V qQ^ aç^tsmáráo Moania^fitbcPileJeíid^ 
e qiial cercoii Abdalia eiia Meca^ onde morreo vàr^^ 
krotíaroeate peleijando^ depoib de iete m^es de 
tr^ãlkoioc&ooi. AèdaJia. Tly chOfiiAid AMVkiKbry' 
da' geração. deAlcy foi o fegnn^oCal^ déte AbaP 
fidáK. TanM>; qiie ioBbe» qcie feiP ti(^ Âbd^Hà' ftftft 
acciamada Caltfe; na^ S^ria ^ o convidoa afèivoTa-^ 
inente , e fóxeodb çai%ir fobre elliei acamerA y em 
^e o: ho4]>edii!a ,e dormia ^ lhe tírooa^tid^v Fi-^^ 
to4ii»lhc> outro oppofitor chamado' Aaiiír^c^fíédo-f 
imnava toda a Pe^fíaye vendA^ ^^anS(> podia' 
«coccii:,^Uw^maadott'« cífttds»;^ ^^^OiZt^jfius de 



■(147 0^ 

Mifòrtia ', tafigniad do Califado ^ r thè: deo obcdi^ 
eociâ , j>iedindo-lhe qtiizeffe fer feu bofpede. .Veio 
elle com finco mil cavallos 9 1 Ábdalla o matou a- 
leifOÍMíRente a punhaladas.^, cpnquiftou a Arménia ^ 
Gèliciu 4. c. Capadócia ypcrítgnio inhnnianamenre 
•s.Catholicos^ vendeo os bens Ecciefiafticos, rou- 
bou dSTafos^e alfaias. fagradai, prohibio o facrín 
jícÍQ dd Mifla ^ € enfinar.a.Fé Gathohca ^niandou 
matcar.oaa mSos ò^Ctehblicos para Terem coniie-» 
cid<>(Sà€:.ençaFcerÉr'X>8 qtte.fenâo ãchaíTen) marca* 
do9«'lnteQtoa cohibir éftes iníuLtos a Emperadoir 
Leáa IV ^ ííicceflbr de Conftaottno Coproni mo , 

3ue fò ftt alguns damoos em Romania, ^ e Capa-^ 
ock ^^ oemou vinte e dous:annos y e morreo no 
ét.77^i'AbdaUa^A^úmo Gaiife da lainilia dos. A^ 
baffidés j cliamado AUMom , trmãò ^o Calife Aa- 
rim,., iroiãõ do Calife Amim , a quem fuccedeo^ 
▼eticeo os Gregos muitas rezes j e chegarão as fuaa 
▼jôonaty e terror àté Nápoles, c Calábria depois 
de^eonauiíbàr o nielfapr de Candtá^ Jbdalld , filho 
de Ibratiim ^«e neto de Tamerlão , foi fcnhor dá 
Perfia' ^ de que o privou Mahomed Mirza feu pri« 
moy rateorJhéVItig-Beíg íeu rio, que ocafou com 
lÍMna fiHnaiy .e dle o ajudoa na j^uerra contra AbaL» 
ltfhif^;filbo de Vlug^Beig, que nella morneo com 
obtra filho 9 e Abdaiia tomou pofle de Trafoxania y 
FiKwincí» dofogro , da qual o privoa íèu primo 
Ahuíaid^ que ràoava em Korafan, que o venceo, 
rti^toii èo aono dc'145'K Âhdnlla ^ íàhviÀtOmzty 
Doutor Araèio. y coatemporaneo de Maíoma ^ e 
ifUí. companheiro y foi eftimado por liberaliíEmo ^ 
dMrareíípoias de tríata mil drachinas^ e deo libera 
-iii N ii da- 



( 148 ) 

dade a mil efcfaros feus. Ahãalla , filho de Mora^ 
kech j ou Mobareck , fanto efpecial dos Mufulma* 
nes , tem hum notável íepulchro na Cidade de Hic 
na íraca Babylonica ^ onde he viíitado continua- 
mente de Romeiros. * Hum Catholico Âlentâo no 
anno de 173^0 offereceo (fingindo^fe Mouro) huma 
caçoila de prata fumegando junto a efte maldito 
fepulchro , e ftigio á desfilada : era ella fabrioada 
com tal\artifícío , que rebentando dahi a diras ho*^' 
ras ^ matou mats de duzentas peflbas ^ que tinhâa 
concorrida a veUa , além dos Romeiros , defpeda- 
çou grande parte do íepulchro 9 e queimou o me-i 
Ihor do alpendre. Abdalla , filho de Saba , foi o 
primeiro 9 que adorou Áli , o que nâo obílante^ 
julgâa fora J udeò , • é todas as feitas ò aborrecem 
tanto como ós CathoJicos; Abdalla , filho de Sa- 
lão j Âutfaor das queftóes , e quefitos feitos a Ma- 
fbma a refpeito da fua profecia , he também Au* 
thor de huma obra extrahida de hum livro apocri* 
íb do, Profeta DanieF, em qilé ie citâo os iivros 
de Adão fobre a hiftoría dá creaçâo do mundo, 
obra ^ que fe acha fia Livraria 'do Rei de França* 
Abdalla ^ chamada Albafedb , ki Mouro celebre 
em applicar. as tradições de MafiE>ma , *e de excelr 
lente memoria , prenda j que ellè attribuia a itet 
bebido com grande devoro a agua do f>òça de 
Meca. Abdalla j £lho de Ravend , foi Authòr de 
huma feita de ímpios chamados Ra vendi tas. \/í^ 
dalla j filho de. Lopo Rei Mouro de Tc^kdo , fe^ 
guio feu pai , a quem privarão do Reino \ conqufí^ 
tou Çaragoça , e nella reinou a pezar de feus emu^ 
los^ e de AiSonfo JULI» Rei de Oviedo, a quem fts 

ai. 



f •■* 



( Í49 ) 
alguns datnnos. Abdàlla^ filho de Mafoma ^ irmão 
òfi Mondir, ou Âlmondir, foro fetimo Calife da 
geração dos Ommidas em Hefpanha , acclamado 
em Córdova j onde reinou vinte e finco annos até 
os fetenta e trez de fua idade ^conquiftou Sevilha^ 

Íiue fe tinha rebelado na guerra civil com Ornar, 
aqueou Cafi:elU y tomou Salamanca , fenhoreoa 
Pamplona , onde alcançou huma viâoria , em que 
foi morto D.Sancho Rei de Navarra, foi vencido 
duas vezes por D. Ordonho , filho do Rei D. Âf- 
fonfo , e morreo no anno de 905^. Âbdalla , Gene- 
ral dos Mouros em Hefpanha , fe acclamou Rei de 
Toledo, caiou com DonaTereía, Infanta Catho- 
liça , irmã de Áfibnío V Rei de Leão; * Na noi- 
te das bodas não confentío ella que a tocaífe fem 
fe baptizar; e inftando elle, foicafiigado porDeos 
com dores, e aíHicçóes. horríveis, de que fe feguio 
pedir cooi gritos veftiflfem a Infanta , e a levaÓem 
• feu irmáo.com o mais preciofo , que teve para 
lhe dar. Em Le^ viv.eo ella., e morreo claufurada 
em hum Aloftetro çom opinião de fanta, e Ábdal-^ 
Ia:foi cativo na guçrra comHifiem^ ;.e<perdeo a vi- 
da pouco depois*: Jíbdalla Jbcn^b^ dfiJMedina foi 
Rei deGranada no anno de 15*70, quando os Mou- 
ros daquella Cidade fe rebelarão, contra Filippe II 
Rei de Hefpanha y e elegerão primeiro a Aben- 
Humeya Rei de Granada , e Andaluzia , a quem 
fuccedeo 'Abdalla v^lerofo , e prudente , expugnoa 
Orgiva , fez retirar as tropas Hefpanholas , que 
forão foccorrelia , com grande perda , conquiftou 
Almanzora Filabra , e o território de Baça , Serós 
com fincoântaoeças de artilharia , e Tijola ,.mas 
.XQm.ViI. Niii can- 



C líQ ) 

eanfadia fortuna j perdeo Gtiejar , qne era a fiia 
Praça 4è armas y ei>acabou a fua imaginada regalia 
em íiimma miferia. Abdalla Rei de Tremecem no 
anno de 15*29 por confelho de Barbarroxa foi in- 
grato aos Hefpanhoes , de quem era feudatario^ 
e que lhe derâo o throno. jibdalla ^ filho defte, 
perdeo o Reino de Tremecem , valeo-fe do Em* 
perador Carlos V, a quem íe offereceo por valTal* 
lo com as condições , com mie o fora feu avô: 
mandou Carlos foccorrelio pelo Conde de Alçou- 
dete, Governador deOrSoycom feiscentos folda- 
dos, que forâo mortos -no caminho de Tremecem 
peio tyranno Hamet: , irmão de Âbdalla y a quem 
e Emperador mandou novamente reftabelecer no 
throno, oquefezoConde com nove mil homens^ 
que vencerão Hamer^ e faiqueiírâo Tremecem, lito 
irritou de^íbrte os iaflimos do» Mouros , què reti- 
rado o Conde y e ikliíndo JtbdaHa da Cidade a fa- 
zer guerra aos ladrões , Ihe^^fechátío as portas , e 
elie vendo que os nao applacava j eodéfampara- 
yão os f eus y fau£coQ'08 deívrtos' com feíTenea ca-* 
Ta lios para {iaquôrtar àrAtahfi09^Mra os^feusvaf^ 
iallos tebéldds ^^^rém^ efteà^^ ntatárSo aleivof»- 
mente no imM[úçor^4&, Âbáédtã , 0or fobfenome 
Muley y Rei de Eési,' e de Marrocos no decirtfti 
fexto fécula y íiKTcedeo.a feu pai>MafpmaLGI)ertf) 
aqu^sníi osrTorcos^tt^râó «leívoíàímènte mtf anno 
de i;r5r7. NSo iáikoir^evákir^v prudência do pai ^ 
deo-fe a vicias , é ócio y deo Teiieno a todos os 
que o podiáo inquietar^ reinon com focego, e fò 
tio fim da vida^ para deixar fama ^^ekijou^ com o 
ixercít^^ de Heípaabal^ '^aàdo» (è:y«colbia^>de 



nhâo de Velez. Por leve confclho de hum renega- 
do Corfo intentou conquiftar Mazagáo , e defen- 
ganado muito áfuacufta^ íerecolheo a Marrocos, 
onde morreo em 15:74- Abdalla^ Principe Mouro , 
valerofo , celebre na guerra dos Cherifes em Áfri- 
ca j fez aliança com Filippe III Rei de Hefpanha 
por intervenção do Genovez Janeti Mortara no 
anno de 1607 , e foi aíTaíEnado dous annos depois 
por induftria de hum feiticeiro Santão , ifto he, 
Religiofo Mouro , a quem Mulcy Zidan , tio de 
Abdalla ^ peitou para iflb. Abdalla Berbere , por fo- 
brenome Mohavedim , natural de Temnellet em 
Barberia, do tribu de Muçada ^.foi Meftre j Pre- 
gador , e Áuthor da feita dos Mohavedinos , ou 
Almoades 9 que no duodécimo feculo feguíâo par- 
te da doutrina de Ali j genro de Mafoma. Favore- 
cido do feu tribu fez guerra a Abrahâo Rei de 
Marrocos j aquém venceo, e degollou Abdulmu- 
mem feu General , porém morreo pouco depois 
que recebeo a cabeça do infeliz Abrahâo. Abdalla 
Alfaqui j ifto he y Pregador Mouro da feita dos A}* 
moades y Ievailtou*fe contra Cherife Mahamet Rei 
de- Marrocos no anno de i5r43S iortificou-fe com 
o exercito na montanha deNeíiiza, ramo dpgran* 
de Atlas 9 e para defender a fnbida fevaleo da ar- 
te magica j em ^ue fó os Mouros o julgarão iníig- 
lie. Lançou no caminho carneiros degollados com 
a lá toftada , e os pés cortados , e mettidos nos 
olhos y embuftes , que atemorizarão os foldados 
Mouros de Cherife ; porém os efcravos Catholi- 
C0S9 que hfão ro exercito, zombirãq dos feitiços, 
íubítão â-arentaHha^iV^cêrâie^ e priziontfrão Ab«- 

... ; • daU 



dalla j o qual depois dizia o tinhâo vencido fó 6$ 
Catholicos , porque lhe efquecêra preparar contra 
elles feitiços. Deo-fe^^lhe palavra de o mandarem 
conduzir vivo a Argel j mas Gherifc o mandou de- 
gollar. Abdalla^ chamado MohtaíebBillah, lançou 
de Africa os Aglabitas , poz no throno a familía 
de Ali , e efta em agradecimento lhe tirou a vida. 
Ahdalla^ filho de Jaffim, primeiro Doutor dos Al<- 
moravides , condemnou a morte Giauhar Gedali^ 
primeiro-Chefe, ou Príncipe da mefma feita , por 
quebrantar as mefmas Leis ^ que eftabelecêra. Ab^ 
dallathif^ filho de Vlug-Bega , da cafta de Tamor- 
láo 9 matou em campanha a feu pai ^ e poíFuio os 
Eftados de Tranfoxania féis mezes , no fim dos quaes 
fublevado o exercito , o matarão com flechas os 
foldados. Abdalmalek^ o\i Adelmelikj filho de Mar* 
vão y quinto Calife dos Ommiadas ^ inimigo capi* 
tal de Ali , fujeitou a índia y chegou o íeu domínio 
até a Hefpanha , foi fenhor de Meca 9 prudente ^ 
feliz y e táo moderado , que negando*lhe os Ca* 
tholicos buma Igreja para mefqui^a ^ os náo per- 
feguio , antes iouvttíu. Dava credito a fonhos.^ e 
agouros j de quie refultárão hiftorias fabulofas , e 
deíatinos: reinou vinte e hum annos, fuccedeo-lhe 
Valid , o mais velho de dezefeís filhos. * Ainda 
hoje os Mouros doOrietite mandão ofifertas ao feu 
áepulchro , que já fe ignora onde foflfe na pprta de 
Damafco, onde as pendurâo. Abdalmfileky filho de 
Nouh y ou Noe , quinto Rei dos Samanidaç ^ teve 
guerras com Rocneddoulas , Príncipe da Gafa dos 
Bovídas y a quem ficou tributário y perdeo a Pror 
«iacia de Korafaa y que conquiftQtt. Alptegbin; ,..ç 

• mor- 



( 153 ) 

iflorreo cdliindo de hnm cavallo, a quem èníinava* 
Abdalmalekj filho de Nouh fegundo do nome, no- 
no , e ultimo Príncipe dos Samanidas , fuccedeo a 
feu irmão Manfor fegundo , a quem tirou os olhos 
para reinar , tyrannia , que Deos caftigou breve- 
mente , porque Ilkão Rei de Turqueftâo aleivofa- 
mente lhe tomou o Reino , e fez acabar a vida pre- 
zo j e Mahmoud Sultão dos Gafnevidas matou em 
huYna^^arathft Ibrahim ,' ultimo herdeiro daauella 
família.' Abdalmakk' y ^úmo íègundo de Mafoma, 
foi Governador do Egypto, mas o Galífe Harão , 
que lhe dea efie emprego ^ fufpeitou que afpirava 
ao Império favorecido pelos Barmecidas, eopren- 
deo. -Amim feu filho Ihedeo liberdade, ê o gover- 
no de Syrta^ onde acabou a vida. 'Mdalmutalíb ^ ou 
Jbdakmthleb , filho de Hafchem , foi o ávô de Ma- 
foma^, deixou dez filhos , dos quaes o menor Ab- 
datla foi pai. de l&ziomz. ^Abdalzafcbid y filho do 
Sultão Mahmoud^ efteve prezo a melhor parte da 
iba vida', até qlie fugio , e foi acciamado Sultão 
do6 Gafnevidas depois de Ali íeu fobrinho. Favo- 
receo com exceíTo aTogrul, que lhe tirou a vida, 
e Reino, peio que Ihe^amárâo, e chamão Kafer- 
namet , que quer dizer ingrato; Efte cafou com An- 
ca irmã do defunto , porém foi tal o ódio dos vaf^ 
íâllos , que • matarão , e foi acciamado Sultão da* 
quelle vafto Império Ferokhzad irmão de Anca. 
Ahdalfatnady tio dos primeiros Califes da Caía dos 
Abbafildasii, viveo cento e fincoentar'annos , e foi 
o único, de quem conAa não ter dentes feparados^ 
nem diftintos. Âbdar he o nome do Copeiro Mór 
do Rei da Perfia , cujo officio he guardar a agua.^ 

que 



( ^u) 

qne ha de beber aquelle Monarca y èm himi cantar 
ro feilado j para que lhe nâo Jartccm Teneno. jlda^ 
não foi Rei dos Motiros em He^fpanhfi ^ vei^ido r^ 
petidas vezes pelo Rei.de Galiza y cAfturias Porn 
Ramiroi LÂbdas foi Bifpo.da.Perfia no. tempo do 
Emperador Theodoíio b M090 y e de IPdagerdes 
Rei daqaelle Império y .em cuja reinado: gozáráa 
os Cathoiicoà paz.y e livre. ex4rcicio:de{£le|igiao^ 

Eoréqi o Biípô talais zelòfa <;)iijei;pruderitej.<iéftrui€r 
uin^tèmploíidedircado ao fogo.,:, de qtfe ie qiieixá-» 
]âo*<>s feiticeiros, e o Rei com bcand4ra )he orde^ 
nou que o reftaiiraíre íqbpcna de arrazar^ todas as 
Igrejas do^^athoiiccis.' Naa foibedeceo^nqm. devia 
obedecer Âbcks y^pefiooqèe. ti entregou o Rí^i ao^ 
feiticèind5y'queo.i]iâirtyrÍBé0Ío^.e a todoaoa Ca-: 
thófic^s, deftrQkâptiosiTehiploa^'e*durO(i a perle- 

f lição trinta annos.- ^j As Híéliqiiiaa deíbe Santo 
ifpi» e(lãa ria Capi talo. doa cG remi tas de> Sadto 
A^árftíiriía eMi;Goa com^aa^^òs i^antoardie Arnteniaw 
if&/j^r^//jkr£biiniartyrizado tçoint Simâp .Bifpo d^ 
Sclenèia>'e de Cr)djO{icfcitá), 'fendo Rei daPeriía' o 
typatmo Siapor. AhàBcl , par de Selemias , foi quem 
ajudou aencalrcer^nâsfrofirtaaJecccDtaÂy ç Baníeis 
Aiàieimeffias\y?Bix\9iXct,.òm^ publicou bum« 

profífsáo<dá Fé^ que^ha^éiKjfuaimàiiientc lenera-^ 
da' pelos. Gregos 'Ga tholisoa Romanos. AbdelqUi^ 
virj filho máisiveltiode-Haícem, Cberife daPr<>« 
?mcía de Darai em Africa^; grande Fiiofofo , eMar 
gicOL' , • foi Oí {meliior difcipaio do&einhuftcs>.de!&i 
pai« Veip de Meca comootrórf.doctsjiraiao&ye com 
públicas hypòctilias grangeárão a maior efLimaçâo 
de todos* fkir ççofeib^io pai te iatroduzíria com 



ò Rcí de'Fé!?í qtie facilwrentè déo a hnni ó gover- 
no de feiíâ filhos; e a outro hiima Cadeira nóCol-- 
legiò do Modarafa. Pediria aô Rei Ihe^ pèrmittif^ 
fe htHna gnania com tamiso r^ e batfdéirá, pdra le^ 
Vtfntui' gente contra &&ÍCafholic0S') ocjõe tafr>beit^ 
èònfcgníraò «em pòucOsdiaâ ; pòr<í'!ti Yô^hâi-Bcn Ta- 
fof , Mcmro tributário de Portugal ^ e inimigo dos 
Cherífes j ajudado pelos noíTos ós Vericeo y e ma-' 
tpn jtíhto i Cidade de Anega. JbdmieJêCh^ Eunu- 
co do Rei SedeciaS) alcançou a Uberdade do Pro-^ 
feta Jeremias*) a quem efte Rei trntia prezo cm hum 
terrive! cárcere para fatisfazer os íeus inimfigos, e 
efta caridade lhe pagou Deos , Kvrlàndo-o das ar- 
ma» dos Caldeos j coj^ vinda ^ e conquifta tinha 
prognoftfCãdo Jeremias, Abdemêlech Muleimolue def- 
pojado' dos Reinos de Pés, eMarroCos'pedio foc- 
Ctorrofao GiKo Turco contra feu fobrinho Mafo- 
xia , òq Mahôtná , que fe valeo do noflb Rei D. Sev 
baftiâd , o* qual paíTod a^ Africa para o foccorrer, 
é morrêfSo todos tre^porefta caufa, D.Sebaftíâa 
iM bata^lha y Mafonia afobado em hum laft)eiró| 
Muleimolue na lirerra de campanha. Abdenago , no- 
me , que os Babylonio9 pnzerâo a Azarias , hum 
4e^ companheiros do Profeta Daniel, aquém Na- 
èuco maindoí» lançar no fogo ardentej, porque nâo 
^fzerâo adorar a Aia eftatua de ouro s ^ Deos os 
pfefervmv entre as chammas. Abdera foi huma Ci- 
dade maritima de Trácia , íituadana fo8 db rio 
N^s ,'- fimdááa^ por Abdera irmão de Diomedes'^ 
cujas aguas caufavão ítxxsi^^< Abdkr amé- ^ primeiro 
Ifca» dc^ Mouroo #!»■■ ÍFfafj»aiiha » ch amad s fegund^ 

deâraidor delia,. neto doCaiiíe Heídiam da facni^ 

^ lia 



lia dos Ommiad^s |, foi convidado pelois rebeldes 
doReiJofeph, aquém ellevenceo,e tirou o Rei- 
no de Córdova em 7^6. Daqui fahio adeftruir to- 
da Caftella com trinca mil cavallos , e duzentos 
oiil Infantes ^ cpnquiftdu além defte os Reinos de 
Aragão 'y Navarra , e Portiigal ^ deo Toledo a fea 
filho y e para comprarem as vidas ^ e fazendas os 
dous Reis Cathoíicos Aurélio , e Mauregato no 
pequeno recinto das Afturias, promettêráo pagar- 
lhe o infame tributo annual de cem donzellas. Edi- 
ficou a notável mefquita de Córdova' y e morreo 
antes de a ver acabada noanno de 172. AbderamOy 
fegundo Rei de Córdova , filho de Aliatâo y co- 
meçou a reinar em 821. Excitado pelos Mouros 
de Africa | donde lhe vierâo innumeraveis tropas , 
quebrou a paz com os .Cathoíicos , a quem nova- 
mente pedio b tributo das cem donzellas , que fe 
pagara aos feus antepaíTados ; porém D. Ramiro L 
confiado em Deos fahio. ádrfeza com hum peque* 
00 exercito ) appareceo, cpel^Uou-viíiyelinente pa 
batalha S^nt-Iago , e fugio para Córdova Abde- 
ramo depois de ver mortos no campo fetenta mil 
Mouros* Depois cuidou fó em edificar melquitas^ 
e eftabelecer fabricas de feda y para o quei mandoa 
vir officiaes peritos de Damafco* Foi o primeira 
Rei Mouro I que gravou afua effigie na moeda em 
Hefpanha : no feu tempo os Inglezes foccorrêrão 
çs Cathoíicos , e cercarão Lisboa. 9 que não ren* 
dêráO| conquiiÚrâo Cadiz^. e Sevilha y que Abde- 
ramo reftaurou facilmente. 

LI S B O à , Na Offidni de Miguel Maaefcal d« Co8a , Inpreflor àm 
^ , Imanto Officto. Ànno 1753. Gom tpdés as iícjjtfat ncccjarda^ 



< '5*7 ) 

CONFERENCIA XIV. 



A Bderamo , chamado o Exaltador da Lei^ 
tjL foi pofto em o throno de Córdova pelos 
{ % Mouros de Africa , que privarão delle a 
feu irmão mais velho. Foi infeliz , e at* 
tfibuindo iflb aos cafamentos dos Catholicos com 
as Mouras , ordenou que todos os que fe achaíTem 
emparentados profeíTaíTem a lei de Mafoma com 
feus filhos* Durou efta períeguiçâo fere annos , em 
que morrerão martyres muitos. Oous annos depois 
D. Ordonho ^ íegundo Rei de Leão y o venceo 
completamente em Talaveira , e nunca mais em 
muitos annos de guerra teve Âbderamo fortuna y 
e morreo em 961. Ahderamo , quarto filho de AU 
manzor, fuccedeo no throno de Córdova por mor- 
te de feu irmão Abdulmalic j foi o ultimo da cafta 
dos Abderamos , que reinou em Córdova , e toda 
a Hefpanha. Os feus vícios , e affeminaçòes def- 
gofiárão de forte os Mouros , que fe dividirão em 
dous' partidos : huns com menos fortuna feguírão 
a^ Solimão, outros a Mafoma , ou Mahomed , que 
prendeo Âbderamo 9 publicou eftava morto , e pa- 
ra experimentar os ânimos dos bárbaros com efta 
noticia I dcgollou hum Catholico bem femelhante 
a Âbderamo 9 diíTe que era defte o cadáver , que 
moftrou ao povo y o, qual nenhum cafo fez dííTo^ 
e então conheceo eftava feguro, ufurpou a Coroa ^ 
e tirou a Âbderamo a vida. Ahderamo em Africa 
ÍD\ hum tyrannoi que mandou aflaífioar feu fobri- 
Tom. VIL O nha 



nho Amedux, fenhor de Zafi no Reino de Marro- 
cos 9 e lhe tomou os Eftadós. Reinou em paz mui- 
tos annos, porém AIi*Ben-Giiedimim lhe namorou 
huma filha, e confentindo a mãi, ufou delia: quiz 
Ábderamo matallo aleívoíamente , e para o confe* 
guir o convidou para huma feita na mefquita y e 
depois para hum paíTeio. Âli , e as cúmplices pre- 
fumírâo o engano j e quando elle orava na mefqui- 
ta junto ao Alfaqui , o matou Ali , e Yahaia feu 
amigo , e companheiro no aíTaífino em- if05r. Jb^ 
der amo y chamado pelos Mouros Abdalrahman, foi 
Capitão, e Governador deHefpanha, Lugar-Te- 
nente do Calife Hefcham , celebre pelos damnos , 
e conquiíias , que fez em França , que todos jul- 
garão conquiftaria , e também Itália. Eudo Duqne 
de Aquitania lhe impedio a conquifta deTolofa , e 
Ufes , mas faltando4he as tropas pela divisão ini- 
qua dos Francezes , que feguiâo a Carlos Martel 
com efpirito de parcialidade , fem refpeito a caufa 
commua, Eudo cahionoabfurdo de fazer liga com 
Munufa , Governador dos Mouros em Sardenha ^ 
a quem deo para mulher íua filha , Julgando que 
aflim podia fem perigo invadir Néuftria , porém 
Ábderamo paíTou os montes , perfeguio Munufa 
até Picardia , e o obrigou a refugiar*fe nas terras 
de feu fogro igualmente defgraçado , e vencido por 
Carlos MarteL Os Mouros perfeguírão de forte 
Munufa , que fe precipitou em hum desfiladeiro 
ajtiflimo para não fer prezo / e efcarnecido , fua 
mulher filha de Eudo formofiflima foi preíentada 
por mimo a Ábderamo, o qual penetrou Galcunha^ 
tomou Bordeos ^ paíFou o rio Dordana y e venceo 



Elido y que fò entKo bem .cohfidéràdò Te unio còm 
Carlos Marrei. Abderamo faqueou as Cidades^quei* 
tnou as Igrejas, excepto a de S. Martinho , porque 
cbegou o exercito aliado , e paíTados féis dias em 
cfcaramunças , foi Abderamo vencido j e morto com 
trezentos mil Mouros na opinião dos menos enca>« 
recidos no anno de 732. Abderamen , ou Jbderra* 
meftj Rei deCordora, grande inimigo dosCatho- 
licos j vendo hum dia pendurados nas arvores os 
corpos dos Catholicos , que mandara pouco antes 
martyrizar , os mandou reduzir a cinzas , mas Io* 
go emudeceo , e acabou aíEm a vida na noite fe* 
guinte« Àbdia , montanha no Tribu de ManaíTes, 
onde o Mordomo do peíSmo Rei Acab chamado 
Abdias eícondeo cem Profetas para os livrar da 
períeguição da Rainha Jezabel , e os fuftentou até 
ella morrer. Herodes o Grande mandou entulhar 
as covas , onde efti verão efcondidos nefta monta- 
nha os Profetas , porque nellas habitavão ladroes. 
*.Os Alarves tirarão o entulho j e delias fahem a 
roubar os Mouros , e peregrinos , fem qne os poí- 
fião extinguir os Turcos. Jbdiario he Reino da ín- 
dia fujeito ao do Pegn, e diftante vime léguas da 
Cidade capital delle. Abdias he nome Hebraico , 
que íignifica fervo do Senhor : foi o quarto dos 
jrrofetas menores : ignora*fe de que Tribu foi| 
quando floreceo ^ e acabou a vida : prognofticou s 
ocftruição dos Idumeos. Abdias de Babylonia htí 
hum Author fâbulofo , a quem fe attribue a obra 
apocryfa , e condemnada do Combate dos Apofto** 
los. Abdilcair. foi Capitão dos Tártaros , quando 
«fies foccorrêrão os Turcos contiS os Perías no 

O ii rei- 



(i6o) 

reinado de Hadabenda , cujo filho HameNHamet 
o venceo , e mandou prizioneiro ao pai j que o tra«^ 
tou com demafiado mimo y a que fe íeguio namo- 
rar-fe delle a Rainha com efcandalo y e Hadaben^ 
da para o evitar intentou cafallo com huma filha ^ 
e defpedillo., para que o reconcihaíTe com os Tar**- 
taros de Precop y mas os grandes Perfianos impe-^ 
dirão o cafamento y prenderão Âbdtlcair , que fu* 
gio paraTauris, onde foi alei vofamcnte morto, -^é- 
dirão y Rei dos Sarracenos , teve guerra com oEnv 
perador Carlos. Magno y a quem tomou a Cidade 
deBur.deos, em que obrou as maiores infolencias, 
e tyrannias. Jbdiffi , ou Abdifu y ou Abdieufu , foi 
Patriarca da AíTyria Oriental com a Cadeira em 
Muzal , deo obediência ao Papa Pio IV em Ro- 
ma y e delle recebeo o Pallio a 7 de Março de 15:62 ^ 
efcrcvco ao Concilio Tridentino , e a fua profifeão 
da Fé foi approvada na Sefsáo 21. Foi o maior 
Principe Ecclefiaftico além do Eufrates y dou to, e 
déftro nas línguas Syriaca y Arábica y e Caldaida: 
dizia que a fé do fen Patriarcado fora plantada por 
S. Thomé , e Sé Thadeo y 0% feus Sacramentos os 
mefmos, a fua doutrina conforme os Concílios Ro« 
manos y e os feus ritos enfínados pelos Apoftolos^ 
de cujo tempo conÉervavão os livros. Abditã Mou« 
ro foi General no cerco y que eftes puzerão á Ci« 
dade deSalerno em Itália, efcolheo para feu quar^ 
tel huma Igreja, e querendo ndle violar huma don- 
zelIa, cahio fobre elle huma viga, que omatoulem 
moleftar a mulher. Abdiíània (oi huma Cidade de 
Africa Epifcopal, fufiraganea de Carthago, pouca 
âiftance .ate Hypponia^ hoje chamadaiArriaoa^ e £6 

pe* 



pequena Aldea junto a Tunes. Abiâ^Ahãus foi hum 
Eunuco Partho cúmplice na confpiração de Sinna- 
ces contra Artabano, que o matou com veneno em 
hum convite. Abdolonymo , ou Abdaltmimo ^ Prínci- 
pe Sidónio , chegou a tal pobreza , que vivia do 
trabalho de Jardineiro : Alexandre Magno o fez 
Rei de Sidon em lugar de Scratáo , a quem pri^ 
vou j por fer parcial de Dário Rei dos Perfas ; e 
para callar os murmuradores defta eleição , pergun- 
tou a Abdolonymo , como havia tolerado tanta 
miferia ; a que elle refpondeo : Permina o Ceo que 
eu tolere da mefmaforte a grandeza : meus braços me 
adquirirão tudo ^ e nunca tive neceffidade de coufa aU 
guma^ em quanto nada pojfui. Por efta virtuofa ret 
pofta lhe mandou Alexi^ndre dar todas as alfaias 
preciofas de Stratâo , parte dos defpojos de Dá- 
rio 9 e huma Provincia con^nante com Sidon. Jb^ 
dofiy AddoHj ou Jadonj he nome daquelle Profeta, 
que vaticinou a Jeroboâo a morte , porque facrifi- 
cava aos idolos em Bethel , e que o Rei Joíias ha* 
via de defiruir o altar , e facrifícar fobre eile os 
Sacerdotes idolatras. Jeroboâo o mandou prender ; 
Bias vendo lhe ficara logo paralytica a mão direi- 
ta y pedio que lha reftituiíTe com a fua oração y o 
que o Profeta logo fez: convidou- o o Rei para co- 
eoer, enáoquiz, porque Deos lhe ordenara o con- 
trario y mas no caminho hum falfo Profeta o obri- 
;ou a comer I pelo que Deos o mandou matar por 
lúm Leáo y que guardou o cadáver ^ e o jumento 
até que o falfo Profeta veio dar-lhe íepultura em 
Bethel: Abdony cSennen Príncipes Perfas forão pre- 
zos tm Roma por ferem Catholicos y e mortos a 
Tom. VIL O iii cu- 



( '<í» ) 

aitiladas depois de outros tormentos na prefencs 
do Emperador Decio : forâo enterrados em cafa do 
Subdiacóno Quirino , e as fuás Relíquias, achadas 
no tempo de Conftantino Magno. AbÂula foi Ca* 
life dos Sarracenos na Períia quinze annos e meio : 
os Tártaros o vencerão , e matarão no anno àet 
125*8, fenhoreárâo Babylonia , e depois toda aPer- 
iia , em que puzeráo novos Reis , dos quaes foi 
Ching o primeiro. Abdula^ Kam dos Tártaros, fa* 
queou toda a Perda no anno de 1 600 , mas não 
quiz aceitar a batalha, que lhe offereceo muitas ve- 
zes Scha-Abas , Sofi daquelie Império , por não 
violar o coftiime dos fens avós , que foi fempre 
roubar, e fugir. Abbdulach era Governador de Fés 
pelos Âlmohades no anno de 1210, evendo-os def-r 
cuidados , conquiftou Cidades , e acclamou-fe Rei« 
Abdulacb Rei de Fés no anno de 1430 foi aíTaíIina- 
do por fer tyranno, e cobarde como feu pai Abu- 
iaide , a quem por iíTo tomámos a notável Praça 
de Ceuta, AbàulaJJis foi Governador fupremo de 
Heípanha pelos Mouros tle Africa no principio da 
fua conquifta , e nofla maior defgraça. Dizem ca- 
iara com a viuva do Rei D. Rodrigo , e que por 
feu confelho fe coroara com coroa de ouro, acção 
prohibida por Mafbma , pelo qup o matarão com 
a mulher em huma mefquita. Abàulmalic Principe 
Mouro no anno de 1341 fenhoreou tudo o que 09 
feus naturaes poíTuião na Heípanha , foi fenhor de 
Tangere, e de outras muitas Cidades , matou Abeci y 
porque fe acciamou Rei de Córdova , onde elle 
faieceo com o nome devalerofo heroe. Abàulmalic j 
filho do Rei de Fés « veio a Hefpaoha foccorrer a 

Rd 



( 1^3 ) 

Rei de Granada contra os Reis CatHoficos de Caf^ 
tella 9 e Leão , de que fe intitulou Rei. Com as 
conquiftas de feu pai foi depois o Principe mais 
rico, e poderofo de Africa; mas vindo com formi» 
davel exercito fegunda vez a Hefpanha , os Ga- 
tholicos oenveftírSo, quando osnáo efperava, fn- 
gio a pé j efcondeo-íe em hum mato , fingindo-fe 
morto 9 quando íói achado ; mas hum Cathollco 
mais aftuto conheceo o engano , e com a lança o 
fez morto verdadeiro. AbdulmaliCj fetimo Calife, 
ou fucceiTor de Mafoma , matou o feu anteceíTor, 
queimou os oíTos dos outros mais antigos, intitu* 
lou-íe Cmperador dos filhos da falvaçâo, dominou 
a melhor parte da Aíia , e Africa , c a, morte lhe 
impedio ofenhoreartoJo o mundo. Âbdurrahamen ^ 
filho deÀthaca Rei de Córdova , inimigo capital 
dosCatholicos, paíTou o rio Douro com hum exer- 
cito governado pelo General. Zafa, que entrou em 
Caftelia , onde o primeiro objeflo da fua ira foráo 
duzentos Retígiofos do Mofieiro de S. Pedro de 
Cardenha , que derâo por Chrifto as vidas : arra* 
zou o edificio, queimou as alfaias fagradas, e nâo 
houve infolencia ^ e tyrannia , que não executalTe 
naquelles moradores. Abea^ cujos habitadores fe cha- 
tnáráo Abantes , foi Cidade celebre em Grécia , por* 
que nella fe venera hum dos melhores templos , e 
oráculos deApollo: Xerxes Rei daPerfia queimou 
huma coufa , e outra. Abeci Mouro de Hefpanha 
tirou a Abdulmelic o Reino de Córdova , e efte 
vindo de Africa lhe tirou a vida. Abecour he huma- 
Abbadia dos Premonftratenfes na Dieeefc de* Char- 
tres em FrançUé Abeà^ ou Hebed^ foi hum dos Can 

• 

pi- 



pitíes dos Judéos , que veio no tempo de Efdras 
de Babylonia com fincoenta homens. Jíbely Rei de 
Dinamarca , filho de Yvaldemaro fegundo , foi 
Duque de Sleefvvk j matou íeu irmão Érico para 
gozar o throno , e morreo na guerra de Friza. 
Mel y nome Hebraico j que fignifica afflicçao ^ e an* 
'uftia , foi o fegundo filho de Adão , paftor de ga- 
lo : feu irmão Caim agricultor ofierecia a Deos fa- 
crificios dos frutos , e Abel as melhores rezes dos 
{eus rebanhos : recebeo Deos o facrificio de Abel y 
e deíprezou os de Caim , o qual invejofo ^ o con- 
vidou para o campo , e lhe tirou a vida. Abel , ou 
Able , foi Thomaz Abel , Doutor Inglez , e Mar- 
tyr , fervio de Capellâo á Rainha Dona Cathari- 
oa , mulher de Henrique *VIII y eícreveo contra a 
diíToliiçáo do feu matrimonio , não quiz reconhe- 
cer o Rei por íuprema cabeça da Igreja Anglica- 
na, e por tudo foi degoUado, e feito em quartos. 
Abela ) Cidade da Paleftina no Tribu de Neptali , 
celebre pela fituação ^ e porque acabada a guerra 
de David com Abfaião ^ fe levantou contra elle 
Seba y homem facinorofo do Tribu de Benjamin , 
«motinou os Tribus, excepto o de Juda, e faben- 
do que David mandava contra elle o exercito §o- 
y^rnado por Joab , fe recolheo em Abela > cujos 
moradores fecharão as portas , e o não quizerão 
çnjtregar a Joab , o qual deftruio os campos, epro- 
teftou continuar o cerco , e não perdoar as vidas. 
Então huma mulher de grande Juizo pedio defde 
as muralhas a Joab tregoas, em quanto lhe entre* 
gava Seba , perfuadio elegantemente os morado-, 
ifs a que o mataíFem, e lançou dos-qiuros a cabe- 



( I^y ) 

Í;a,.á vifta do que fe retirou Joab fatisfeito, e ceíl 
ou o levantamento. Ahela^ Chriftovão Abela, fe« 
nhor de Hakking , Barão , e Conde do mefmo ti- 
tulo , c de Schillerau Vvinterbach , e Engeiftig, 
Prefideote do fupremo Confelho Aulico no Jm* 
perio 9 foi o mais celebre Miniftro de Eftado no 
tempo de Fernando III y e Leopoldo % aos quaes 
fervio dentro , e fora da Monarquia com fumma 
utilidade delles, e de toda a Alemanha. Abelienfes^ 
feita <le hereges Africanos , que dizião coníiftia o 
matrimonio- ló no amor cafto dos dous confortes 
íem coramunicação dos corpos , de forte que to* 
dos os homens oeviSo ter mulher, na qual não ha« 
viâo de tocari mas íim para continuação das fami- 
V\?íS haviáo adoptar logo hum menino, ehumamer 
nina por.filhos com o pa£lo de cafarem , e não te* 
jem ajuntamento carnal , e efie^ em idade compe«> 
tente havião de adoptar outros. Foi eíla herefia 
remédio, de muitos pobres , aquém os fcflarios pe- 
dião os filhos I mas foi pouco conhecida , e durou 
pouco tempo I de forte que começando no do Em» 
perador Arcádio , acabou no de Theodofio ; e no 
tempo de Santo Agoílinho , que he hum dos pou- 
cos , que fallão nefta herefia , já não oçcupavão em 
Africa mais que:huma Áldea. Jbella y ou Jvella^ 
Cidade de Campanha ^ tomou o nome das excel- 
kntes avelans, que nella havia. Ahellera^ N. Senhor 
ra de Abellera , Santuário celebre em Hefpanha, 
tomou o nome dos enxames de abelhas , entre í^ 
quaes foi achada efta Imagem y que elcondêrao os 
CathoHcos Godos, quando entriárão os Sarracenos* 
Os moradotes daVill^ de Paredes: ll^e isdifiaír^o 

htt* ^ 






i *7^ ) 

fados j conheceó quie o erao , e f eprehendeo Tfaac 
por fe fingir irmão y expondo- fe ao riíco de lhe 
roubarem a mulher, pelo que prohibio a todos os 
vaíTallos o tocalla , e Ifaac nefte paiz colheo abuii« 
«dantes frutos das fuás íttaras , teve muitos gados, 
abrio muitos poços, de que fefeguírâo invejas dos 
Fíliftheos y que entulharão os antigos feitos por 
Abrahâo , e Abimelech para evitar contendas pe« 
dio a Ifaac íe retirafie , pois eftara já rico , e elle 
caminhou para a torrente de Gerara , onde abrio 
trez poços , dous j de que fe fizerão íenhores os 
de Gerara, e outro, que ficou para os paftores de 
Ifaac; e para julgar efta caufa dos poços , e deci- 
dir para (empre acfiaem Jiaviâo de pertencer, ttio 
Abimelech com Ochocath fea valido, e Phicol iea 
General eftipular o tratado com Ifaac emBerfabee, 
onde jáentâò aíliftia ; de forte que efte Abimelech 
era filho , ou neto do qne foi enganado por Abra- 
hâo , e celebr.ocr^oom elle a primeira aliança em 
Berfabee. Mimeleè , filho de Gedeão , e de hpmia 
criada chamada Druma , depois da morte de fea 
pai fe recolheo em caía defua mái emSichem, on* 
ue os parentes delia conhecendo lhe a capacidade 
para qualquer infulto, lhe derâo baftante dinheiro 
para adquirir o governo de líraçl ,' que tivera feii 
pai com o titulo de Juiz« Juntou com elle todos 
os facinorx>fosi'e' homens de peífimo* coração, de* 
^ollou íetenta irmãos filhos legitimos de feu pai 
Gedeão , e ulnrpoa o governo de Ifraei. Ficou í& 
illefo humirmão legittn^o chamado Joachan ^ que 
íe efcondeo, quando elle matou os ostros, o qual 

iabendo pQUco depois que o& Sicbiiucaa^ eftaváo 

jua^ 



(J73 ) 

juntos no campo vizinho âo monte Gazirím ^ do 
alto delle os reprehendeo de ingratos , ufando da 
parábola das arvores, que pertendendo muitas pa- 
ra Rei 9 fó o efpinheiro aceitou a coroa. Acaboa 
a inve£liva , pedindo a Deos fahifle delles fogo , 
que devoraíTe Abimelec, e delle outro, que fízeíTe 
o meímo aos moradores de Sichem , para que (e 
conheceíTe a juftiça , com que os arguia. Ouvio 
Deos a fua petição : trez annos depois cançados 
os Sichimitas das tyrannias de Abimelec , o lança- 
rão da Cidade , e íe valerão de hum fenhor pode» 
rofo chamado Gaal , a quem logo colheo Abime- 
lec, e o matou com todos os do exercito, e Cida- 
de , que mandou falgar , queimou depois a torre 
de Sichem , e o templo do feu deos Berith , no 
qual morrerão queimadas mais de mil peíToas de 
ambos os fexos, cercou a Cidade de Tebas , e que- 
rendo pôr fogo a huma torre, onde os moradores 
le tinhão recolhido , huma mulher valerofa lhe lan- 
çou emdma hum pedaço de pedra de moinho , e 
elle vendo-fe mortalmente ferido , ordenou ao pa- 

fem da lança o acabaíTe de matar, para que fenão 
iíTeíTe que o matara huma mulher, e aílim acabou. 
^irão , filho mais velho de Hiel , reedificou Jeri- 
có,. morreo-lhe o filho primogénito, quando man- 
dou abrir os alicerfes dos muros, e o menor, quan- 
do lhe poz as portas, para íe verificar a maldição , 
que Jofué lançou a quem a reedificaíTe. Abifai , fi- 
JuiQ.de Sarvia irmã de Abigail , e irmão de Joaby» 
e Azael , foi celebre entre os valentes de David, 
a quem fempre foi leal. Achou^fe na batalha con* 
tra os partidários de Isboíeth , em outra deítroçou 
Top. VIL Piii dez- 



( 174) 

dezoito mil Idumeos , e os fe?- tributários : na gner- 
ra com os Filiftheos matou hum Gigante chamado 
Acmon , cujo ferro da lança pezava trezentos fi- 
dos. AhiJJinia^ ou AhaJJia^ he a Ethyopia alta, oa 
Império do Negus , chamado vulgarmente Prefte 
João. * Se a mentira tiveíTe pátria certa , podia- 
mos dizer que era efte paiz , porque he inexplicá- 
vel a multidão de fabulas , que os antigos , e mo-^ 
dernos efcrevêrâo defte chamado Império , que o^ 
não foi 9 quando era dilatado , e tanto , que occn-^ 
pava todas as Provincias defde o Lago Níger até 
o Eftreito de Babel mandei entre Oriente , e Poen-^ 
te , e de Sul a Norte , tudo o aue con»prehendem 
os montes da Lua, e cataratas ao Nilo, confinaiw 
do com o Monomotapa : hoje porém que os Tur- 
cos , e Arábios lhe tomarão tudo o que era bom^ 
confífte efte Reino em huns deíertos kifrutiferos^ 
e algumas terras , que em certos annos dão abun-- 
dantes frutos. São mais negros que pardos os na^ 
turaes todos , vivem em cabanas , e com miferia ^ 
porque são nimiamente preguiçofos , e defeftrados : 
forão inftruidos na Fé por S. Thomé , íegundo fe. 
colhe de buma pedra , que vío Gabriel Timotheo 
no anno de ^730, fe he que nfão era feita de poa-^ 
eo tempo , porque em ficções , e mentiras excedenf 
a todas as nações do mundo. São fcifmatícos , e^ 
íègundo a melhor tradição , entre elles nâo ha ta* 
eerdocio ha mais de hum feculo. Defcendem de; 
Ghmn , filho de Neé y como^ todos os Africanos^' 
o Empérador aífifte no* campo , donde efpera me» 
liior colheita naqudle anno , porque todas as ter- 
jFas y e fearaS' são fuaa ^ e conforme tf noticia é^ 

boBt- 



( i7jr ) 

bondade delias , fe mudão as cabanaâ da Corte pa- 
ra as desfrutarem. Ainda feguem ritos Judaicos , 
como a CircumcisâO) e guarda dos fabbados. No 

Sue refpeita á tradição de ^ue a Rainha Sabá era 
aquelle paiz , que viera pejada do Rei Salomão , 
que do feu fiiho defcendem os Reis todos , e con* 
férvio hum anel de Salomão ém morgado , os A- 
bexins mais pios , e cordatos confefsão que tudo 
he fabula , mas os outros o tem por artigo de fé^ 
como também de que foíTe fua a Rainha Candace, 
e a primeira, que inftrntda pelo Eunuco, que bap- 
tizou S. FiUppe, lhe communicou a fé. Eutiches, 
e Dioícoro os prevertêrão totalrtiente , e a com- 
municação com os Turcos os reduzio a eftado, 
que fornos Religiofos de Santo Antão fe acha bU 

Surti veftigio do que foi antigamente aquella Chrí- 
andade. Tem algumas minas de prata , e ouro, 
de que tirão còm muito trabalho , è coritrà fua von- 
tade b que 'O Rei neceffita para o commercio , e 
milicia , e os Turcoar pelo grandfc lucro , que del- 
les recebem, osconfervão nos Lugares Santos com 
halíante eftimação, e liberdade. O ch*ma hearden- 
te , e com efpecialidade rios valles , mas a terra ent 
partes tão fertií , (compaixão efpecial , que Deos 
teve da fua preguiça) que dá trez , e quatro vezes 
frutos no anno. jIHu , ou jfbibu , e Nabad forão 
06 dou9 filhos de Âarão ^ que por defcuido offe- 
fecêrão incenfo nos thuríbulos com fogo profano 
contra a ordem de Deos , que mandava ufaífemí 
Belles fó do fogo fagrada, emcaftigo do que mor-' 
jrêrão logo na Tabèrnacnfo junto aó monfe Sinai, 
Moyfés ordenou qoe lhes levafiem os corpos fór^ 

do 



( ^76 ) 

do arraial para celebrarem' as exéquias ^ e ainda 
que todo o povo chorava , prohibio a Aaráo , e 
aos dous filhos menores Eleazar, e Ithamar o pran- 
to y porque o facerdocio , que gozavâo , os devia 
fazer fó lembrar da gloria de Deos^ e nâo da fua 
particular afflicção. Jbiud^ filho deZorobabel, he 
hum dos avós de Chrifto. Âblavio , ou Âblabio ^ 
foi Prefeito do Pretório de Conftantino Magno, e 
edificou em Conftantinopla hum fumptuofo Palá- 
cio , que depois foi de Placidia , filha dè Theodo- 
fio Magno. Conftaqtino na hora da morte o dei* 
xou a Conftancio por Confelheiro , mas efte o dei- 
pedio^ e vendo que em Bithynia vivia comíocego 
em huma quinta, vil, e aleivofamente lhe mandou 
dizer o queria por companheiro no governo, e elle 
innocentemente períuadido perguntou pela purpu* 
ra , e logo çntrárâo aíTaíEnos , que lhe tirarão a 
vida , e o priv;árão de fepultura : deixou huma fi-. 
lha chamada Qlympiada deípofada com o Empera- 
dor Conftante 9 ?q^e a criou,, e leftimou íempre co- 
mo Empejratriz, e por fua morte Conftancio a ça<- 
fou com Aríaccs Rei de Arménia. Abnaquios çâo 
huns povos da America na nova França, a que ou- 
tros chamão Canibas , djfiâo de Qiiebec ieíTenta 
Icguas , è gozão o mar entre Arcádia, e nova In- 
glaterra. Abo yow Jboay he Cidade de Suécia, ca- 
beça da Finlândia , fituada tia foz do no Arojokl 
ibbre o mar Báltico : tem feguro porto , mas não 
tem muralhas : ao Suduefte fica a celebre rocha* 
ondQ as Agulhas de marear tem a maior vareação,; 
o que fe attribue á grande porção de, pedra iman^ 
que talvez haja no dito iitio ^ como no paiz vi;^^ 

nho^ 



( ^17 ) 

inho , em que fe achâo com abandanci?» Foi Cida- 
"de Epifcopal inftituida por Adriano IV , reinando 
Érico II, eGuftavo Adolfo fundou nella hnma Uni^ 
verfidade, que a Rainha Chriftina augmentou de« 
pois liberalmente noanno de 1640. Hum incêndio 
reduzio a cinzas toda efta povoação nobiliíEma em 
1678, e depois de reedificada fe entregou aosMof- 
covitas em 1742, e elles aderáo outra vez aos Su- 
ecos,' que a poíTuçm. Ah^briga , antiga Cidade de 
Hefpanha , dizem muitos he a que hoje nefte Rei« 
no chamamos Villa de Conde. Abogadores são trez 
Magtftrados notáveis na Republica de Veneza, cu- 
jo oficio dura dezefeis mezes , e correfponde em 
parte aos Promotores Fifcaes nefte Reino. Sâo os 
•veladores da obfervancia das Leis , e para que os 
Nobres fe não defculpem com a ignorância delias , 
as coftumão ler muitas vezes no Confelbofupremo. 
Em todas as caufas crimes accusâo os reos , e de- 
pois he licito ao Advogado delks requerer , e dar 
reípoftas ás accufaçócs , e para ferem rigorofos, e 
ieveros , lhes adjudicarão as Leis buma parte do 
£íco de cada condemnado. He nulla toda a refolu- 
ção do fupremo Confelho , e do Senado , fe nelle 
nao aíEftir ao menos hum deftes Abogadores , oiE- 
cio, que não podem ter os filhos, e irmãos doDo- 
^e , em quanto elle vive. Abrahao Patriarca , Avô 
de Chrifto Senhor noíTo , nafceo em Ur no Reino 
de Caldea trezentos e oitenta e tr«z annos depois 
-do Diluvio, decimo depois de Noé por Sem^ e vi^ 
geílmo de Adão, fegundo o rexto Hebreo, porém 
os Setenta dizem fora undécimo depois de Noé, e 
Ti^eíimo. primeiro depois de Adão. Seu pai Thare 

ido- 



( 178 O 

idolatra , como. todos os Caldêos , tinha cento e 
trinta annos, quando o gerou, e foi o terceiro de- 
pois dedous irmãos Nachor% e Arâo, adorou íem» 
pre ao verdadeiro Oeos j <\uçi o mandou íahir da 
íua terra , donde levou comfigo feu pai Thare , fua 
mulher Sara y e feu fobrinho Loth. Eftabeleceo t 
primeira cafa em Haran , onde morreo Thare de 
duzentos e finco annos na Religião , e culto do 
verdadeiro Deos , x]ue pouco depois ordeaou a A^- 
brahão fe mudaflfe para o paiz , quc.elle lhe havia 
de moftrar, que era a terra depromifsâo chamada 
Chanaan , onde habitou com Loth em Sichem , e 
no valle illuftre. Aqui lhe appareceo o Senhor , e 
prometteo dar aquella terra aosfeus défcendentes , 
paíTou aBethel y e ria montanha vizinha erigib AU 
tar y e invocou o Santiílimo Nome de Deos. Pro^ 
feguio a jornada para o Meio dia y porém a fome^ 
que então havia em Chanaan y o obrigou a perer 
grinar no Egypta ,. ordenando a Sara difleíG^qn^ 
era íua irmã y temendo que o mataflem para gqza- 
Tem a grande formo fura , de que era dotada» Os 
Grandes do Egypto a encarecerão a Faraó tanto, 
'<\ue a mandou bufcar para fua mulher y e fez ricq 
a Abrahão para lha dar ; porém Deos caftigou To* 
go de lorte o Rei y e toda a fua família com taea 
calamidades y que fem a tocar lha reftituio uca ^ 
"queizando-fe do engano. Sahio Abrahão rico y e 
honorifícamente acompanhado por ordem de Fa^ 
raó y e com Sara y Loth, numerofa Êimilia , egà^ 
^os foi morar etp Bethel , onde fe Uiea multiplicar 
rão os bens de forte y qne foi neceflariò dividirem^ 
ít. Loch foi habitar- «m Sodoma , -e A|)MÍ3ão,Ân 

Cha- 



'( 179 ) 

Cfidnaân , onde Deos lhe prometteo outra vez dat 
aquelle paiz aos feus defcendentes , que elle havia 
de mnltiplicar como o pó da terra. Daqui fe mU'* 
dou para o valle de Mambre , erigio hum Altar a 
Deos y e aceitou a amizade de Mambre , Efcol, e 
Aner , itmâos defcendentes deChanaan, quedomi-^ 
naváo aqnella terra. Entretanto Codorlahomor Rei 
dos Elamitas , Âmaphel Rei de Senaar , Arioch 
Rei de Ponto, eThadel Rei deGoim j ou das na- 
ções ) vencerão no vaile dos bofques aos Reis de 
oodoma) e Gomorra, faqueárâo as Cidades, e le- 
Tárâo prizioneiro a Loth com tudo o que poíTuia ; 
porém Abrahâo armou trezentos e dezoito dos (cus 
criados, fe^iio até Dan os Reis vencedores, que 
derrotou facilmente , deo liberdade aos prizionei-» 
ros todos'5 repartio os defpojos por feus donos, e 
pagou os dizimos a Melchifedech Rei de Selem , 
oacerdote do Altiffimo. Algum tempo depois fál- 
ica Deos a Abrahâo , ratifícou-lheas promeíTas an- 
tigas, fegurou-lhe a multiplicidade da fua geração j 
dfflis^lhe que morreria em paz na terra de Chanaan y 
e que os feus netos depois de quatrocentos annos 
de cativeiro em paiz eftranho poíTuiriáo aquella ter- 
ra deliciofa. Sara mulher de Abrahâo vendo que 
não tinha filhos , deo a feu marido huína efcrava 
chamada Agar, a qual concebeo, e pario hum me^ 
oino , a que chamarão Ifmael : tinha então o pai 
oitenta e íeis annos , e treze depois lhe appareceo 
Deos outra Vez , ratiffcòu-Ihe as promeíTas antigas', 
e mudou- lhe o nonie^ que até eíliè tetnpo era A» 
brâo , que quer dizer Pai exaltado , em Abrahâo > 
que íignifica Pai de muitas nações : ordenou-lhe 

que 



( tSo ) 

que fe circumcidafle a íi , e a todos os homens da 
fua família ^ e defcendencia em final do concerto ^ 
e amizade, que Deos celebrava com elles: mudou 
também o nome á mulher de Abrahâo 9 que fe cha» 
mava Sarai, iftohe, fenhora minha, em Sara, que 
quer dizer fenhora , e prometteo-lhe o nafcimento 
de líaac. Circumcidou*íe Abrahâo , e fez o me& 
mo a feu filho Ifmael , criados , e efcravos da fut 
cafa ; e paíTado tempo lhe appareceo o Senhor no 
?alle de Mambre na figura de hum homem com 
dous companheiros , hoípedou-os Abrahâo na fut 
tenda , deo-lhes de comer , promettêrâo-lhe que 
Sara lhe havia de parir hum filho no anno feguin* 
te , revelárâo-lhe a deftruiçâo de Sodoma , e Go- 
morra, para onde caminharão dous a livrar Loth, 
e a fua lamilia. Pouco depois fé mudou Abrahâo 
para Gerara, onde difle que Sara era fua irmã, pe- 
lo que lha tomou Abimelech para mulher , mas a- 
viíado por Deos lha reftituio fem lesão, e rica , e 
Abrahâo com orações o livrou , e a fua familia do 
cafti|^o de efterilidade , que , fcgundo a melhor o- 
piniao , confiftia em total impotência para a gera** 
ção humana. No anno feguinte, que querem toffc 
2139 da creaçâo do mundo , nafceo Ifaac èm Ge* 
rara , tendo Abrahâo cem annos , e Sara noventa y 
a qual vendo*fe com o filho crefcido , obrigou o 
marido a que lançaíTe fora Agar com Ifmael. 

LISBOA , Na Ofiicina de Miguel Manefcal da 
Cofta, ImprefTor do S. Oíficio. Anno 176^. i 
Cçm todas^ ax liceu f ar neceffarias. 




(i8r) 

CONFERENCIA XVI. 



Inha Ifaac vinte e finco annos , quando 
Deos ordenou a feii pai que lho íacrifícaf- 
fe no monte Moria , ao que obedeceo A- 
brahâo fem réplica j nem dúvida nas pro- 
meíTas antecedentes da fua innumeravel pofterida- 
de. Levou comfigo o filho j que ignorando o qual 
havia de fer a vióíima, conduzio o fogo, e lenha; 
e quando fobre elia manietado havia de receber o 
golpe ^ e perder a vida, lhe mandou Deos íufpen- 
oer a acção, e vendo perto hum carneiro prezo pe« 
las pontas em efpinhos , o facrificou por Ifaac. 
Morreo depois Sara de cento e vinte e fete annos 
em Arbé , ou Hebron , e Abrahão a enterrou no 
campo de Efron junto a Mambre. Enviou Eliezer 
feu Mordomo natural de Damaíco a Mefopotamia 
li bufcar huma mulher para feu filho Ifaac, que ti- 
nha quarenta annos, e efte depois de feliz jornada 
3he trouxe Rebecca fua prima , filha de Nachor, 
irmão de Abrahão, Gafou depois Abrahão com 
Cetura , e com outras , cujos nomes não refere a 
Eícritura , das quaes teve muitos filhos , morreo 
de cento e fe tenta e finco annos no de 2213 do 
inundo , mil oitocentos e vinte e dous antes do 
Nafcimento de Chrifto , e foi fepultado com Sara 
na cova dobrada de Efron , que comprou para ja«> 
zigo. Abrahão , Emperador dos Mouros em Afri- 
ta no íeculo duodécimo , fuccedeo a feu pai Ali , 
que morreo em huma batalha em Andaluzia con- 
-3Com. VIL Ct «" 



( i8» ) 

tra Dom Affonfo Rei de Hefpanha o Batalhador» 
Abdala Bcrebere, cuj« nação fe ignora, pefcador^ 
e depois Meftre de meninos em Africa , juntoa 
hum exercito de facinorofos contra Abraháo j que 
defprezou tâo vil inimigo ; mas depois vendo O 
fegqião muitos Grandes defcontentes com nu mero- 
fas tropas 9 lhe prefentou batalha , em que foi ven« 
eido 9 fugio com a mulher de ancas para a Cidade 
de Agmec , cujas portas achou fechadas y bufcou 
de noite Orão y e conhecendo o feguiâo , defefpe^ 
rou y e lançou-fe com a mulher a cavallo em hum 
defpenhadeiro. JbràbaOy filho de Zara, por íobro* 
nome Al-Soríani , que quer dizer Syro y foi fexa- 
geíimo fegundo Patriarca de Alexandria , e delle 
reza aquella Igreja. Nâ Livraria Real de França fe 
acha a fua vida nas linguas Syriaca y e Arábica , e 
hum dos prodigios y que delle refere y he ter mU7 
dado para outro fitio diftante hum grandef monte , 
como fez S. Gregório Thaumaturgo. * Ahrahãoy 
Bifpo de Augmale na íerra do Malavar , herega 
fequaz o mais accerrimo dos erros de Neftorio^ 
foi enviado pelo Patriarca de Babylonia a reger a- 
quclla Igreja y e confervalla na hereíla na aufenci^ 
de Mar Jofeph , a quem o Arcebifpo, e Vice- Rei 
de Goa tinhão enviado a Lisboa y e Roma y para 
qqe dé0e obediencÍ9 ao Summo Pontífice , e apreih* 
deífç os coftume^ d9 Igreja Latina. Em Lisboa gof* 
fárâo tanto dç Mar Jofeph a Rainha Dona Catha^ 
lina y e a Infanta Dona Maria y que o náo deixa-* 
râo ir a Roma y e com recommendaçqes graves pa«; 
l^ o Vice- Rei , e Arcebifpo dç Gqa o mandarãç^ 

para 4 íua DieçQÍe ^ fiados qm quQ. promectêra ««i 

Car- 



cardeal Infante D-Henrique, então T/egado i la^ 
tere , havia de obedecer , e todo o feu Bifpado i 
Igreja Romana em tudo. Com a vinda de Marjo^ 
feph fe dividio o rebanho do Malavar , feguindo 
a maior parte dos CaíTanares , (aflim chamáo aos 
Presbyteros , que íó veftem íiloiras , e camizas co- 
mo todos, e tem pordiftintivo dofacerdocio hum 
pedaço de panno branco , como meio efcapulario^ 
prezo á parte pofterior do coleirinho da camiza ) 
e povo a Mar Abrahão , que foi prezo , e remetti- 
do para Roma. De Moçambique fugio para Baby- 
loDia; mas coníiderando melhor o negocio em Or- 
muz j caminhou para Roma y onde o recebeo be* 
pignamente Pio IV, a quem promecteo obediên- 
cia por íi 9 e por todos os Malavares j fez nova 
proteftaçâo daFé, e julgando- fe nenhum o feu fa- 
cerdocio y foi em Roma ordenado Presbytero , e 
cm Veneza fagrado Bifpo. Entretanto Mar Jofeph 
no Malavar enfinava os erros antigos contra o que 
jurara em Lisboa nas mãos do Cardeal , e em Goa y 
chegou Mar Âbrahâo com Breves do Papa , e re- 
commendaçôes para o Arcebifpo^ e Vice-Rei, po- 
rém eftes ^ que o conhecíáo melhor y o prenderão 
no Convento de S. Domingos de Goa por ter en- 
ganado o Papa na proteftaçâo da Fé y na qual ha* 
vendo de dizer y que o Verbo havia tomado a na- 
tureza humana y poz outra palavra Syriaca y que 
fignifica peíToa, e ao mefmo tempo prenderão tam- 
bém Mar Jofeph , e o mandarão para Roma , on- 
de acabou a vida y o que fabenao Mar Abrahão 
por t^m Malavar efcravo do Convento y. confe« 
guio que eíte lhe déífe fuga em quinta feira fanta ^ 

Q^ii e foi 



(184) 

e foi recebido em Augmale com fumma alegria j| 
que durou pouco tempo , porque fabendo o inten- 
tava prender o Bifpo de Cochim , fe retirou para 
a ferra , onde ordenou outra vez nullamente os 
CaíTanares, que tinha ordenado antes de ir a Ro- 
ma 5 e pregou a herefia Neftoriana. O Papa , e o 
terceiro Concilio de Goa o obrigarão , com íalvo 
conduto y a aíGftir nelle , onde fez íimuladamente 
nova proteftação da Fé , confeíTou os erros , pro- 
metteo emenda , e entrega dos livros , e lançar vi- 
nho no calis , que entregava aos Presbyteros , por 
cuja falta erâo nullas as Ordens , e foi neceíTario 
conferir-lhas terceira vez ; porém tanto que fahio 
do Concilio , efcreveo ao Patriarca de Babylonift 
huma carta , em que lhe dava conta do que fucce« 
dera em Goa , a qual veio parar ^s mãos do Bifpo 
de Cochim, e no mefmo tempo chegou ao Mala*^ 
var Mar Simeão , dizendo vinha fucceder-lhe por 
ordem do Patriarca deBabylonia; e como o favo- 
recia a Rainha da Pimenta , íe vio Mar Âbrahão 
nos termos de fugir : valêrão-lhe porém alguns 
Miflionarios , que perfuadirão a Mar Simeão Tofle 
a Roma , onde foi conhecido por herege , e remet- 
tido a Portugal para acabar prezo no Convento 
de S. Francifco de Lisboa , o que fe executou. Mar 
Ábrahâo livre de oppoíitores enfinou todos os er- 
ros antigos pilblicamente y não quiz aíEftir ao quar«^ 
to Concilio Prov^inciai de Goa 9 e queixando- fe os 
Padres delle ao Papa Clemente VIII, ordenou efte 
ao Venerável Arcebifpo Primaz D. Fr. Aleixo de 
Menezes , da Orikm de Santo Agoftinho ,«deva« 
(aíTe delle ^ e oifrendeífe ^ o^ue não pode coníc-» 



( »80 

gutr 9 porqne lhe fíigio para o in terror da ferra, e 
o Venerável Primaz por milagre não perdeo a vi- 
da* Morreo odefgraçado Mar Abrahâo herege fem 
íe querer confeíTar na hora da morte , nem obede- 
cer ás admoeftaçóes da Papa, e do Primaz. Mra^ 
hão Bifpo de Care nafceo em Cir, onde foi Mon- 
ge , e tão penitente , que muitos annos efteve pa« 
ralytico^ Recuperou miiagrofamente afaude, e pa- 
ca agradecer a Deos eíTe beneficio foi com alguns 
Gorapanheiros aífiftir em hum lugar chamado Liba- 
po y cujos moradores apenas tinháo a femelhança 
exterior de homens. Fingio vinha comprar nozes, 
de que havia iiaquelle íitio abundância grande , a- 
lugou huma cafa ^ onde cantava os Oíficios Divi- 
nos, a cujos ecos vierâò os moradores irados pro- 
telar- lhe fahifle do lugar com os feus companhei- 
ros. Nefte tempo chegarão os Miniftros da Juftiça 
a pedir os direitos, que pagavão todos , e achan- 
do-os fem dinheiro , quizerâo prendellos. Âcudio 
Abrahâo , e pagou por todos , que ficarão pafma* 
dos , rogando*lhe quizefie ficar naquelle íitio , e 
governallos. Coníentio com a condição de que na- 
quelle íitio fabricaíTem huma Igreja ; e vendo-a 
brevemente acabada , lhes diíTe buícaíTem Sacerdo- 
te para ella. Clamarão todos , que fó a elle que-^ 
(ião, e com effeito os dirigio trez annos. Deixou 
g Paroquia a hum dos companheiros , e retirou- fe 
para a fua cella , donde o tirarão para Bifpo de 
Care , Cidade grande , e qnaíl toda de idolatras. 
Em todo o tempo do feu governo. não comeo pão, 
nao bebeo. agua, nem ufou de outro alimento mais 
que frutas, e hervas cruas depois de rezar Vefpe* 
. Tom. Vir. Ctiii ras. 



( x8é >) 

ffls. Foi éfpfiçifil «m .pacificar difco^dias ^^ inorreo», 
na Corte do Empcf ador Theodoro j que o chamou 
para o venerar i e lhe aíEftio ir exéquias com êb 
Emperatrizes;: oíeu corpo foi trasladado paraCa^* 
re 9 e a íua fefta fe celebra a 24. d|e Ferereiro«. JÍ^ 
hrabamios y ou Abrabawitas j foi htuíia ièita de he^ 
regea, que renovarão aidos Paolianiftas, cujo Âu-< 
thor foi Paulo de Samofata, que negavao aOivicH 
dade em Chrifto. Abrabem Gervi foi hum Moura 
natural de Guerva no /Reino ^de Tunes ^qiie riria 
com opinião de.farita entre QSronfraeemGuadiKt^ 
quando os Re»$ Gatholtcos. oercárâo> Málaga. Jiitt'* 
tou quatrocentos companheiros iguaes na detecmiM 
nação de morrerem y ou livrarem Málaga dofitio^ 
e com effeito huma manhã romperão o exercito 
Catholico j e entrarão duzentos em Málaga depois 
de mortos os outros duzentos» Abrahem de cafo 
penfado fe entregou prizioneiro y e pedio queria 
dizer ao Rei hum fegredo de importância. Eftava 
elie, e a Rainha dormindo a fefta y e por ido o re^ 
colherão na tenda immediata^emque eftavâo Da« 
na Beatriz de Bovadilha^ MarquezadeMoia^ Do-* 
na Fiiippa, mulher de D. Álvaro de Portugal ^ fi^ 
lho do Duque de Bragança y e com ellas D» Alra* 
to ricamente veftida 9 como também a Marqueza^ 
deíorte que julgando o Mouro erão eftes osRerr^ 
deo huma grande cutilada a D. Álvaro na cabeça^ 
e parecendo-lhe feria mortal, enveftíoaMarqueza^ 
a tempo que pelas coftas o fegurou Rui Lopes dá 
Toledo, Thefoureiro da Rainha, e acudindo geiH 
te foi defpedaçado.^ Acordarão os Reis,, vierão oa 
Cabos da exercito , pazerâa os pedaços do Moiií*' 



* * * <« 



( 187 ) 

fo em hum trabuca ^ e os lançirío dentro da Pra- 
ça , onde os embalfamárão para relíquias , e em 
defpique matarão logo hum Chriftâo ^ cujo cada- 
rer em hum jumento veio parar naiarraial. Defde 
então fe inftituio que guardaíTem a tenda dosReift 
de Hefpanha quatrocentos nobres de Aragáo , e 
Caftella. Abrantes y povoação nobre, e antiga def- 
te Reino , fundada pelos Gaulos Celtas , chamada 
cm outro tempo Aurantes por cauía do muito ou- 
ço , que as aguas do Tejo alli traziâo , foi Praça 
forte , cujo Caftello não pode efcalar Âben-Jacob 
filho de Miramohm Rei de Marrocos. D. AíFon- 
íb y deo o titulo de Conde de Abrantes a D. Lo-' 
po de Almeida , filho de D. Fernando de Almei«* 
da. Alcaide Mòr 9 e Senhor de Abrantes <, e o po& 
fflirão feus defcendentes até o tempo do Senhor 
Keí D. João y 9 que mudou o titulo do Marques 
de Fontes no de Abrantes. Filippe ly nomeou Du-** 
que de Abrantes a D. Affbnío de Lancaftro , que 
não teve effeito. Abroibôr^ derivado do Latim ape^ 
n óculos , e do Portuguez ahrt os olhos , são huns 
penhafco^ pouco fora da agua j e muito agudos 
entre a Ilha de Fernão de Noronha , e a cofta do 
BrazilV>do qual diftâo £ncoenta \tguzs. Abrnzzo ^ 
9U Abruffoj em Latioi Jlprutitmi ^ hè huma Pro^vin^ 
cia do Reino de Nápoles entre Pnlla , terra de La* 
vor 9 o efiado Ecclefiaftico , e o golfo de Veneza t 
he pais fertiliílimo , efpecialmente dieiaçafrãor ^ 
Jíbruz%uir , oia Pir Èruzur j nome na melhor of>i^ 
ffiião inventado, que firaiifica fanto agrefte y foi hnni 
embufteiro natural da Europa, cuja patrra fe igna^ 

gã^ o qual .aportou em Bengala, no anno de 16^03 

ca- 



(«88) 

c^foii êm diverfas terras, e deixando finco confor-* 
les pejadas, fugio para Árracâo, Reino, de cujos 
coftiimes , e agouros eftava bem informado. Per- 
fuadio facilmente aos habitadores era hum fanta 
muitos íeculos antes promettido áquelles povos 
com poder eipecial para frutificar as fearas, depu* 
zerão o Rei, e não fó oacciamdrâo, mas também 
lhe offerecêrâo facrificios , c elle para maior vene- 
ração os aceitava de noite feitos pelas donzella^ 
nais formofas* Alguns julgao era magico iníigne^ 
outros melhor, que tinha grande fciencia da agri» 
cultura , porque nos finco annos do fcu governo 
derão as terras frutos com tal abundância , como 
nunca antes , nem depois fe vio , e confta que pa- 
ra iíTo em diverfas Luas maúdava preparar cinzas 
de muitas arvores, e folhas efcolhidas , que redu- 
zia a polme com agua , e comimuitos facrificios, 
ceremonias , e enfaimos mandava repartir pelas 
terras antes de femeadas. Acabados os finco annos, 
com hum incomparável thefouro fugio para Bea« 
gala, e logo para Ho\\anda.\/íbfalão j filho de Da. 
vid , e de Maacha , filha de Tolomai Rei de Get- 
iur , era irmão de Thamar , filha de David , a quem 
violou feu irmão* Ámon , £lho de outra mãi. Sen- 
tido Ábfaláo deíb sâFronta , convidou todos os ir?* 
inãòs dous annos depois para humbanqiieiíe tiaítia 
herdade , quando fe tpíquiavão as ovelhas ^ e no 
fnqlhor.delle mandou tirac a vida a Âmon pelod 
fws criados. Fugio para Qeífur , onde efteve trez 
annos em caía de 4eu^avâ,'aréqne Joab lhe alcaQ-» 
çou licença para viver na íha>cafa fcm apparecec 
fia prefença de David , que. paflado ^empo o ad«t 

mit- 



Í-- •■ 



ímíttio i fua graça , de qne elle abufou logo , por- 
que depois de fe fazer querfdo do povo, tratando 
familiarmente os que vinhão requerer a íeu pai, 
diíTe a eftc queria ir cumprir hum voto y que fize- 
ra no defterro , e chegando a Hebron , íe fez ac- 
clamar Rei , e quiz logo prender , e matar o pai, 
o qual acompanhado de poucos fahio dejerufalem 
a pé. Entrou Âbíalâo na Cidade , c com brutal vi- 
leza em hum íitio público á vifta de todo o povo 
ufou de dez concubinas de feu pai y que elle deixa- 
ra para guardarem acafa. Dizia-lhe Aquitofel mar- 
chaíTem logo contra feu pai, aquém facilmente ha- 
via de deftruir , porém Chufai , a quem David pe- 
dira ficafle com Abíaláo para deftruir os confelhos 
de Aquitofei j votou o contrario , e com tal ener- 
gia ,que feguírâo o íeu parecer , de que afflido Aqui- 
tofei fe enforcou , e Chufai avifou a David , que 
paflbu o Jordão. Deo-fe depois a batalha no bof- 

3ue de Efrdim , foi vencido o numerofo exercito 
e Abfalão prodigiofamente , porque forão mais 
os que tragou aterra no tempo da batalha, do que 
os mortos i efpada. Abíalâo fíigio montado em 
hum macho , e paíTando por baixo de hum carva- 
lho denfo, fe lhe enrolarão oscabellos de forte nos 
troncos , que ficou pendurado : aílim o virão mui- 
tos foldados , e o não quizerão matar , porque o 
Santo Rei David ^ quando expedio o exercito , re- 
commendou a todos não fizeífem mal algum a feu 
£iho ; porém o General Joab fabendo onde , e co- 
ino eftava , lhe cravou trez lanças no coração , e 
vendo os feus homens de armas que ainda palpita- 
ira^ o acabarão de matar ^ e lançarão o cadáver em 



( tço ) 

hiima grande cova do bofque , c fobre elle muitas 
pedras. * Hoje nâo ló'eftá a cova tapada , mas fo- 
bre ella hum monte de pedras digno depafmo, por* 
que defde que ifto luccedeo até o prefente todas as 
peíToas , que pafsão por aquelle fitio , amaldiçoâo 
Abfalâo , e lanção huma pedra fobre o lugar , em 
que eftá fepultado. Eu fallei com Catholicos pioS| 
que forão com afto reflexo para obrarem o contra- 
rio y mas chegandq ao lugar j donde o precipita- 
rão y fe enfurecerão y amaldiçoarão Âbfalão^ e lan- 
çarão muitas pedras fobre o monte delias y que o 
cobre. Foi o homem mais gentil , de melhores y e 
maiores cabellos naquellefeculo, osquaes tofquea*** 
va huma vez cada anno y e pezavão duzentos íiclos : 
elles forão caufa da fua morte y que parece lhe va**^ 
ticinou muito antes o coração , quando erigio no 
valle do Rei huma groíFa columna , que fe confer* 
va para memoria do feu nome y porque não tinha 
filho herdeiro. Jofefo diz, que deixar» trez filhos^ 
ehuma filha chamada Thamar, que cafou comKo- 
boão y filho de Salomão y e foi mãi do Rei Abias. 
Jlbjiinentes foi huma feita de hereges no terceiro fc- 
culo , que participava dosGnofticos, eManiqueos: 
dizião que as carnes forão creadas pelo demónio^ 
€ por iíFo as não comião , reprovavão o matrimo^^» 
nio , e dizião que o Efpirito Santo era creatura. 
Abfyrtides são duas Ilhas no golfo de Veneza. Oà 
Geógrafos modernos querem que a maior delias fe-»- 
ja a antiga Abforis , que hoje fe chama Ofero , e 
depende da Republica de Veneza com Cidade Epif- 
copal fuffraganea do Arcebifpo deZara em Dalma* 
cia^ e a outra ^ a que fe chama Gherfo^ tão vizinha 

da 



( '90 

da primeira , que fe commiinicâo por hiima ponte. 
jlhubeqtier foi o primeiro Calife , ou fucceíTor de 
Mafoma feu genro , o qual na hora da morte no- 
meou Ali marido de íua filha Fátima, dizendo era 
íknto 9 e que o Anjo lhos tinha nomeado para de« 
fenfores do Alcorão , fe bem difle logo que Abu* 
bequer, Ornar, eOfmâo erâo iguaes na fantidade^ 
e o primeiro, porfer mais poderoío , foi eleito pe- 
lo exercito com violento beneplácito dos outros. 
Ali defgoftofo foi governar a Arábia , Ornar a Per- 
fia , Oímão Africa , e Egypto , c Abubcquer AíTy- 
ria , Babylonia , e mais Provincias , conforme dif* 
puzera Mafoma no feu teftamento : todos compu- 
7eráo versões , e interpretações do Alcorão, de que 
feoriginárão diverfas, eridiculas feitas. OsPerfas, 
que feguem a de Ali verdadeiro fucceífor , julgão 
por hereges os fequazes das outras , e abominâo 
os fobreditos Califes. Academia he nome , que ge- 
ralmente fe dá ao lugar , em que florecem as fcien- 
cias , ou artes , e a todo o ajuntamento de homens 
doutos, que efpeculão, enGnão, eadiantão asmef- 
mas artes , ou fciencias. Os Gregos forão os pri- 
meiros inventores delias , e caufa de que os Ro« 
manos , que forão feus difcipulos , fundaíTem de- 
pois muitas , a que também na Europa chamarão 
Univeríidades , deixando o nome Academia como 
próprio fó para as Juntas dos homens doutos, que 
não enfínão difcipulos, efó cuidão no adiantamen- 
to das fciencias , artes , ou verdade das hiftorias 
com os eftudos, e efcritos. Acadia he huma Penia- 
fula grande na America feptentrional na cofta do mar 
de Canadá entre efie , e o rio de S, Lourenço : tem 



I* 



l.» .- - 



X ^9^ ) 
quafi cem léguas de circuito , foi dos FrancezesT^ 
depois dos Inglezes , que lhe chamarão nova Efco- 
cia, e a cederão aos Francezes na paz de Breda , e 
lha tomarão na ultima guerra. Acapulco he huauí 
Cidade da nova Hefpanha na America feptentrio* 
nal dillante quaíi cem léguas da Cidade de Mexi* 
CO. Os Hefpanhoes , que vão para as Ilhas Filippi- 
nas na Afia, deíembarcão em Vera Cruz no golfo 
de México , paísão a Acapulco , e tornão a embar- 
car em differentes galeões fabricados naquella cojf- 
ta , e dalli navegão para o Occidente para chega^ 
rem ao Oriente : tem hum Caftello forte ^ e bom 
furgidouro ^ mas he o porto mais caro de toda a 
America , porque difta muito donde recebe os vi-- 
veres. * Acapulicor chamarão antigamente os Sy- 
ros , e Paleftinos á celebre cova vizinha do monte 
Oreb, onde fó entrarão Monges de conhecida ían- 
tidade , e nunca diíTerão o que lá virão. Alguns 
preparados com muitas penitencias , e jejuns ttta 
entrado na primeira fala , donde retrocederão che- 
ios de horror , mas ouvirão neífe pouco tempo mu- 
íica ^ que lhes pareceo do Ceo : os Monges fcifma* 
ticos lhe taparão a entrada com groíTo muro. ^ 
Acchartar chamão os naturaes do Indoílão ás caça- 
das dos porcos montezes : lanção nos matos mui» 
tos anzoes grandes com carne prezos a cordas , oa 
cadeas, eeftas a hum páo forte de trez palmos re*^ 
dondo , come o porco a carne com o anzol , engo- 
le acadea, ou corda, e não podendo engulir opáO| 
recebe a cadea , e puxando y cahe atormentado da 
dor, que lhe caufa nas entranhas o anzol, acodem 
os caçadores , e íem perigo o matâo. 



I.ISBO A, Na Oíficína de Miguel Manefcal daCofta, Impreflbr d^ 




( '93 ) 

CONFERENCIA XVII. 



Ccaren qaer dizer deos das mofcas , que 
também fe chamava Beelzebut, que fígni- 
fica o mefmo , e com efte nome ultimo o 
adoravâo os Âccaronitas , e os JuJeos : 
era Júpiter enxota mofcas o feu verdadeiro nome, 
porque fingirão os Gentios antigos que facrifican- 
do Hercules em Oiympia , o perfeguírao as mof- 
cas y porém Júpiter , a quem invocara , as fez reti- 
rar para a outra parte do rio Âlfeo. Accolti he 
ibbrenome dehuma antiga familiadeTofcana, que 
$eve dous Cardeaes doutiíEmos , e hum parente de 
ambos chamado o Príncipe dosjurifconfultos Fran« 
cifco Accolti de Ârezzo , porém tudo efcureceo Ben- 
to Accolti , que foi cabeça da confpiraçâo contra 
o Papa Pio IV , para a qual induzio o Conde An* 
tonio Canoífa , e outros Fidalgos , promettendo 
4ividir as terras da Igreja entre todos, Dcos livrou 
o Papa^ e deícubrio a conjuração, pela qual forâo 
juâiçados. Acurjio foi hum dos íinco Santos Mar- 
tyres de Marrocos difçi pulos de S. Francifco , e 

floriofas primicias dá Ordem Seráfica. Ainda que 
#eigo 9 o mandou S. Francifco com os Santos Be- 
rardo, Pedro , Adjuto , e Othão pregar a Fé entre 
os Mouros de Africa. Derão principio á mif^âo em 
Sevilha 9 entrarão na mefquita a tempo, que eftava 
cheia , e receberão de todos as maiores aâFrontas, 
Dalli forão pregar ao Rei, que os mandou matar , 
e lhes perdoou por iaterc^ísão dç hum filho. Or- 
. Tpm. VII. R de- 



(196) 

Hum Blfpo , que então o vifitou , lhe confcrío to- 
das as Ordens, o que elle confentio , porque fabia 
lhe reftaváo poucos dias de vida, * Paleceo oran* 
do y e aflim o acharão : foi fepultado no valle vizi- 
nho j chamado depois Acepíimas j quizerâo trasla» 
dallo para hum Mofteiro vizinho , e nunca acharão 
ofepulchro, não obftante apparecerem de noite lu- 
zes fobre cWc. Gabriel Timotbeo Viagem da Syria^ 
Egypto , e Palejlina. Acemo , ou Aderno , Cidade 
pequena do Reino de Nápoles , diftante quatro le« 
guas de Salerno , da qual he fuffraganeo o feu Bifpo^ 
não tem muralhas , e eftá íitoadt em hum valle cer-^ 
cado de montanhas* O mefmo nome , ou Cerra ^ 
chamarão os Romanos á terra de Lavoura noRei-> 
no de Nápoles fobre o rio Âgno , planicie dilata- 
da 9 e fertiliíCma diftante quafi trez léguas de Nt<^ 
põlès, aquém he fofiragaiièo ofeu Biípo compoa«i 
cas ovelhas. O mefmo chamarão os Romanos ao 
vafo 9 em que guardavão o incenfo ^ e perfumes pa- 
ra os Ídolos y do feitio de barco , a que a Igreja 
chama naveta. Acah , Rei de Ifrael , filho , e fuc- 
ceflbr de Amri , foi o peior de todos os Principes 
daquella Monarquia. Cafou com Jezabel , filha de 
Echbaal Rei dos Sydonios, que operfuadio a edi- 
ficar, hum templo com bofque , e adorar Baal, ifto 
he^ Júpiter , deftruindo ao mefmo tempo^ os Alta^ 
res do verdadeiro Deos , e matando os^^Sacerdo^ 
tes 9 dos quaes fugirão cem Profetas , que Abdias 
Mordomo do Rei efcondeo em duas covas. Santo 
Elias pedio a Deois cafHgaíTe o Reino com ífecura^ 
di0e a Acab não havia de chover iem elle o or^. 
deoir^ e) rçcirgu^ic» Paffados tre^ axinos^ lhe orde^ 

DOU 



ki,. . 4 



( 197 ) 

noa Deos fé prefenttfle to Rei \ com o qnal ajuf« 
tou fe fizeflem dous facrifictos no noonte Carmelo 
diante de todo o povo y hum pelos Sacerdotes de 
Baal y outro por elle , e fbfle venerado o Deos y cu- 
jo facríficio confumifle o fogo. Fizerâo o primei- 
ro facrificio os Profetas , e Sacerdotes de Baal , e 
feus bofques ^ que erão oitocentos e fíncoenta , com 
hum boi defpedaçado fobre a lenha clamarão det* 
de a manhã até o meio dia ; e vendo que não dei* 
da fogo ) fe ferirão com lance tas em circuito do 
facrificio. Levantou então Elias outro Altar , poz 
fobre elle o boi %m pedaços , lançou grande quan« 
tidade de agua trez vezes fobre tudo y orou , def* 
ceo fogo do Ceo y e confumio até as pedras y e 
agua. Confeflbu então o povo o feu erro , e por 
ordem de Elias prenderão todos os Profetas de 
Baal y que matarão na torrente de Cifon. Promet- 
teo logo Elias a Acab chuva copiofa , que alcançou 
de Deos orando no alto do Carmeio. Paífado pou* 
CO tempo y veio Benhadad Rei de Syria íitiar Sa- 
maria , mas Acab o venceo , e obrigou a pedir a 
paz. Defejou pouco depois Acab huma vinha de 
Naboth y que lha não quiz vender , mas a Rainha 
Jezabel o fez accuíar falfamente de blasfemo , e 
morrer apedrejado y ao que fe feguio gozar o Rei 
a vinha ^ pelo que Elias o reprehendeo da parte de 
Deos y e lhe prognoílicou que no mefmo íitio y em 
que os cães lamberão o fangue de Naboth y havião 
de lamber o feu 9 e comer Jezabel. Trez annos de- 
pois teve Acab nova guerra com o Rei de Syria y 
e provocou a Jofafat Rei de Judá para ella : qua- 
trocentos Profetas falfos lhe promettêrão vi£lo- 
Tom. VIL Riii cia^ 



( 198 ) 

• 

ria ) porém Miqueas , Profeta do Senhor ^ a queoi 
chamou Jofafat , lhes diiTe intrépido que Acab mor- 
reria nefta guerra , pelo que o mandou prender 
com intento de o matar, quando vieíTe triunfante; 
porém morreo na batalha atraveíTado com huma 
fetta , foi conduzido para Samaria o cadáver no 
coche de campanha , que lavarão os criados em hu- 
ma piícina junto a Jezrael , e os cães lamberão ro« 
do o fangue , que delle correo. Achata , Província 
aífim chamada de Âcheo , neto de Deucalião , que 
defterrado de TeíTalia fe apoderou de todo o Pe- 
loponezo, e teve deCreufa, filhando Rei deAthe- 
nas , a Acheò, e Jon , efte, que deo principio aos 
Jonios , aquelle aos Acheos. O melmo nome teve 
fempre huma grande parte de Grécia , a que Pto* 
lomeo chama Hallas , e fe compunha das Provia- 
cias de Beócia , Attica, Megarida Focida, Eólia ^ 
Locrida , e Dorida. Achata propriamente he hum 
paiz de Peloponezo entre Sycionia , e Elida , foi 
a antiga Republica dos Acheos , cuja Corte era 
Pallene , e as outras Egira , Eges, Bura, Hélice ^ 
Egium y Ripes , Patras , Fares , Oleno , Dime, 
Tritea. O mefmo nome teve o Peloponezo todo^ 
quando os Romanos fujeitárâo Grécia. A primeira 
Achaia fe chama hoje Livadia , a íegunda Claren» 
cia 9 e a terceira Morea , a qual foi dos Duques de 
Sabóia , dos de Anjú , dos Venezianos duas vezes ^ 
e duas dos Turcos j que hoje a pofluem com toda 
a Grécia. Achachica , ou Achacica , Cidade do Rei* 
DO de México , tem minas de prata , e difta da Cí-* 
dade dos Anjos dezoito léguas. Achan^ ou Achar ^ 
kgundo Jofefo > do Tiibu de Judá ^ e família de 

Za- 



C '99 ) 

Zare , ãffiftio i conquifta de Jericó , onde furtou al- 
gumas coufas do faque contra a ordem expreíTa de 
&eos , que em caftigo permittio logo foliem der- 
rotados trez mil homens, que Jofué tinha manda- 
do a expugnar a Cidade deHai. Revelou Deos ao 
Venerável General o motivo da perda , e fiiga do 
exercito , mandou efte lançar fortes nos Tribus , 
6milias j e peflbas , fahio Achan condemnado , e 
confeífou furtara huma capa efcarlate , duzentos 
ficlos de prata , e huma régua de ouro , que tudo 
eftava na terra da fua tenda eícondido , pelo que 
elle y fua mulher , e filhos forâo logo apedrejados 
no valle de Áchor , e queimado tudo o que lhes 
pertencia. Ficou Oeos fatisfeito , e rendeo-fe Hai 
com morte de doze mil dos feus defenfores. Acbar^ 
tOj oviSantoAicnrio ^ procedeo de huma familia no- 
bre do Poitú. Na idade de dezoito annos profeífou 
a vida Monaílica na Abbadia de S. Jovino , todas 
as fazendas, que Ihederâo parentes para oíeii tra- 
tamento , e decência, doou á Igreja de S.Pedro de 
Quinçai , donde S. Filiberto Abbade de Juroieges 
]he havia mandado alguns Monges. Para efta Igre- 
ja fe mudou pouco depois Santo Aicario, e foi elei- 
to Abbade delia em tempo que a Communidade 
conftava de norecentos Religiofos , e mil e qui- 
nhentos criados , familia aíTás grande , e que elle 
governou com paz , e fantidade (empre aré que 
roorreo no anno de 687 nos feifenta e trez de ida- 
de. Achates , rio de Sicilia , chamado hoje Il-Dril- 
lo , que corre pelo valle de Noto , e entra no mar 
de Africa , féis milhas da teria nova para a parte 
deCamarana ^ he o que julgarão os antigos era 

pa- 



( 100 ) 

pátria das pedras chamadas Ágathas j porque nellã 
íe achou aquella celebre , que foi aprefentada a 
Pyrrho Rei dos Epyrotas , em que jMturalmeote íe 
vião efculpidas com ApoUo as novtf.Mufas. Jcbasi^ 
Rei de Judá j fuccedeo a feu pai Joathão : no prin* 
cipio do íeu governo foi leal aDeos, que lhe pro* 
metteo por Ifaias huma vidoria y que alcançou de 
Razim Rei de Syria. Adorou pouco depois Achaz 
todos os ídolos do Gentilifmo , aos quaes oíFere» 
ceo immundiíEmos facríficios j e purificou gentili» 
camente feus filhos , paíTando-os pelo fogo. Cafti* 
gou*oDeos com guerra, na qual ovenceo Razim, 
ou Razin Rei de Syria , e Faceo , ou Facee Rei 
de Ifrael : eftes cercarão Jeruíalem ; £ rendo que a 
nãopodiâoefcalar, Razim matou innumeraveisju- 
deos, tomou algumas Praças ^ c recolheo-fe a Da- 
mafco com os defpojos. Então julgou Achaz podia 
oSerecer batalha a Facee y na qual foi vencido y e , 
mortos vinte mil Judeos* Obâinado com efta per- 
da , fe offereceo por tributário a Theglatphalazar 
Rei dos AíTyrios y e para o obrigar mais a que o 
foccorrefle y lhe mandou todos os thefouros y e ri- 
quezas do Templo, e do feu Palácio. Theglatpha- 
lazar conquiftou Damafco y matou o Rei Razim, 
cativou os moradores y e entrando como inimigo 
nos Tribus de Ruben y Gad y metade de Manafles , ' 
Nefalim, e grande parte de Gahlea, levou cativos 
para Aflfyria os Ifrael i tas y fez graves damnos no 
Reino de Judá, e deixou Achaz tributário por for« 
ça, tudo caftigo deDeos, que mifericordiofamente 
lhe mandara prometter antes a vidloria por Ifaias , 
O qual lhe deo por final a Encarnação do Verbo* 

Gref* 



( ^OT ) 

tirefceo de forte a obftinaçâo de Âchaz , que or- 
denou úo fummo Sacerdote Urías mandafle fabri* 
cai* em Jérufalenfi hum altar para os idolos , como 
o de Damaíca , donde lhe enviou o modelo , e achan- 
do-ò acabado , oíFereceo fobre elle facrificios. Do 
jitetal. do Âkar de Deos mandou fòzér iium reló- 
gio y' fechou: o Templo de Jerufalem f. e ordenou 
que efti todos ^'os 'íitK>s da Cidade edíficaíTem alta- 
res ao6 idolos de todo o Gentiliímo , até que Deos 
lhe tirou a vida fetecentos e Tinte ^ féis annos antes 
do ]Aú{ciw!^VíiO'yét Qhri&o. Jthrírofoeta^ht nome 
dé hiAuâ Imageiíi dé:>Chrifto Sdnhor noíTo-, que.fe 

Íruiirdia eilidadoAiniiente em-Roma haBaiilioa deSâo 
óio de Latráo y e dizem, que fora debuxada poc 
S. Lucas , e acabada pdos Anjos : deriva- fe eftã 
palaíirfa de ootrf^Grejga^^ que quer dizer: O que não 
fri feito por mão do bopiem. * Reprefenta cfta.pintu- 
tura o Salvador do inundo na idade de doze annos. 
Fr. Alberto da Ordem dos Pregadores no livro do 
tCofarío diz , que a Virgem Senhora perfuadíra a 
si Lucas a fizefib , e queefte preparado o panno^ 
Í6 pnzera em oração' , pedindo 'ao Senhor Ihé dirir 
gifle a mão de forte , que fahiífe femelhante ao ori- 
j^itial, e que vindo depois da oração dar princípio 
á obra , a achdra feita pelos ^ Anjos , pelo ^ue nof^ 
íii' Senhora confervtfra- fempre efte painel na íua cia- 
inèra , diante do qual orava% Os Stwnmos Pòntifir 
ces , e povo Romano íe tem valido muitas vezes 
defte Santiflimo retrato, e recebido delle prodigio- 
sos beneficios. Eftevâo- II no anoo de 7.52 o levou 
defcalço em Procilsâo a-SantaMai^aMáibr, e>CDnp> 
íeguio areftauração' dq PiiacipadÀ deRav&na y Dui» 

ca- 



ctdos de Ferrara y t Urbino j que o Rei Aflolfa dé 
Lombardia havia ufurpado á Igreja. ACapeJla, em 
que fe guarda íeparacja totalmente da BaíTIica , íbí 
algum dia a do Palácio Lateranenie ^ que ultima 
mente reftaurou Xifto V: chamava-fe deS.LoureiH 
çOy e hoje do Salvador: fóbe-fe para ella por três 
eícadas, e a do. meio, que tem viot^ eoitodegráof 
de mármore branco , he a mefma ^ por onde lubiq 
Chrifto bem noíTo em cafa de Pilatos , ê no oitavo 
degráo fe coníerva o final de hnma gota de fangue 
do Senhor 9 que nelle.cahió ^iTeíguardado com n\h 
ma rede de ferro :íòbem pórella todqsdejpelhos^ 
e dèfcem pelas dos lados part lucrarem Indulgen* 
cia plenária em cada degráo. Celebra nella os O^ 
£cios Divinos em dia de S. Silveftre o Cabbido Ijh 
teranenfe , e todo o aono a CoUegiada , que mftí^ 
tuio Xifio V. Em outro tempcti a* Tcrviâo y e guar* 
davâo doze Cavalheiros Romanos com o titulo de 
Recommendatarios do.Santiífimo Salvador , hoje a 
Confraria do mefmo titulo , que inftituio João XX 
com a fuperintendencia ' do Hofpital de S« Joáq de 
Latrâo y e padroado de trez CoUegios de Roma^ 
em que aprendem todas as fciencias quarenta e oi» 
to CoUegiaes y além das muitas caías y que dão a 
viuvas para aíCftirem , dotes a orfans , e o privilcr 
gio de livrar hum condemhado á morte a is de 
Agofto. Achem y, Cdrte do Reino deftenome ao Sul 
da Ilha de Sumatra y pais fértil de adubos y como 
toda a índia do Cabo de Comorím até á linha y tem 
bom: porto , e commercío y e hum notável Caftello ^ 
que he a Corte y ptírque tudo o mai&sáo caías d« 
carro entre acvoces : difta quatrocentas milbas de 

Ma- 



( ^05 ) 

jffakca, e quarenta de Písdir, mi!; hoje os Remos 
de Pacem j ^ Pedir sSo dependentes y e feudatarios 
tSò Achem , <]ne já (oi mais poderoíb , porque no 
decimo fe^to feculo nòs fez guerra muitas rezes 
com duzentos navios ^ feíTenta galeras , e em tudo 
feStnta mil homens ^ privon-nos do forre de Pa* 
íceili,' e fition Malaca algumas vezes. He digna de 
ihemoriá hnma peça de artilharia , q«ie eíte Rei 
mandou de prePente haquelle tempo ao Rei dejor^ 
com quem êftãva defpofada fua filha ^ oija perfei* 
iç&o excedia a tudo o que Te tem viik) na Europa : 
nós a tomátnoi^ y é perdemos em Malaca. ^ Hoje 
"não obítante as chamadas grandes conquiftas defte 
Rei) apenas fem vinte embarcações de remo j e pe« 
«ueoas. Jvbi/eay por outro nome Lence, he huma 
Ilhaf do Ponto Euxitio die figura triangular fituada 
entre as bocas do Danúbio j e do Boriftenes defron* 
Te deCherfonefa Taurica: nella deícançou Aqnilea 
lom a fua frota , e tomou o nome deftè heroe , cu^ 
já alma com 'a de Âjaces, e outras defcançavâo na«^ 
quelle fitio , rdfíTe o Gehtilifmo) vifitavão os na^ 
veganteS) e obravão milagres. O mcfmo nome te- 
ve huma fonte de Mileto , cuja agua naícia falga^ 
àa y e na corrente era doce y aflim chamada , por- 
que nella fe lavou Aquiles. O mefmo chamarão a 
hum Caftello junto de Efmirna , a hum porto de 
mar perto deTanagra Cidade de Beócia y outro de 
Xaconia , e a huma Cidade , e Promontório da Sar- 
macia Afiatica. ÂchileOy Santo Martyr y Diácono da 
eja xle LeSo de Fnmç» ^-^eio comPoritiniito^j.e 
élis pregar cEniangelhoa Valença dç Hefpanha^ 
forio prozos^ e encar oerados y íoltoa «pôr bum An- 




( ao4 ) 

jo /derribarão com ajua oração imiitos ídolos 9 pe- 
lo que forao degollâdos : bs íuas Relíquias fe vene<r 
râo em Áries 9 e a Igreja celebra a 23 de Abril a 
fua memoria. Achileo , General dos exércitos Ro- 
manos emEgyptO) fe rebelou contra o Emperador 
Diocleciano y^, ufou do titulo 9 e dignidade Impe- 
rial na maior parte daquella Prpvinçia > até que 
Diocleciano o fitiou oito mezes na Cidade de Ale» 
xandria, e caftigou a fua loucura» Achileo ^ tNerea^ 
Martyres do primeiro feçulo ,^ fprão.baptizados por 
S. Pedro , e degolUdos ambos oaiperfeguiçâo de 
Domiciano. Acbiles j nome de muitos homens. faW 
lofos, efó próprio de hum Príncipe Grego, Muíl- 
co 9 Poeta 9 Medico 9 gentil y e valcrofo 9 que na 
guerra de Tróia obrou grandes proezas, as quaes^ 
e todais as acções da. fua vida -confundirão ôs Poe- 
tas com mil fabulas xiáxcnlas. Achimelecb 9 fummo 
Sacerdote dosjudeos, foi morto com oitepta efior 
CO peflbas do feu Tribu 9 e habito facerdotal pQt 
ordem de Saul 9 porque, deo a David os pães de 
propofição9 c A emada deGolia^: não quizerãò os 
íbldados 9 ou criaaos de Sanl pèr as mãos. nos . Sa- 
cerdotes 9 e fó Doeg Idumeo paíbor do Rei execu- 
tou a ordem 9 e na Cidade de No|}e 9 que fó habi- 
ta vão os Sacerdotes 9 os matou a todos com mu- 
lheres 9 filhos 9 e gado$# , AcbinofL 9 ou Acbinoain 9 foi 
mulher de David 9 mãi de Amon, era do Tribu de 
Judá9 eCidadedeJezrael, foiprizioneirados Ama^ 
lecitas 9 e reígatada por Pavia. 

maÊÊÊmÊmmwtmÊmÊiÊÈàmmÊmÊmmmÊÊmmmmÊÊmmmmmÊÊmÊmmmmmmimmÊÊmmmÊÊmmmtm • 

j:;.ISBO'A , Na Oifidita de Miguel Manefcal da 
Çofta , lApreflbr do S. Oficio.. Anno, 1763. . 
Cm todas ar licenfos neceffarias. 



- ■- n 



CONFERENCIA XVIII. 



' Jk Cbior foi ham Capitão do exercito defío- 
/jk lofernes no cerco de Bethulia , e difle no 
_/ m Confelho de Guerra ^ que fenâo devia fa- 
zer efia aosjudeos, fem primeiro íaber (e 
clles tinhâo oSendido ao feuDeos^. porque tendo*o 
propicio, era impoíEvel vencdlòs. ^Aborrecerão de 
forte o confelho, que mandarão prender logo Achior , 
e entregallo aos J udeos de Bethulia ; mas como ef- 
tçs não confentírâo que chegaíFem ás portas , dei- 
xarão os foldados Achior no campo prezo a huma 
arvore , a(Em o acharão os efpías de Bethulia j e 
conduzido á Praça confeíTou o que diíTera , pelo 
que o hofpedárão com mimo em cafa de Ofeas do 
Tribu de Simeão. Pouco depois cortou Judith a 
cabeça a Holofernes , e moftrando-a a Achior em 
Bethulia , cahio efte com hum defmaio j vendo o 
íingular prodígio j com que Deos confirmara o que 
elle tinha dito no Confelho : recuperado o alento, 

£edio a circumcisão, e ficou admittido no povo de 
)eos. Jcbis foi Rei deGeth na Paleftina: duas ve- 
Ees íe refugiou David nas fuás terras , na primeira 
tcmerofo de que o mataífem , fe fingio louco na 
prefença de Achis , e na fegunda recebeo delle a 
Cidade de Siceleg , que depois ficou pertencendo 
«os Reis de Judá , donde fahia a fazer guerra , e 
prezas nas terras dos Amalecitas , julgando Achis 
zs fazia nas de Saul. Alcançou depois eíle Rei hu« 
ma memorável vi£loria de Saul , .que morreo com 
Tom. VIL S feus 



'( 206 ) 

feus filhos na batalha , pedindo ao pagem da lança 
IhctiralTe a vída*,'infultò qíie fó qiiiz obrar hocn 
eftrangeiro, quepaíTava pelo monte deGelboé aca- 
fo. Jchmet , primeiro defte nome , Emperador dos 
Turcos , não matou feu irmão único ^ como coftu^ 
mavâo os Príncipes daquella barbara Monarquia, mas 
fim depois de lhe fazer rebentar os olhos , o prei>- 
deo em huma claufura de Mouros. O Sofi daPerfia 
lhe tomou EvTftfXim , e Tau ris , e elle depois de 
mandar cortaria cabbça por fincoenta Capiges ao 
Bachá de Cigala , porque não impedira eftas con- 
quiftas do Sofí , recuperou a Tranfílvania , Vala* 
chia, e Moldávia por meio de Boftkai Príncipe de 
Tranfilvania ^ que fe tinha rebelado contra o Em<- 
perador de Alemanha. Seguio depois as partes de 
Bethlem-Gabor contra Gabriel Bathori , fucceflor 
de Bofikai ; e vendo-fç perfeguido por todas as par- 
tes , levantou quatro exércitos, hum contra osPer- 
fas, outro contra os Polacos, terceiro para reíiítír 
aos Cofacos , e o ultimo para guardar o thefouro 
de Egypto : vio todos com infeliz êxito , e talvez 
de paixão morreo ai; de Novembro de 171 6 com 
trinta annos de idade , e quatorze de reinado , tem- 
po, em que ideava grandes emprezas. Contra o que 
difpôe a Lei Mahometana edificou no Hypodromo 
praça , ainda hoje de cavalhadas , a mefquita cha« 
mada nova , ou do incrédulo , porque não deo cre- 
dito aos Doutores , que lhe diziâo íó a podia edi- 
ficar depois de ter feito novas conquiftas: he amais 
formofa obra dos Turcos com féis mirantes tão altos ^ 
que parece milagre refíftirem aos ventos. Achmet^ 
Governador do Egypto ^ tomou Antioquia , deo 

Sy- 



( 207 )■ 

Syrvãj e Egypto a feus filhos, fez Damafco Corte 
do feu Império, deixou dez milhões de ouro, fete 
mil efcravos , outros tantos cavallos , e oito mil 
camellos : foi o Mouro mais efmoler , que vio o 
inundo , e houve dias , em que deo mil e duzentas 
peças de ouro de efmola. Âcbmet , fegundo defte 
nome, Emperador dos Turcos, era filho do Sultão 
Ibrahim , a quem affbgárão os Genizaros : efteve 
prezo em quanto reinarão Mahomet quarto, eSoli* 
mão terceiro; porém morto efte, eaquelle depofto, 
fubio ao throno , foi muito amado dos vaíTallos, e 
feliz o íen governo por defgraça dos Catholicos, 

auefò lhe conquiftãrão Grão Varadim , e as Cidades 
e Jeno, e Giula, e os Venezianos fe virão obriga* 
dos a deixar a Canea , oslmperiaes Belgrado, alem 
do que conquiftárão os Turcos a fortaleza de Gara- 
buza em Cândia : morreo Áchmet de hydropizía , e 
deixou o Império a feu íobritiho Muftafa fegundo y 
filho de Mahomet quarto. Jchmet , terceiro do no« 
me , Emperador dos Turcos , filho de Mahomet 
quarto , começou a reinar no anno de 1703 depois 
deíer depofto feu irmão Muftafa fegundo, que íuc* 
cedeo a leu tio Achmet fegundo : forão pacíficos 
os príncipios do feu reinado até o anno de 1709, 
em que fe declarou a favor do Rei de Suécia , que 
fe refugiou em Turquia, e lhe pedio auxilio depois 
de perder a batalha de Pultavva» Recebeo Achmet 
efte Príncipe com tanta lealdade , e afiFe£lo , que 
mandou degollar os Vizires , que fe deixarão pei- 
tar , ou fe inclinarão a favor dos inimigos de Sué- 
cia : hum deftes era o Czar de Mofcovia , a quem 
Achmet encerrou com todo o exercito além do rio 

S íi Prat, 



( 208 ) 

Prut , e obrigou a ceder-lhe as Praças de AfopK 
Tayganroch , Karmenski , e o novo forte fobrcorio 
Samar com obrigação de evacuar Polónia logo y e 
não fe intrometter mais com os Cofacos. Tal vai* 
dade lhe refultou defta fortuna , que logo expedio 
huma armada contra Morea , então dos Vene2ia« 
nos y e conquiítou a maior parte daquella Penitifu- 
la ; porém no anno de 171 6 quebrou a paz corn o 
Império , e foi vencido em Hungria a j de Agofto 
junto aSalankemeU) deíiftio doíitio deCorfú, per- 
deo a notável fortaleza de Temefvar , que lhe to- 
marão os Imperiaes , eftes o vencerão no anno fc- 
guinte Junto a Belgrado a 16 de Agofto , e rende- 
rão efta Praça. Por intervenção de Inglaterra j e 
Hollanda confeguio a paz com o Império a 21 de 
Julho de 171 8, eapplicou as tropas contra osPer- 
ías divididos por caufa do intruíb Sofi Mirivyeis, 
que depoz o pai deThamaz, mas antes de marchar 
o exercito Othomano y recuperou Thamaz o que 
feu pai havia perdido , e oppondo-fe aos Turcos ^ 
que achou nas fronteiras y matou dez mil em huma 
batalha , efcalou Tauris y e degoUou a guarnição 
toda. Achmet juntou as tropas , que tinha na Euro- 
pa, vinte milAlbanoSy eArnautas, paíTou com el- 
las , e a Corte a Bosforo y e chegou até o campo 
deScutari; mas em quanto deliberava ofitio da fua 
refídencia y e elperava nefte as cabeças de alguns 
Bachás , que na campanha antecedente forão culpa- 
dos y em ConftantÍQopla hum homem de baixa for- 
te appareceo a 28 de Setembro de 1730 na Praça 
pública com hum eftandarte defpcdaçado na mão ^ 
gritando que o feguiflem todos os bons Muíulm»*- 

neSi^ 



MS. Âggregárao^fe-Ihe neíTe dia iriaitos ^ paíTárâõ 
a noite feni deíbrdem , crefceo o numero dos fub- 
levados no dia feguinte, eveío Achmec com a ma- 
ior preíTa focegar a deíordem. Os Genizaros ven- 
do a perturbação da Corte , formarão (egnndo le- 
vantamento , pedindo as cabeças do Grão Vifir, e 
do Capitão Bachá, que fe lhes derão para focegar 
o feu bárbaro orgulho , o qual fe augmentou ven- 
do que o temião , e paflTando á ultima infolencia j 
depuzerão Achmet , que logo prenderão no mefmo 
lítio, em que eftava claufurado Mahomet, a quem 
puzerão no throno de feu pai Muftafa fegundo , e 
reinou com felicidade. Âcboy Rei da Noruega , to- 
mou as Ilhas Hebridas dos Efcocezes , e julgando 
propicia a fortuna , paíFou a Eícocia com huma ar- 
mada de cento e fincoenta navios , expugnou oCaf- 
tello de Ayr^ mas foi derrotado por Alexandre III 
Rei de Eícocia em huma batalha no anno de 1263 
com perda de dous mil e quatrocentos foldados» 
Na noite feguinte huma grande tempeftade o fez 
arribar ás Ilhas Orçadas com quarenta navios y e 
quando na Primavera feguinte intentava perturbar 
covamente Efcocia , morreo. Jchomatb , filho de 
Cherfechy Soberano deMontevero em Efclavonia, 
efkava defpofado com huma filha do Defpoto de 
Servia formofidima , quando feu pai lha roubou , e 
cafou com ella. Defefperado o Principe, fngio pa- 
ra Turquia, e no exterior abraçou aíataMahome- 
tana j deixou o nome de Eftevão ^ tomou o de 
Achomath j mas confervou fempre no coração a Fé 
Catholica, e hum Crucifixo , queoccultamente ado* 
irava. O Sultão Bajafeto fegundo o amou tanto | 
Tomt VIL S iii qu« 



( 210 ) 

que o cafou com hiima filha , fervio de grande ntt 
lidade aos Catholicos j porque falvou as vidas de 
innumeraveis Venezianos na conquifta de Morea, 
confeguio que o fogro ajuftaíTe a paz com aquella 
Republica , refgatou muitos cativos , alcançou li- 
cença para que João Lafcaris examinaíTe livremen- 
te todas as Livrarias de Grécia , diligencia , a que 
o mandou Lourenço de Medicis , pai do Papa 
LeãoX, para reftaurar os livros^ e noticias do Im- 
pério Grego j que ficarão nelle fepultados com a 
entrada dos Turcos. Em fim Achomath falvou Ba- 
jafeto na batalha, que perdeo noanno deifii com 
feu filho Selim. Achrtda^ ou Ocrida^ a que os Tur- 
cos chamâo Giuftandil , he huma Cidade de Mace- 
dónia na Turquia de Europa , cujos Bifpos Gregos 
fe intituláo Metropolitanos de Bulgária , Servia^ 
Albânia y &c. porque o Emperador Juftiniano res- 
taurou efta Cidade , em que nafcêra , e a fez Me- 
tropoli de muitas Provincias em prejuizo de TheA 
falonica. Acinipo , antiga Cidade de Hefpanha na 
Provincia Betica , foi chamada algum dia Velha- 
Ronda , da qual exiftem ainda ruínas junto a Ron- 
da nas montanhas do Reino de Granada. Acifchj 
Santo Martyr de Córdova , ignora-fe o martyrio, 
e circumílancias delle , e fó conAa com certeza o 
feftejavâo a i8 de Novembro , e nefle dia produzia 
roías o campo, em que deo a vida por Chrifto na 
perfeguição de Diocleciano. Acindyno , Septimio 
Acindyno , foi Conful de Roma no anno de 3 40 
com Valério Proculo no tempo ^ em que Conftan- 
tino , filho de Conftantino Magno , foi morto junr 

to a Âquilea. Seado Governador de Anthioquia^ 

( re- 



(211) 

( refere Santo Âgoftinho ) obrigou com prizao , e 
pena de morte a hum homem pobre a que pagaíTe 
dentro em breves dias huma libra de ouro ^ que 
devia por tributo ao thefouro publico : tinha eAe 
mulher formofa, a quem hum Cidadão rico folici- 
tou para lhe fazer companhia huma noite, obrigan- 
do-fe por iíTo a dar-lhe a libra de ouro para ella 
refgatar da morte, eprizâo o marido, a quem ella 
confultou , e elle coníentio no adultério. Commet- 
tido o infulto j entregou o adultero á mulher hu* 
ma bolfa cheia de terra , dizendo-lhe que nella lhe 
dava o ouro , que lhe havia promettido ; e ella 
vendo depois em fua cafa o engano, íe queixou ao 
Governador Acindyno , o qual reconhecendo que 
a íua afpereza fora a caufa daquella defordem , íe 
condemnou a íi em pagar pelo homem a libra de 
ouro, e mandou entregar a mulher o campo, don- 
de o adultero tirou a terra para a enganar. Jcma^ 
das são humas Ilhas do mar Britânico, que muitos 
julgarão erão as Hebridas de Efcocia , efião íitua- 
das além das Orçadas para o Norte, são verdadei- 
ramente féis , porque as outras vinte são huns pe- 
nhafcos como o Farelão defronte de Peniche , a ca- 
pital he Mainland , e os feus habitadores robuftif- 
íimos , de forte que vivem cem annos os que vi« 
vem menos. Acoemetos , ou Acemetos , forâo huns 
Monges fundados em Conftantinopla no quinto íe- 
culo por Alexandre Monge de Syria , cujo eftaruto 
era oLaufperenne: tiverao muitos, e grandes Mof- 
teiros no Oriente, e hum de mil Monges, e houve 
entre elles fogeitos doutiílímos , que le oppuzerão 
a Acácio , Patriarca de Conâantinopla ^ quando fe 

re- 



febelòii contra a Igreja Romana , mas áepois fe* 
uíráo os erros de ríeftorio , pelo qne forão coo- 
íemnados em hum Concilio ConftantinopolitanO) 
e depois em outro Romano pelo Papa João II ^ o 
que náo obftante fe propagou muito eila Ordem no 
Occidente, e tiverSo grandes Mofteiros em toda t 
Europa, que hoje poífuem varias Religiões. Afores 
chamâo vulgarmente ás noíTas Ilhas Terceiras ^ no* 
me 5 que lhe reíultou da multidão deftes paíTaros, 
que nellas havia: também lhe chamarão Flamengas , 
porque hum Flamengo foi o primeiro , que as def- 
cubrio. Começarão a fer habitadas noanno de 143 9, 
no feu meridiano he fixa a agulha de marear, mof* 
trando verdadeiramente o Norte fem vareação» De 
cada huma fe dará efpecial noticia : são nove além 
de outras pequenas inhabitadas , das quaes fe fub* 
verterão já algumas , Terceira , S. Miguel , Santa 
Maria, a Gracioía, S.Jorge, Pico, Faial, Flores ^ 
e Corvo. Acquà delia Mella he hum Lugar do Rei- 
no de Nápoles , que tem o aíFento no fim daquelle 
deliciofo valle , que produz o generofo vinho de 
S, Severino : he notável , e muito por fer pátria do 
P. M. Fr. Diogo da Ordem dos Pregadores , que 
no Concilio de Florença fuftentou a difputa com 
os Gregos. Jcquaviva^ Lugar da Província de Bari 
no Reino de Nápoles. Jequi y a que os antigos cha- 
marão Aqus Statella , ou Statiella , he huma Cida- 
de de Itália no Ducado de Monferrato com Bifpo 
íujSVaganeo de Milão, muito celebre pelas Caldas, 
que nella ainda hoje íe frequentao em Maio , e Se- 
tembro , e merecerão aos Romanos a primeira es- 
timação : pertence ao Duque de Mantua y he aoti«^ 

quif- 



("3) 

qniíEma , e de grande circuito , porém ficou multo 
arruinada na guerra de Monferrato. Acra he huma 
das montanhas de Jerufalem , onde eftava o Palácio 
do Senado 9 que Tiro queimou: era a montanha do 
feitio de hum femicirculo , e Simáo Machabeo de- 
pois de expulfar delia os Syrios , gaftou trcz annos 
em a demolir , com a fua ruina entulhou o valle 

{)roximo , e confeguio que nâo houveíTe fitio caval- 
eiro ao Templo. Aqui edificou depois hum Palácio 
Helena Rainha dos Adiabenos , e quando os Ca- 
tholicos conquiftárão a Terra Santa , fundarão no 
inefmo lugar oHofpital de S.Joâo para os peregri- 
nos adminiftrado pelos Cavalleiros , que hoje cha- 
mamos Maltezes, e então fe intitulavão de S.João 
de Acra , nome , que elles depois também derão á 
Cidade de Ptolomaida ^ quando lhes foi concedida 
para Convento ^ e na qual fe refugiarão , quando fo* 
rão expulíos da Paleftina. Julgão (e chamou Acra 
efta montanha por caufa de huma fortaleza do mef- 
mo nome , que nella edificou Anthioco Epifaiiejs pa« 
ra dominar o Templo. Acra fe chama também hu- 
ma Cidade , e Promontório de Itália na Grécia ma- 
ior, vulgarmente chamada Japigia , Salentino, Ca- 
po di Leuca , e Capo de Santa Maria. Acrahatam 
he hum lago da Ethyopia junto ao rio Aftaboras, 
cujos vizinhos deíamparárão o paiz , porque os ma^ 
tavão os eícorpiôes , que alli são innumeraveis , pe* 
lo que lhe ^amão pátria delles. Acrabathane era 
huma Cidade , e Comarca do Tribu de ManaíTes 
da parte dáquem do Jordão, terceira entre as onze 
Toparchias de Juda , a qual foi arrazada por Judas 

Machabeo em caítigo de íeguir o partido dos Ma>> 

te- 



(214) 

ccdonios, Jcràbimy ou Acrabis^ palavra, qne íigni- 
fica íubida do efcorpiâo , he huma montanha cheit 
deites animaes , em cujo alto íe edificou huma Cw 
dade nas fronteiras do Tribu de Juda , e entre to* 
das ãs da Paleftina he a mais próxima ao mar mor- 
to. Acre y S. João de Acre , ou Ptolemais , foi Ci^ 
dade florentiífima da Paleftina reftaurada muitas re- 
zes pelos Reis principaes da Europa , e dominada 
de todos os Príncipes delia , e Meftres das mais 
antigas Ordens Militares, florentiflima de commer** 
cio pelo feu admirável porto , hoje pequena Aldet 
dos Turcos habitada de alguns mercadores Catho* 
licos , e fepulchro de admiráveis edifícios. A faa 
arêa he a melhor para fazer vidro , que dizem fé 
inventara cafualmcnte com ella , porque fervindo 
de laftro aos fogões dos navios , a víráo converter 
cm vidro , de que fe feguio prepararem-na depois 
com nitro , e fogo mais intenfo , e achar-fe o que 
tanto neceílitava o mundo. Acridofagos são huns 
povos da Ethyopia de eftranha ligeireza , mas cur- 
ta vida , porque apenas vivem quarenta annos : vi** 
vem nos defertos , e fó comem gafanhotos , que o 
vento do Occidente lhe conduz com notável abun- 
dância no Eftio , e guardão entre fal mineral para 
todo o anno : efte lhe diminue a vida , e cauía tal 
comichão no corpo , que fe esfolão vivos , e fe lhe 
refolvem os inteftinos em huns pequenos bichos 
com azas. ^ São innumeraveis os povos da Afia ^ 
€ Africa , de que Gabriel Timotheo adquirio noti- 
cias , os quaes fe alímentão todo o anno de gafa- 
nhotos frefcos , ( até em Goa os ha frefcos todo o 
anno ) e vivem muito fem achaques ^ de que fe fe- 

guc 



gne crerem os viageiros que o fal mineral he que 
mata com tormento horrorofo os Acridofagos da 
Ethyopia. Âcrocermnios chamão a huma fileira de 
montanhas do Epyro habitadas de huns bárbaros , 
que vjvemíó de roubar , e matar aíHm nosbofques, 
e eftradas vizinhas , como no mar Jonio , e Adriá- 
tico 9 com os quaes confinão. No anno de 1537 
acampou Solimâo Emperador dos Turcos o íeu 
exercito na cofta deftes bárbaros , que guiados por 
hum feu natural infigne bandoleiro intentarão en- 
vefkír a Tenda Imperial , e roubarem tudo o mais , 
flue pudeíTem^ mas fruftrou-fe a empreza, porque 
iiibindo Damiano a huma arvore para defcubrir o 
ctmpo 9 quebrarão os troncos , fentírâo a queda os 
Genizaros , foi prezo , confeíTou o intento , pelo 
qoe foi logo defpedaçado , mandou Solimâo tropas 
4» montanhas, que degoUárâo muitos, porém ain<- 
cU hoje exiftem com o mefmo officio de roubarem 
por mar , e terra nas margens , e bofqués do Da- 
núbio. Acrocorintho he hum monte vizinho a Corin- 
cho j onde houve hum celebre templo de Vénus , 
foi cercado de muralhas fortes , tinha muitos po- 
ços de boa agua, e a notável fonte de Pirene : fer- 
re hoje de abrigo aos deCorintho, quando os per-i- 
íeguem os CoíTarios. Antigamente houve neíte iitio 
trez mefquitas , e finco Igrejas para os Catholicos j 
em 1687 o conquiftárão os Venezianos juntamente 
com a Cidade de Corintho , e em 171 5 o perde- 
t^o. Acron foi Rei , ou General dos Cinineníes , po- 
vos vizinhos de Roma no íeu principio. Rómulo , 
que a tinha acabado de fundar , neceífitava mulhe- 
res para os feus vaíTdilos, e vendo que nem os Sa- 

bi- 



# 



bmosy nem outros povos vizinhos Ihasqueriaodari 
publicou a fefta de Confus j deos do confelho , com 
jogos 9 e bailes, a que vierâo aíliftir asdonzellas das 
outras povoações todas, dasquaes roubarão os Ro- 
manos feiscentas e oitenta e trez. Irritou efta ac- 
ção todas as nações prejudicadas , efpecialmente 
aos Sabinos , Cinenenfes , Cruftuminienfes , e Ao- 
temnates : eftes últimos em quanto os mais fe nío 
deliberavâo j tomarão as armas governados por 
AcroQ j e prefentáráo batalha a Rómulo , que os 
venceo ^ matou o General , e confagrou os defpo- 
jos a Júpiter Feretrio. JcropoHs , que geralmente 
íignifica toda a Cidadela edificada em fitio alto, 
querem feja nome efpecial da Cidadela de Athencs 
fundada fobre huma rocha efcarpada , e inacceíEvel 
por todos os lados , excepto pelo occidental : oa 
raiz do monte cfteve o admirável templo de Mi- 
nerva ornado com columnas , e eftatuas dos maio- 
res Meftres antigos. No anno de 1687 conquíílá- 
rão os Venezianos Athenas j refugiárão-fe os Tur- 
cos nefta Cidadela , e guardarão nefte templo a pól- 
vora y fobre a qual cahio huma bomba , que rom- 
peo a abobada , e voando com horroroío eftampí- 
do , e movimento , fe rendeo a Cidadela. Acftnr bc 
huma Cidade da Thebaida íuperior nas margens 
do Nilo abundante de palmas ^ e do melhor barro 
para louça. 



LISBO A , Na Olficina de Miguel Manefcal da 

Coita, Impreflbr do S. Oíficio. Anno 17 6^. 

Com todas as licenças neceffarias. 




( "7 ) 

CONFERENCIA XIX. 

Ctos dos Jpojiolos he hum livro fagrado,' 
que contém a hiftoria da primitiva Igreja 
porjeípaço de vinte etrezannos, foi com- 
pofto por S. Lucas , e dirigido a Theofilo : 
confta do complemento de muitas promeflfas de 
Chrifto Senhor noflb na fua Refurreiçao , Afcensão , 
e vinda da Efpirito Santo fobre os Apoftolos y re- 
fere Qs prodígios, que obrou nelles, a união, def- 
intereíTe , e caridade dos primeiros Catholicos , e 
tudo o mais , que fuccedeo até i feparaçáo dos A^ 
pollolos para a prégaçáo do Euangelho : depois 
conta ló a vida de S. Paulo , a quem acompanhou 
em todas as Mifsóes até Roma. Ha outros livros 
chamados também A£los dos Apoftolos , que forão 
compoftos pelos hereges , cheios de fabulas , erros , 
e defvarios. * Os Scilmaticos do Oriente confervão 
cftes livros com fummo refguardo para fua perdi- 

Sâo. Jczibj ou Acbzibj foi huma Cidade doTribu 
e Afer, chamada depois Ccdippa, nove milhas de 
Acco para a parte deTyro: depois do cativeiro de 
Bdbyionia foi efta Cidade fronteira dos Judeos , e 
todo o mais paiz , que refpeita o Norte , fe cha- 
mava Galilea dos Gentios. Adad foi nome commum 
a todos os Reis de Damafco « como Faraó aos de 
Egypto , depois que Adad primeiro perdeo huma 
batiaiha contra David, em que perecerão vinte mil 
homens ; mas o Rei obrou taes façanhas , que em 
memoria delias lhe tomáráo o nome todos os Mo-- 
Tom. VU. T nar- 



(218) 

narcas da Syria. Jdalarico ^ Duque de huma parte 
de Gafcutiha , fico^ii meaor par tnQvt^ da fpQ p^i 9 a 
quem o Bmperadar Carlos Magno mandou enfor- 
car por traidor, e com fumma generofidade lhe per- 
doou parte grande do fequeftrp y que deo em fe^do 
a Âdalarico ; mas efte herdeiro da aleivoíia pater- 
na , logo que chegou a idade competente , yeçla- 
rou guerra aoEmperador, nSopoíTuindo aliás mais 
que apartedeGafcunha próxima aos Perineos. Luiz 
filho de Carlos defejando caftigallo , convocou hu-^ 
xna Junta , em que o mandou comparecer , de que 
fe efcufou y pedindo reféns i vida , e ps Confelhei* 
ros para evitarem maiores perigos o abfolvârSo. 
Ordenou o Emperador foíTe íentenciado na Dieta 
de Vormes , que o condemnou a perpetuo deller- 
ro y tomarão logo as armas em fua defeza os vaí^ 
íallos, e Guilherme Duque deTolofa os pacificou 9 
íendo huma das condições o reAabelecimento de 
Âdalarico , o qual annos depois fe rebelou fegunda 
vez y mas Luiz o Benigno y que melhor lhe conhe* 
cia o génio traidor, e aleivolo, o venceo em bata- 
lha campal y e mandou enforcar á vifta dos exerci-» 
tos. JdalbertOy Arcebifpo de Magdeburgo, criou-» 
fe no Mofteiro de S. Maximino de Treveris , don- 
de o tirou Guilhermo Arcebíípo de Moguncia pa-' 
ra o confagrar Bifpo dos Ruína nos , então póvoa 
bárbaros da antiga Sarmacia y cuja Rainha era Ca- 
tholica y porém os vaífallos tâo cegos , que Adal- 
berto fe recolheo á pátria fem colher delles algum 
fruto. O Emperador Othâo primeiro , pai do Ar- 
çebiipo de Moguncia y o nomeou Abbade de Veif-^ 
kmburgo^ e depois primeiro Arcebifpo dçMagde- 



( ^^9 ) 
burgo para o occoparna conversão dos Efclavôeí?, 
que fehaviâo eftabelecido nas margens dos rios Ei- 
va 9 e Odcr. Adalberto ^ oa Adeleberto , ou Alberto , 
Bifpo de Praga , defcendente da primeira nobreza 
deBohemia, deixou o Bifpado por nâo poder cor- 
regir asdefordens do rebanho, porque os Clérigos 
caíavâo publicamente , os feculares tinhâo quantas 
mulheres queríão , e o contrato commum era em 
efcravos Catholicos , que vendiâo aos Judeos. Re- 
nunciou a mitra em Roma , onde profeíTou a vida 
Monaftica em S. Bonifácio , daqui foi outra vez a 
Bohemia rogado pelo Arcebifpo de Moguncia , e 
vendo que o náo queriáo receber y foi pregar o Euan- 

Í^elho na Pruífía , e Lithuania , onde depois de to- 
erar as maiores injurias , e trabalhos, omartyrizá» 
râo os pagãos com lançadas. Adahaldo , ou ArevaU 
do y Duque de Turim , fendo de pouca idade , foi 
flcclamado Rei dos Lombardos , e recebeo todas as 
iníignias Reaes no Circo. Mandou vifitallo o Em- 
perador Heraclio por hum Embaixador, o qual ou 
por ordem do feu Monarca , ou por malicia pro« 
pría, deo ao infeliz Rei huma bebida atempo, que 
íãhia do banho , perfuadíndo-o a que era utiliíEma 
para vigorar o corpo. Apenas a bebeo, fe lhe per* 
turbou o ufo da razão de forte, que o Embaixador 
eonfeguio delle mandaíTe tirar ávida aos principaes 
do Reino. Morrerão logo dez , e o povo temendo 
maior defordem , depoz , e expulfou o Rei , e fua 
siâi Theodelinda. AdaJulfo^ Grande na Monarquia 
dos Lombardos , folicitou para adultério a fua Rai- 
nha Gundeberga, mulher deArroIdo; e porque ella 
oáo confentio* e temeo o accufaíTe ao Rei* em piir 

Tii bfi- 



( 220 ) 

blico a accufou de traidora ^ pelo que Arioldo á 
mandou prender. Trez annós depois Glothario Rei 
de França ^ e parente da Kainha mandou hum Em- 
baixador a folicitar a fua liberdade , o qual achan- 
do Arioldo refoluto a dilatar o caftigo, lhe oíFere- 
ceo quem provaíTe; a innocencia da Rainha em de- 
fafio público comAdalulío^coftume antigo, e au* 
thorizado com Leis no Occidence. Sahíráo ao canw 
po Pito emdefeza de Gundeberga , eAdahilfo con- 
tra ella, foi efte vencido^ e morto , pública a inno- 
cencia da Rainha y foi ta , e venerada com as accla- 
maçôes , que merecia. Jdâa^ palavra Hebraica j que 
íigni£ca terra vermelha, he o nome próprio do pri- 
meiro homem i que Deos creou no fexco dia do 
mundo á fua imagem , e femelhança com domínio 
nos peixes ^^ aves , e em tudo o que fe movelobre 
a terra , fenhor do Paraifo terreftre , em que tinha 
todas as arvores,^ frutos, que Deos creára. Deo- 
lhe liberdade para comer de todos, excepto do que 
infundia fciencia do bem , e do mal , comminàndo- 
Ihe pena de morte fe o comelTe. Depois lhe infun* 
dio lono, e de huma coftella>que lhe tirou , edifi- 
cou Eva, deo-lhes a benção para multiplicarem , e 
ordenou- lhe puzeífe os nomes a todos os animaes. 
Eva periuadida pela ferpente, comeo do fruto pro* 
hibido, e deo ao marido, que também comeo, cO'* 
nhecêrão logo que eftavâo nús , e veftíráo-fe com 
folhas de figueira. Chamou Deos, inquirio o deli- 
do, e defculpárão-fe ambos, Adão com a mulher, 
e efta com a ferpente , a quem. Deos em caftigo a- 
maldíçoou, para que íempre aodaíFe derafto, a Eva 
asdoíçs de parto, e fujeição ao homem, e a efte;o 

tra- 



( "O 

trabalho !:de cultivar a terra para alimentar* !c , ti«* 
rando-lhe os efpinhos , que ella em caftigo havia de 
produzir , veftio«»ihe túnicas de pelles , e para que 
pão comefle algum pomo da árvore da vida , o ex^ 
polfoQ do Pafaifo, e poz Querubins, e huma efpa- 
da de fogo para o guardarem. Conheceo Adão fua 
mulher j que pario Caim , e depois Abel , a quem 
matou o ifmâo. No anno 130 do mundo pario 
Seth, depois doque viveo Adão oitocentos annos^ 
€ teve mais filhos y e filhas , e morreo de idade de 
novecentos e trinta annos« Ifto he o que eníina a 
lEfcritara Sagrada a f efpeito de Adão , e tudo o mais y 
que lhe aççrefcentâo 9 ou he íàlfo , ou incerto , oa 
erróneo ; porque huns diíTerão que Adão fora Gi- 
gante , outros que tSo disforme como o comprimen-** 
to do mundo y que occupára fepultado ; huns que 
fora creado' juntamente com a mulher unidos os cor- 
pos y e que a formação de Eva íó fora feparallos, 
butros que fe não falvára ; alguns que não gozará 
do beneficio commum aos Santos Padres do Limbo 
«a Kefurreiçâo y e Afcensão de Chrifto ; huns que 
fora enterrado no Monte Calvário y para que o fan* 

Stíe do Redemptor lhe tocaífe nos oíTos y outros 
izem que iíto he fabula y e que fora enterrado em 
Hebron, ou Cariatharbe. Os Gregos, e Orientaes 
celebrão a feita de Adão y e Eva a 19 de Dezem-^ 
bro : os Marryrologios Latinos a aflinão com diffe« 
rença , huns a 24 do dito mez y outros a 24 de Abril y 
c a tradição na Dominga da Septuagedma. Adami'* 
túSy feita de hereges, cujos erros, Author, e tem« 
po certamente fe ignora pelafummadifcordia, com 
que todos eícrevêrão nefta matéria , hutís dizem qua 
Tom. Vil T iii crão 



( "^ ) 

érao e&andalofamente lafcivos y outros qàe tâò con^ 
tinentes, que por iflb fe chamavâo Âdamitas, pois 
cxpulfarão do paraifo da fua companhia todos os 
que-commettiâo culpa pública. Jdar he o nome do 
ultimo mez , ou duodécima Lua dos Hebreos , que 
comprehendia parte de Fevereiro, e de Março: no 
dia terceiro defte mez celebravâo a dedicação do 
templo deZorobabel, a 13 a vifloria de Judas Ma- 
chabeo contra Nicanor , General de Demétrio Rei 
deSyria, a 14 o jejum das fortes deÂman para eí- 
colher o mez, em que haviáo de morrer osjudeos^ 
a 15 a fefta de Efthcr, fe bem Calmet pSe o jejum 
a 13 vC outro pela morte de Moyfés a 7, o ultimo 
a 9 5 porque ie acabarão as difputas fobre a expli?- 
cação da Lei , e a ijr a fefta da exaltação de Joa- 
quim Rei de Juda em Babylonia. Jdar-ezer j on 
Járazar , como lhe chama Jofefo , fiJho de Rehob 
Rei de Syra de Soba, foi vencido por David, que 
lhe cativou mil e fetecencos foldados , e vinte mil 
de pé , mandou cortar os nervos aos cavallos dos 
carros de guerra , e reíervou fó os neceífarios pa« 
ra cem carros. Deo-fe efia batalha junto ao no .Eu- 
frates , porém Adar*ezer foccorrido por Adad feu 
Rei fahio outra vez contra David , que lhe derro- 
tou vinte mil homens , conquiftou toda a Syria^ 
que fez tributaria com guarnição fua , queimou as 
priocipaes Cidades , tomou as armas de ouro dos 
criados de Adar-ezer , que levou para Jerufalem 
com muito bronze , que tirou das Cidades de Be* 
the , e Beroth. Adcagatis he nome de hum idolo 
fios Syros , e povos de Mefopotamia , a que com- 
mununente chamarão Dagon y tinha o corpo de peh» 

xe, 



( *^3 y 

* 

xe, roffò, tnâos^ e pés de molher. AàauHo^ Santo 
Martyr de illnftre família de Itália, Intendente Ge- 
ral da fazenda do Emperador Diocleciano em hu- 
ma Cidade de Frigia , onde foi martyrizado entre 
milhares de companheiros, cujos nomes fe ignorâo. 
Adeantado foi o oificio maior , que houve cm Hef- 
panha na paz , e guerra , porque nefta era General 
immediato ao Ret , e naquella primeiro Miniftro , 
como fe vê nas Leis da Partida : huns dizem que 
os inftituio D. Fernanda o Santo , outros que íeu 
pai : no princípio foi huip fó , depois quaíi tantos 
como os Reinos, e hoje goza o titulo de Adeanta- 
do da Igreja , ou Reino de Toledo , a Gafa de Ar-^ 
cos fem jurifdícçâo. * De forte , que efta fuprema 
•dignidade depois do Rei totalmente fe extinguio 
na Héípanha., em que fó nafceo. Adelberto^ ou Al- 
berto j Gonde de Baviera , a quem o Emperador 
Henrique III fe2 Metropolitano dosPaizes doNor*^ 
te depois de outras honras , foi primeiro Miniftro 
dé HenriquelV , e par zelar a fua vida expulfo da 
Corte pelo Arcebifpo de Colónia, e Duque de Sa<- 
jconia. Viveo nodefterro de efmolas fem queixar- fe, 
reconcilíou-fe com todos felizmente, mas vendo- íe 
depois com a maior honra , lhe crefceo de forte a 
vaidade , que nunca mais quiz rezar o OíEcio Di- 
vino conforme o Rito da Igreja Latina, e na Miífa 
ufava de ceremonias Gregas , bufcando em todas as 
coufas fagradas , e profanas o maior faufto, e pom- 
pa. Foi primeiro Miniftro , e Confelheiro fegunda 
vez de Henrique IV , a quem acompanhou nas ex« 
pediçôes de Hungria , Suécia , Itália , e Flandes^ 
em que fe nâo diftinguia a fua copa ^ cozinha , e 

mai$ 



( ^^4 ) 

diais equipagens das Imperiaes jComò também nos 
edificios y que fundou para memoria do feu nome. 
Todos os dias lavava os pés dos pobres, que mui^* 
tas vezes excedião o numero de quarenta , venera- 
:ra todas as peíToas, que ferviao a Deos, e os.bu** 
mildes, porém- foi notado de afpero^ ou altivopar 
ra com os Grandes | e iguaes : morreo de cameras 
no anno de 1062. Âdelida ^ filba do Rei dos Rnf*^ 
fos, cafou com o Emperador Henrique IV, o qual 
aborreçeo com tal' extremo efta infeliz Princeza^ 
que depois de a prender^ e affrontar, a oíFereceo a 
todos os homens , que qui^eíTem ufar delia , maU 
dade inaudita dos Nicolaitas , praticada Com tal 
cegueira , que até a offereceo a feu filho^ Fugio 
Adelida da prízáo para Itália , onde lhe valeo Mi-* 
thilda , Princeza de Lombardia , inimiga de Hénrí» 
ique , e a recommendou ao Papa Urbano II , qne a 
confolou , e perfuadio a recolher<-fe em hum Mof» 
teiro. Adelitos , e Jlmoganenos chamâo os Hefpa^ 
nhoes áquelles embiifteiros , que vivem de adivi» 
nharem tempo9 , e fucceflbs futuros pelos votis ^ t 
canto das aves, encontro deanimáes ferozess, e ou<p> 
trás ridicularias , como também de conhecerem, pe* 
lo rafto das beftas quantos são os viandantes , e pa* 
ra qne íitio fazem jornada* Adem , ou Aden , como 
proiiunciâo osArabios^ he humá Cidade daÂrahia 
feliz diilante trinta e huma léguas do Eftreito de 
Babel-Mandel , foi Comarca dos Homeritas, hoje 
fujeita ao Príncipe de Moca , he huma das melho^ 
res daquelle paiz com excellente porto , defendida 
com boas' muralhas pela parte do mar ,'ex:om ro^ 
chas pela cerra ^ difta de Moca pelo Oriente trinta 

le- 



("O 

léguas y tem dez mil cafas todas feparadaf^, commu* 
nica-íe com ornar vermelho, e Arábio, he paiz ca- 
lidiffimo , motivo , por que fó de noite fe ajuntâo 
nellâ os mercadores da Arábia , índia , Africa , Sy- 
ria, e Perfia. O noíTo memorável Affonío de Albu- 
querque a íitiou no anno de 1513 com vinte navios 
km effeito , os Turcos a conquiftárão em 1538, 
porém os Arábios os lançarão fora , e hoje tem 
Rei, que domina também Moca, * e paga tributo 
ao noíTo FideliíEmo Monarca, ^der , ou Eder , ifto 
he, torre do rebanho, julgão muitos que a edificou 
Jacob para vigiar os feus paftores : difta de Belém 
huma milha , foi o íitío, em que Ruben oíFendeo a 
feu pai Jacob, communícando com Bala íua concu- 
bina , e dizem que nella apparecêrâo os Anjos aos 
Paftores na noite do Nafcimento de Chrifto , em 
memoria do que edificarão alli os Catholicos huma 
Igreja, que exiftia no tempo deS.Jeronymo, jíder^ 
begian , Aderhejan , Adirbeitzan j &c. nome deriva- 
do de Ader , que na lingua Perfiana fignifica fogo, 
he huma Província do Reino da Perfia, que corref- 
ponde á Síni\g2í Media, e comprehende os montes , 
c grande parte da Arménia. Neftas ferras de Ara- 
rat , a que chamão os Gordíos , parou , e cxifte a 
Arca de Noé , e nefta Província fe fundou a primei- 
ra Monarquia do mundo depois do diluvio. Adhad^ 
Eddoulat he fobrenome de Fanakhofrou , íegundo 
Príncipe , ou Sultão da cafta dos Boizdas , ou Di- 
Jemitas , que herdou de íeu tio a Perfia , e de feu 
pai tanto , que foi o mais poderofo Monarca da 
Afia , venceo , e degollou o Calife Ezeddoulat feu 

primo y e unio em íi toda a juriídicção Ecckfiâfti- 

ca 




C "<5 ) 

ca j e fecular Mahometana. Huma efcrava Aia para 
confeguír o perdão de fe facilitar com hum folda^ 
do j lhe entregou hum admirável thefouro , que o 
amante deícubríra cavando a terra para colher hu- 
ma rapoía: edificou as muralhas das príncipaes Cí* 
dades , meíquitas , e fepulchros excellentes , man* 
dou enterrar-fe junto aofepulchro de Ali, e na ho« 
ra da morte diíTe muitas vezes : De que mefem^ 
meus tbefouros , fe os bei de deixar boje ? Adlavo , Rei 
de Northumberlanda em Inglaterra , querem 'íèja 
Oívaldo , filho de Elduino , ou Bthelfrido , quinto 
Rei daquella Provincia, e o que nella recebeo a Fé 
Catholica. Efte vendo-fe apertado pelo exercito de 
Efthelftan, Rei de huma Ilha vizinha , entrou netle 
disfarçado , cantando , e tocando rabeca j goftárâo 
todos da fua mufica , e galanteria , efpecialmente o 
Rei , que o fez dilatar na fua barraca , e premiar^ 
e aíEm vio o numero , e formatura dos feus inimi- 
gos , e os venceo depois. Adolfo , Emperador de 
Alemanha , filho de Vvalderamo , ou Vvaldemaro 9 
quarto Conde de NaíTau , neto de Henrique o Ri- 
co , favorecido dos Eleitores Ecclefiafticos , e fobor* 
nando com attenciofas vifitas , e promeíTas os fecu- 
lares I foi eleito Emperador no primeiro de Maio de 
1292 em prejuizo de Alberto de Auftria , filho de 
Rodolfo , que efperava fucceder a feu pai no Impé- 
rio: era tão pobre, que não teve vinte mil marcos 
de prata para pagar á Cidade de Francfort os gaf- 
tos da fua eleição , e foi neceíTario empenhar algu- 
mas Cidades , e Callellos para lhe fatisfazer efte 
difpendio, e aos de Aquifgran o da coroação. Edu- 
ardo primeiro^ ou quarto de Inglaterra^ o perfut-^ 

dio 



( ^^7 ) 

dio a quebrar a paz com Filippe o Bello Rei de^ 
França I e pertender o Reino de Aries ^ para o que 
lhe deo trinta mil marcos de prata, ou cem mil li- 
bras efterlinas. Conílftio a guerra em pouco mais 
de nada, porque empregou o dinheiro em comprar 
ao Lanftgrave de Turingia o Marquezado de Mif- 
nia, a Lufacia^ e o fenhorio de PleíTe. Os Eleito- 
res de Moguncia feu primeiro Mecenas , o de Sa- 
xonia, e o de Brandemburgo o depuzeráo, elegen- 
do Alberto com defgoftos dos Eleitores aufentes^ 
efpecialmente do Conde Palatino do Rhim , genro 
de Adolfo , o qual intrépido fahio a campo contra 
os feus inimigos, que fez fahir de Ulma Vvaldshut 
até Strasburgo. Em fim o feu génio precipitado o 
fez dar huma batalha noanno de 1298 junto aGeI« 
lenheim fó com a Cavallaria , por nâo ter fo£Pri« 
mento para efperar a Infantaria, depois de receber 
a feliz noticia de que o Eleitor de Moguncia tinha 
defamparado ao Emperador novo, o qual o matou 
com hum bote de lança em hum olho , a que fe fc-^ 
guírâo muitos dos feus guardas apenas cahio defa* 
cordado. Nenhum , parece , foi vencedor , porque 
Alberto depois defta viftoria foi morto por feu fo* 
brinho João Duque de Suevia , os Condes de Ho- 
lendo , e Ochfefteim forão vencidos , o de Duas pon- 
tes morreo affbgado no pequeno rio GliíTa, Gerar- 
do Arcebifpo de Moguncia morreo de repente , Con- 
rado Bifpo de Strasburgo foi aíTaíIinado por hum 
aldeão , e em fim todos os que concorrerão para a 
depofição de Adolfo acabarão defaftradamente. Dei«- 
xou eíte Emperador varias Leis, efpecialmente bii^ 
ma arefpeito das Ilhas, que fe formão nos rios, as 

quaes 



( 2l8 ) 

quaes determina pertenção ao Império , ou aos Coti« 
des mais vizinhos. Adon^ Ado^ e muitas vezes no- 
meado por outros nomes fynonimos na lingua He- 
braica , chamado entre os Judeos o Vidente , que 
tjuer dizer Profeta, contemporâneo de Ahias , flo- 
receo no anno , em que morreo Salomão. Efcreveo 
Ado dous livros , que fe perderão , nos quaes tra- 
tava das visões contra Jeroboâo Rei de Ifrael , e 
parte dos fucceíTos do reinado de Salomão. Adonaiy 
palavra Hebraica , queíignifica no plurar Senhores^ 
derivada do (Ingular Adoni , que quer dizer Senhor, 
he hum dos nomes de Deos , que aíEm ufárão fem- 
pre os Ifraelitas , porque lhes não era licito pronun- 
ciar o nome Deos, e ló o Pontifice o podia fazer, 
quando entrava no Santuário. Adonias ^ filho fegun- 
QO de David , e de huma das fuás mulheres chama- 
da Haggith , depois da morte de Amon , e Abfa- 
Ião intentou reinar , eftando feu pai vivo , e com 
efiFeito Abiathar fummo Sacerdote , Joab General , 
e alguns outros principaes o acclamárao , porém 
David mandou logo acclamar Salomão , como an- 
tes havia promettido a Berfabé. Adonias vendo-fe 
criminofo , e defamparado , fe refugiou no Taber- 
náculo junto ao Altar, e dalli mandou pedir a Sa- 
lomão lhe perdoafle, o que ellefez, com a condição 
de que procedeíFe bem. Morto David, pedio Ado- 
nias para mulher adonzella Abiíag, que antes dor» 
mia com feu pai , para lhe conciliar calor , e Saio* 
mão conhecendo o fim aleivofo defte defignio , lhe 
mandou tirar a vida por Bananias feu Capitão. 



■b 



LI S BO A , Na OíHdna de Miguel Manefcal da Cofta , ImpreíTor do 
Santo Officio. Anno 1753 • Cm (êdas «# //Vnifoi ncctfmêi. 




CONFERENCIA XX. 

Doni-Bejec y€{tic quer dizer Senhor de Bc* 
fec^ era Rei dos Canancos, venceo feten- 
ta Reis 9 aos quaes mandou cortar as ex- 
tremidades das mãos ^ e pés , e íuftentava 
fcom os fôbejos da.fua meza. Os líraelitas por or- 
dem de Deo9 lhe fizerâo guerra , e vencido lhe fi- 
ecr&o «naâ.mW.^ie pés o aieícaQ ^ pelo quQ: dizia 
js]h O' tratara Deos como elle aos outros. Morreo 
cai Jeruíalem cativo. Âd^nifedecj ou Adoni-Tfedekj 
ÍWi de Jerufalem ) íabendo que os Ifraehtas haviâo 
çonquiftadõ Jericó ^ e Haí, e íe lhe tinhão fujeita*^ 
do os.GabaOQitas;, pedio foccorra a quatro Reis 
vizinhos para íe oppòr a eftas vi£lorias , e todos 
cercarão Gabaon. De noite íahio Jofué de Galga- 
la 9. fez levantar o cerco , feguio os vencidos até 
j^Aceda , e nk> caoiit^o mandou Deos febre elles 
tal chuva^de ped^a, que matQU muitos mais do que 
Ijfkv^o degollado as efpadas dos foldados de Jofué. 
Os íinco Reis para fe livrarem delias , e da chuva 
cfcondê.râo-fe em huma grande cova junto a Macer 
da , a qual mandou Jofué tapar com grandes pe- 
dras , e fazendo parar o. Sol ^ c a Lua com a fua 
oração , acabou de extinguir os inimigos. Acabada 
a viftoria, veio com o exercito á cova deMaceda^ 
a qual mandou abrir , e fahindo Adonifedec , c os 
outros quavo Reis, os matou.^ e fez pendurar em 
arvores até á noite : então mandou lançar os finco 
cadáveres na mefma cova 9 e tapar a boca delU 
Tom. VII. V com 



X MO ) 

com pedras , o que executarão os Toldados com tal 
deftr^a V qul^ àté Wfé tí3K> lioUte J^mfti ;p.li^e)re a- 
brilláy nao óbffántè o ler tradição commua quejun»' 
tamente com os cadáveres dos ílnco Reis eftáo fe- 
-pultadas ts íuas coroas ^ manilhas , e outros ftpz* 
tos de ouro, que os Reis da PUeftina ifidifátdía- 
vel mente ufarâo naquelle tempo ; más he fabttl| 
dizer-fe que os fepuleárâo com eflas precioíiéades , 
^ue entSo pertehciSô uo F\(qo. Adopção^ Heacçáo^ 
pela qual hum admitte ^ e recebe- por feu filho > a 
què naturalmente he filho de outrem: ufiirâo mai^ 
to difto antigamente* os Romanos tom muitas kSs^ 
que fe ufárão , e usão também ainda hoje , pot^ 
^ue para adoptar he neceflario que o adoptaatt 
não tenha filhos ; e Os adoptados hão de^tomal^o 
appellidó da fainirm do adoptante. Adoptanm h^ 
rão hiins hereges^ que povorfrâo gfdhde partie dá 
Hefpanha y os quaes diziâo que Chdfto , em quanKl 
homem, ifto he, em quanto á natureza hucnan^^ 
não era Filho deDeos, fenãô por adopção ,^j^«i 
ça. Chamou^ fe efta herefia P^Iiciana, e íe ignj^ào 
motivo, era hurti pedaço do Neftorianífmo ^ f>Òtf^ 
que dividia a Chrifto em dous filhos , e como em 
duas peflbas. Aderatoríos chamavão os índios de 
México aos lugarâs , em que guardávão , adora» 
vãb^ e õfiFérèciâO faeríficios ãosfefts ídolos. Ome« 
Ihor de todõS efa dedicado a Viztzilipuztli Deo» 
i^â guerra , aè^qual julgàvão foperior a todos. Con^ 
fiftia eM hititià grabde Praça cercada em quadro^ 
tom nnfnfftlha de eanteria lavrada por fora coift 
«ât>f aS' ^nl^çadas , que rematavão iU> pórtico: dèd*' 
tk« fe iubiâ<> IrkAA degráos de pedra âtéhttm eúk^ 



j» i 



doVno-qnal em barras de ferro fnípetifas em tron- 
cos de iiryores eftaváo . as cayeiras. dos homens 9 
que fe tinháo facrificado , infladas pelas frontes. No 
^ntro eftava huma admirável pyramide j em que 
era formada a fubida .com cento e vinte degráos^ 
que finalizavSo no feg^ndo plano de quarenta pés 
fim quadro., cujo pavimento era cuberto deprecio- 
ibs jafpes negros , coni ligaduras de betume bran* 
(O9 e encarobdo , cercado- de ameias curiofamente 
lavradas em corações.. No parapeito , onde ternii- 
nava a efcada , eftaváo duas excellentes eftatuas de 
ferro iuftentando dous candieiros. Seguia* fe huma 
pedra 9 onde Jigavâo omiferavel, que facrificavâoi 
e aqui lhe tiraváo o coração : defronte eftava a Ca- 
pella do ídolo , e élle em huma tribuna fechada 
com cortinas: era de figura humana , ientado em 
huma cadeira , como throno , fundada fobre hum 
fflobo azul , a que chamavâo Ceo , de cujos lados 
^biâo quatro cabeças de ferpentes , que ferviâo 
para o iuftentarem nos hombros , quando o mof- 
travão ao povo : tinha alpeâo horrorofo j e para 
ítr mais feio duas fitas largas azues atadas huma 
pela refta, outra fobre o nariz: hamâo direita hu- 
ma cobra ondeada por baftâo y na efquerda trez fet- 
tas :, que diziáo ter vi^do do Ceo , e huma rodei- 
la com finco plumagens brancas em cruz , íobre a 
cabeça hum penaxo de. plumas em figara de paf- 
faro com bico , e crífta de ouro. No lado efquer- 
do defta Capella eftava outra dedicada ao Deos 
Tlaloch eni tudo íemelhante ao primeiro : diziâo 
queerâo irmãos, e tão amigos ', que dividiSo en-> 
tre íi os patrocioios da guerra ', iêodo iguaes no 

11 po- 



poder^ e unifoiiries na vontade' /pdo'qiíe)Sffcftíi 
ciáo a. ambos o mefmo facrificio. O ornato dé anH 
bas as Capellas era de inextimavel pfeciofidade ,}ptf fM 
que paredeã j e s|t(are$ eftavi£a cobeftos^^ejttiaa 
precioíiflitnasfobre> plumas de varias ^rts.[HiBi^ 
via em Mexicó' oito ^i^emplús^ como (ífte^ e iMi9 
de mii .dos menores ^ àc forte, que apenas havia rua 
fem Àdoratorío do feu ídolo tutelar , nem tinhtf 
a natureza pensão 9 cocitra-a qual não Itouvefle^ hmil 
ídolo advogado para a foccorrer;' j^i^f^* 0'Ve-*' 
neravel João ÂgÒftinhO' Adorno da antiga família*^ 
defte fobrenome, fundou em Nápoles huma Con^ 
gregaçáo de Clérigos, queapprovou o Papa Xiíki 
V. da Ordem dos Menores , e por ifib quiz fe cha^ 
maíTem Clérigos Regalares Menores: tem inuítoa 
Coliegios excellentes, em que admittem a exerci-^ 
cios erpirituaes: o feu Fundador quiz imitaflemoa 
Acoemctos de Conftantinopla , de íorte que fem-f 
pre ao menos hum Religiofo em cada CoUegio de 
dia, e de noite eftá fempre orando diante do San^^' 
tiífimo Sacramento: : morreo em Nápoles a 19'dtf 
Setembro de 15*9 1. Adrets. Francifco de Beaufmont 
Adrets foi hum Gentil*homem valerofo , e feroz 
do Delfinado : concebeo tai ódio ao Duque de 
Guiza , porque em bumi Concelho protegeo contfa^^ 
^Ic o Senhor de Pequiny , que para fe vingar fe* 
guio o partido dos Hugonotes no anno de 1561. 
A Rainha Gatharina de Medicis, inâi do Rei Car- 
los YjL. lhe recoaimendou deftruiíTe no Delfina-^ 
do a authoridade^ e poder do Duque de Guiza íèa 
Governador: elle o executou com oito mil homens y 
çie íobprendêrao Valência > Viena |. e outras mai^' 

ta& 



( ^33 ) 

itas Praças I e Grenoble: conquiftòn depois Leão, 
€ outras finco Províncias , nas quaes arrazoa as 
Igrejas , roubou os vaíos Sagrados , prohibio a Mií* 
íãf c obrigou a todos afEAiflem aos Sermões dos 
CalviniAas, para os quaes fez conduzir diante de 
fi como em triunfo os Parlamentos. Durou efte 
frenezí até que o Duque de Nemours , conhecen- 
do que elle vivia já defgoftofo com osHugonotes, 
o fez fufpeitofo para com os principaes daquelle 
partido y que o privarão do governo j e mandarão 
prender por hum Capitão a lo. de Janeiro deis:63« 
Foilolto nomefmoanno por beneficio da paz , que 
então fe fez entre os dous partidos , continuou a 
vida na Fé CathoJíca Romana j mas nada obrou 
em beneficio delia ^ e morreo fem reputação algu^ 
ma. Âdria , Jíria j ou Hadria j he huma Cidade do 
Eftado.de Veneza, cujoBífpo hefuffraganeo aRa- 
venna j foi Grande em tudo , e hoje hum pequeno 
Lugar habitado fò de pefcadores , porque as aguas 
a deftruírão totalmente : o Bifpo aíEfte em Rovi- 
gpy c julgão muitos que efta Cidade deo o nome 
ao mar de Veneza chamado Adriático. Jdriano Papa 
I. deftenome, iliuftre por íeu talento, zelo, e cari- 
dade, era filho deTheodoro, edefcendia de huma 
das mais nobres famílias de Roma : foi eleito depois 
de EftevãoIlL a 9 de Fevereiro de 772. DidierRei 
dos Lombardos o intentou enganar com huma Em< 
baixada , arruinou todo o património de S. Pedro , e 
ameaçou Roma: valeo-fe Adriano de Carlos Ma< 
gno, o qual entrou na Itália com grande exercito, 
cooquíftou as Cidades dos Lombardos , e em quan- 
to durou ofitio de Pavia foi a Roma , onde o Pa- 
pa ^ Qero, e poYO o recebeo com os maiores ju- 
Tom. VIL y iii bilos/ 



bifòs) èelIecoflfirhiQU , eseenefcentou a$d;otf^6et$ 
quefeupâiPípiri^fitíera áSéApoftoIic«: etitregou» 
fe Pavia á difcriçib) do vencedot cotti O Rei Didier ^ 
que fel etiriado ' príftionttito ptra Prdiiçá' y e focei 
^õu álMlia. Pouco depois t^cebeo Adriano acoiH 
fifsãó dá Fé de Taraíio Patriareá de Gonftantitio^ 
pia ; e fabendo que ó Bmperador Conftantino d 
Moço j e fua tiiãi a Émperatriz Irene intetitavto 
convocar hiiM Concilio contra os Hereges Icoao*» 
daftes j mandou a elle por íeas Legados Efteváo ^ 
e Theofilafto com hurtia carta fobre efte aíTampto : 
efte foi o (egnndo Concilio Niceno celebrado no 
anno de 7S7. Taciíbém mandou Legados ao CôA<* 
cilio de Friancfúrt, que fez juntar Carlos Magno ^ 
o qual lhe vâleb nas diífensôes , que teve com o 
Arcêbifpo de Ràvena > com os Napolitanos ^ e com 
o Empèràdor Cònftantino/ Regiftou os Titulos de 
S. Pedro, reedificou a fua Igreja em Ronia, efe2 
outras munas obras , e reparos em todo o pâtri^ 
nionio da Igreja , fendo a mais digna de memo^ 
ria hum candieiro em forma de cruz j no qnal 
fem Confusão , nem defcommodo ardiâo mil tre-^ 
zentos t fetentâ círios diante do Altar de S. Pe- 
dro. No feu Pontificado fíiccedeO a^nemoravfel iiv 
tondaçâo de RòitM, etti que ;ás aguas do Rio T^ 
bne enchéfâo a Cidade ^ e chegi^rtío aos primeira» 
tilidáfes dás cafas ; tnas Adriai^o com fingular cari* 
láade máhdòu i^zer barcos , em que fe conduzirão 
ns alimetitos a rodos os que tííó podiáo fatiir das 
cafâs 9 'nsparou ú fua cufta todos os daoMos ^ que 
ízerâo as aguas, e pagou aos moradores todas aa 
finiâs píerdaiB : teínòu vint^ e treá; annod ^ àtík meteB^ 
« de£tfetedia»> morreoá«6 tie Dezembro âé ^v 

loi 



v( :^3T D 

foi fcpidtido na Igreja de S.Pedro. Cboroti Cario* 
Magno y quando recebeo a noticia da fua mortç j e 
compoK o Epitáfio do leu jazigo. Adriano Papa U. do 
nome, naturaldeRoma , íbi eleito depois deNico^ 
láo I. a 14 de Dezembro de 867. aos fetenta éíeis de 
fiia idade 9 aceitou muito contra fua vontade aXya* 
ra , que já antes havia rejeitado duas vezes. Pa-^ 
deceo defaflbcegos no principio do Pontificado p&» 
las traições , e levantamentos j que excitou em Ro« 
ma o Duqiie de Efpoleto , e compoz Lothario Rei 
de Lombardia , a quem Adriano obrigado levan* 
tou a excommunhâo , com que o deixou ligado feu 
anteceíTor Nicoláo, por haver repudiado fua legi- 
tima mulher Thietberga j e caiado com Valdrada. 
No anno de 868. congregou em Roma hum Con^ 
citio contra Focio j e mandou Legados a outro 
Ecuménico , que fe celebrou em Cónftantinopla n^ 
aiino feguinte. Ratificou tudo o que fe decretoa 
no Concilio contra o tal Patriarca de ConAantino» 
pia ; mas depois tolerou graves enredos com o 
Emperador Grego ^ com Ignacio fucceilbr de Fo^ 
cio 9 que pertendia fofie a Bulgária dependente do 
íeu Patriarcado , e com Carlos Calvo por cauía 
de Hincmaro fiifpo de Laon^ que appellou para a 
Sé Apoftolica daíentença pronunciada contra elle 
tm 809. no Concilio de Verberia , Cafa Real de 
Valois fobre o Rio Oifa na Diecefe de SoiíToos : 
reinou quatro acinos^ onze mezes, e doze dias ^ii- 
leceo no primeiro de Novembro de 872. Aàrumo 
í^apa IIL defte nome , chamado antes Agapy to ^ Rt)^ 
tiiano denaçSío, filho de Benediâô, foi efeito dobs 
dias depois da morte de Martinht) IL a 20. de Jímfao 
4e 884, 'Ba£lío o Macedónio y Emperador do QtitsoÊ- 

te; 




te 9 O apertou fortemente , para que rerogafl!e tu* 
^o ) quanto os feus anteceUores tinháo decretada 
contra o Patriarca Focio y e o recebefle na cominiH 
nhâo da Igreja Romana ; porém Adriano reíiftié 
intrépido , e o Emperador defabafou a paixão en 
huma carta injurioia^ que chegou a Roma, quaa- 
do já Adriano tinha paíTado defta para a eterna vi- 
da em 9 de Maio de 885:. tendo reinado hum aiH 
no , trez mezes , e dezenove dias : morreo em hu« 
ma cafa de campo, foi fepultado emS. Pedro com 
univerfal fentimento , vagou a Cadeira dous dias. 
Adriano Papa IV. defte nome , Inglez de nação , 
chamado antes Nicoláo Haftrifago , fuccedeo a A* 
naftafio IV« foi Apoftolo da Noruega , que con* 
verteo á Fé, fendo Bifpo de Alva, e Legado ^Ah 
tere de Eugénio III. que lhe deo o Capello nefta 
Legacia, e na de Dinamarca. Foi eleito em $* de 
Dezembro de ii5'4. excommungou os Romaaos , 
epozInterdi£lo na Cidade, até que lançarão fórã 
o herege Arnaldo deBreícia: o mefmo fez aos que 
ferirão o Cardeal de Santa Pudenciana , prohibio o 
governo aos Senadores, excommungou a Guilher- 
mo Rei de Sicília, que havia ufurpado alguns bens 
da Igreja , e ajuftou com elle a paz depois com 
randes ventagens : coroou o Emperador Frederico 
arbarroxa , mudou a Cadeira para Orvieto, Cidade 
do Bftado Ecdeíiaftica, aonde o forão bufcar com 
lagrimas os Romanos ; porém vendo que os Senado- 
res fe querião outra vez intrometter no governo , fe 
-f erirou para Anagni , Cidade Epifcopal na campa* 
nha de Roma , onde faleceo no primeiro de Se« 
tembro de 1159. * Creou vinte e dous Cardeacs, 
^acroBifpos^ 4ezPresbytero8^ reinda quatro an* 

nos^ 



o fea ccrJ!K> para o Vatidano ,' vagou á Cadeira' irei 
dias. Jãriano Papa V. cfcftehomte Gcnovez y^h*- 
mada^Dtes Oifhobom> de Fieíca^ fiUiôde Theo* 
doro de:Fíefpov ita^ 'do- Papa Iiinocéntio IV:. ée 

Jaem peoebeo Adriano íeu fobrinho ò Capello d^ 
>iacono, Cardeal de Santo Adriano ^ foi Legado 
em Alemanha, e Inglaterra, e por morte de Inno«^ 
cencio V. eleito a doze de Julho de 1276. mas 
quando eftav^a para ferconfagrada^ e coroado^ fa- 
leceo a 18 de Âgodo do méfmo anno com trinta* 
e nove dias de reinado em Viterbo , onde foi fepuU 
tado no Convento deS. Francifco, e vagou* a Ca* 
deira vinte eíinco dias. Quandoos parentes lhe de- 
rSo Dspacabcns do Pontificado, refpondtfo: ^y^r^i^ 
eu queria me viffeh Cardeal com faude , do que Papa 
moribundo. -^íírww VI. Papa defte nome, HoMandeso 
de nação , natural de Utrecht , chamado antes A^ 
driano Florifz , iftohe, Adriano filho de Florente, 
nafceo a a de Março de 1459. ^^^ infigne Filofo<' 
fo , Theologo , e Canonifta , tomou o gráo de Dou^ 
tor a 21 de Junho de 149 1. em Lovaina ácuAa de 
Margarita de Inglaterra , irmã de Eduardo IV. e 
viuva de Carlos o Atrevido, Duque de Borgonha, 
fei pouco diepois Cónego de S. Pedro, Cathedrâ-^ 
tico de Theologia ^ Deão da Igreja dl: Lovaina , 
e Vice- Chancel ler da mefma Univerfi^dade , a que eU 
le defpois agradecida aggregou hum Collegio do 
£ru nome , que fundou para eftudantes pobres. O 
Emperador Maximiliano I. oefcolheo para Meftre 
de íeu neto o Arquiduque Carlos , depois Empe- 
sador, e Rei deHeípanha^. que oinaiadÍ9n pprEm^ 

bai* 



Cardeal no primeiro de Jiill: 
morte foi elcico Papa em att 
náo obítante fer ^rangei ro , 
ca tc;r vifto Itália ^ e menos >I 
ticia da faa eleição na Viflorii 
com tal focego de animo , qi 
dem. effe pojlilbão , ou ejfe homi 
Poncificios no dia feguinte , e 
ahou para Roma , onde entroi 
coroado a 3 u do mefmo , tend 
peiro do cne(mo anno de 15*22 
nome, renovou a aliança come 
pacificou a Itália , intentou a ri 
difcipUnaEcclefiafiicai mandoc 

» Terâmo com o titulo de Nunci 

I ve 9 além de notáveis inftrucçôc 

berga. Nâo defendeo a Ilha de 

[ vento dos Cavalieiros de S. Joâ 

não perturbar os interefles do 

^ Ç10 anno de 152 2. emqueoTui 

defoccorros. Dizem nn^*--"— 



gia eípeculativâ ^ i\\it{oTãoque^ôtsquodlíbeticaSj e 
!iamTiratacl& fobre d \Wto quarto do Meftrc das fen^ 
Tenças. * Déó^tá fempre aoaRds deHefpanha 4 
^dignidade de Mttftfeada» Ordens Milíltaves dosfeus 
"Reinos : ^ eaftèniKod ti S. Bennon Bifpò' MHheiv- 
f e , Cfèon hum Cardeal Prcsbytero do Título què 
tivera , foi íepitltadô em S. Pedro ; e depois ó 
Cardeal j que creou da fua nação j o trasladou pa^- 
ra a Igreja de Santa Maria da Alma, chamada dos 
Tiidefcos , onde deixou algumas memorias : vagõil 
a Sé dous mezes , e quatro dias , e fuccedeo-lhe ecÀ 
attençSo domefmo Empera dor Carlos V. Clemen^ 
te VIL feu muito fârorecído. Adriano^ HadrtanOy 
ou Ariano y Publio EIío Adriano Emperador deRo*- 
ima, filho de Elio Adriano, chamado vulgarmente o 
Africano ', poir ter fido GovcrnadorJ do Egypto , naf- 
teo em Roma^, ou na Cidade de Itálica, a ^4 de 
Janeiro de 76. da era de Chriíbo , de huma fami^ 
lia originaria dé Adria , a que hoje chamâo Atri , nõ 
Reino (ie Nápoles , ficou orfao de pai aos dez art^ 
nos de baixo da tutela deTrajano, eCelio Tacía- 
no, eftudou cótn grande curiofidade, e aproveita- 
mento, entrou de pouca idade no ferviço do Im^ 
perio, de forte que era Tribuno de huma Legiãò^ 
antes da morte de Domiciano , foi deputado pelo 
exercito dá baixa Mefia , ou Myfia , pára noticiar 
a Trafano a morte de Nerva, e a ftià eleição. Foi 
táo gaftador , que Trajano íe defgoftou delle ; po- 
rém emendou- fe, e cafou com Sabina^ fobrinha fe-* 
gunda do Emperador , e de altivo génio, acompa- 
nhou Trajano em todas as expedições com finala- 
(Us façanhas y de que lêíegui occiipar lodos os òf* 

£CÍ03^^ 



«"•• " "iariuo a que o 

^a?í PíflbualneJaterra ru 

|?n;pnmí„,rt, edificSu^S 
Jrlotina., alíAníi r- "*^"^™ 
.RlenRj í?"-^« 5™ Athe 



«•«venda os livros rèiií 



vario, hum a Adónis em Be 

.Occi|ltarasyerrugas,foidou 
eido, q«« rcmanríon .j-_ • 



( »4« ) 

CONFERENCIA XXI. 

€ 

ADriano , Santo Martyr em Cefarea na per- 
feguição deGalerío Maxímiliano, por or« 
. dem ao Governador Firmiliano foi expofto 
' aos leóes a 5* de Março ^ e degollado pelo 
Confeâor , cujo oficio era acabar de matar as feras j 
ou os que ellas fó feriâo nos efpeâaculos públicos. 
Adriano^ Santo Martyr de Nicomedia: cada Mar- 
tvrologio lhe aíEgna íeu dia em diverfo mez , don- 
de naíceo julgarem muitos , o que he hum fó; e as 
luas A6ias são taes ^ que não fe lhes pôde dar cre-^ 
dito algum y por caufa das fabulas , que mifturárâo 
muitos com as fuás acções heróicas verdadeiras. 
Adriano. Santo Adriano he huma pequena Cidade 
de Flandes fobre o rio Tenra , ou Dendra j difta 
quatro léguas de Gante j chamava-fe Geersberg y 
e Gerardi mons , porém mudou o nome no anno 
de X 1 10 , em que recebeo o corpo de Santo Adria- 
no. Adriático he aquella parte do mar Mediterra- 
fleo entre Illyria , e ItaHa com quaíi ^00. milhas 
de comprimento , e 200. de largura , tomou o no- 
me da antiga Cidade de Adria íituada no extremo 
do .Golfo j chamárão-lhe mar Superior em contra- 
pofição ao da Tuícana j que fe chamava inferior, 
por ficar ao Sul, he o maior Golfo do Mediterrâ- 
neo, ecomprehende outros fete, que sao odoCa- 
marino, o deCactaro, odeSanta Cruz, oDrino, 
o de Narenza , o de Siponto , e o de Triefte, ef- 
tá cheio de Ilhas , e penhafcos pela parte de Illy- 
Tom. VIL X ria. 



( 14* ) 

ria y que pertencem todas aos Venezianos , cercio* 
no vfirios PaizeSyCinos^noaiqii^ntodi^nos sSo: Al* 
bania , Dalmácia y mria , Fríul , Marca Trevifana , 
Ducado de Veneza, Poleíina de Rovigo, Ducado 
de Ferrara , Romandiola y Ducado de Urbino , Mar- 
ca de Ancona, Abrnzzo y Capitanata, Terra de 
Bari y e Terra de Otranto. Antigamente chan^avâo 
mar Adriático a todo o que eftá defronte de Itá- 
lia , e por iíTo S. Lucas ^ contando o naufrágio de 
S. Paulo em Malta , diz que fuccedêra no mar A- 
driatico. Ainda que muitos Principes pofluem tei^ 
ras neíte mar y como são o Turco , o Imperador 
de Alemanha y o Papa y o Rey de Hefpanha , e a 
Republica de Raguza , com tudo os Venezianos y 
que tem nelle a melhor parte , fe denomtnâo Se* 
nhores delle y e adquirirão o feu dominio pelas 
armas; porque o Papa Alexandre III. perfeguido 
do Imperador Frederico Barbarroxa , fe retirou a 
Veneza; eoDogeSebaftiãoZani derrotou aOthao 
£lho do Imperador > e o Papa agradecido o veio 
efperar no Golfo , e lhe deo hum precioío annel f 
dizendo o deípofava com aquelle mar , o que fa* 
rião todos os annos y ceremonia que ainda obfer- 
vão y e fe contará na palavra Veneza. Coftumavâo 
também os Papas de nove em nove annos conceder 
com novas Bulias as decimas do Clero para a de* 
feza defte Grolfo y fempre infeftado de CoíTarios y 
que chegavão até Marca de Ancona y e fe recolhiãa 
com excellentes defpcjos. JÍdricofmo. Chriiliiano 
Adricomio Delfo y natural de Delf , foi Sacerdote 
muito pio y e virtuofo , compoz a Vida de Chrií- 
to extrahida exceUentemeote dos Euangeliftas y o 

Thea- 



( ^43 ) 

Theatro di Terra Santa , e huma Cbronica do TeC* 
tâmcnto Velho , c Novo , que tudo cxifte com o 
titulo deChronicon deChriftiano Âdricomio Del* 
f0| traduzido de Latim emHcfpanhol por D. Lou- 
renço Martinez de Marcilla , além do original La- 
tino. Advento , tempo j que a Igreja dedicou , para 
que os fieis fe preparaííem com jejuns ^ e peni- 
tencias para celebrarem o Nafcimento de Chrifto 
Senhor noflb : algum dia erão todos obrigados a 
efte jejutn , depois fó os Eccleiiafticos , e os fecu- 
lares obrigados a não comerem carne : o Concilio 
de MacoQ limitou o jejum ás fegundas j quartas j 
eíextas íèiras: em algumas Igrejas foi coftume je» 
juar quarenta dias , hoje fò os Religiofos são obri- 
gados a efte jejum , que ordinariamente começâo 
a dous de Novembro , e os Gregos de todos os ci- 
tados a. quinze, outros a íeis de Dezembro, e ou- 
tros a vinte, e o Natal a ^s de Janeiro. * Jdven^ 
to da Igreja Romana são quatro íemanas , cujas 
Domingas tem eífe titulo , e a primeira he fefta 
roudavel todos os annos, e por iflTo a quarta raras 
yezes^he inteira, por fer fixo o dia de Natal, e mu- 
darei a primeira Dominga do Advento , que o prei* 
cede« JduJa , ou Adullas montanhas dos Alpes , que 
contém o monte de S. Godardo do Cantão de Uri 
na Suifla , os montes Crifpal , e Vogelsberg , on- 
de nafce o Rhim , o monte Furk , ou da tocca , 
onde naíce o Ródano , e o Tefim , e o monte 
Grímfel, donde mana oRuíTo rio deSuiíFa. Adtdfo 
Bifpo de Sant-Iago foi accufado do crime nefando 
por quatro efcravos da íua Igreja , o Rei D. Or- 
donho imprudente lhes deo credito , ordenou que 

X ii vief- 



cero , que delle fizerão , , 
galrem os accufadores ; V 

Jóm o^"°"'r logo a Mie 
com opiniáo bem merecida 



erevem com ditoneo M 

fJ niar branco em cootrapofiç 

:. 9ue chamâo mar negro :dFv 

^as, e dizem tomara o nom 

d1or:rfo,''''«^9-,e 
-o Qiverlos princípios , e t 

fo Arri::;í: '■f"™ «««^ 

Í"j-:í^.°° ??■»'"«<> fedei 



( »4Sr ) 

perverteo mnitos Bifpos ^ e innomeravêis GatholK 
cos , eníinando que as torpezas erâo acções ifino* 
centes, e que íó nos havia pedir Deos conta da 
fé , foi hum dos mais fobcrbos. , e defavergonha- 
dos Hereílarcas ; muitas vezes condenado veio a 
morrer em Conftantinopla. Africa ^ terceira parte 
do mundo , feparada da Âíia pelo Iftmo de Sués^ 
e fahidas do Nilo j cercada de mar por todas as 
partes, i fendo a mais próxima a nós , a que ellá 
defronte de Gíbaltar , e com elle forma o Eftrei* 
to , e a mais remota o Cabo da Boa Efperança : 
certamente fe ignora donde teve origem o feu no« 
me, os Gregos lhe chamarão primeiro Lybiai de? 
pois Africa, as outras Nações diverfos nomes., pa- 
rece moralmente certo, que os feus primeiros ha^ 
bitadores depois do Diluvio forão os netos de 
Noe filhos de Cham , e depois varias Naçóes da 
Europa , e Afia : tem finco mil léguas em circuito , 
figurando hum coração , * mil eieifcentas de com- 
prido , mil e. quatrocentas , ou feifcentas ( como 
outros querem ) de largo: dtá quafi toda na Zona 
tórrida, fe bem da parte do Sul chega a35'. gráos, 
onde eftá o Cabo das Agulhas , aflim chamado , 
porque alli são Jxas ^ tem grande , ou maior par- 
te inhabitada, por caufa dos.areaes, e ofilores^ex- 
cefiivos, de que refuka a cor negra mais, e menos 
de feus habitadores , que também adquirem os ef- 
trátígeiros, que lá vivem fupportando o Sol como 
«Ues, coufa mil vezes provada «t}oS'derertos pfoxir 
mot a Moçambique , onde i Portugueses liav^í* 
j}oS| e outros fugidos ^f para èvjtafi.a iomie ailti- 
varão as terras como os negros ^ e. o Sol os fi^ ne^ 
Tom. VIL A iii &^^y 



( H6 ) 

gros 9 e a feas filhos , e netos : nem he neceflarlo 
viajar tanto para conhecer o principio da cor pre» 
ta lios homens, quem obfervar, o que o Sol, e va- 
por da agua falgada , obra nos trabalhadores das 
marinhas em Alhos Vedros , e nos portos de Al- 
bufeira, Olhão, Fnzeta, &c. no Algarve. Confi- 
na Africa com Judea Arábia , Mar roxo , Mar da 
índia , pelo Sul com o da Ethiopia , pelo Occiden- 
te com o Oceano Atlântico, que afepara da Ame» 
rica , e com o Mediterrâneo pelo Norte , e Orien- 
te. O Iftmo de Sues., que divide os dous mares 
Roxo , e Mediterrâneo , tem dezenove , e fegundo 
outros, trinta léguas de largura. Enganou-fe quem 
períuadto a Moreri , oue os Turcos o intentarão de^ 
balde cortar, como ieifto fofle obra tão dificulto* 
fa , como a ferra que Alexandre cortou para entrar 
melhor na índia , ou como o canal de Languedoc 
em França, temerão fim perder Sues, e muita par- 
te do^ Egypto com a precipitada corrente das a- 
;ua3, e abrir hum caminho breviflimo para toda a 
Europa fe utilizar da Afia, quando fó elles queríSo 
dominar toda. O paíz todo he fertiliffimo , e os 
gados excellentes , ou os melhores , os carneiros 
tem finco quartos, e nas vacas, que julgamos ca- 
dáveres fobeja gordura , e efpecial gofto , efibito 
dos paftos : dizem que os antigos Africanos tório 
Idolatras , o que íe deve entender depois que ou- 
tras Nações fe mifturárão com elles , porque líojc 
os que nunca ti verão efpecial communicaçâo vivem 
comof brutos^ e como viverão em toda Afrka fima 
avós , comendo-fe htins aos outros , e fendo os 
ventres dos vivos fepultara dos mortos: recebérío 

afé 



( U7 ) 

a fé ao menos cem annos depois da morte de Chrií- 
to y deo á Igreja innumeraveís Santos de todas as 
ClaíTes, e a foa luz Santo Agofiinho , hoje o me- 
nos que tem sâo Catholicos y e tudo o .mais sâo 
Mouros , Gentios bárbaros , Judeos , e Climáti- 
cos, de que.fe dará noticia nos nomes das Provin* 
cias 9 e Cidades. Jgã y nome que na lingua dos 
Turcos iignifica Senhor , e fe dá no Império Otho* 
mano á maior parte dos officiaes da caía y e exer« 
cito do Sultão , e aos Governadores das Praças 
fobalternos dos Bachás : o dos Genifaros tem ef- 
pecial reípeito y e não he Genifaro ordinariamente 
por nafcimento, porque o Sultão dá eíTa dignida- 
de, a quem lhe parece y correfponde a General de 
-Infantaria , tem cada dia o pequeno foldo de cem 
flrfpre» y mas fempre he rico y porque herda todos 
os Genifaros y que morrem íem filhos y e cada Car 
pitão delles , quando toma pofle }he dá quatro 
DoKas y o que fe recompenfa na morte y porque os 
Genifaros são os feus herdeiros : he o único VaA 
íallo , que na prefença do Sultão pôde entrar com 
livre compoftura , íem os braços cruzados fobre o 
peito, como todos os outros, ronda todos os dias 
com trezentos Genifaros, ehe tão refpeitado, que 
todos fogem , e fechão as portas , quando ell^ 
pafla- pelas ruas. ^gabo foi hum dos fetenta e dous 
diícipulos de Chrifto : dizem os Gregos , que de 
Jerufalem fora para Antioquia , onde efiavão S. 
.Paulo , eS.Bernabé , e profetizou que huma gran- 
de fome havia de affligir aquella grande Cidade 
brevemente , o que fe verificou no quarto anno do 
Império de Cláudio : também profetizou a S. Pau- 
lo 



Io em Cefarea ^ que fe foíTe a Jerufalem , o haviío 
de prender os Judeos , e entregallo aos Gentios ^ co* 
mo fe vio : dizem fora martyrizado em Antioquia j 
e celebrão a fua fefta a 8 de Março j a Igreja La* 
tina a 1 3 de Fevereiro. Agaies Reino de África nt 
Provinda de Nigricia, he fértil de maná ^ o qual 
guardâo os naturaes em cabaças ^ e vendem aos 
mercadores , o Rei he tributário ao de Tombut. 
Agag , Rei dos Amalecítas , foi defpedaçado por 
Samuel diante do Altar de Deos : efte povo impe* 
dio aos Ifraelitas a entrada na terra de Promifsio , 
do que fe vingou juftamente Jofué, e os derrotou; 
porém como ifto não baftava para fatisfazer a 
Deos , ordenou elle a Saul por Samuel y que def*>* 
truíflTe os Amalecitas totalmente , matando ho» 
mens, mulheres, meninos, e gados, arruinou Saul 
as Cidades , degoUou todos os moradores , mas 
perdoou a vida ao Rey Agag , e aos gados mais 
gordos para fazer delles bum facrifício , além de 
refervar todos os moveis preciofos : indigQOu*fe 
contra elle Deos por efta defobediencia , que reve^ 
loa a Samuel , o qual lhe veio fahir ao encontro 
em Galgala , onde &zia o facrificio , e depois de 
o reprehender, e annunciar a vingança, que Deos 
havia de tomar defta defobediencia , mandou vir o 
Rei Agag, e o defpedaçou: ^ era velho, e muito 
gordo , vendo^fe na prefença de Samuel , e conhe- 
cendo o matavão , tremia dizendo : Por ventura úp- 
fim fepara bitma amarga morte ? Defculpava*fe Saul^^ 
dizendo refervára os gados para offereder « Dcós 
facrificios, ao que reipondeo Samuel , que mdholr 
era obedecer do que facrificar. Agsges j ou Jaccba y 

sâo 



( M9 ) 

sSo huns povos fêrociffimos de Africa , que no an- 
uo de 15*60 fenhoreárâo o Reino do Congo, cujo 
Kei Álvaro L fe refugiou na pequena Ilha de Zai« 
TO 9 onde padecendo todas as miferias, vio deftruir 
« fangue , e fogo o feu Reino : conftou ifto ao nof- 
lo Rei D. SebaftiSo j que o mandou foccorrer com 
boas tropas , as quaes felizmente expulfárâo os 
Agages, e reftabelecêráo o Rei Álvaro y que mor- 
reo no anno de 1580 : attribuírão os bárbaros do 
Congo efta de(graça a terem recebido a Fé Catho- 
liça no tempo do noflb Rei D. João IL e nós cla- 
ramente lhe perfuadimos nafcêra do pouco cafo , e 
dcrprezo, que a Fé padecia naquelle Reino. Jga^ 
frita Papa 9 primeiro deftenome, Romano, filho de 
Gordíano , fuccedeo a Joáo IL a 28 de Abril de 
539 * logo depois de eleito recebeo cartas , e hu- 
ma confifsão da Fé, que o Emperador Juftiniano L 
mandava a íeu anteceflbr : refpondeo*lhe fuave , e 
forte, nâo confentindo no que lhe pedia, que era 
« pofle das dignidades Ecdefiafiicas nos Arrianos 
com o pretexto de procurarem a união : pouco de- 
pois Theodato Rei dos Godos em Itália , vendo- 
íc opprimido pelo grande General Belizario , obri- 
gou violentamente Agapito a que fofle interceder 
por eíle , e paz dos ieus dominios em Conftanti- 
nopla: nâo lha concedeo o Emperador, e perten* 
dia que rccebefle na communhão Romana o Pa* 
triarca Anthiroo , fobpena de defterro , Agapito 
com liberdade Apoftolica IhediíTe : Imaginara que 
afiava na Corte de hum Imperador Catbolicõ ^ efe a* 
ehama na de bum Diocleciano , o que não objlcmte ne-^ 
mbum medo tinba^ Efta cefpofta obrigou a Juftiniano 

illu- 



( ^ío ) 

illufo pela Emperatriz Xheodora herege Arríana j 
a examinar a cauía , de que relultou e^pulfar Aa« 
timo, que não quiz confeflar em Chrifto duas na- 
turezas, e nomeou Mennas, a quem Agapito con- 
fâgrou y e poucos dias depois morreo , quando dif«- 
punha a jornada para Roma a 17 de Abril de 5:36: 
reinou 11 mezes, e 18 dias, vagou a Cadeira dous 
mezes, efeis dias. Agapito y fegundo do nome, foi 
eleito Summo Pontifice a 18 de Maio de 946 por 
morte de Martinho IIL, congregou muitos Syno- 
dos no melmo anno, e aíEftio em hum , introduzLo 
em Roma o Emperador Othâo contra Berengario 
II. que íe queria fazer Rei de léalia , e tyranniza- 
va os Eccleiíafticos , morreo a 27 de Dezembro de 
95*6, reinou 9 annos, 6 mezes, e 10 dias , vagou 
a Sé doze dias. Aagapitas , chamarão na primitiva 
Igreja ás donzellas, que fem votos, nem juramen- 
tos vivião juntas em amor, caridade, e união, que 
tudo íiguifica a palavra Grega , donde íe denvoa 
efta : conftou depois que vivião com pouca honef* 
tidade , de forte que & João Chryfoftomo as ani« 
quilou no feu Patriarcado , e o Concilio geral La* 
teranenfe condenou , e diflblveo efte modo de vi- 
da : chamavão também Agapetos aos que tratavão 
deftaa mulheres. Agapito ^ oxxAgapeto^Szxito Mar* 
tyr no tempo de Anreliano na idade de quinze an* 
nos , foi cruelmente açoitado , prezo quatro dias 
fem lhe darem alimento, lançárão-lhr brazas fobre 
a cabeça , pendurárâo-o fobre huma fogueira , eí* 
folárão-o vivo , lançárâo-^lhe em fima agua fer* 
vendo, quebrárâo^^lhe os queixos, foi expofto aòs 
leões j e vendo que nSo morria , o degollárâo no 

an- 



( ^yl ) 

ânno 170 , a Igreja o celebra a iS de Agofto, 
Agar Egypcia foi criada de Sara mulher de Abra- 
hSo j a qoal vendo que não tinha filhos perfuadio 
o marido a que ufafle de Agar j a qual parlo If- 
mael : tanto que íe vio pejada defeftimou a ama, 
que fe queixou ao marido , e efte permittio a lan* 
çaíTe fora: no deferto lhe diíTe hum Anjo bufcafle 
a cafa de Abrahâo, e fe humilhaíTe a Sara, o que 
ella fez: depois do nafcimento delfaac, ínftou Sa» 
ra com o marido lançaflTe fora de cafa Agar com o 
filho Ifmael , porque efte zombava de Ifaac : íen« 
tio ifto o Santo Patriarca, mas revelando-Ihe Deos 
que era vontade fua , a defpedio com agua , e ali- 
mento : tinha Ifmael dezoito annos , quando en* 
trou no deferto deBerfabee com amai; e faltando- 
Ihe a agua , chegou ao ultimo parocifmo da vida , 
de forte que Agar para o não ver morrer o dei- 
xou enfcoftado a huma arvore, e foi para outro fi- 
tio lamentar a fua defgraça , hum Anjo a confolou 
vaticinando-lhe , que Ifmael íeria cabeça de hum 
grande povo , moftrou^lhe hum poço cheio de a«- 

Í3;ua, donde ella deo de beber ao filho, o qual ca«- 
ou com mulher Egypcia , e foi cabeça dos Ifmae- 
litas. Jgar fe chanjava huma Cidade do Tribu de 
Judá fundada no fitio , onde fallon com Agar mâi 
de Ifmael o Anjo , e jnnto a tila ( que hoje ape« 
nas he aldeia ) exifte a fonte por modo de poço , 
que Deos milagrofamente produzio para confervar 
a vida de IfmaeL Agarico he hum rio da America 
Meridional y que entra no das Amazonas , e traz 
na fua corrente muito ouro. Agathã Sanra Virgem 
Martyr, aque vulgarmente chamamos Santa Águe- 
da^ 



da , nafceo no terceiro feculo era Palermo Capital 
de Sicília 9 formofiflima 9 e illuftre. Quinciano Go- 
vernador defta Ilha pelo Eioperador Dccio íè na- 
morou delia j eftando em Catania ; mas vendo a não 
podia mover a que idolatraíTc j a fez atormentar 
cruelmecrte: mandou cortar^lhe os peitos, arraftaU 
Ia nua fobre carvões em braza , até que em fim re- 
colhida no cárcere efpirou. Jg/ubon^ ou Jgathã$ 
Papa , e Santo j único defte nome na ferie dos Pon- 
tifices Romanos, nafceo em Palermo, dizem fora 
Religiofo Carmelita, outros que de S. Bento, foi 
fucceílbr de Dono L eleito a ii de Abril de 679, 
confagrado a 29 de Maio: condenou em hum Con« 
cilio Komaoo os hereges Monothelitas , fez cele- 
brar o fexto Ecuménico Conftantinopolitano , ex- 
tinguio o tributo, que a Sé Apoftolica pagava nas 
eleições dos Papas aos Reis Godos de Itália , con- 
tinuado nos Emperadores do Oriente : morreo a 
10 de Junho de 68a , ou a 10 de Janeiro , como 
dizem outros, dia, em que o celebra a Igreja Lati-» 
na , e a Grega a 20 de Fevereiro. Vagou a Cadei* 
ra fete mezes , fagrou dezoito Bifpos , dez Pref- 
byteros, eílnco Diáconos, foi fepultado emS. Pe- 
dro. Agazos são huns povos faivagens da Ameri- 
ca Meridional no Paraguáz, fortes, robuftos , in- 
trépidos , e tão preguiçofos , que por nâo cultiva^ 
rem as fuás terras , vivem de roubar as fearas a- 
Iheias , e tudo o mais pelos rios em canoas. 



LISBOA, Na Officina de Miguel MantfcAl da Coíh . ImpreíTur da 
Santo OflSdo. Aano 17^4. Çmn iodai asikgnfâi w^mas. 



( >« ) 

CONFERENCIA XXII. 

• 

AGãe , be huma Cidade de França na fahi* 
da do rio Araurio no baixo Languedoc, 
com Bifpo fuâraganeo aNarbona: não he 
grande, mas forte, commoda com porto 
fofficiente para todo o commercio em barcas : nel- 
la fe celebrarão dous Concílios , ^ hum antigo, 
em que ha dúvida, outro não menos , porém íem 
cila , em que S. Cefario Bifpo de Aries preíldio a 
trinta e íinco Bifpos , e fe £zerâo fetenta e hum 
Cânones , de que exíftem quarenta e oito em ma- 
nufcritos antigos : hum delles obriga os fieis acom- 
mangarem na Pafcoa , Pentecoftes , e Natividade 
de Chrifto fob pena de não ferem havidos por Ca- 
tholicos : em outros fe prohibe fahir da Miífa an^ 
tes da benção do Sacerdote , que fe jejue a Qua- 
refma , e outras coufas aflfás neceífarias no fexto 
feculo , em que foi celebrado, ^gen , ou Jgem , 
Cidade de França junto ao rio Garona na Guiena, 
{o\ Capital dos antigos Nitiobriges, grande, rica, 
e bem fortificada : padeceo muito nas guerras ci- 
TÍá , teve trez Bifpos Santos , que forão S. Capra- 
fio , S. Febadio , e S. Dulcidio. Agenoes , he Pro- 
víncia de França na Guiena com o titulo de Con- 
dado. Agen , ou Agem he a fua Capital , e foi a 
habitação eftimada dos Nitiobriges : efte Condado 
efteve unido ao Reino , e depois Ducado de Aqui» 
taoia, depois o dominarão os Condes de Tolofa, 
Guilhermo II. o deo em dote a íua irmã Rogelin* 
Tom. VIL Y da. 



da , quando cafou com Wlgrino Conde de Ángn- 
lema , cujo filho fegiindo chamado Giúlhermo Sjí 
Conde de Perigordo , e de Agenoes , depois o 
poíTuírâo os Duques de Guiena /e de Gafcunha^ 
até Leonor dcÃquitania, que caiou com HeDri* 
que IL Rei de Inglaterra , o levou em dote com os 
mais Eftados , que tornarão para o dominio de. 
França no cafamento de íeu filho Ricardo y que 
os deo em dote a íua irmã Joanna , para também 
cafar com Raimâo VL Conde de Tolofa , de que 
nafceo Joanna de Tolofa , que cafou com Âfibafo 
de França , e ficarão os Eftados de Agencea na 
Coroa. S. Luiz os prometteo aos Inglezes y e Fi«- 
lippe o Atrevido confirmou a doação ; porém Edu* 
areio L Rei de Inglaterra foi tão ingrato, que lhos 
confifcárão, e unirão para fempre á Coroa deFraa- 
Ça. ^gg^o , ou Jggeu y cujo nome fignifica Gozo y 
foi hum dos Profetas menores : começou a efcre-- 
ver a fua profecia no fenundo anno do reinado de 
Dário filho de Hiftafpes Rei da Perfia : unido com 
o Profeta Zacarias j animou os Judeos a continuar 
o edificio do Templo y e lhes vaticinou , que havia 
fer mais gloriofo que o primeiro , o que fe deve 
entender com Santo Agoftinho ; porque nelle foi 
prefentado Chrifto, e o honrou muitas vezes com 
a fua prefença y e não pelo edificio material , que 
não tinha nem fombras da preciofidade antiga do 
que edificou Salamão: os Gregos celebrão amemo* 
ria defte Santo Profeta a i6 de Dezembro , e os 
Latinos a 4 de Julho. Aghuanos são huns povos 
da antiga Albânia maior , chamada hoje Schirvan : 
o Tamorelão da Perfia os mudou das fuás terras 

pa. 



I 



í íff ) 

pira as fronteiras do IndoMo , e lhes tirou o^ Sa- 
cerdotes j e Meftres do rito Arménio para evitar 
as continuas fublevaçôes. No anno de 1729 feguí- 
rio eftes bárbaros o partido de Magmud, e o pu- 
serão no throno da Períia , que ufurpou ao Princi- 
pe Thamaz filho deSchac Hufleicn; porém efte fa- 
vorecido do memorável Thamaz Koilikan , alcan- 
çou tantas vitorias^ queMagmud poíTuido de trif<> 
teza , perdeo o juizo y e pouco depois do frenezi 
lhe deo huma parlezia: elegerão logo os Âghua- 
nos a Efchref por fucceíTor , mas tão defgraçado , 
ue na primeira batalha perdeo quinze mil folda- 
os ; e temendo o cercaíTem em Ifpahan j fe reti- 
rou para Candahar íó com dez mil Aghuanos , 
que fielmente o íêguírão ; mas pouco depois fe en- 
tregarão todos a Thamaz vencedor , o qual man- 
dou pregoar com trombetas , que ninguém os of- 
íendefle, nem fallalTe na rebeldia paflada : retira- 
rão-fe para a fua antiga Província de Candahar , 
onde vivem nos campos em barracas juntamente 
com os cavallos , e gados vivos j e mortos em tal 
immundicia y que parecem brutos fem olfato , co- 
roem carne mal afiada , ou mal cozida , bebem a- 
gua y aborrecem o vinho , todos hoje são Mouros ^ 
:inas nada obíervantes , fempre promptos para fur- 
tar , e ir i guerra , na qual levão na vanguarda as 
melhores tropas, a que chamSo carniceiros, ou lu- 
tadores y cujo oflicio he romper a vanguarda do 
inimigo y e depois de lhe perturbar a forma y e 
caufar damno , fe retirão pelos lados para a reta- 
guarda y para que ninguém volte cara , nem fuja. 
jígiam-og lanes y ou À4s,amoglanes sãõ efcravos mo- 

Y ii ços 



( ^$(^ ) 

ços em Turquia 9 ou colhidos na guerra, on cqm- 
prados aos Tártaros , ou violentamente tirados 
aos pais Catholicos Gregos de Morea , Albânia , 
e outras partes na idade de doze annos : em Conf* 
tantinopla os reparte o GrSo Vilir pelos Serra- 
lhos , onde fervem nas cozinhas , cavalharices , 
jardins ) e officios humildes. Agila^ qm Aguilano ^ 
Rei dos Vice Godos em Hefpanha y único defte 
nome , e decimo terceiro na ferie dos Godos , fuc- 
cedeo a Theudizelo , e foi igualmente impio : &^ 
tiou a Cidade de Córdova , que fe lhe tinha rebe- 
lado , e profanou o Templo de Santo Âcislo , fa^ 
zendo delle cavalharice do exercito , os íitiados o 
derrotarão em huma fahida , e Âthanagildò cabe- 

Ía dos defcontentes com foccorro do Imperador 
uftiniano o venceo totalmente, de forte que fugío 
Í>ara Merida Cidade de Caftella a nova , onde os 
eus mefmos parciaes lhe tirarão a vida no anno 
de 5" 5*4 de Chrifto. Agiulfo ^ ou Agom ^ Doque de 
Turim, cafou no anno de 5:92 com Thendelinda 
filha de Garibaldo Rei de Baviera , viuva de Ân- 
tharico Rei dos Lombardos : a efta memorável 
Princeza fe deveo a conversão de Agiulfo , e de 
feus vaíTallos j no baptifmo fe chamou Paulo , foi 
poderofiflímo , de forte que fujeitou toda a Itália ) 
excepto Ravena , e Roma, que intentou íaquear, 
e efles cuidados obrigarão S. Gregório a interrom- 
per as explicações íobre o Profeta Ezechiel no an- 
no de 594 para obfervar os movimentos defte ini* 
migo , que acabava de recuperar Perufia , e outras 
Praças , que lhe havia conquiftado o Exarcho dç 
Ravena. Obrarão os Lombardos nas vizinhanças 

de 



(>5'7) 

ãc Roma os infultos ^ que S. Gregório lamenta : 
colherão grande numero de prizioneiros , que ven- 
derão aos Francézes , e deftruírão com terro, e fo* 
go Cortona , Pádua y Mantua , Cremona , e ou- 
tras muitas Cidades. No anno de 603 lhe nafceo 
hum filho, que foi baptizado a 7 de Abril com o 
nome de Âdrevaldo , ou Adeívado , e morreo Agi* 
iilfo em 616. Jgiro , ou Jgira , he hiima Cidade 
de Sicilia junto ao monte Ethna , pátria de Dio- 
doro de Sicilia. Jgifymhaj he hum grande paiz de 
Africa para o Sul da linha Equinocial chamada ho- 
je Zanguebar: alguns querem feja efte o Reino ce- 
lebre c^ M onomotapa j a que chamâo os naturaes 
Changamira ; outros que huma Cidade da Ethío-^ 
pia y e Reino do Congo : a primeira opinião he 
certa. Agitadores forão huns ÒíHciaes creados pe- 
los Soldados Inglezes no aftno de 1643 para con- 
fervarem os intereífes da milicia na guerra eivei: 
excedia a fua authoridade o Confelho de Guerra 9 
pelo que íe unio Cromnel com elles. Jgiurdo he 
Cabo j ou Promontório de Africa na Província de 
Zanguebar^ ou Zanzibar, como vulgarmente lhe 
chamáo , perigoíiífimo por caufa dos refluxos , e 
correntes das aguas. Agmat he Provincia de Afri- 
ca, parte da antiga Mauritânia: comprehende oar- 
te dos oiteiros , e valles do celebre monte Atlas., 
que sâo fertihflimos , e faudaveis pelo ar purifli« 
mo , que gozão. O mefmo nome tem huma Cida« 
de da Provincia de Marrocos diftante oito léguas 
da Capital daquelle Império , íituada na cofta de 
hum dos montes , que compõe o Atlas : foi Opu- 
lenta , teve fete mil cafas, e hoje confta de pedras, 
Tom. VII. Y iii her- 



e aproveiíâo fin^ularmcntc 
bu ticos. Perto do Lago e 
CâO| alEin chamada, porqi 
he he tão venenoío , que n 
fazem a experiência em hui 
cebe o ar da cruca , fica fei 
o banhâo no lago Agnano , 
iuccederia fe o banhaflem ei 
ce donzella de Âthenas defej 
Medicina, epara iíTo Cm tra 
toii a efcola de Herofilo in 
ticou efta fciencia em benefic 
das y ás quaes aíEftiâa nefte t> 
mo hoje as parteiras , e Ag 
tolerar que homens exercitafl 
municava a todas o íegredo ( 
aí&m confeguia que ellas fen 
partos , c ie diminuifle o lu( 
quaes a accufárâo no Areopa 
cfte oíEcio , para abufar das 
juftificott a fua refta infpn/*sí^ 



( ^y? ) 

do Papa j è efte os benze : tem admiráveis virtu- 
tudes contra os demónios , raios , tempeftades , e 
todos os males. Agonizantes , he huma Irmandade 
de penitentes y qne fó ha em Roma ^ cujo exerci- 
do he rogar a Deos pelos íentenciados á morte: 
na veípera da execução da fentença , pedem ora* 
ç6es em todos os Conventos , e no dia tem o Se- 
nhor expofto , e fazem celebrar grande numero de 
Mi (Tas pelo fentenciado , a quem no Domingo fe- 
gainte fazem exeqnias. * Efta Irmandade , de que 
trata Moreri , eftá fundada na Igreja do Convento 
de Santa Maria Magdalena da Ordem dos Padres 
Agonizantes j Religião notável y que fundou S. 
CamiJlo de Lellis Cavalheiro Napolitano no anno 
de 1586 9 e approvoH Paulo V. a Irmandade em 
2616 : o feu Eftatuto he afliftir aos moribundos ^ 
para que são chamados j rogar a Deos por todos 
os outros , fervir aos enfermos y e por efpecial vo- 
to aos empeftados : nos Domingos terceiros eftá o 
Senhor expofto nefta Igreja trez horas em memo- 
ria das trez que efteve na Cruz y e hum Religiofo 
faz huma pratica ao povo. Jgojlo era o mez íexto 
do anno de Rómulo y chamado por ifib Sextil , e 
dedicado a Ceres : o Senado Romano ordenou íe 
chamafle Âgofto em memoria do primeiro Confu«> 
kdo y triunfos , e vitorias do Imperador Âuguilo y 
qne tndo fuccedeo nefte mez. Jlgoujla y ou Juguf^ 
ta yh^ huma Villa de Sicilia na Província de No» 
to muito forte y íituada na cofta Oriental defta 
lUia 9 feparada do Continente com foflb communi- 
cavei por huma ponte de pedra ^ tem.porto fegu- 
ro com trez Foites para defèza : neQa íe hoíjpedár 



C lio ) 

tio os Garalleiros de S. João , quando perderão 
Rodes 9 até que Carlos V. lhes deo Malta. Com 
grande trabalho a conquiftárâo os Francezes em 
1675-9 e a cederão voluntariamente ao Rei deHef- 
panha em 1678: a 1 1 de Janeiro de 1693 hum ter- 
remoto a deftruio inteiramente, ^gra ^ he hum Rei- 
no da índia fujeito ao Gráo Mogor no meio dos 
feus dominios: em outro tempo foi governado por 
hum Rei .próprio 9 toma o nome da Cidade Capi- 
tal fituada além do Ganges, fobre. o Geminí ^ foi 
Corte dos Imperadores ^ e nefle tempo ert cÚgna 
de memoria pela grandeza das fuás muralhas^ que 
ie nâo caminhavâo a cavallo em hum dia ^ com 
hum foflb de cem covados de largura , Palácio Im- 
perial i e fepulcros ; * boje (6 conferva a fua gran- 
de extensão ^ que procede , como todas as outras 
Cidades dos Mouros ^ de não ter cafa fobre outra j 
e todas pateo para lhe communicar luz y quinze 
Praças ^ mais de cento e vinte eftalagens^ que ac« 
commodão cada huma duzentas peíToas oom as 
equipagens competentes naquelle paiz : no Palácio 
Imperial , que algum dia teve, excellentes pintu- 
ras , e brotefcos de ouro y aíEfte o Nababo > e iò 
exifte o quarto interior antigo , térreo , como íem-» 
prefoi^o, e são todos,. renovado comeftuqae pai> 
iloy. e nos íitíoa dos oâtros palmeiras: a íepultort 
<le Cha-gehan eftá reduzida a cinzas fem o menor 
final da barbara arrogância , com que fe levantava 
por fitodo de trono quadrado de, ladrilho :inats de 
iluzentos. covados i^ aide^&a ihtalher teve<iiibis diB- 
i^ção y ou foi mais refpeitada:*depoÍ8 daB:«ucrras 
^r caufa de huns legâdoa perpétuos que deixoa ^ 

pa- 



(i6t) 

para qne os Eunucos ( hoje extin£los ) lhe guar^ 
daíTein os oflbs , que exiftem com efFeico debaixo 
de todo o edificio em huma abobeda pequena , e 
confta o fepulcro de trez eftaçôes , como eirados 
tudo de ladrilho com fuás torres , hoje dtftruidas. 
jígramut , ou Jgramuni , Villa antiga de Catalu- 
nha j goza o corpo de Santa Sabina. Jgreda , he 
Villa de Hefpanha nas raias de Caftella para a par- 
te de Aragão, e Navarra: tem mil vizinhos, còm- 
mercio de pannos , excellentes gados , por armas 
hum touro com huma mitra entre as pontas , no 
meio huma figura de hoftia , e na orla a letra : T?- 
berio Cefar Âugujlo filho doheos AuguftQ. Nefta Vil- 
la nafceo a Venerável Maria de Jefus chamada de 
Agreda , a quem a Virgem noíTa Senhora revelou 
a lua Vida, e de feu Filho , que ella efcreveo nos 
livros que hoje correm com licença da Sé Apofto- 
lica , e titulo de Myftica Cidade de Deos : feu pai 
fe chamou Francifco Coronel , fua mâi Catharina 
de Arena, a qual teve revelação para edificar hum 
Convento de Religioías da Conceição , para o 
que deo confentimento o marido , e começou a 
fabrica a 13 de Janeiro de 1619 , em que ella to- 
mou o habito com duas filhas , e o marido o de S« 
Francifco , onde já tinha dous filhos do mefmo 
jnatrimonío , tudo na mefma Villa» A Venerável 
Maria com diípenfa na idade foi eleita AbbadeíTa 
no anno de 1627: foi íempre exemplar de todas as 
virtudes , recebeo grandes mercês da mão divina , 
e a maior foi a das revelações , com que efcreveo 
efta fingular obra, âqual lhe mandou queimar hum 

Confeuor na aufencia do que a dirigia , e ella obe- 

de- 



jcL^iua mil nomens , c a b 
íincoeiíia peças: confiava s. 
Ungaros plebeios , e ieiíce 
poucos ajudados varoniliix 
defenderão ^ e os Turcos 
tempo deile houve muitas ^ 
hum dia ; e como as mulhe 
com os homens a defender 
os Turcos hum Ungaro ao 
a mãi lhe rogou deixaíTe o c 
tar o corpo do marido j ac 
Deos me livre de o enterrar , J 
€Ípada , e broquel do marid 
drôes inimigos y e recolheo-i 
tar alguns Turcos. Outra vei 
a qual trazia huma grande p< 
çar^ lhe tirou a vida huma I 
mente carretou a pedra moU 
mãi , e a foi lançar fobre os \ 
muralha. Mahompr Tíí - ^- 



doas léguas fora do campo. Em t ^84 a íitiárío os 
Imperíaes , durou o cerco trez annos j até que fe 
renderão os Turcos , pedindo aíEnafle o Imperador 
a capitulação , com receio de que os Catholicos 
ufaflem com elles o meímo que fizerâo os feus ven- 
cedores. Agrippa. Herodes Aggripa , filho de Arií- 
tobulo y e de Bernice , neto de Herodes o Gran- 
de , nafceo onze annos antes de Chrifto Senhor 
noíTo : feu avô o mandou para Roma ^ onde mere- 
ceo o afFeâo do Imperador Tibério , de feu filho 
Drnfo , e fua cunhada Antónia : fahio de Roma , 
quando morreo Druío , e Tibério expulfou todos 
os que lhe podiâo lembrar a morte do filho , foi 
recebido em Judéa por feu jio o Tetrarca Hero- 
des y que lhe deo o governo de Tyberiades com 
huma grande mezada y que nunca lhe baftou y de 
que enfadado o tio , o obrigou a ir para Roma y e 
contrahir grandes dividas y pelas quaes o mandoii 
Tibério prender, e Antónia o defempenhou : affei- 
çoou-fe delle o neto delia Caio Caligula com tal 
extremo y que Herodes foi accufado y e prezo por 
defejar a morte de Tibério para ver Caio no thro- 
no , efle o foitou , deo a Coroa de Judéa , e fez 
hum dos mais poderofos Reis da Aíia : degoUou 
Sant*Iago , prendeo a S. Pedro ; e indo depois da 
Paícoa a Cefarea celebrar huns jogos em honra do 
Inliperador y appareceo no throno com veítidos tâo 
ricos, que os Deputados deTyro, e Sidónia, que 
lhe vinháo pedir paz , lhe díficrâo acompanhados 
dos aduladores do povo , que parecia Deos y de 
que elle fe deívaneceo , e logo vio fobre huma cor- 
da hum vulto , que annos antes lhe apparecêra ni& 

pri- 



( ^^4 ) 

prízioy e diíTera havia fer iirre brevécnente y mas 
que morreria em finco dias j (e outra vez o vifTe, 
logo o açoitou hum Anjo y e paíTados os finco 
dias morreo convertido em bichos j e padecendo 
dores infernaes no anno 43 de Chrifto. ^grtppa II. 
filho deHerodesfoi o ultimo Reidosjudeos , crea- 
va-fe em Roma em cafa do Imperador Cláudio , 
quando morreo feu pai, e por fer de menor idade ^ 
lhe nâo deráo a Coroa , fenâo depois da morte de 
Herodes Rei de Chalcida irmão de Agrippa I. : paf- 
fados quatro annos lha tirou 9 fazendo izentas mui- 
tas Cidades, de forte que Agrippa ficou fendo Rei 
íò em o nome, etoda fua jurifdicçáo era noEcclefi* 
aftico y pelo que fe occupava em depor a cada paf- 
íb os Pontifíces , arrogando afio Summo Sacer- 
dócio : cafou com huma filha de Cayfaz , matou 
Sant^Iago menor , fe bem muitos dizem , que 
quem maquinou a morte defi^ Santo Apoftoio , 
fora Agnano , ou Anarió filho de Annaz , a quem 
Agrippa tinha feito Pontífice, e o privara porcau- 
fa defta morte : o certo he que os Romanos eícan- 
dalizáráo fempre a Agrippa , eelle lhe foi tão leal, 
que vendo nâo podia cohibir emjudea a rebelião, 
juntou as fuás forças com as de Nero, para os caf- 
tigar, e ficou ferido no cerco Gamala : depois da 
morte de Nero foi a Roma , donde veio pedir as 
alviçaras a Vefpaziano Imperador novo, que efiava 
em Judea : afliftio com o Principe Tito á deftruição 
de Jerufalem , e acabada a guerra morreo em Ro- 
ma: teve grandQS, prendas , e fó Jofeío o nota ^e 
inceftaofp com fua irmã Berenice. 

LI S B O A , Na Offidna de Mfgucl Manefcal da Cofta » rmprdfur do 
Santo Oílicio. Anno 17^4* C^nt todas atijcinfús n^^Quê$% 



( »<f ) 

CONFERENCIA XXIII. 



AGtia do Sol. He huma fonte vizinha ao 
Templo de Júpiter Amon em Lybia , Pro- 
víncia de Africa , onde agora he o Reino 
da Barca ^ cuja agua pela manhã eftá mor- 
na , e vai aquecendo por gráos , de forte que pe- 
la meia noite ferve , e logo vai perdendo também 
por gráos o calor até amanhecer. Agualva , e 
Agua de Moura y são dous rios do xioífo Portugal y 
que íejuntâo no Cadâo: o mcfmo nome Agualva 
tem huma Cidade na noíTa Ilha Terceira, diftante 
duas léguas da Villa da Praia. Jguas mortas. He 
huma Cidade do baixo Languedoc na Dieceíe de 
Nimes junto ao mar, duas léguas diftante doRho- 
dano , e finco de Mompilher : tem grandes mari- 
nhas , feguro porto , e hum grande farol em betie* 
ficio dos navegantes : derâo-lhe efte nome por eftar 
cercada de lagoas, e charcos , de que refuhão va- 
pores peftiferos , e tantas doenças , que hoje eftá 
3uaíi deferta* Agiier^ Cidade de Africa no Reino 
e Marrocos, fundada em hum Promontório junto 
ao monte Atlas fobre o mar: nós a conquiftámosj 
e no anno de 15:36 a governava Gutterre doMon- 
tazoio , que foi íitiado por fincoenta mil Mouros , 
morrerão dezoito mil no combate , mas renderão 
a Praça, degollárão a guarnição, e leváráo. cativos 
o Governador , e fua filha D. Mecia , a quem o 
Xarife Mahomet quiz violar, promettcndo-lhe fol- 
tar o pai ^ e não confentindo ella , a mandou en« 
Tom. VIL Z tre- 



(266) 

tregar aos negros ^ para que a gozaíTem. Então por 
evitar efta aponta , confentio a recebeíTe por mu- 
lher própria , o que elle fez ; porém as outras mu- 
lheres Mouras j vendo o muito que a amava , lhe 
derâo veneno , eftando pejada. Jguila , ou ^guia^ 
he huma Cidade na Província de Habat Reino de 
Féz , hoje arruinada y mas com fertiliíSmos y e vif- 
fofos arrabaldes^: nos bofques vizinhos ha muitos 
leóes , mas tâo cobardes y que fogem de qualquer 
menino, ^guiuy Rainha das Aves y a mais forte ^ 
veloz, e de mais alto voo: he de cor cinzenta or- 
dinariamente y e outras quaíi negras y o bico pre- 
to y curvo , olhos rafgados femelhantes aos huma- 
nos y vifta excellente ; faz o ninho em rochedos aU 
tiíEmos y fuftenta-fe y e aos filhos com carne de 
paíTaros y coelhos y lebres , &c. e tanto que podem 
voar, os leva nas unhas até o mais alto, quando o 
Sol eftá mais vigorofo , e então os larga , e dcí- 
pede para fempre : vive muito , tem duas ordetis 
de pennas fempre , e por iflo larga todos os annos 
huma , quando a iegunda eftá crefcida; algumas 
tem o bico amarelo , e todas géfto foberano. O 
Império Romano , cuja primeira bandeira foi hum 
molho de palha pendurado em hum páo , tomou 
depois a Águia por infignia dos feus pendões , e 

Eor iflfo chamarão Aquiliter ao Alferes : não fe fa- 
e quem foi certamente o primeiro y que efcolhea 
^as armas, fò fim, que o Imperador Confiante- 
no lhe mandou accrefcentar a fegunda cabeça para 
fignificar o dominio , que tinha nos dous Impérios 
de Oriente , e Occidente. * Muitos Authores at- 
feverâo y que certamente fe virão já Águias vivas 

com 



com duas cabeças y e que ha poucos annos viera 
da nova Hefpanha huma deftas embalfemada : íe 
affim he , creio procede de terem os ovos duas ge- 
mas , porque o mefmo fuccede a cada paflb nos 
das gailinhas, de que nafcem (como vi) frangaos 
com duas cabeças j quatro pés j e quatro azas ; po« 
xém nenhum vive , e poderão viver os monftros 
das Águias , por ferem mais robuftos. Nos ninhos 
das Águias fe achão humas pedras ouças , e fono- 
ras por caufa de outra, que tem dentro, e muitos 
julgâo fer ovo petrificado : chamâo4hc pedra de 
Águia y tem virtude para facilitar os partos ; e tu- 
do o mais que delia refere Dioícorides , e Mathio* 
Io sâo fabulas. JÍguia branca , he nome de huma 
Ordem Militar inftituida por Uladislao V. Rei de 
Polónia no anno de 1325^ , quando cafou feu filho 
Caíimiro com huma filha do Duque de Lithuania. 
Hum ninho de Águias pequenas , que acharão os 
primeiros Reis de Polónia , quando fe abrirão os 
alicerces da Cidade de Gnefna , deo occaíião a que 
fe tomafie a Águia por infignia defta Ordem : o ha- 
bito confífte em hum colar de cadeias de ouro , do 
qual pende huma Águia coroada de prata. Águia 
negra , he nome da Ordem Militar , que inftituio 
Frederico Duque de Brandeburgo , Eleitor do Im- 
pério y para folemnizar a fua coroação de Rei da 
rruífia, que fe fez em Conisberga a 18 de Janeiro 
dei7oi y àxzy em que a inftituio, e deo o habito a 
vinte Grandes da fua Corte : confífte elle em hu- 
ma banda cor de laranja y que corre do hombro e& 
querdo até o lado direito por baixo do braço , da 
qual pende huma Cruz azul cercada de Águias ne- 

Z ii %J^^^> 



( 262 ) 

gras, e a letra : Suum cuique y a cada hum o fen. 
Jguilarj he hum lugar de Hefpanha na parte Me- 
ridional do Reino de Navarra junto a Bifcaia , e 
rio Ebro, entre Logronho, e Salvaterra. Jguilar 
dei Campo y he huma Villa de Hefpanha emCaftel- 
la a Velha , quinze léguas diftante de Burgos ío- 
bre o rio Alhama entre as Cidades de Calahorra, 
e Soria. D. Henrique II. a deo em Condado afea 
irmão D, Tello, Senhor de Bifcaia, ehoje a gozão 
os Marquezes de Aguilar. Jlguilar àelneftilbas y he 
huma Villa do Reino de Aragão. D. João I. a deo 
a D. Ramires de Arelàno, hoje pertence ao Duque 
de Monte Leão. Jguilar. Jeronymo de Aguilar, 
Hefpanhol Diácono, fez viagem para a Ilha deS. 
Domingos na America deHeipanha antes dos def- 
cubrimentos , e conquiftas de Fernão Cortez : nau- 
fragou a caravella nos baixos dos Lacraos , /al- 
vou-fe elle com dezenove companheiros no batel , 
e faltarão em terra na Cofta de Yucathan povoada 
dos Gentios Caribas , cujo Cazique mandou fepa» 
rar os que vinhão mais gordos para fazer delles fa- 
criíicio aos idolos, e banquete aos amigos : hum 
dos que mandou refervar por magro foi jeronymo 
de Aguilar , o qual fugio da gaiola de madeira , 
onde o alimentavão, para fervir, quando eftiveflc 
gordo, em outro facrifício: paflTou muitos dias pe- 
los montes comendo hervas , até que o prenderão 
outros índios inimigos dos Caribas ; a eAes fervio 
alguns annos com differente forte , até que chegou 
a ler valido do Cazique , a quem fervio na guer- 
ra : cfte por morte o deixou recommendado a feu 
filho, que lhe deo nas campanhas os primeiros em* 

pre- 



( 2^9 ) 

pregos 9 de que réfultou perder o amor i pátria, e 
nação , de forte , que não refpondeo á carta , em que 
Fernão Cortez o folicitou para a fua companhia , 
e morreo entre os bárbaros por feu gofto. O mef- 
mo fízerão outros companheiros , a quem os Cari- 
bes perdoarão as vidas. Aguillon^ ou Eguillotiy he 
huma Cidade de França em Agenoes de Guiena 
entre Agen j e Tonneins , banhada dos rios Lot , e 
Garona: foi faqueada no anno de 1430 , e eregida 
em Ducado Par no anno de 15*99. PoflTuio muito 
tempo efta Villa a (obrinha do Cardeal Richilieu, 
chamada Duqueza de Eguillon , hoje os Duques 
de Richilíeu. Jguirre. S. Martinho de Aguirre , 
òu da Afcensáo , da Ordem Seráfica , Martyr do 
Japão canonizado : dizem que era natural de Ver- 
gara em Guipofcoa, outros que deVaranguela em 
Sifcaia. O Imperador Taíco^Sama o mandou pren- 
der com outros Religiofos òo anno de 1596 : foi 
crucificado com vinte e finco companheiros , e o- 
brou grandes prodígios. Agojlinho. Aurélio Agof- 
tinho , Santo Doutor da Igreja , e íua hiz , naíceo 
em Africa na pequena Cidade deTagafte^ vizinha 
de Madaura , eHypponia na Província deNumídia : 
fcus pais forão Patrício, Cidadão illuftre Gentio , 
que no fim da vida fe baptizou ; e Santa Mónica , 
que com as fuás lagrimas converceo o marido 9 e o 
filho : nafceo a 13 de Novembro de 3 5* 4. A Mãí 
tão illuftre, como pia, defde o berço lhe enfinou 
íempre os Myfterios da Fé , de forte , que pade- 
cendo na primeira idade huma grande dor de efto* 
mago, pedio o Baptifmo; porém melhorandb; lo- 
go, o deferio para outro tempo: eftudou em Ma- 
Tom. VIL Z iii dau- 



C ^70 ) 

daará as Humanidades ; e paíTando a Cartago pfl<> 
ra frequentar os eftudos maiores ^ lhe morreo o 
pai, tenJo elle dezefetc annos : então fe applicou 
aos livros fagrados ; porém aborrecido do eôjrlo y 
os dcfprezou. Já então o engenho de Agoftinho 
era aíTombro, porque fabia todas as artes liberaes^ 
(elle o diz) íem queMeftre algum oeníinafle; mas 
eíTa mefma agudeza o fez cahir nos erros dos he- 
reges Maniqueos , que na fua feita lhe promettê* 
râo acharia a verdade , e bemaventurança : /ègui- 
iâo*fe os vicios da adolefcencia , fem que as lagri- 
mas da Mãi Santa lhe pudeíTem corrigir a vida« 
Enílnou primeiro em Tagafte, e depois Rhetorica 
em Cartago , onde em hum Certame Poético foi 
coroado pelo Pro-Conful Romano. Nove annos 
leguio os Maniqueos ; mas vendo que Faufto fea 
Bifpo , e entre elles Oráculo , lhe nãó dava foiu* 
ção ás dúvidas , que tinha naquella feita , não cui- 
dou mais nella ; e aborrecido dos licenciofos coí^ 
tumes dos eftu dantes Cartaginezes j enganou a mâi , 
e navegou para Roma , onde padeceo huma mor- 
tal enfermidade , de que o livrarão as oraçóes, e 
kgrimas da Santa Mãi aufente. Leo Rhetorica em 
Roma , e depois por confelho do Prefeito Syra- 
macho em Milão, onde o Imperador Valentiniano 
moço havia eftabelecido a Corte , ahi o veio buf* 
car a Mãi ; e confeguindo que elle ouviíFe os Ser- 
mões de Santo AmbrofiojArcebifpo daquella Cida- 
de , deixou os Maniqueos totalmente ; e á imita- 
ção dos antigos Académicos , duvidou de tudo , 
em quanto não achava verdade , que lhe fatisfizeíTe 
o entendimento tão fubtil nas iuas dúvidas , que 

San- 



( ^71 ) 

Santo Ambrofio temendo ograviffimo damno, que 
podião fazer á Igreja os argumentos deAgoftinho, 
mandou que nas Ladainhas do feu Bifpado ( que 
ainda hoje tem efpecial rito em tudo ) diffeííem : 
Da Lógica de Jgòjlinbo nos livrai , Senhor. Alif- 
tou-fe Cathecumeno ; e ouvindo contar a prodi- 
gioía vida, ^ morte (então fuccedida naPaleftina) 
de Santo Antão Abbade, afflrgio-íe, vendo que os 
rudes conquiílavão o Ceo , e qne elle doutiíEmo 
vivia immerfo em dúvidas , e .vícios : ifto , os Ser- 
mões de Santo Ambroíio, os confelhos deS. Sim- 
fliciano j e as orações , e lagrimas da Mãi j a quem 
um Anjo tinha moftrado Agoftinho em huma vi- 
são nomefmo paralJelo^ em que ellaeftava; e San- 
to Ambrofio tinha dito , que era impoíEvel fe per- 
defle hum filho de tantas lagrimas , o obrigarão a 
deixar a Cadeira, e retirar-íe para a quinta deVe- 
recundo, onde fe applicou á lição dasEpiftolas de 
S. Paulo. Hum dia, para a Igreja fempre memorá- 
vel , e que cila fefteja , eftava Agoftinho vacilan- 
do nas verdades Catholicas reclinado debaixo de 
huma figueira com p livro das Epiftolas á vifta , 
quando ouvio a voz de hum Anjo , que íuavemen- 
te cantando lhe diflt : Levanta-te , e lê. Sentou- fe , 
abrio o livro , e o primeiro texto , que fe lhe ofFe- 
receo aos olhos , roi aquelle , em que o Apoftolo 
nos diz , que deixemos contendas , emulações , ban- 
quetes, elaícivias, enosviftamos dejelus Chrifto , 
imitando-o. Então lhe entrou a luz do AltiíEmo 
no entendimento , e cahio como outro S. Paulo. 
Teftificárão as lagrimas a firme refolução , com que 
abraçava a Fé ^ e as da Mãi ^ e amigos feftejárão a 

re- 



( ^72 ) 

refoluçâo, que teve o deíejado fim em Miláo no 
fabbado Santo do.anno de 387 , rendo Agoftinho 
trinta e trez annos de idade. Baptizou-o Santo 
Ambroílo , e com elle a feu filho natural Ádeoda- 
to, e feus amigos Álipio , Nebridio , Ponciano y 
Simplício, Fauftino, Condolo, Valeriano, Jufto, 
e Pauljnó; Acabada a função , Santo Ambrofio 
cheio de alegria difle em voz alta : Te Deum laun 
damus , e Santo Agoftinho de joelhos refpondeo : 
Te Dominum confitemur , e ambos alternadamente 
compuzerão todo o Hymno Te Deum , defde então 
o mais eftimado da Igreja , e quotidiano. No Do* 
mingo in Albis , em que Agoftinho , e todos os 
Neófitos defpírâo as veftiduras brancas, veftio eU 
le o habito preto feito por Santa Mónica, cingio- 
íe com corroa , e fe coníagrou a Deos no eftado 
Religiofo, que naquelle tempo coníiftia em deixar 
tudo, viver cafto, e folitario. Para executarem el* 
le, e feus amigos efte fanto propoílto, determina* 
râo a jornada para Africa , fazendo caminho por 
Roma, onde não podendo ji aquelle Sol da Igre- 
ja tolerar a loberba djos Maniqueos, efcrevço con* 
tra elles o primeiro livro. No porto de Oftia Ty- 
berina , não tendo yi Santa Mónica mais que defe* 
jar nefta vida , paíTou delia para a Bemaventuran- 
ça , e foi íepnJtada no Templo de Santa Áurea. 
Deo pouco deppis; Santo Agoftinho Regra aos 
Monges de Etruria , e na praia fronteira á Cidade 
de Corneta, querendo efpecular, e comprehender 
o Myfterio da Santiífima Trindade, lhe appareceo 
o. Anjo em^gura de menino , que intentava com 
fa uma concha lançar todas as aguas do mar exn inti- 
ma 



(^73 ) 

ma pequena cora ; e dizendo-Ihe o Santo , que era 
trabalho inútil , lhe refpondeo , que aflim traba* 
Ihava elle; cdefapparecendo , ficou até hoje no íi- 
tio huma prodigiofa fonte. Em Africa lançou o ha* 
bito religiofo a muitos , que lho pedirão , e com 
elles em caía de feu pai eftabeleceo a Ordem Ere- 
mitica, e viveo com elles trez annos , exercitando 
as virtudes , efcrevendo livros , enfinando os ru- 
des, e convertendo hereges. Tão grande era Agol- 
tinho nefle tempo , que com as fuás orações curou 
de huma chaga incurável a feu amigo Innocencio , 
quando intentavâo cortar-lhe a perna ; e de forte 
dpp/audia já Africa a fua fama y que elle fugia das 
Cidades^ quenãotinhãoBiípos, temendo o elegef- 
íem os moradores : veio porém a Hypponía para 
converter hum amigo fem aquelle receio , porque 
nella havia Bifpo ; mas aíEftindo ao Sermão defte , 
em que confultava o povo na eleição de hum Pref* 
bvtero , todos clamarão foíTe Agoftinho ; e não 
coftante repugnar elle com toda a efHcacia , o or- 
denou o Bifpo S. Valério , e para o confolar , Jhe 
deo huma horta, em que edificou ofegundo Mof- 
teiro da Ordem Eremitka. Ordenou-Jhe prégafíe 
na fua prefença , coufa até efle tempo nunca vifta 
cm Africa ; e temendo lho tiraífem para Bifpo de 
outra Cidade, alcançou do Primaz lho confagraí- 
fe por Coadjutor, e futuro fucceflbr na Mitra de 
Hypponia. Nefte meio tempo dilputou Agoftinho 

gublicamente dous dias com Fortunato, Bjfpo, e 
leftre dos Maniqueos , o qual envergonhado , e 
convencido, fugio. Por ordem dosBiípos doCon- 
ciJio Hypponenfe difputou neIJe com admiração de 




C a74 ) 

todos. Depois de fagrado Bifpo foltou os aque» 
dudios da iabedoria em livros , e Sermões contra 
todos os hereges daquelles feculos, e contra todos 
os futuros, como a Igreja confeíTa nos feus Hym« 
nos : daqui fe originou intentarem muitas vezes ti« 
rar-lhe a vida , que Deos lhe confervou prodigio- 
famente. Começarão as Igrejas de África a pedir 
Religiofos Eremitas para feus Bifpos neífe tem* 
po , outros também rogados fahíráo para fe orde- 
narem Presbyteros y e ajudarem os Bifpos ; e A- 
goftinho vendo que devia hofpedar a muitos j e 
que os hofpedes inquietavâo os Religiolos y cha* 
mou para as cafas Epifcopaes alguns de feus Ere«* 
mitas, que todos erão Leigos , e os ordenou j os 
quaes depois de ferem Clérigos confervou na fua 
companhia para ailiftirem aos hofpedes : deftes fe 
confagrárâo depois muitos em Bifpos, com ane fe 
proverão as Igrejas de Africa. Padeceo Agoírinho 
innumeraveis trabalhos pela Igreja , difpotou trez 
dias com Félix Maniqueo y que abjurou y venceo 
Emérito, Bifpo, e cabeça dosDonatiftas, perante 
os Legados Àpoftolicos ; o meímo fez aos* Arria- 
nos, relagianos, e Çemi pelagianos , já com difpu** 
tas , já com livros , pregando , ouvindo requeri* 
mentos , defpachando benignamente a todos , e 
paífando ordinariamente os dias fem comer para 
acudir a todos. Foi tão eímoler , que muitas ve- 
zes reduzio a dinheiro os vafos fagrados para re* 
mediar os pobres.; táo defintereífado , que não fó 
recufou doaçóes feitas á fua Igreja , mas cedeo de 
muitas antigas , entregando aos herdeiros dos que 
as fizerâo as efcrituras. Entrarão os Vândalos 

em 



( *7ir ) 

em África , e depois de a conqiiiftarem qiiafi toda , 
cercarão Hypponia ; e o Santo vendo as calamida- 
des j que padeciâo as fuás ovelhas y pedio a Deos 
que ou livrafle a Cidade, ou confortafle osCatho- 
licos para tolerarem tantos males , ou finalmente o 
tiraife defta vida. Adoeceo no terceiro mez do íi» 
tio 9 curou hum enfermo , pondo-lhe as mãos na 
cabeça , ordenou lhe tiveíTem diante fempre os 
Pfalmos Penitencia es, que lia, derramando copio- 
fas lagrimas , e entregou a alma a Deos a 28 de 
Âgofto de 430 , com letenta e féis annos de ida- 
de, e trinta e quatro deBifpo. O feu Corpo, Mi- 
tra, eBago forâo trasladados para Sardenha , quan- 
do os Vândalos conquiftárâo Hypponia ; tudo ref- 
gatou Luitprando Rei dos Lombardos , que lhe deo 
lepultura na Igreja de S. Pedro in Cwlo áureo na 
Cidade de Pavia , onde alternadamente aíEftem ao 
corpo do Santo os Eremitas , e Cónegos Regran- 
tes , feftejando eftes S. Pedro , aquelles Santo A* 
froftinho. Compoz o Santo Doutor innumeraveis 
ivros , dos quaes alguns fe perderão , e hoje exif* 
tem da ultima imprefsão , correâa pelos Monges 
de S. Mauro , os que compõem onze volumes 
grandes. Hum Anjo lhe tirou o coração , quando 
elle efpirou, e o deo muitos annos depois aS. Se- 
gisberto , Bifpo em França , indufo em huma cuf- 
todia , hoje íe ignora onde eftá ; mas em quanto 
o Anjo o não levou , não entrava herege na Igreja , 
em que elle fe guardava , porque morria ao entrar 
da porta ; e quando fe cantava o Trifagio Seráfi- 
co Smfíusy SanStusy Sanílus^ dava faltos, feftejan- 

4o a Trindade Santiíllma. O feu Bago , e Mitra 

fe 



( a7<5 ) 

fe confervâo em Sevilha ; hum dente no Santuário 
do Convento de N. Senhora da Graça de Lisboa ; 
relíquias em todo o orbe Cathoiico. Jgojiinbo de 
Cantorbery. Santo Agoftinho , Arcebifpo de Cantor- 
bery no Reino de Inglaterra, da Ordem deS. Ben* 
to , e Apoftolo de Grão Bretanha : era Prior do Moí- 
teiro de Santo André em Roma , quando S. Gregó- 
rio Magno vio naquella Cidade vender os meninos 
Inglezes gentios em praça publica; edizendo-lhefe 
chamaváo Anglos , exclamou chorando: Âi quefor^ 
mofas almas poffue o demónio ! Com razão lhe cbamão 
Anglos , porque parecem Anjos. Mandou logo Santo 
Agoftinho com outros Monges da mefma Ordem á« 
quellailha, onde pouco antes fe haviâo eftabelecido 
os Inglezes , e Saxonios , expulfando os Bertôes , que 
íe tinháo retirado para Gales , e Cornualla , os pou- 
cos, que não entrarão em França : dizem concorre- 
ra , e pedira efta Mifsâo a Rainha Bertha , filha de 
Cariberto, Rei de França, mulher deEthelberto, 
Rei deKent em Inglaterra , e gentio, a quem ella 
moveo fempre para abraçar a Fé , e confeguio fe 
converteíTe com as praticas de Santo Agoftinho , cu- 
jo exemplo feguio todo o Reino de Kent logo , c de- 
pois toda Inglaterra , de forte, que tendo principio 
aMifsão noanno de 596, em dia de Natal do arnio 
ieguinte baptizou Santo Agoftinho dez mil peflbas. 
S. Gregório o fez Arcebifpo de Cantorbery, a S. Me- 
lito de Londres , a S. Jufto de Rochefter : morreo em 
Cantorbery ziá de Março de 607 , e foi venerado 
por Santo, e Apoftolo daquelle Reino com todo o 
culto ^ e fiimma piedade até a entrada doScifma. 

LISBOA , Na Offidna de Miguel Maneícal daCofb , Impreffor do 
Saqto OfRcio. Anno 17^4- Cojtn todas asUc^fai ncc^ariêh 



( >77 ) 

CONFERENCIA XXIV. 



AGoJiinho de Sicília , conhecido pelo nome 
deMatthens deTcrmes em toda a Itália, 
* he o Beato Agoftinho Novelo da Or* 
dem dos Eremitas de Santo Agoftinho , e 
do qual ella reza ha trez annos a 28 de Abril: ef- 
tudou em Bolonha , onde fe graduou em Direito 
Civil, e Canónico, que depois enfínou na mefma 
Univeriídade : daqui paflbu a Sicilia , onde naf- 
cera ; e o Rei Manfredo , conhecendo a Aia gran«< 
de capacidade 9 o fez primeiro Miniftro^ oflicio, em 
qiie mais refplandeceo a pureza dos ícus coftumes 
á vifta dos preverfos do Rei , a quem por força 
acompanhou na batalha de Benevento , e vendo-o 
«ella morto , fe auíentou do campo tâo disfarça- 
do, que todos julgarão tinha morrido no conflito. 
Em Sicilia, onde fc rccolheo occulto , teve huma 
enfermidade mortal , em que fez voto de Reli- 
gião , »fe Deos lhe dcffe faude. Reftituio-fe mila- 
frofamcate , quiz entrar na Sagrada Ordem dos 
regadores, e para o confulrar, mandou trez ve- 
zes chamar Rcligiofos Dominicos ; e os criados , 
não obftante as advertências, lhe chamarão fempre 
Agoftinhos. Conhêcé9 o fim dcfte myfteriofo enga- 
no, tomou o habito, mudou o nome, e fò cuidou 
cm viver folitario , humilde, e defconhecido : pa- 
ra ifto pedio mudança de Sicilia para Tofcana , e 
efcoiheo o Convento de Santa Barbara , em hum 
deferto junto a Sena, cujo Prior o levou por com-r 
Tom. VIL Aa pa- 



(»78) 

panheiro aRoíTa. Âlli vio osfeus Religiofos affli- 
£los CQng huma demanda qqafi perdida na Caria , 
em qub fè intêreíTava ò património do Convento. 
Compadecido Fr, Agoftinho , bufcou o Letrado , c 
pedio-lhe o neceíTario para efcrever huma dilatada 
petição : fervio de recreio o intento , porque o 
Advogado vendo*o tSo humilde , pobre, emal ali- 
nhado , fe divertio com elle , julgando que nem 
ler fabia ; mas importunado lhe deo papel, tinta, 
e penna , com que fe recolheo Fr. Agoftinho y e i 
vifta dos autos fez huma petição tal , que vei> 
do-a o Advogado da parte contraria, diíTe: O» 4 
fez AnjOy ou demónio^ ou o Senhor Mattheus deTer^ 
mes , com quem ejiudei em Bolonha , e morreo na ha^ 
talha de Benevento com o Rei Manfredo. Quiz ver o 
Author , e conheceo logo era o que elle julgava 
marto: quiz publicar a todos o thefouro efcondi* 
do , e affligio*fe Agoftinho com exceíTo , pedindo» 
lhe o deixaiTe viver incógnito , íe bem não pode 
confeguillo , porque o condifcipulo deo aos Reli* 
giofos os parabéns de vencerem o pleito , e difle^ 
lhes quem era Fr. Agoftinho , de que fe feguio ve- 
nerai lo de forte , que o Bemaventurado Clemente 
de OíEmo , então Geral da Ordem , o levou com* 
figo para Roma: obrigou-o a que fe ordenafle Sa* 
cerdo te , e pedindo-lhe o Papa Nicolao IV. hum 
Religiofo para feu Penitenciário , lhe preíentoa 
Fr. Agoftinho, que fò conheceo o emprego, para 
que o conduzira , quando o Papa lhe poz as mâoa 
na cabeça , acção , que o obrigou a chorar exceí^ 
fivamente por humilde, e moveo a lagrimas o Pa«» 
pa ^ e Cardeaes prefentes. Sérvio nefte emprego ^ 

e no 



( ^79 ) 

c no de primeiro Miniftro a Nicolao IV. 9 Celcfti- 
no V. ^ e Bonifácio VIII. , rejeitando Mitras , e 
Capello Cardinalício em todos eftes Pontificados ^ 
e íiifpirando pelo ermo. Efte ultimo o mandou 
por Legado d latere a Sena para focegar as altera»- 
ções da Tofcana , c depois o obrigou a aceitar o 
oificio de Geral , que occupou fó dous annos do 
fexennío , c renunciou para fe retirar ao Convento 
folitario de S. Leonardo junto a Sena , onde com 
poucos companheiros viveo celeftialmente nove 
annos, e foi gozar o Ceo a 19 de Maio de 1309. 
Obrou muitos , e notáveis prodígios , teve defde 
ent£o em Sena , e toda a Itália culto publico com 
o titulo de Santo Agoftinho Novelo , que lhe con-« 
firmou oSantííEmo Padre Clemente hoje reinante. 
Agoftinho Portuguez. Fr. Agoftinho da Trindade y 
da Ordem dos Eremitas de Santo Agoftinho , en« 
íiaon Theologia na Univerfidade de Coimbra no 
decimo fexto fcculo ; o mefmo fez depois em To- 
lofa , onde compoz , e explicou fnbtiliííimamente 
oMeftre das Sentenças, e o Angélico Doutor San- 
to Thomaz : efcreveo hum admirável Tratado da 
puriífima Conceição da Virgem Senhora. Ainda 
hoje conferva o nome doSapientiíIimo Portuguez, 
até na boca dos hereges, que cofumírâo hum Tra- 
tado , que efcreveo contra, os Calviniftas , e ou- 
tros, jâgoftinhos sfio os Relígiofos Eremitas <Ie 
Santo Agoftinho , Calçados , e Deícalços. * Nefte 
titulo , e no de Santo Agoftinho efcreveo Moreri , 
como fempre a verdade ; mas os feus tradu6):ores., 
além de lhe accrefcentarem em toda a obra noti- 
cias Iridiculas, e vidas de íogeitos, que não inere- 

Aa ii cem 



( 28o ) 

cem lembrança alguma , neftes dous títulos vicia» 
rão o que elle^fcreveo y tão cegos , que mil ve- 
zes fe contradizem j e (em refpeito a Deos , Bui- 
las , Decretos, Concílios, e Cenfuras, nem pejo 
dos homens, diíTerâo que a Regra de Santo Ago(^ 
tinho era falfamente attribuida ao Santo, como fe 
foíTe neceíTario dizer tanto , para os julgarmos pe» 
los maiores ignorantes das determinações da Igre^ 
ja, hiftoria Eccledaftica , e Secular. Eftes Religio* 
fos Âgoftinhos Calçados paíTárão de Africa y on- 
de os &nidou, e propagou Santo Agofiinho, para 
Sardenha com o corpo do Santo Patriarca , e de* 
pois fe diâFnndírão por toda a Europa , na qual 
perfeguidos das guerras , mudanças de Impérios , 
pobres, retirados das povoações , íe dividirão em 
muitas Congregações^^ que tomarão os nomes dos 
íltiosi,. OU; Santos, que as governarão, confer^an- 
do-fe fempre muitas fó com o nome de Ordemnde 
Santo Agoftinho ; o qual appareceo trcz noites 
fucceílivas ao Papa Alexandre IV. cercado de hum 
grande refplandor , veftido com habito preto , e 
capello, citlgido com corréa, como usão^^os Padres 
Eremitas , e fobre o habito pluvial , e na cabeça 
mitra. Notou o Papa que o Santo Doutor neftas 
visões tinha a cabeça grande , e os membros do 
cprpo pequeno^ , do que admirado confultou ho- 
mens doutos , e pios , que todos aíTeritáráo figni- 
ficava aquella prodigiofa monftruofidade na cabeça 
grande o grande fundamento que o Santo fora na 
Igreja de Deos , e os membros pequenos a fua Re- 
ligião efpalhada pelo mundo, e deftituida de todo 
o favor : tudo ii^o são palavras formaes ' do: Papa 

Aíe- 



Alexandre IV. na Bolla da ooi^ dos Eremiaf As- 
guftiniaoos , em que refere a TÍsão , c o r 
dos qne confultou; e para o cxectitir, iin?o a 
das as Congregações de Sanro A^cniobo 25 
trás y qoe fendo do mefmo Sanro , e gTurÍ£:>iid a 
inefma Regra , fe chamarão hnxa de S. GtLino 




das neftes (itios , de forre qce o corpo rr:: 
dos Eremitas de Santo Ago&inho , cise fen?rfe ex* 
iftio , defde que os hindoa o Sanro , e haria Dr£b 
tempo ^ como diz o Papa , e todos com Svb^o As* 
toníno de Florença , crefceo notardis^ire coa a 
nniáo das outras Congregações ^ qi^e feaia As- 
guCkinianas , tinhão direr los cornes , e íe gortrsa- 
vâo feparadas. Crefceo àtic^ então eêa fsg^da 
Família tanto em virtudes, letras, drgnida^ie^, e 
numero de Conventos , que eires país^o de ào^^^ 
mil , e o mais nem fe pôde numerar , nem defere» 
.ver. Tiverão grandes litígios com os CoDego5 Rjc- 
grantes a refpeito da filiação de Santo Agi^nho; 
e hum deiles o múor j eque decidio aqoeíEao, \o\ 
em Pavia, de iorte que a Igrqa de S. Pedro, o* 
de eftá o corpo do Santo, ehe commua por alter* 
nativa dos mezes ás Religi6es Eremitica , e Ca- 
nónica , efteve dez annos interdicla , até que o Pa* 
pa Urbano VIII. fentenceau definitivamente a can- 
ia a favor dos Eremitas , ordenando que efies fò , 
e fempre , ainda que na alternativa nâo lhes com- 
petifle o mez de Agofto , feftejaflem com primei- 
ras , e fegundas Vefperas a Santo Ágpftmho , re- 
Tom. VII. Aa iii cc* 



( 282 ) 

cebeflTem a offerta da Cidade^ em cujo pendão vem 
Santo Agoftinho com habito Eremitico; e que em 
todo efte tempo não pudeflem os Cónegos Re- 
grantes entrar na Igreja , nem eftar no adro , ex- 
cepto á hora precifa , para celebrarem as MiflTas 
rezadas na fua nave : no dia porém de S. Pedro , 
ainda que competiíTe aos Eremitas o mez de Ju- 
nho , fariâo os Cónegos Regrantes a fefta do San* 
to Apoftolo 9 e os Eremitas íó poderião entrar na 
Igreja a celebrar as MiiTas rezadas na fua nave. 
Se o tradu£lor , e viciador de Moreri não fofle 
ignorantiíEmo , íaberia alguma coufa difto^ ou do 
que agora callo, para oefcrever em outro titulo, e 
efcufaria a todos o efcandalo j com que efcreveo : 
ChamãO'fe vulgarmente Cafas da Ordem de Santo -^- 
gojlinho todas as Communidades , que feguem a fua 
Regra , ainda que feja differente o feu Injiituto : os 
Cónegos Regulares fe tntitulão todos da Ordem de Sone- 
to Agojlinho , e com effeito são os que melhor o imi^ 
tão : os Religiofos Mendicantes chamados Agoftinhos 
pertendem fer de huma Ordem fundada por Santo A^ 
gojiinho y attendendo^fe ( palavra fielmente traduzi- 
da ) ^ huma Regra falfamente attrihuida a efte Santo. 
Tão rude , ignorante , e falto de noticias era ef- 
te efcrevedor , que fuppoe neftas palavras fer a 
Regra dos Eremitas diíFerente da dos Cónegos 
Regrantes , e da que profefsão fetenta e duas Re- 
ligiôes , fabendo todo o mundo que foi , he , fe- 
ra fempre a mefma , fem diíFerença em huma fó vifr* 
gula : e dizer que a dos Eremitas he falfa , he di- 
zer contra a mente da Igreja , que não ha Regra 
de Santo Agoftinho , e que mentirão os Concí-. 

lios. 



( »83 ) 
Jjos , e Papas , que diflerâo havia Regra feita por 
elle , e como fua a derão a íetenta e duas Reli- 
giões difierentes, além daEremitica, e Canónica, 
ás quaes a deo o Santo. Não tem numero os defa- 
tinos y que a nenhum louco lembrarão, e efcrereo 
efte ignorante , dizendo que a Religião Eremitica 
de Santo Agoftinho fe dividira em Monges Jero- 
nymos, Eremitas de S. Paulo , Religiofos de San* 
taBrigida, de Santo Ambroíio, Irmãos da Carida- 
de j e outras feíTenta. Fatal ignorância ! Os Sum- 
mos Pontífices derâo a Regra de Santo ÂgoíHnho , 
que profefsão Eremitas , e Cónegos , a algumas dei- 
tas Religiões, que nomea, quando osfens Santos 
Fundadores as inftituírão , e nenhuma delias nal^ 
ceo , nem he membro , em que fe dividio a Eremi- 
tica Âuguftiniana , mas fim cada huma efclarecida 
Religião nova , aífim como a fagrada , e venerável 
dos Pregadores, que tomou a Regra de Santo A- 
goftinho , a de S. João de Deos , a dos Servitas , 
&c, e ló quem for tão ignorante como efte efcrc- 
vedor , dirá que os Eremitas de Santo Agoftinho 
fe dividirão neftes , ou que eftes procederão dos 
Eremitas í e para que a fua ignorância não fe divi- 
da em muitos , diremos com Moreri quaes 5^ão os 
membros defte corpo myftico. Àgqftinbos Def calços. 
São os Eremitas de Santo Agoftinho, que delejan- 
do vida mais auftéra , e mortificada , fe defcalçá- 
râo, e com approvação dos Summos Pontífices fi- 
zerão difFerentes Conftituições , e fe propagarão 
em muitas Províncias com fingular benção em fan-* 
tidade, e letras. Muitas deftas Congregações, co- 
mo algumas dos Eremitas Calçados^ tem Vigários 

Ge- 



(2«4) 

Geraes ; mas todas compõem o corpo myftico dé 
huma fó Religião Auguftiniana , com hum fó Prior 
Geral por cabeça. Em toda a Europa , Áíia , e A- 
merica tem quaíi tantos Conventos , como os Ere- 
mitas Calçados na Europa, eAíia: he fua a Igreja 
Aulica dos Imperadores em Vienna de Auftria. Em 
Portugal lhe deo principio o Venerável ?• M. Fr. 
Manoel da Conceição , com o patrocinio da Sere-* 
nifllma Rainha D. Luiza ; em Hefpanha o Venera^ 
vcl P. M. Fr. Luiz de Leão , com o patrocínio de 
Fihppe III. ; em Itália o Venerável P. M. Fr. An- 
dré Dias ; em Alemanha o Venerável P. M. Fr. 
Marcos de S. Filippe y convidado pelo Imperador 
Fernando III. j que o mandou receber ao caminho 
pelo Cardeal de Harrach , e Grandes da Corte ; 
cm França o Venerável P. M. Fr. Mattheus de 
Santa Franciíca, todos Eremitas Calçados, que de- 
pois de rejeitarem Mitras , Capellos , e renuncia^ 
rem as primeiras dignidades nas fuás Provindas , 
abraçarão efta Venerável Reforma , novo Jardim 
da Igreja, jígoftinhas. São as Religiofas de Santo 
Agoftinho , a que vulgarmente chamão Monicas , 
ou de Santa Mónica , fundou-as o Santo Doutor 
em Africa , e lhes deo por Superiora huma irmã 
fua : algum tempo depois lhe moftrou a experiên- 
cia neceíEtavão Regra certa , e lhes deo a que já 
profeíTavão os Eremitas , mudando-lhe algumas 
coufas para ficar proporcionada áquelle íexo. Pro- 
pagou-íe de forte em Africa efta celeftial planta^ 
que na entrada dos Vândalos forão martyrizadas 
doze mil Religiofas Agoftinhas , de que trata O 
Martyrologio Romano^ e rezão os Agoftinhos a^ 

de 



(^8^ ) 
de Dezembro. As que vierão com o corpo do Pa- 
triarca , e mais Eremitas para Sardenha , fe eftabc- 
Iccêrão primeiro neíTa Ilha , depois em toda a Eu- 
ropa y Afia y e America , dando ao Ceo tantas San- 
tas, Beatas, e Venerareis Virgens não Martyres, 
como Martyres Virgens lhe derão no berço. Divi- 
dírão-fe, como os Eremitas , em Calçadas, c Def- 
calças , eftas íervem de exemplo , e pafmo em to- 
da a parte , e excedem na auftcridade até ás Car- 
tuxas: Roma confeíTa, que são as mais úteis para 
a Igreja humas, e outras; porque as Calçadas edu- 
cão as meninas orfans deíde a idade de trez annos 
até czfarcm^ ou ferem Religiofas, outras curâo as 
mulheres enfermas defamparadas , outras fervem 
nas clauíuras ás incuráveis , outras governao , e 
enfinão as filhas dos nobres ; e em fim todas imi- 
tão o Sol da Igreja íeu Pai , e feus Irmãos , para 
o augmento delia. Agtiyar. Hè hum Ducado de 
fíefpanha nas montanhas de Bonal , Reino de Leão : 
o feu ultimo poíTnidor toi Álvaro Peres Olorio , e 
foi incorporado na Coroa deHefpanha por Henrí» 
que IV. Rei de Caftella. Âbias , ou Acbias Profe- 
ta, natural de Silo, encontrou ajéroboão em hum 
campo perto de Jerufalem , raígou a capa em doze 
pedaços , e da parte de Deos entregou dez a Jero* 
boão, em final de que havia defer Rei de dezTri- 
bus , como o foi por morte de Salamão. Efte mef- 
mo Profeta vaticinou depois á mulher de Jeroboão 
( que disfarçada por confelho do marido o conful- 
tou a reípeito da faude , e vida do Principe feu 
filho doente ) que havia de morrer, e aniquilar*fe 
a fua cafa em caftigo das idolatrias de Jerobo ão. 



( 286 ) 

Jbiman , ou Achiman , filho de Enac , ou Hanafc ,' 
íe chamava hum da familia dos Gigantes , que ha* 
bitavâo a parte MeridioDal da terra de Chanaan: 
z fua prodigiofa eftatura atemorizou os explorado- 
res , que Moyíés enviou com Jofué , e Calcb ; os 
quaes introduzirão o mefmo horror no povo. Abio 
irmão de Oza , Levita ^ acompanhava com Oza z 
Arca do Teftamento , quando David a trasladou 
para Jerufalcm , e prefenciou a morte repentina | 
com que Deos caftigou a feu irmão no caminho , 
porque tocou a Arca para a fegurar , e evitar-lhc 
a queda y a que eftava expofta pela defenvoltura 
dos bois 9 que levavão o carro. Aix. He huma Ci^ 
dade de França , Capital da Provença alta , com 
Bifpo , Cancellario perpetuo daUniverfidade; dif« 
ta finco léguas de Marfelha para o Norte, e doze 
de Avinhão para o Levante : eftá fituadá janto a 
hum pequeno rio chamado Arco , em huma viftoía 
planicie. Os Romanos lhe chamarão Aqti£ Sextia^ 
onCivitas Aquenjísj por caufa das excellentcs Cal- 
das , que nella curão innumeraveis enfermos : foi 
Colónia Romana fundada por Sexto Calvino no 
primeiro anno do feu Confulado, no anno 630 da 
tundação de Roma, e 124 antes doNafcimento de 
Chrifto. Foi deftruida pelos Lombardos, Sarrace*^ 
nos, e outros bárbaros: os Condes de Provença a 
augmentárão , Carlos V. a reduzio a cinzas ; maa 
hoje he huma das mais excellentes , e formofas 
Cidades de França em tudo. Luiz XIL lhe eftabe- 
leceo o Parlamento em 1501 , Alexandre V. a Uni* 
verfidade em 149^ e todos os Reis de França lhe 
tem concedido honras , e privilégios 9 a maior de 

to- 



todas he confervar na Igreja de NoflTa Senhora , 
<}ue dizem edificara o Imperador Carlos Magno, c 
confagrára o Papa Leão III. , o corpo defte Impe- 
rador y de quem rezâo os Gregos , incorrupto , o 
feu boldrié, a fua efpada, hum livro dos Enar.ge- 
Ihos, de que ufava , e as relíquias de Santo Efie- 
vâo ; o que tudo envião a Francfort para a coroa- 
ção do Imperador, que he Cónego da Sé de Aíx, 
e fó nella pôde fer coroado , como o forâo mui- 
tos, e hoje para o ferem em Francfort, ou em ou- 
tra parte , he neceflario o confentiroento defta Ci- 
dade , petição deftas infignias , e penhor • delias : 
foi Corte de Carlos Magno , e nella fe celebrarão 
dez Concílios. J/a , palavra Caftelbana , de que 
uíirão os Portuguezes no feu principio antes de 
pronunciarem Aza , que no Latim he Ala : foi em 
Portugal a efclarecida Ordem da Ala de S. Miguel 
Archanjo , fundada pelo Venerarei Rei D. Am>n- 
fo Henriques , depois da batalha , em que venceo 
Albarac Rei Mouro de Sevilha , junto a Santarém , 
na qual , dizem lhe apparecêra hum braço com ha- 
ma aza , e efpada na mão pdeijando a íeu lado , e 
julgando fora o do Arcanjo j de quem era devotiC- 
limo , o declarou Cuftodio do Reino , e inftituio 
a Ordem Militar da Ala, cujo habito era o mefmo 
braço com aza , e elpada , com a letra : Quis ut 
JDiusy^ que he a dignificação do nome Hebraico Af/- 
chatL^ e com manto branco. Só entravâo nella oa 
illufires fem difpenfa , o tempo a eztinguio , e 
igDora-fe quem a approvou .: foi ioHituida no an- 
uo de II7I* Akiba , ou Alama^ he huma pequena 
Província de Helpanha ^ que £oi de Navarra , de* 

pois 



( 288 ) 

pois de Bifcaia , e hoje de Caftella Velha, confina 
do Norte com Guipofcoa y do Oriente com Navar- 
ra, do Occidente com Bifcaia, e do Meio dia com 
a Provincia de Rioja : he fertiliílima , tem minas 
de ferro , e grande commercio , os moradores na 
lingua, e génio participâo dosCaftelhanos, eBif- 
cainhos , intitiilárâo-fe Reis de Alaba os de Na- 
varra y e depois os Mouros , que a conquiftárâo j 
'depois a gozou com o mefmo titulo D. Aâ^on- 
fo de Caftella , a quem a tirou o de Navarra ^ e 
os naturaes aborrecidos de tantas mudanças , c 
governos fe oflferecêrão aô Rei D. AflFonfo XIL 
de Caftella para fempre , e elle lhes remunerou a 
offerta com grandes privilégios. Mabajtra. He ha- 
ma Cidade de Egypto , aíEm chamada , porque 
nellã fe fabricavão os admiráveis frafcos de peara 
branca finifllma , a que hoje chamamos Alabaftro , 
fe bem depois derão^fte nome a todas as vaíilhas 
de vidro, prata, e ouro, em que fe guardavâo os 
aromas , e óleos odoríferos , para que ie inventa- 
rão os de psdra , os quaes náo tinhão boca j mas 
fim cúpula , que grudayão fubtilmente com certo 
betume feito dopo da mefma pedra, egoma bran- 
ca, motivo, por que minha Senhora Santa Maria 
Magdalena quebrou o alabaftro para lançar o óleo 
aromático fobrc a. cabeça de.Chriftp. Alaçrêma^ y 
são humas Ilhas da Nova Heípanha , a qqe deo cf- 
te nome a prodigiofa multidão de Lacraos 9 que 
nellas fe criâo. 



LIS BO A . N? Offtcina de Miguel Mancfcal daCoíh," Imprcílor dp 
Santo Offido. Aano 17^4^ Cem tedas »siiep$fâs me^gfiriai.' /. 



CONFERENCIA XXV. 

Aluãf^ Rei dos Sarracenos na Alia , faben- 
do que os Catholicos haviâo alcançado al« 
gumas vitorias dos Turcos , levantou huni 
formidável exercito , com que cercou a Ci« 
dade de EdeíTa , e a conquiftou na noite de Natal 
do anno de 114$^ : efta perda ^ e a de Foulqaes^^ 
Rei de Jeru falem , que morreo na caça em 11 42 y 
foi a caufa de fe unirem^ e tomarem a Cruzada os 
Príncipes Catholicos perfuadidos jpor S. Bernardo ; 
mas por altos juízos de Deos. pouco fruto refultoa 
defta grande expedição* Juigâo muitos i^e efte A- 
laf, foi o que teve prizioneiro aBalduino II. , Rei 
dejerufalem, trez annos. Alagtm. Cláudio Alagon 
de Merargues ^ natural de Provença , foi Syndico 
de Marfelha , e a quiz entregar aos Reis de Hefr 
panha; mas cegou-oDeos, como poraltiífima pro- 
videncia ufa com osinfames traidores aos feus Prín- 
cipes : £ou o fegredo a hum forçado das Galeis ^ 
que moftrou kx nobre , porque o revelou ao Du- 
que de Guiza, e efte ao Rei. Foi Cláudio prezo ^ 
e degollado em Paris , onde fe (^roceíFou a caufa ^ 
e depois efquartejado v a cabeça foi expofta fobrç 
a porca de Marfelha mais publica , os quartos nas 
de Paris. Alaminos. António Alaminos, foi o pri- 
meiro Piloto que deícubrio na America de Hefpa- 
Ilha, aProvincia vaftiíIimaYucatão^ na Armada de 
Fraocifco Fernandes de Córdova , no anno de 1 5 1 7 : 
eftes ambos defembarcárâo na Florida ^ onde oa 
. Tom. VII. Bb àccom- 



( ^90 ) 

flccommettêráo os bárbaros, que mattfrao Francis- 
co Feroan^s, e ^r(râo na garganta Ancooio Âla* 
minos j qae (e retirou á nao j e continuou a via* 
gem como Governador, até que cedeo aGrixalva, 
e Fernão Còrtez , qoc o mandou a Sevilha $ e á 
fua grande experiência , e aétívidade fe deveo che- 
ca r a falvo o navio do avifo, porque nefta viagem 
^i o primerro , que navegou as perigoías corren- 
tes do Canal de Bahama , e fuftentou a defeza con* 
tra todos os insmigos barbairos^ que lhe impcdião 
a cada paffa a derrota. ./í/omír^, PrincipedeTarfo, 
tomou o nome de Calife no feculo nono: entrou 
nas Provincías do Império com tâo grande exerci- 
to^ e tSo foberbo blasfemo , que mandou dizer a 
André Scytha j Governador de Levante , que fe 
ibe preítntafle batalha, nem o Filho de Maria era 
capaz de o livrar das fuás mãos. Caftigou Deos a 
blasfémia : o Governador pendurou efta carta, nas 
mãos de huma imagem da Virgem Senhora j que 
kvou por eftendarte, com cujo favor venceo a ba- 
talha, em que morrerão millitíSes.de Sarracenos, e 
foi prezo Alamiro, que degollárão logo. Âlamun* 
dãFj Rei dos Sarracenos , k% nataveis eftragos ^na 
Paleftina em 5^09 , tirou a vida a innumeraveis Mon- 
;es , de que trata 6 Mariyrologío Romano a 1 9 
te Fevereiro; mas Deos que o tinha predeftinado , 
lhe illuftrott o entendimemo : e vendo os prodir 
gios y que obravão os Cathoíicos j pedio o BaptiP- 
mo. Apenas recebeo efta feliz noticia a Igreja do 
Oriente, acudirão os hereges Acéfalos , difcipulos 
de Severo j a perfuadíllo qutzeíTe baptizar-fe pelos 
íeas Bifposj e iegair os feus erros ^ que coníiftitfo 

. . na 



( *9i ) 

«a confbslíò das naturezas divina 9 e fcomaiii cm 
Chrifto ; e no abfurdo de dizerem , que a nature- 
za divina padecera em Chrifto. Dilatoa Alamuo- 
dar a refpofta , e entre tanto fingto huma carta , em 
que lhe davão a noticia de que tinha falecido o Ar» 
chanjo S. Miguel : communicou ifto aos hereges 9 
que lhe refpondêrão era impoffirel , porque os Ân^ 
jos erâo immortaes , c os glorioíbs impaíEireís ; 
então rindo^fe lhes diffe: Se bum Ahjo não póàe péh 
decer , nem morrer , amo bei de eu feguir bmnafeiiã 
de bomens tão loucos , que éúzem padeceo ^ e marreê 
a divindade. Recebeo o Baptifmo dos Catholicos 
Romanos j rivco j e morreo exemplarifEmo. jfíatH 
droalj como lhe chamavâo os Mouros , e hoje oa 
Hefpanhoes Landroal, pequena ViIIa de Portugai 
na ProTÍDcia do Alentejo ^ entre EWas 9 e Évora 9 
junto a hum ribeiro abundante de peixes , forti& 
cada com hum bom Caftello , no qual íe acha hu- 
ma infcripçSo Romana j em que fe faz menção do 
Deos Endovelico 9 ^ a quem os tradu£lóres de 
Moreri chamâo hum Deos eftrangeiro , por falta 
de noticias , fendo as mais fabidas no Alentejo j 
que nefta Villa houve hum Templo dedicado aCa^ 
pido 9 que iílb íigm'£ca Endovelico , a quem os Por- 
tuguezes davão o maior culto ^ affim nefie 9 coom 
DO de Villa-viçofa , titulo a que pertence a maior 
noticia. Ignorâo também a coufa mais notável del^ 
ta Villa y que he nunca lhe entrar pefte , por efpe- 
ciai milagre de huma antiquiífíma imagem de S« 
Bento 9 que nella fe venera. Alano da liba ^ ou ir 
Lila j por fer natural defta Qdade , ou como ou- 
tros querem « por fer efte o appellido dafua afcen^ 

Bbii dcn^ 



3 



( IPI ) 

ééniíà^t fcH ham dos mais infignes Dòntores da 
Univeríidade de Paris, da qual ioi Reitor, e me» 
receo nella o nome de univerfal. A fua maior fci- 
encia foi o conhecimento da vaidade mundana, que 
o obrigou adeíxar as honras, e tomar o habito de 
Cifter incógnito no eftado de leigo: occupárâo*no 
em guardar' os rebanhos do Mofteiro , officio em 
ue fervio a todos de íingular exemplo. O Abba- 
e, que mais eftimava a lua virtude, o levou por 
<:ompanheiro ao Concilio Lateranenfe , no quai 
vendo Alano , que íó fe oppunhão alguns argu- 
mentos de pouca entidade aosíofifmas fubtiliffimos 
de hum herege difcipulo de Amauri , defcubrio o 
theTput-o defabedoría que tinha efcondido, de for- 
te que o hereje convencido diífe , que ou era de- 
mónio , ou Alanb , a que refpondeo , que era Ala- 
no , e não demónio : calou*fe o herege , pafmárâo 
os Padres do Concilio, vendo nelle o fogeito mais 
douto daquelle feculo , ordenqu-lhe o Papa que ef- 
creveíTe , a que obedeceo prompto ; mas não foi 
polEvel nunca obrigallo a aceitar as muitas, e gran- 
des dignidades, que Iheoffereceo o Papa, e outros 
Príncipes : morreo em Cifter com bem merecida 
opinião de Santo no anno de 1294 , como diz o 
feu Epitáfio, que alguns querem íeja de outro Re- 
ligiofo em tuoQ femelhante , o que não he crivei. 
Jllano. Guilherme Alano , Cardeal do titulo de S. 
Martinho dos Montes , e melhor conhecido pelo 
nome de Cardeal de Inglaterra , onde nafceo da, 
nobiliífima famiHa de Lencaftro : eftudou na Uni- 
verfidade de Oxfbrt, foi Cónego na Sé de: Yorck, 
€ quando a Rainha Ifabel, filha de Henrique VIIL 

. e An- 



( *93 ) 

e Ânna Bolena ^ òrdenoa fio Clero n reconbecefle 
por faprema òabeça da igreja Ânglicdna y:k lhe 
oppoz Âlam intrépido ^ c depois fe retiroa parh 
'Lovaina, onde o patrocinou o *Rei de Heípanha^ 
:e efcreveo contra os Proteftantes : entrem depois 
em Inglaterra , e compoz outros livros yqut irri* 
tárâo os feus adverfarios , pelo que fe retirou aòs 
Paizes baixos. Foi Lente de Direito em Duay j 
Cone^ emCambray, fundou trez Seminários pa- 
ra os Inglezes Catholicos em Duay , Rhems , e 
Roma : recebeo o íCapello deíXiftò V. j a Abba- 
dia grande de Calabrir de Filippe IL , e OrArce- 
bifpado de Malinas^ para onde o nâo' deixou ir. o 
Papa, conhecendo a neceilidade da.íua peflba em 
Roma y onde faleceo aosifeíTenta e trez annos de 
idade no de i;r94« AlarcÍQ. Fernando- de Alarcão, 
Heípanhol , hum dos prrimeirbs Generaes > de Car^ 
los V.y. governou a Infantaria Hefpanhola násgueiv 
ras de Itália, em que obrou as maiores proezas em 
diverfas batalhas , de forte que os feus menos af- 
feiçoados coníeífavâo tinha morto* com a fua eípa- 
da em algumas funções duzentos inimigos , quan-- 
do menos. Foi fummamente amado dos íubditos>, 
e fó delle fiárSo o guardar , c conduzir até Hcípa- 
nha o Rei de França Francilco I. prízioneiro cm 
Pavia, como também o cerco do Caftello de San- 
to Anjo cm Roma, quando nelle fe refugiou o Pa- 
pa Clemente VIL : o Imperador Carlos V. em re- 
muneração o fez Senhor de Sicada , e Valle Si- 
jciiiano no Reino de Nápoles , com o titulo de Maf^ 
•quez defte fegundo Senhorio. Alarcão , Villa de 
ifíefpanha nò Bifpado de Cuenca , foi no tempo 
.Tx)m. VII. Bb iii dos 




( ^94 ) 

dos Moaros tâo forte j qoe a não pode expu^ar 
ti Iftfapte D. Hmrique no tempd doiRei D. Joáo 
IL de Heff^nha : defta Villa tomarão o fobreno» 
me os illuftres Zeirallos, que primeiro a conquiftá* 
rio aos Moaros. AlaricOy Rei dos Godos, foi hum 
dos maiores inimigos do Império Romano no fim 
do quarto ifeculoy e princípios do quinto: Rufino | 
tutor de Arcadiovdepois da morte de Theodofio 
o Grande , no anno de 39$^ o íolicitou a que en- 
trafle no Oriente , onde. arruinou muitas Provín- 
cias .,. invadiõ ItaUa ém.4Qf^ .foi vencido por Sti- 
4tcãé^ que o deixou ietirari^c depois o conyidou 
com grandes offer tas para lançar do throno Impe- 
rial Honório 9 e dallo a feu filho Euchario; porém 
Alarico, que fó defejava fitiar Roma, nao aceitou 
o partido, eStihcão.fe vío precifado aoffcrecer o 
mefmo. dinheiro ao Imperador, para que impedi/Te 
os defignios do Godo , o que fez duas vezes, oí^ 
ferecendo^lhe parte das Gaulas em remuneração 
dos interefles , que podia ter no faque de Roma. 
Quando Alarico hia tomar pofle defias terras ^ o 
flccommetteo no caminho Stilicâo ,: e foi morto , 
defcubrirâo-fe as maquinas , e traições que ufára 
-com todos, e Alarico cego da patxâo retrocedeo , 
e entrou a fogo , e fangue na Itália ^ deftruio Ro- 
ma , fem perdoar mais que aos lugares .íâgrados : 
nomeou por Imperador a Attalo , e no fegundo 
anno lhe tirou o governo, entrou por Gampania 
até Reggio ; e não podendo invadir Sicilia , retro« 
cedeo afHiflo , e morreo em Cozenfa , onde com 
grandes theíouros foi fepiiltado em hum rio. Ala^ 
rico IL Rei dos Více-Godos , fuccedco a feu pai 

Eva- 



• ' : f 



( ^9S ) 

Evaríco, on Eurico, no anno de 484, ratificou a 
,paz com os Fi^ancezes , e entregou a ^Clóvis , od 
Clodoveo, Rei de França, Siagrio ,. filho de Gi* 
lon, que vencido em huma batalha, fe tinha refu- 
giado em Tolofa : caftigou Deos efta aleivozia , 
:porque Clodoveo , depois de jurar nr.uitas vezes 
tratados de paz eterna.com ÂÍarico , os quebrou 
-todos , e o matou em huma batalha fobre o rio 
Cleno : unio á Coroa todos os efiados de Alari-- 
CO, que erâo Âqnitania, Ânverna,ToIoía, Uzes, 
e outras Cidades , e ficarão ló aos Yice-Godos as 
de Séptimania.na Gania Narboneza então dividi- 
da. Deixou Alaríco hum filho chamado Amalarico, 
havido em fua mulher Theodogata , filha do Rei 
dos Oftrogodos de Itália , e Gefalico baftardo ^ 
que tomQU poíTe do Reino , e expulfou o irmão le- 
gítimo , apenas lhe confiou efiava íeu pai morto , 
no anno de5'07. Alavino foi cabeça dos Godos ex- 
pulfos dofeu paiz violentamente pelos Hunos, pe- 
dio ao Imperador Valente oadmitttiTe com os feus 
por.vaflallo , e lhes permittiíTe habitaflem nas ri- 
beiras^ e margens do. Danúbio : com fummo gof- 
to lho concedeo Valente, parecendo-lhe , que nel- 
]es tinha a mais excellente muralha contra os ini^ 
migos do Império por aquella parte : não fe enga- 
nou, porém os léus Miniftros os affligírão de for- 
te com tributos , que elles tomarão as armas para 
fe eximirem delles : vencerão a primeira batalha ; 
e julgando o Imperador , que os atemorizaria com 
a fua prefença , aflifiio na fegunda , eiti que foi ven- 
cido , e morreo queimado em huma> cabana no an- 
no de 378. Jlbay he nome de trez^ ou quatro Ci- 

da- 



( ^9^ ) 

dades, entre as.quaes a digna de memoria foi AU 
ba longa , fandada por A^nio , filho de Eneas , 
e depofito dos Deòfes de Tróia : foi Corte dos 
Reis Latinos inimigos capitães dos Romanos j qne 
os vencerão na ceidire batalha ^ ou defafio dostm 
Horactos Romanos , e trez Curiaceos Latinos : 
mortos os trez últimos ^ ficarão pelo ajufte feito 
antes dd defafio j fujeitos os Latinos aos.Rom^ 
nos, os quaes deftruirâo a Cidade de Alba , Jevá- 
râo as fuás grandes riquezas , e peflfoas nobres pa- 
ra Roma, e confegutrâo fazer de ambos os poTOs 
huma fó nação , fortuna que fe deveo aó: Rei de 
Roma TuUio Hoftílio , que depaftor fubío aothro^ 
no. Junto ás fuás rninas fe edificou a Cidade de 
Albano, Principado hoje da Cafa Sabelli: he hum 
<los leis Bífpados iuffraganeos a Roma , titulo de 
hum dos feis^mtis antigos Cardeaes , e pátria de 
excellentes vinhos, ^iba Pompeia , he Cidade de 
Itália em Monferrato :. toi do Duque de Mantua , 
que a cedeo ao de Sabóia em 163 1. jíJba Real em 
Alemanha, na Hungria baixa, foi illuftriífima, nel- 
la fe coroaváo os Reis, e'erão lepultados: Amu- 
rates 11. Imperador dos Turcos a conquiftou no 
anno de lói, recuperou*a o Duque de Mercor , 
tomárSo*na os Turcos fegunda vez em 1Ó02 , e a 
poflTuíráo até 1688 , em que os Imperiaes a reco- 
brarão , e dominâo até agora. Jlba , ou ^/va de 
Tormesj he Cidade de Hefpanha no Reino de Leão, 
fobre o rio Tormes, diftante quatro léguas de Sa- 
lamanca , titulo do Ducado de Alva , de que usao 
os primogénitos dà Cafa de Toledo. Alva. O ce- 
lebre Duque de Alva D. Fernando Alvares deTo- 

le- 



'ledo , aprendeo a Arte Militar de feu pai D. Gàr^ 
cia, Almeirante deCaftelIa, de feu avô Frederico, 
General de Helpanha contra França , e Navarra ^ 
•do Conde Nadafii, e de Carlos V., a quem fervio 
em todas aa expedições militares com a efpada^ e 
confelho , na verdade heroe em tudo : na batalha 
:em que venceo o Duque de Saxonia , dizem , fuc« 
cederão alguns prodigios , e que hum delles fora 
•dilatar*(e o dia, como na de Jofué, e de D. Paio 
•Peres ; eftando depois o Duque de Alva em Fran- 
ça lhe perguntou ifto o Rei Henrique IL , e elle 
refpondeo: EJiabayo entonces tan occupado enJo que 
paffava en la tierra , que me def cuide todo de las co^ 
fas dei Cielo. Depois de governar tantos annos os 
exércitos do Império, e Hefpanha , fempre vence- 
dor, prudente, acautelado, e feliciffimo, o man- 
dou Filippe Prudente governar os Paizes baixos , 
a que hoje chamamos ió Hollanda , e fubjugar a 
fua rebeldia; difle elle ifto ao Príncipe D. Carlos, 
quando fe foi defpedir para a jornada , e a refpof* 
ta foi querer-lhe tirar a vida eomhum punhal, di» 
zendo : Primeiro te bei de cravar efte punhal no pei^ 
to , do que confentir vos dejiruir Provindas , que eu 
ejiimo tanto ; abraçou* fe o Duque com o Príncipe 
'Com tanta força, que o náo pode ferir, e gritou, 
que o Duque o queria matar , acudio o Rei , que 
liTás conhecia o génio do filho , a quem depois 
matou prezo, não lhe deo credito, e louvou a ac- 
clo fidelííTima do Duque, que.fó nefte governo foi 
imprudente, e defgraçado. Talvez cego da cóle- 
ra pelo que lhe fuccedêra com o.Priacipe, ufòu de 
todo o rigor nas Províncias unidas : tez degollar 

o Con« 



\ 



( »9« ) 
O Conde de EgtBOOt , em cajo faogue mulhárâo os 
lenços os Flamengos j e fobre elles jurarão honia 
tal uniáo de forças , e vontades j que perdeo Hef- 
panha tquelles notáveis Paizes ^ e riqtiiâimos do- 
miníos pela imprudência , e cólera do Duque de 
Alva. Nâo defcahio porém da graça do prudente 
Filippe , fenão quando abfolutamente negou fea 
filho o Marquez de Dória para marido de huma 
Camareira da Rainha j pelo que foi prezo oa Ci- 
dadella de Uzeda , e feu filho no Caftello de Tor- 
defilhas. Empenhou-fe debalde o Papa ^ eo&tlde 
França na fua liberdade, que lhe deo o mefmo Fi- 
lippe , quando neceífitou delle para a conqniíhi 
deite Reino 9 onde renceo ao Senhor D. António, 
na ponte de Alcântara em Lisboa , e morreo na 
Villa de Thomar nos braços de Filippe Prudente , 
que o tinha chamado para as Cortes : tinha íeten- 
ta e quatro annos, militou com eterna fiima íefleií- 
ta e quatro, faleceo a 12 de Janeiro de 15:8a., foi 
íeu corpo levado com grande pompa a Salamanca , 
e fepultado na Igreja de Santo Eftevâo , jazigo dos 
Duques de Alva. Huma das acçôes mais heróicas 
deite General , foi ter certa a conquifta , e faque 
de Roma, chegar de noite com hum exercito ven- 
cedor , e formidável aos feus muros , conhecer que 
tudo eftava em profundo filencio, e fem defeza, e 
mandar retirar o exercito finco milhas de Roma. 
Jlva , veftidura fagrada de linho , fignifica a vefte 
branca ^ que Herodes mandou veftir a Chrifto pqr 
efcarneo; também fignifica a innoeencia, e pureza 
da alma, com que a devem uíar os Ecclefiafticos: 
vefte-fe primeiro no braço direito em memoria de 

que 



( ^99 ) 

qoe effe foi o que primeiro crucificarão em* Chrif- 
to. InfUtoio Deos efta veftidura no Teftamento 
Velho efireita ^ porque íignificava o efpirito de e(« 
cravidão da Synagoga , a Igi^ejâ a afa larga para 
fignificar o efpiritp de adopção , e liberoade na 
Lei da Graça. * Ignora-fe quando íe começou a 
ufar í^^ Igreja j e alguns querem foíTe introduzida 
pelos Monges Gregos y que a ufárâo , e usão nas 
rrocifsôes : be certo que íempre foi habito dos pe* 
nitentes , e Neófitos ^ que a traziâo veftida os oi^ 
to dias, e noites deCde labbado Santo, em que re- 
cebiâo o Baptifmo y até o iabbado in Jlbis , aífim 
chamado , porque nelle defpião as Alvas. Muitos 
dizem que as introduzirão os difcipulos dos Apoí- 
tolos com íeu beneplácito , para cubrirem os vefti- 
dos pobres, comqueoelebravâo, mas iíto he equi* 
vocar a Alva com a Sòbrepelliz , que foi a primei- 
ra veftidora Sacerdotal , e Cafula , como fe dirá 
no feu titulo : o mais verofimel he , que a ufárâo 
os Gregos para vefte efpecial dos Diáconos , e 
S|ubdiaconos , por fer a antiga dos Levitas , que 
tinhâo femelhantes officios , depois o foi de todos 
os Ecciefiafticos , e confagrados a Deos , e os La- 
tinos lhe derâo o ufo que tem ao prefente. Âbala^ 
te. D. André de Abalate , da Sagrada Ordem dos 
Pregadores , infigne em virtudes , e letras , foi Ar- 
cebifpo de Valença , donde alguns querem fofle na* 
tural , fendo verofimel , que teve eíTa gloria Tar«* 
ragona : fundou o magnifico Mofteiro de Cartuxos 
chamado ?OTta QbU , confeguio em Roma de Ur» 
bano IV. a Cruzada contra os Mouros , aíEftio no 

Concitro de LeSo y e morreo com opinião de San- 
to 



[ 



C 300 ) 

tom Viterba Albanenfes fe chamarão huns here-' 
ges do. oitavo» fecolo , que renovarão a maior par- 
te dos erros dos Maniqneos : dizião que o infer- 
no era coufa fatiuloía^ que os Sacramentos, exce- 
pto o Baptiímo „ erâo íuperfkiçóes , que o mundo 
não tivera principio ^ eas Efcrituras dous , hiim 
bom y Pai de Chrifto author do Teftamento No- 
vo, outro máoy author do Teftamento Velho , pe* 
lo que o negavâo todo. Albânia ^ he o nome que 
antigamente . fe deo a toda a Efcocia Septeatrio- 
nal , a quem osnaturaes chamâo parte mais. alta ^ 
ou coita de Efcocia : hepaiz montuofo, e os feus 
habitadores , chamados Clanes j antigamente ví- 
viao de roubarem os vizinhos , que ordinariamen* 
te oiatavão com tjrrannia inhumana ; mas fe eAes 
os colhiâo , o caftigo era enforcar logo o princi- 
pal em huma arvore, e obrigar todos á fatisfaçâo 
do roubo : he efteril , e fó conhecida pelos íeus 
Duques, dos quaes forão muitos os Reis deEfco^ 
cia. Albano. Francifco Albano , natural de Bolo- 
nha, nafceo em 1578 9 não quiz feguir o emprego 
de feu.pai, que era mercador de feda, applicou-fe 
ao debuxo , e eftudo das bellas letras : em Roma 
íe fez pintor confummado, cafou em Bolonha com 
huma dama formoíiffima , de que teve lindos filhos , 
ella , e elies lhe fervkâo de exemplares em todas 
as fuás pinturas , hoje as mais eftimadas pelo arti- 
ficiofo, e engraçado : viveo oitenta e dous annos, 
eftimado dos Príncipes , venerado de todos , dei- 
xou os celebres difcipulos Francifco Mola, e Joáo 
Baptifta Mola. 

LISBOA , Na Oflidna de Miguel Manefcal daCoíla» ImpreíTur do 
"^ - Siato Offido. Aano 17^4. Cêtntoiêi êslictngai mc^mêh 



( 30' ) 

CXJNFERENCIA XXVI. 

A Lhano. Lago , e montanha fertiliflima na 
Campina de Roma. Albano j ou Monte AU 
banOj he huma Cidade pequena de Nápo- 
les com o titulo de Principado , fértil , e 
poiroada de muita nobreza. Albano. Santo Albano, 
primeiro Martyr de Inglaterra no tempo dos Im- 
peradores Âureliano, e Probo, dizem o converte- 
ra, e baptizara hum Eccleiíaftico , em cuja caía (e 
tcíiigiit^ no tempo da guerra , e não da perfegui- 
ção , porque em tal cafo feria já Catholico : ahí 
o prenderão , e foi condenado logo , executon-fe 
a lentença em hum íltio além do rio Cole, e o San- 
to nnilagrofamente o fez vadeavel, no caminho con- 
verceo o foldado, que lhe havia de cortar a cabeça, 
o qual também foi degoUado. O Martyrologio , 
que dizem compoz S, Jeronymo , diz que junta- 
mente com Santo Albano forão martyrizados nove- 
centos companheiros. Albarracin^ he huma excel- 
lente , e inexpugnável Cidade de Hefpanha , dif- 
tante trez léguas da T2àã de Caftella da parte de 
Aragão: fundou*a D.Jaime II. no anno de 1300, 
o Rei Mouro Abenracim , que a opprimio , lhe deo 
o feu nome , que depois corrupto ficou Albarra- 
cin , o Rei Lobo de Murcia lhe chamou Lobeto^ 
e a deo a D. Pedro Rodrigues de Azagra , Que a 
iC^và>qu com feus parentes , e lhe deo o titulo de 
íanta Mada: tem fortiflimas torres, muros, e Al- 
caçar, abundância de gados, peixe, caça, pão, e 
Tom. VIL Ce fru- 



( 302 ) 

frutas. Foi Cidade livre fera reconhecer outro So- 
berano 9 ou soverrto mais j que ô dos Ázagras , 
até que D. Pedro iV. lha tirou , offendido de D. 
João Alvares Nunes de Lara , ( ou de feus parentes) 
que a poífuia.como marido de D. Terefa Álvares 
de Azagra. Jlbaiada. He huma fértil , e abundan- 
te povoação de Hefpanha junto ao rio I régua , 
célebre nas hiftorias , porque na fua vizinhança 
derrotou gloriofamente o Rei D. Ramiro I. a Ab- 
derragman Rei de Córdova na batalha de Clãvi^ 
jo , e D. Ordonho L a Muza Abencazin Rci de 
Toledo, eD. Garcia Rei de Navarra: foi deftrui- 
da pelos Mouros , quando entrarão na Hefpanha , 
e reftaurada pelos mefmos para conterem as hoftili- 
dades dos Catholicos de Rioja. Âlberico. Santo 
Alberico , da Sagrada Ordem de Cifter , facceflbr 
de S. Roberto no anno de 1099 foi prezo , e mal- 
tratado no Mofteiro de Molefma, onde era Prior, 
para oue moderaífe a obfervancia regular ; e elle, 
que fo iífo defejava confeguir , apenas folto , dei- 
xou a companhia dos que não querião a reforma 9 
e com os Obfervantes fe retirou para hum deferto, 
donde veio para Cifter , e confeguio que o Papa 
Pafcoal II. tomaíFe a protecção defte exemplar 
Mofteiro , berço de innumeraveis Santos : dizem 
que íendo nelle Abbade nove annos e meio , com- 
puzera , ou accrefcentára as primeiras Conftituí- 
çôes da Ordem Ciftercienfe : nelle paíTou defta vi- 
da para a eterna a 26 de Janeiro de 1 109 , e obroa 
defde então contínuos milagres. Âlfónfo 'Òè Múffí/*oi ^ 
ou Affonfo de Monroi^ Grão Meftre da Ordem Mi- 
litar de Alcântara em Hefpanha^ era Claveiro dei- 



(303) 

íãj fendo Gtío Meftre Gomes de Cáceres, a quem 
elle macoQ , e fez que os Cavai leiras o elegeífem 
Grap Meftre ^ o que fizerSo obrigados de medo y 
porque Monroi tinha vencido y e morto o Gomes 
em batalha campal , e fe tinha apoderado de AI* 
cantara , e muitos Caftellos da Ordem no anno de 
k470« Depois de eleito por muitos , continuou a 
guerra contra os outros , que o náo reconhecerão | 
e defendiâo com a voz de feu anteceíFor muitas 
Praças. D. Francilco Solis , fobrinho de Gomes , 
cftava fenhor de Magazela , e para melhor vingar 
• morte de feu tio, fingio a queria entregar aMon» 
roi y íe ihe déífe para mulher fua filha natural : 
deo-Jhe credito o defgraçado Meftre , veio com 
mil e duzentos Cavalleiros tomar poíFe da Praça ^ 
e cego j em caftigo de feus peccados , quiz often^ 
tar valor, e confiança no genro, e entrou ló a vi^ 
fitallo. Chegada a hora de comer , fentárão-fe á 
meza , e em lugar de pratos vierâo grilhões , e 
algemas , com que D. Francifco prendeo o Meftre 
Monroi em hum cárcere ; e chegando logo as tro- 
pas do Grão Meftre de Sant-Iago , e da Condcça 
de Aleldim , a quem o Solis tinha pedido foccor- 
ro, forão prezos os mil e duzentos Cavalleiros de 
Monroi , que eftavão fora da Praça , e obrigou o 
Solis a todos que o elegeíTem por Grão Meftre 
da Ordem. Nefte tempo a Duqueza de Placencia , 
vendo efta cadeia de eleições nullas, denunciou ao 
Papa a dignidade por vaga , e coníeguio que el- 
le a conferiíTc a feu filho D, João de Zuniga : foi 
reconhecido de muitos defcontentes , e de outros, 
que tomarão o habito , e a Duqueza fe apoderou 

Ce ii de 



( 3^4 ) 

de Alcântara, e outras Praças importantes da Or« 
dem. PaíTados féis mezes de prizâo fugio delia 
Monroi ; mas como o feu peccado o feguia j foi 
logo prezo 9 e conduzido a Magazela, onde oSo- 
lis lhe mandou tirar ávida, fentença, que evitarão 
os rogos de Mofon Soto , que fe intitulava Cla- 
veiro da Religião, e foi commutada a pena capital 
em prizâo apertadiíllma , e fegura , -onde euere 
oito mezes , no fim dos quaes teve o Solis a deP- 
graça de cahir do cavallo em huma batalha , e fi- 
car de forte, que não podia levantar- fe: pedio foc« 
corro para iíFo a hum foldado , que tinha fervido 
a Monroi , e efte para vingar a feu amo prezo , ma- 
tou com eíbocadas o Solis proftrado : foube ifto 
Monroi , e confeguio que Mofon o foltaífe , jun- 
tou logo tropas , e entrou em Placencia , donde fe 
aufentára a Duqucza , e Grão Meftre Zuniga , pro- 
feguio a vitoria , reftaurando muitas Praças , e apro- 
veitando-fe da guerra , que então havia entre HeA 
panha , e Portugal , que difputava a Coroa a D. 
Fernando , e fua mulher D. líabel , íeguio o par- 
tido dos feus Reis , a quem fe opunha com Por- 
tugal a Duqueza de Placencia , e confeguio ordem 
para lhe fazer toda a poíEvel guerra ; mas depois 
levado da fua natural inconftancia feguio a voz de 
Portugal contra D» Fernando , até que feita a paz 
no anno de 1479 , foi hum dos Artigos , que os 
Reis Catholicos perdoarião ao Grão Meftre Af- 
fonío de Monroi , e que eíle renunciaria a digni- 
dade , o que ellc fez , e morreo pobre Cavallciro 
particular, Alfredo ^ Rei de Inglaterra, quarto fi- 
lho de Etelulfo ^ e de fua primeira mulher Osbur- 



ga^ diamado também Dalfredo, e Alirredo y fuc* 
cedeo noanno de 871 a feu irmão Ethelredo , nren* 
ceo a Gitro Rei dos Danos y e obrigou a fer Ca- 
tholico y e todo o feu Reino , fundou trez Mofteí- 
ros , e a Univeríidade de Oxford , convocou ho- 
mens doutos para Inglaterra y gaftava oito horas 
cada dia em eftudo y e oração , outras tantas em 
ouvir feus vaflallos y e para excitar os doutos a ef-* 
tndos, compoz huma collecçâo deChronicas, tra- 
duzio os Diálogos de S. Gregório y o tratado de 
de Confoiatione Pbilofopbia y os Piai mos de 
y a hiftoria de Oroíio, e outras obras: rei* 
nou com immortal gloria y dando leis fantas á 
Grão fiertanha vinte e oito annos y íuccedeo*lhe 
íeu filho Eduardo , do qual y e dos mais Reis de 
Inglaterra fallaremos no feu Cathalogo y não ob- 
ftante pertencerem a efta letra outros. Alftafiord y 
ou Alfia y he hum Golfo na Cofta Meridional na 
Ilha de Islanda. Algaevejo , he hum lugar de Hef- 
panha no Reino de Córdova , diftante dcfta Cida- 
de trez léguas : tem duzentos vizinhos y e dilata* 
dos campos y nos quaes íe acharão muitas fepultu- 
ras no tempo y em que plantarão vinhas y todas 
com boas campas, efpecialmente huma de hum Bif- 
po chamado Martinho , que morrera , fendo man- 
cebo y em Maio na era centefima iexageíima nona. 
Algarria y ho huma das quatro partes de Caftella 
a nova ^ e a mais coníideravel de todas y porque 
contém no feu território Madrid y e Toledo : ou- 
tros lhe chamão a Planície , e os Hefpanhoes la 
Llanura* Álgebra. Tomou efta fciencia , a que per* 
tencem os pezos, e medidas, o feu nome da pala* 
Tom, VIL Ce iii vra 



vn Arábica Algebar , que íignifica reftabelecer ^ e 
reparar , por fer o fim defta fcíencía , fegundo os 
termos dos feus Profeflbres , reduzir os termos da 
comparação á forma defejada da igualdade. Os 
Arábios j e Perfas efcrevêrão muito nefta fciencia , 
e melhor que todos Cartezio , a quem muitos dif- 
putáo eíTa pequena gloria para a grandeza do fea 
engenho. Algezur. He huma povoação do Reino 
do Algarve, aquém os additadores deMoreri ch^- 
mão Cidade , diftante trez léguas pequenas , m^s 
aíperas, de Monchique , conquiftou-a aos Mouros 
o Rei D. Afibnfo III. : nella eftão as caveiras de 
huns Santos milagrofos, e efpeciaes advogados de 
todas as molcftias da cabeça , como eu experimen- 
tei : ignorâo-fe os nomes , e vidas , e fó exiftem 
humas tradições confufas, e feinvocâo, e venerao 
com o nome de Santas Cabeças com immemorial 
culto , fendo certo não fó para as moleAias da 
cabeça o (eu patrocínio, mas também, o que atrei- 
ta o Reverendo Pároco daquella povoação , ( que 
foi Villa , e tem efle nome , e privilegio , fem Juiz 
de Fora ) e confifte ^ em que fe tocão com eftron- 
do as duas Cabeças repetidas vezes no lugar , em 
que eftão fechadas , tanto que fahe de fua cafa qnaU 
quer devoto a vifitallas , para confeguir remédio , ou 
agradecello , de que reíulta dizer o Pároco , quan« 
do ouve o eftrondo milagrofo : Temos hofpedes , San^ 
tas Cabeças^ porque a pobreza do lugar, e falta de 
eftalagem faz que o Pároco hoípéde a todos. Se 
tiver mais claras noticias deftes Santos , as quaes 
folicito , darei conta delias nefta Academia na le- 
tra C, e palavra Cabeça. Algezira^ he huma Ci- 

da- 



dade de Hcfpanlia no Eftreito de Gibaltar com 
bom porto , e antigamente muito confideravel , 
mas hoje inteiramente arruinada : muitos com Ma- 
rianna fe enganarão , julgando que ella era Tarifa, 
c outros Cartagena. Âlguer , ou Jlgeri , antiga- 
mente Corax , he Cidade da Ilha de Sardenha' na 
Cofta Occidental, comBifpado fuffiraganeo deSaf- 
fari ; ha nella a mais ezcellente pefcaria de coral , 
ipe excede aos das outras partes , que sâo Boca , 
licilia , Catalunha , e Ilhas de Malhorca. Albacan , 
R.ei Mouro de Toledo , impoz exorbitantes tri- 
butos aos feus vaíTallos , que opprimidos lhe nega- 
rão a obediência , e elíe para melhor os caftigar 
mandou o Governador de Çaragoça , e Huefca , 
Amoroz , bem inftruido , com huma carta pater- 
nal , em que expreflava o muito que fentia havei- 
los magoado , mas que efperava compuzeflTe aquel« 
le Deputado a diflensão, de forte que o povo co- 
nhecefle o feu paternal affedlo : aíEm o fez Amo- 
roz , levantou os tributos ,. e perfuadio a todos 
que em íinal de agradecimento ao Rei devião edi- 
ficar no meio da Cidade hum Forte , ou Torre pa- 
ra defeza dos feus MiniAros , para o que fe abrio 
hum grande poço: mandou logoAlhacan feu filho 
Abdurrahamen com hum grande exercito para hu- 
ma fingida expedição , o qual fe acampou na vizi- 
nhança de Toledo 9 e os moradores vendo o Prín- 
cipe herdeiro jFóra da Cidade , lhe rogarão fe hoí* 
pedafle nella , o que também fingidamente lhe per- 
fuadio Amoroz j entrou elle ^ efcolheo para quar- 
tel huma parte do novo edificio y e convidou para 
cear os principaes do povo y que julgando tinhão 

nif- 



( 3o8 ) 

niflb a maior honrt , ríetâo todos y e ápena? ea- 
trayâo, os hiâo degoUando^ e lançando no poço, 
que fe fizera para alicerce da torre do edifício , até 
que hum advertio o perigo , rendêrâo-fe todos , e 
aceitáráo o tributo. Alhama , he Cidade nobre do 
Reino de Granada j a quem banha o rio Frio y e 
todo o território he hum jardim de fontes : tem 
huns banhos, tão efpeciaes j e tâo eftimados dos 
Mouros pelas fuás virtudes y que quando elles a 
dominarão , rendiâo ( diz Rodrigo Mendes da Sil- 
va ) quinhentos mil ducados , de que fe admirão 
muitos , porque ignoráo que no tempo dos Mou^ 
ros eftes erâo os que na Heípanha rendíão menos: 
hoje tem oitocentos vizinhos y foi conquiftada pe- 
los Reis Catholicos no anno de 1482 , e a primei* 
ra conquifta daquelle Reino. Alhambra , he nome 
Arábico do Palácio Real dos Reis Mouros de 
Granada , e o único y que confervão inteiro os 
Reis de Hefpanha para memoria da riqueza , e 
faufto dos Reis Sarracenos : admirão* fe nelle as 
mais excellentes falas, antecameras , e mais cafas y 
e nellas o melhor Porfido , Jafpe y e Mármore , as 
paredes , teflos y e mezas cubertas de ouro , e gra* 
vados nelles geroglyficos Egypcios , e cara£leres 
Arábicos y aíFás moftrão a grande riqueza daquel- 
les Reis , que hoje nenhuns imitâo nefta fuperflui- 
dade. Ha oíHciaes deputados para repararem o que 
damnifíca o tempo 9 goza a mais deliciofa vifta y e 
teve entre outras huma porta y pela qual fahio o 
Rei Mouro chamado Chico y quando vencido en* 
tregou a Cidade ao Rei D. Fernando y a quem 
pedio a mandaíTe fechar para fcmpre y e elle o fez 

de 



( 309 ) 

de forte ] que no fen lugar mandoa edificar hum 
baluarte, que exifte. Jlharitis , filho de Muavias, 
fot o primeiro j que inventou caçar com as aves 
chamadas Sacres , palavra derivada da Arábica Sal* 
Kara , que quer dizer vifta aguda , ou o que a tem : 
he eípecie diferente do Falcão, e íó no génio íe- 
melhante , mas tanto mais feroz , e melhor para 
^ caçar , que duas lançadas a huma Cabraz montez^ 
animal velociífimo , de forte a perfeguem pelos o- 
Ihos, que a fazem vir parar nas mãos do caçador. 
Ali^ palavra Arábica, quer dizer o Leão de Deos 
fempre vencedor , he nome do genro de Mafoma ^ 
cafado com fua filha Fátima: aeíte deixou na hora 
da morte por feu fucceíFor o fogro , declarando-o por 
Santo; masAbubequer, de que já tratámos, velho 
mais antigo , e fegundo contão os Mouros , efpe- 
cialmente meigo, efacil em conceder indulgências, 
lhe tirou o Califado , tendo por padrinhos a Omar , 
e Othman , que cedo efperavão fucceder-lhe , fup- 
pofta a fua muita idade , e com eíFeito ambos o con* 
feguírão hum depois do outro ; e Ali para íe vin- 
[ar compoz huma nova coUecção das malditas 
leis , e pravoices do Alcorão , pcrmittindo muitos 
âbfurdos , e com iflb adquirio os corações dos A- 
rabios , e outros muitos povos , que lhe derão ex* 
ercitos grandes contra os dous Califes Omar , e 
Othman , e depois contra Mahomet , filho do íè* 
gundo , e a viuva de Mafoma , aos quaes todos 
yenceo , como também a dous traidores , que fun» 
dados no Alcorão o perfuadirão aleivoíamente a 
que admittiíFe juizes árbitros na caufa de feu Ca- 
lifado y para o deporem : reinou quatro annos e 

meio^ 



\ 



mciO) c morreo «flaíEaadoi, por hum Mouro ," que 
fez vpto^em Meca^de o mawr ^ e a ftus CapitSwé 
jíUcaiu,e^ he huma exçellentfe Cidade de Hefpanht i 
íituada fto Medíteçraneo ^ e pertencente ao Reino 
de Valença : gOTja excellentes uvas , e vinhos , fc» 
licidade^ que deve. a hum curiofo agricultor delles^ 
que foi. bufcar ^s rii>eiras do Rhtm as mais excel? 
Jentes. vides ^ e as plaritounos arrabaldes deCta Ct«» 
dade y onde melhorados os fi:i)tos eòi terreno ef* 
tranho , mas para as fuás razões íeminaes o oiafs 
proporcionado , dáaos .nacuraes, eeftrangeiros ex* 
cellentâ bebida 9 e alimento , e.iao Rei nos direitos 
hum grande lucro» Tem hum forte Caftello na en* 
trada , e hum Molhe para fegurança das embarca* 
ções pequenas, que fá admitte o porto. Foi con* 
quiftada aos Mouros por Jaime L Rei de Aragão 
em 1164, a 8 de Julho de 1706 rendeo obediência 
a Carlos IH., e em Dezembro de 1708 a Fí/ippe 
V. , íe bem o Caíkello permaneceo na obediência 
de Carlos até o anno. íeguinte , em que fe rendeo 
em 9 de Abril. O mefmo nome tem o Golfo vizi* 
nho, em que fe comprehendem no mefmo mar as 
Coftas do Reino de Valença , e algum dia fe cha- 
mava Goifo de Illici« Aljubarrota^ he hum lugar 
da Eftremadura , diftante quatro léguas da Cidade 
de Leiria , aonde ganhou o Rei D. João L a 14 
de Agofto a memora v^el batalha, que tomou o no* 
me defte íitio , de que já tendes verdadeira noçida 
na vida deíFe Áugufto Monarca; e os.HefpanhoeS| 
e Morerí fundado nèlles , a deíarjeve com d£.s maío-p 
res falfldades , .que fe víráo na hiftoriá de Hefpa- 
t\\\2í. Almadravay he a íttio, ou ara>a3;em y em que 

fe 



(3") 
(è goardáo as redes , e mais couías neceflaria.^ pa- 
ra a p'efcaria dos Atuns, e hoje fechamão no Rei- 
no áò Algarve Almadravas , ou Almandravas os 
direitos , que pagão os Contratadores defta pefca* 
ria , e os Eftrangeiros , que levão para fora do 
Reino eftes peixes falgàdos. Almagro ^ he huma 
Villa de Hefpanha quatro léguas diftante de Gala-» 
trava , hoje fó conhecida pelos ex<:ellentes -ma- 
chos , e mulas , que nella fe crião : em outro tem- 
po a fízerão célebre os Cavalleiros dàquella- Or^ 
dem, e feõsMcfttes habitarão nella, de que ekif- 
ícm aiflidaõs Paladitfs, e pérgamihhos dos privilé- 
gios. Tem huma chamada Urtivèrfidade tão pobre 
6m tudo , como todas as de Hefpanha hoje , báí^ 
taiites vizinhos , e -potica 'tiobreza. Alpes , a quem 
òs Italianos ^chtfrtíao Aipi ,' 6 cs*Alertií[<s Albén ; 
^Sohnmafs níoiiiránhass que*féparfio Itália de Fran* 

Ík\ e Alemanha ydefdé o mar Ligtiftico , ou 'dô 
Vança, até o mar Adriático , ou, Golfo dê Vene- 
ta eníFriul: derão- lhe os antigos diverfos nòmes^ 
chaftoav^o Àlpefs mariítimos aos que eftaVão mais 
piroximos ao mar 3 e incluiâo as montanhas , que 
lê eftendem defde Savqna , e o mar de Génova ^ 
até Monte Vifa, dortde nafce o rio Pó, e outros 
nomes hoje totalmente ignorados dos feus natu- 
racs, e habitadores á vários íitiosddqiíellas frigi- 
diíEmas montanhas. Ha trez caminhos entre eftes 
montes para enifar*4N^.luilM«, -^ue «ao 'O^Eftrei- 
to da.Tenda, a EftrekQ diiCrDZi^.o «loi^te me- 
nor de S. Bernafdo ^^hi tambetn ibivtroí» Vit% eiii 
Argentiera , Monte Vifo , e Monte Genevro , mas 
tão perigofos y que rara vez os efcolhem os paíTa- 

gei- 



(3") 

geíros. He a nere perpetua neftes montes , nem 
podem numerar^fe os tnilhôes de peíToas ^ que elU 
nelles tem morto y ella forma os rios Rhim , Rho- 
dano y Adda , Ratíaonoi Savo , Dravo ^ e outros 
de menos nome , que regáo Alemanha , e Itália com 
excellentes aguas» O paiz he eíteril mais do que 
pôde encarecer-fe^ e fummamente defabrido, mas 
os Cantões feus habitadores agigantados , animo- 
fos , e robuftiíEmos. Alfaciay lie huma Província 
de Alemanha (icuada nas margens do Rhim , con* 
fina da parte Oriental com Lorena , pelo Occtdeti- 
te 9 e Norte com o Palatinado 4o. Rhin) ,. ao Meio 
dia com o Condado de Ferrara , Franco Conda- 
do , e Suiília : os Romanos a poíTuírâo mais de 
quinhentos annos, e depois os Francezes até olm- 

Í^erio de Othao L po feculo decima Othâo III. a 
ez Lanfgraviado |. e a Caía de Àuftria a-^pofluio 
aífim muitos annos , até que paíTou para o domi- 
nio de França ; depois a tomarão os Suecos , que 
a çedêrâo aos Hefpanhoes , e Auftriacos , e cftes 
ultimamente aos Francezes , que a pofluem dçldé 
o anno de 1^48 : he defabrida , fujeita a inunda-- 
çôes a baixa , por caufa das enchentes do Rhim ^ 
e a alta a nev^es , ventos ^ tempeftades , nada fru- 
tifera , nem ^dcUciofa , eftando no dominio da na* 
çãd, que boje melhor emenda com trabalho ^ e ar* 
te a natureza. 

XI^BÓ A . N4 OfBdna de Miguel Maõeftd diCoílt, Im^edor é» 
0iiUo Officio. Aon0i764. ÇmtoÍ9$ gu/iwf«# bi€(^mãi. • < 



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CONFERENCIA XXVII. 



ALJacielj onAIairielj he huma grande Pro- 
vincia no Império do Grão Mogor , e de 
que elle não fazcafo, eftá fituada na Coi- 
ta de Bengala com dous portos de mar, 
que fó admittem embarcações razas por dous rio« 
largos povQados de Jacarés , e Tigres : fepara-fe 
de Ârracão por huma ferra delicioTiífima peias ar- 
vores j e fontes , mas afpera no terreno , que pare- 
ce efcoria de ferro , e habitada de Tigres Reaes , 
e outros brutos ferozes j fe bem não coníta offen- 
deflem nunca aos moradores daquelle paiz j ou 
porque andão todos nús , ou porque diflPerem pou- 
co delles. O M. R. P. Fr. Agoftinho da Purifica- 
ção ^^ primeiro Miílionario de Arracão , da Ordem 
dos Eremitas de Santo Agoftinho y compadecido 
deftes miferaveis , atraveflfou a ferra a pé , não ten- 
do já nelles unhas, porque lhes tinhão cabido no 
caminho de Arracão: achou hum Império demonf- 
tros 9 brutos , ou racionaes filvcftres , porque vi- 
vem em covas , comem tudo cru , não tem Reli- 
gião alguma 9 nem fujeição , e fó moftrão o racio* 
cinio em levarem os enfermos ás coftas pelas co- 
vas 9 até acharem quem lhes applique alguma cou- 
fa para feu alivio ; e f e morrem , os enterrão no 
meímo íitio, onde dormiãoy quando erãQ vivos y 
e ninguém mais o piza , nem dorme fofare elles , 
dê íorce, que em nlorrcneb íihco^ du feis^pcflbas 
de huma familia ^ já não podem habitar na mefma 
Tom. VII. Dd CO- 



C V4 7 

cova , ou cemitério , e tem o trabalho de a entu* 
Iharem com a terra ^ e pedras, que tiráo do fítio, 
em que abrem outra para viverem , e fe fepulta- 
rem : não cultivâo a terra , nem vírâo nunca inf- 
trumentos para iíTo , fuftentão-fe com frutos íllveí* 
três , hervas , e caça , que tem em abundância ^ ef- 
pecialmente porcos , merús, bois, e cabras filvef* 
três, o que tudo matão com páos, e pedras facil- 
mente de noite. Nâo foi poíCvel admittirem a Re- 
ligiâo Catholica , nem vir hum para Bengala a- 
prender o Cathecifmo , fugiáo do Padre com te- 
mor reverenciai , e pofto que percebiâo baAante- 
mente a língua do interprete de Arracão j donde 
Vâo alli muitos búícar deita caça, quando padecem 
efterilidade de arroz ^ moftravâo que nâo entea^ 
díâo , tanto que elle lhes faltava em admittir aLci 
Euangelica , que certamente já fe tinha pregado 
naquelle pai% em outro tempo , porque em dous 
montes altiíEmos exiftem trez Cruzes dé pedra to í^ 
ca , que os naturaes por tradição venerio com te* 
mor fervil , porque todo o culto coníifte em tapa« 
rem os olhos para as não verem , e nâo (ubirem 
atrás das feras os taes montes , de forte que pa& 
márâo , quando virão que o Padre , e mais Ga- 
tholicos feus companheiros^as adoravãa de longe ^ 
e de perto ^ e fe abraça vâo com ellas ; porém ne* 
nhuma tradição puderâo defcubrír de quem as ere- 
gio , nem fe erâo diAio£livo de fepulturas de Ca- 
tholícos , porque nâo tiverâo inftrumentos para 
cavar os taes íitios ^ eliàs rochedos , e ellas feitas 
de pedaços toícos. O que ba digno de admiração 
neAe paiz he > que feado os habitadores tâo brii« 

tos 9 



( 3'jr ) 

tost, t lúmmamertte lafcivos , nâo sâo adúlteros ^ 
nem inceituolos , abítendo-fe ainda para o matri* 
monio das primas com irmans, egráos íuperiores, 
âo mefmo tempo em que vivem ^ e morrem ^ como 
naícem j e nunca tiverâo outro veftido mais que a 
pelJe y e por eípecial fegredo da providencia a ter-^ 
xã os nâo confome ^ ainda que eftejão enterrados 
mil annos, o que fe prova com a multiplicidade de 
cadáveres inteiros , e frefcos , que leváo as cheias 
pelos rio3 y de que já fizemos menção y para o mac 
todos os nnnos , os quaes eCtavao enterrados cm £*• 
cios y que ha muitos feculos nâo são povoados j 
por caufa das ímindaçôes, que refultárâo de fe in- 
tupirem com terra y pedras y e troncos de arvores 
aotiquiíEma3 as largas y e primeiras correntes , ef* 
feito dos grandes hiracóes alli certos , como em 
Moçambique, e toda a Contracofta de Africa de 
fetc em íete annos. No mefmo dia , em que lhes 
nafce hum £lho, ou filha, (acção myfteriofa ) co* 
meçâo com páos a romper a terra os pais y e pa« 
rentes,, abrindo a cova y em que hão de habitar , 
i]uando caiarem , e o caiar confifte em confentir a 
mulher que o homem níe delia, e antes, ou depois 
lhe ate o cabello com cabellos da íua cabeça , de 
forte que com tantas casão , quantas usSo , e os 
toucados das caiadas são os cabellos da cabeça dos 
mandos , que nellas fó teqi as dores de. os arran- 
car com as mãos para aÚp os das mulheres leaes 
atóá morte -^9 porque fe pr^cipitão nos rochedos, 
eotregão aos Jacarés nos rios , e em fim fe matâo 
c«mo melhor podem ,on menos padecan todas 
a$ Viiíjras ., Dão .obrigadas (como as Gentias .dp 

Dd ii Ori- 



Oriente qiiaíl todo) da neceíHdade, c credito, mas 
fim da íaudade , e amor defordenado : elles pelo 
contrario nãò conhecem extremo, enomefmo dia, 
em que fepnltSo huma , vão toucar outra. Vivem 
muito , e sâo perigoíiílimos os partos naquella gran- 
de Província , que feria pequena para tantos bru- 
tos , fenão morreíTem nos ventres , e nafcimento 
tantos. Temem íummamente os trov6es, e chnva, 
de íorte que nenhum fahe da* cova mais vizinha , 
onde encontra a tempeftade ; e perguntando-Ihe a 
caufa do feu medo , refpondem : Jlt^ Senhor en/o* 
dãy que no noíTo vulgar quer dizer : EJld enfadado 
o alta Senhor ; mas he deígraça , que conhecendo , 
como todos, a primeira caufa , e que ha hum Se« 
nhor de tuJo, nada mais querem, nem podem fa- 
ber delle. Pafmâp , e fogem de qualquer veia , ou 
caxidea acceza , porque nunca ufárâo, nem conhece* 
rão o elemento do fogo. Refolveofe aqueliegran* 
de MiíHonario , a quem devèo o Oriente eftas no- 
ticias, a conduzir comíigo dous meninos, a quem 
havia attrahido com dadivas, para que depois, fen« 
do homens , e bem inftruidos na Fé , cathequizaf* 
íem os feus naturacs , eíperança bem fundada , por- 
que tão bárbaros, e mais forão algum dia os mo^ 
radores da RuíEa ; mas apenas entrou com elles 
nas montanhas , forao taes as faudades brutaes da 
pátria, que hum fugio por falta de vigia , e outro 
não comeo, nem bebeo mais , e acabou no quinto 
dia da jornada : na hora da morte lhe miniftrou o 
Baptifmo , e foi tal a caridade em todos , que le- 
varão o cadáver ás coftas trez dias , íoffrendo na- 
qiielle ardente clima fedores intoleráveis., até che- 
ga- 



( 3*7 ) 

gareoi á fiam valle , cbi^^e puderfTo (cbra ficas , 
€. ca tanas romper terra -moUé para ofepuItaTetn': 
teria dez annos y e feparou-fe da mãí atrahido de 
hum Ròfario de velório encarnado , qae nnnca ti- 
rou do pefcoço, e com elle foi fepultado/ A caufa 
éa não poder conduzir outros ^ foi io.xoftiiane inal- 
tei-arel daquelles bárbaros , que até ca&vem '- fe 
oáo feparâo das mais y como entre nós os de peito. 
jllcaírão. He huma efpecie de betume excellente 
para matéria ^e alimento do logo: o natural lança 
o mar nas praias em occafiáo de tempefkades , e Te- 
co , ou purificado ao Sol, parece maiTá branda ; o 
artificial fe extrahe com fogo dos cepos de arvores 
rezinofas ^ e em Flandres o deftilão os pinheiros j 
ieoi mais diligencia que fangrallos : arde dentro 
da' agua , e com elle venceò o Imperador Conftan- 
finoPogonato aos Mouros no anno de 670 ^ílan** 
çando-íhes na Armada muitos arxotes , e outras in- 
venções alcatroadas , e accezas , de que hoje coftu*^ 
mão encher os burlotes de fogo para lho lança- 
rem 9 tanto. què asentenas fii^mão os arpéos nas en-' 
íarcias dos navios de guerra. Era moralmente im<>' 
poífivel a navegação fem eíte betumeV o feu Amo 
he o melhor remédio contra o ar corrupto , e afua 
agua Cura innumeraveis enfermidades* Âlpupearras. 
Hehum paiz de montanhaa jtia Retno deGranada', 
Dome derivado de Alpllz«r^9^primeiro Governador 
delle, tem fete léguas de comprimento'^ e onze de 
largo 9 eftendendo-fe pela Gofta do Mediterrâneo 
entre as Cidades de Velez-Malaga , e Almeria : ef- 
tá povoado todo de Mouros ^ que abraçarão a Re- 
ligião Catholica y e nella viVem., coníervando 4)0^ 
Tom. Vil. Dd iii rém 



Cj^8 > 

rém omodo dfe Tirer ^ refttf ^ e Aliar ^ átndi cjue 
já com muita corrupção. DÍTidem^fe em onze ter» 
ritorios ^ a que elles chamáo Taas , e os Heípa* 
nhoes Cabeças de partido , fendo os principÍM 
Taa da Orgirâ ^ que pertence aos Marqueses de 
Valenzuela, eTaa de ritros^ onde fe adinirSo ai!^ 
Tores de extraordinária grandeza. Entre Pitros^.c 
Portugos corre hum pequeno rio y cujas aguas ân 
hum inílante tingem de preto toda a 12 , e feda y 
que nellas molhâo; ealli perto eftá huma calema ^ 
cujos maligftos vapores mátáo todos os aninnes ^ 
t^ue lá fe chègáo. Sáo innonoeraTéis os lugares de 
Mouros que ha neftas montanhas , os quaes imi» 
^ando o laboriofo ) e íncançavel génio deíeus airòs^ 
enchem as montanhas de vinhas ^ c arvores finti*' 
feras , e vão a Velez^Malaga , e outros lugares 
vender os fens bons vinhos ^ uvas^ paflas ^ e o» 
trás muitas frutas ^ que alli lhes vem comprar mer» 
eadores eftranhos. jlltar. Os primeiros entre o 
Gentilifmo erao vafos de ferro com trez pés coroo 
diz Varrão j e nelles fe lançava o fogo que abra« 
zava a viâima, depois os feetáo de terra para os 
Deofes terreftres fenh degráos , para os Deofes in« 
fernaes em covas ^ e para os ceieftes em fitios al- 
tos , e com muitos degráos compoftos todos de 
pedras, ultimamente gaftárão nefledefatino ospor** 
fidos:, e'mát'more0: mais finos y emetaes précíofos, 
e algumas vezes madeiras : na lei Natural erigirão 
os Patriarcas Altares a Deos verdadeiro de pedras 
tofcas , e na lei Efcrita ordenou o Senhor foifem 
da mefma matéria , e fem degráos , excepto os do 
Tabernáculo , que já onviftes contar a fua mace^ 

ria. 



(319) . 

ria ) e feitio : ná lei da Graça os primeiros forâo 
de madeira ^ hnns como arcas , curros como ban-* 
cas j depois fó de pedra j confervando fempre o 
nome de Ára , palavra Grega , que ilgnifica depre^ 
cação ; e os Gregos em lugar do Altar portátil, e 
Ara dos Latinos , usâo de huns pannos bentos. 
Em Athenas achou S. Paulo hum A4tar excelleote 
dedicado ao Deos ignorado, defconhecido , e oc* 
culto , de que tomou o Apoftolo motivo para me* 
Ihor lhes pregar a Fé de Chrifto , verdadeiro Deos ^ 
que elles ignoravâo* Nâo houve tempo mais mal 
empregado j que o muito que gaftárSo Authores 
de ooa nota em queftÔes íobre a origem | e moti» 
vo defte Altar j e rotulo delle y porque deveodo 
fiâo fe apartar do que refere o texto y quando diz 
què o Altar era dedicado a hum Deos ignorado y e 
affim conftava do letreiro : Ignoto Deo y embaraça* 
dos com ditos y e opiniões de Gentios y aflenttf rSo 
que o Altar era dedicado a todos os Deofes da Eu* 
ropa y Aíia y e Africa , e aos Deofes ignorados y 
de cujas ultimas palavras y dizem y fe valera o A* 
poftolo para o Sermão. Ecumenio efcreveo, o que 
he tao conftante entre as nações Catbolicas doOri-- 
ente, como a Fé, e vem a fer, que houve emA- 
thenas huma epidemia , ou contagio , e para efta 
ceflar y edificarão Altares y e levantirâo eítatuas a 
muitos Deoíes , e a todos aquelles y de cujos nomeS 
tinhâo noticia ; mas como não ceflava o cailigo y 
julgarão havia outro Deos occulto , e defconheci*** 
do , que ainda não eftava applacado y e como náo 
fabiaó quem era , como fe chamava , nem que fei- 
tio tinha 9 não lhe levantarão efiatua fobre o AU 



tar^ 



( gio ) 

tar, mas (ó fizeilío hum Ahar dedicado áefleDedf 
ignorado com effe letreiro até faberem quem elie 
era , para então lhe coUocarem fobre eflfe Altar a 
eftatua; o que feito, ceifou o contagio, e attribuí- 
ráo ao Deos que ignoravâo o beneficio : aos doa« 
tos y e náo a mim pertence julgar íc eiU he a no» 
ticia mais conforme ao texto do Apoftolo: Pr^r^i- 
riens enim , ^ videns Jimulacra veftra , invm ér 
arani , in qua fcriptum erat : Ignoto Deo : quod ergo 
ignorantes coliPis j boc ego annuncio vobis. Oe íbrte 
que o Apoftoio de paflagem foi vendo huma muU 
tidâo de ídolos , cada hum em fea^Altar , e entre 
eftes vio hum Altar fem ídolo , e fó com o letrei- 
ro , que dizia fora dedicado a hum Deos deíconhe- 
eido , occulto , e ignorado. Alteza. Foi o tratar^ 
mento de todos os Reis da Europa, e Potentados 
delia até o decimo quinto feculo: os Reis deFran«« 
ça da primeira , e fegunda linha o fizeráo íèa pró- 
prio , fatiando de fi em Leis , e Cartas ; no tempo 
da terceira* linha o deo S. Bernardo ao Bifpo de 
Langres: em Hefpanha duvidâo qual foi o primei* 
ro que a ouvio , mas labe-fe que Carlos V. não ,te- 
ve outro tratamento , até que o elegerão Impera- 
dor de Alemanha , porque então ufou da Mageí* 
tade, que deixou a feu filho com a Coroa deHeí^ 
panha : em Portugal o mais certo he, que D. Se- 
baftiâo foi o primeiro Rei a quem fe fallou por Al- 
teza , e D.João IV. o primeiro a quem por Ma- 
reftade, como tinhão ufado com osFilippes. Dei- 
le que a Coroa de Hefpanha , c a Imperial fe uni- 
rão com a de Auftria. , os parentes de ambas ufá- 
rão de Alteza , e o mefmo tratamento fe deo: ^os 
I Prin- 



w^^t 



( 3^» ) 
Príncipes Flllsberto, e Thoma^s de Sabóia, filhos ' 
da Infanta D. Catharina de Auftria , prima com ir- 
iná de Filippe IIL D. João de Aiiftrià , filho na- 
tural de Filippe IV. , que perdeo em Portugal a 
batalha memorável do Ameixial , qniz lhe faliaflem 
pbr Altecsa , quando tia menoridade de fcn fobri- 
nho Carlos II. governou os" negócios de He(pa« 
nhá , e no anno de 1677 confentirão niíTo osGran* 
dès do Reino com acondiçSo de-que elle lhes déf- 
fe Exceltencia, Em França íó os irmãos dos Reis 
a tinhão, e aosmais Príncipes da fangiie ÊiUavâo, 
como ainda hoje íe ufa ^ ou impeflbalmente , oa 
Vòs Senhor ; mas depois que o Príncipe de Con- 
de foi a Roma no anna de 1621 , e õ Papa lhe 
mandou dar Alteza com o privilegio de fe cubrír 
nas audiências 9 e preceder ao Cardeal Diácono de 
menor antiguidade, derâo: em França Alteza a to* 
dos os Principes do fangue , e filhos naturaes dos 
Reis 9 o que imitarão as mais Cortes da Europa. 
Em Alemanha: uíárão os Eleitores de Alteza Eleí* 
toral, e f ó de Alteza os Bifpos Principes , depois 
que o Rei de França ordenou aós feus Plenipoten- 
ciaríos em Munfter lhe deíTem eílê tratahrento , que 
Luiz XIII. deo também ao Príncipe de Orange > 
que antes fó tinha Excellencia , fe bem lhe difputá* 
fáo o primeiro tratamento. muitos Principes Ipgo^ 
e muitos annos depois* Cromuel , quando vfurpon 
o governo, e não a Coroa da Grão Bretanha em 
1649 , ordenou* lhe deíTem o 'tratamento de Alterr 
jjà. Em Itália nâo he commum a todos os Princi«> 
pes /porque o Doge de Vcheia^íó tem Excellen* 
cia ^ e aí&m tracaváo aos Duques de Parma ^ mas 

de-> 



( 3?^ O 

depois .qílcb Cpoci^ftavel Coloii»^'e o DiiqtiQ d? 
BraccMno djaftáfãa entre íi tratarem-fe por Alteza 
Sereniínma hum ao outro , fiíerão o mefmo paâo 
muitos: os Papas a concederão a alguns , a depen- 
dência a fez daffi a tantos ^ y)ue hoje a tem quaíl to- 
dos. os Bifpos donatários 9 iiendoicerto,:c^tie algum 
dia a neg(avâo oai^raodeade Hefpanba aos filhos 
fegundos das Gafas de Medíeis, e Sabóia. Efta de(^ 
ordem produzio infinitas, de forte que noanno de 
1633 , quando o Cardeal Infante D« Fernando foi 

Eor Itália 4»ara os Paizes baixos , o Dnqae de Sa?» 
oía,' a quem eile C6 fazia tençSo dar Excellencia^ 
de antemão lhe deo Alteza Real, de que fe feguio 
dar elle Alteza ao Duque, a quem imitarão todos 
os outros , que eftavão no mefmo perigo , e apa^ 
receo na Europa efte tratamento novo , de que lo^ 
go ufárão todos os Infantes de França , Ing/atei> 
ra , Suécia , Dinamarca , os filhos dos Imperado^ 
res , e depois o Duque de Sabóia, o de Lorena , 
e por Alvará do Imperador o Grão Duque da Toí^ 
CBm^ é/lUbama^^Cid^dQ do Reino deGranada, áiC* 
tã fete milhas da Capital , nas fronteiras de Aada- 
luzia ^ íiindada em montanhas de grande fertilida- 
de: tem Caldas excellentes para muitos achaques, 
e a cqnfa mláis! admirável, que nella moftrão aoseí- 
traqgèir(»s , >hé^ hnma igrande Gjuiz.de pedra fo^ 
bre hiim penhafco ,'jonde nunca, feípode fubir^ por 
mais qfoe fe canç£rSo .os engenhos, em idear meios 
para Já chegar-^ de- forte que julgâo foi collocada 
pelos Anjos , porque a natureza impedio todos .09 
paífos , e meios ipttarlá ^ trbndiizirem , e ^ercm d^ 
perta '^líéro. Foi. |ioiU rdos^Embaizadoxcs , .qciô 

mán- 



( 3*3 > 

mtndárâo aScipiâo os moradores deKdmanda, 6 

3 uai não foi admittido , e os Numantinos julgan- 
o-o traidor , o matáráo : nâo tardou o caftigo , 
porque mandarão outros com igual fortuna, e tU 
les defefperados intentarão fugir ; porém efcon- 
dendo-lhe as mulheres , e filhos os freios dos ca- 
vallosy degollárâo todos, e fazendo huma grande 
fogueira , em que lançarão eftas amáveis prendas 
com todas as luas riquezas , depois de bem atea- 
da '^ morrerão voluntariamente todos nas melmas 
chammas : vejão Numancia. Âlypio , ou Âlipio j foi 
hum Santo Stelita, o mais memorável depois deS. 
Simeão do mefmo íobrenome : nafceo no fexto fe- 
eulo em Adrianopolís y Cidade de Paflagonia , cre** 
cni-fe em caía de Theodofo Bifpo da mcfma Ci- 
dade j em cuja Sé foi Diácono , e Ecónomo ; mas 
deíejando maior perfeição de vida ^ fe retirou pa- 
ra o ermo : fez hum cerco no alto de hum monte ^ 
e no meio delle huma coluna com hum telhado , 
onde fubio tendo trinta annos de idade : paflado 
pouco tempo j- lançou fora o telhado , e viveo ío» 
bre a coluna íincoenta e trez annos a todo o rigor 
do tempo , pregando o Euangetho a todos j e ron- 
dando trez Communídades huma de Monges Con- 
▼entuaes , outra de Ererttitas , e Solitários , e a 
terceira de Religiòías. Quatorze annos tolerou ío^ 
bre a coluna com fumma alegria huma terrivel en« 
iermidade y de que morreo : ignora-fe o anno do 
feu feliz tranfito , fe bem os Gregos Orientae.^ di- 
zem foi no dé Chr>fto de 670 y porque cômeçoa 
a penitencia no tempo do Imperador Heraclio, que 

^incçíía a^íinír iíar4tiTccnfõr< 



u. 



X' ' ■..•".%,..:. j •t*^S- ^'íiíJft •■■ify *. ■ to 




Cjh) 

V ieCfiriilo pelo cnmputo mais certo de Paggio 
.-fc* CrinVa de Buronio, que deveo aos Monges de 
>i.nro Antão as noticias fundamentaes dafua obrâ| 
c rodos ao íeu eftudo , c trabalho inimitável de 
âjuftar com a emenda do Kalendario Romano a 
conta do Grego. Am. He luima Cidade que teve 
ctm mil vizinhos y e mil Igrejas : foi conquiftada 
pelos Tártaros no anno de 12 19 com doze dias de 
iitio , era a melhor da Arménia da parte do Nor- 
te 9 e hoje huma vil Aldeã , que fó excita ^tzniQS 
aos viageiros Catholicos. O Venerável Fr. Gui- 
lherme de Santo Agoftinho Martyr extrahio delia 
muitas reliquias de Santos , que fe conferváo no 
Capitulo do Convento de NoíTa Senhora da Gra- 
ça de Goa , da Ordem dos Eremitas do mefmo 
Santo de quem era Religiofo , e Conventual em 
Hifpaban Corte da Perfia , que poffue os arrabal- 
des deita Cidade 9 divididos delia com hum preci<* 
pitado rio íem ponte. Amaàah , he a Cidade Ca- 
pital do Reino de Cambaia , riquiilima pelo feu 
commercio , e fabricas de feda , algodãq , e bor- 
dados : foi Corte antes que o Grão Mogor a con- 
quiftaíTe; mas nada fe diminuio, antes fe augmen- 
tou com o novo governo : he cercada de excellen- 
tes muros , com tr^ze portas , diítantes dous ter- 
ços de légua. huQia. de outra. Antes de Vaíco da 
Gama entrar na índia fe levantou o Governador 
dôfta Cidade^ e fe chamou Rei delia , e feus fuc- 
ceiTores mais de duzentos annos ; porém depois a 
CQ^f^i'itou outra, vez o Grão Mogoc 9 que ,a poi^ 

tlSÍO Al , NaÒflficIhj de Miguel MahèTcal daC<ílA,'lApíciror da 
i Santo Officio. Anno 17^4. Com todas ai iiccn£asncec^ariâh 



í 3»í ) 

CONFERENaA XXVIII. 



AMadahat , on Ârbaãabat , he huma grande ^ 
e riquijQima Cidade no Império do Grão 
Mogor pertencente ao Reino de Guzarate 
janto ao rio Indo j diftante de Cambaia 
dezoito léguas : he o mais vivo retrato de Lon- 
dres , fegundo aifirmão os que vírSo ambas : eftá 
uarnecida de grande preíidio, e muitos Elefantes 
e guerra para a defenderem das invasões dos Ba* 
duros y povos bárbaros , e guerreiros, que nâo o« 
bedecem ao Gráo Mogor , ehabitâo zs ferras vizi- 
nhas. Ha nella a melhor fabrica de colchas borda- 
das de ouro , que até hoje vio o mundo , de forte 
ue no Oriente y onde fó parece creou Deos precio- 
dades , fó usâo colchas de Amadabat os Princí* 
pes , ou os que nas rendas fe parecem com elles ; 
em Goa bavia trez ; e não fendo eu facil em me 
admirar , confeífo me -elevou os fentidos o primor 
da obra , e precioíidade da matéria , que he hum 
monte de ouro de Veneza tirado á 6slf9í ; mas no- 
tei logo a fuper£uídade na^ compra , porque a pri- 
meira que vi y tinha cuflado a D. Francifco deSoto- 
maior doze mil cruzados , para o feor defpoíorio ; 
porém íervio fempre (como todas as mais) ló para 
cubrir a cama, eftando fem gente, porque nem em 
íima , nem debaixo delias fe pôde deitar peflba al- 
guma , excepto por caftigo , ou penitencia , tal he 
o feu pezo , e táo levantadas as figuras do borda^ 
do ; mas como no Oriente todos os cobertores , e 
Tom. VIL Ee col- 



i 



( i^6 ) 

colchas sâo peças de eftado até nos doentes , não 
admtrji|c]ue o fefâo asdeÃmadabat, efpecialmente 
fendo inexplicável a riqueza da Afia , e entre as 
precioíifllmas alfaias a melhor a cama. Setecentas 
colchas deftas remetteo para a Perfia hum ConfuI 
daquella nação : para Turquia levâo os mercado- 
res todos os annos centos , e para os Nababos j e 
Principes do Império do Grão Mogor nunca ha 
de fubejo. Aqui íe fabricâo precíofas alcatifas com 
ourO) efem ellci tiçus, e todas as efpecies de té-* 
las ) e fedas preciofas. He efpecial empório do 
commercio do anil , lacre , azevre, gengibre, af- 
fucir de pedra , âmbar griz j e almiícar que vem 
doPegú, e Bengala. Tem a mais preciofa Mefouí- 
ta , que j dizem os Mouros ha em todo o munao ; 
porque além da grandeza, e arquite£lura eftranha, 
ne toda forrada de obras Mofaicas difierentes das 
que fe inventarão na Paleftina , e hoje fegonda vez 
admira a Europa ; porque deve mais á natureza do 
^ue á arte: coníifte a defta excellente obra em pai- 
res ,' bofques , &c. tudo formado de pedras Aga* 
thas de rarias cores, com que também eftâo orna» 
dos muitos fepulcros de Reis Gentios , de quem 
foi Pagode efta Mefquijta. Hoje não ha memoria 
dò fdolo , a que fora dedicado; mas conferváo ain- 
da o&Gentio6 os legados dos Reis que a fundarão , 
€ engrandecerão , applicados a trez Hofpitaes , em 
ue recolhem, e fuftentão com muita caridade to- 
os os cães , gatos , e outros quaefquer animaes 
velhos, ou eftropeados, compaixão, que lhes não 
itoerecêrão nunca os homens , já porque , dizem el- 
les ^ podem adi|uirir cabedacs para a doença , e 

ve- 



3 



( 3*7 ) 

relhice , já porque nos animaes cretn tfftâo as al« 
mas de feus avós. Em outro tempo tinha aqui o 
Gráo Mogor íó doze mil Toldados , e ílncoenta E* 
lefantes , como eícreveo Tavernier ; mas depois 
que fe temeo dos muitos eftrangeiros j que alli con- 
correm, tem ordinariamente dezeíete mii homens, 
e oitenta Elefantes, ^gata , he buma preciofa e(^ 
pecie de pedra , que íó perde a eftimação por oâo 
fer rara : nas montanhas de Cambaia fe acha a mais 
fina y e de muitas cores , e defta vem para a Euro* 
pa muita parte , onde ferve de tampos nas caixas 
de tabaco , e a outra gaftâo os Príncipes , e mer* 
cadores ricos do Oriente no ornato dos Pagodes i 
e Palácios. Só os naturaes daqueIJas terras confer* 
vão o fegredo neceíTario para as cortar direitas : 
dizem que as excellentes pinturas de homens , ani- 
maes j. rochedos , arvores , e outras mil coufas que 
nellas fe admira feito pela natureza , procede de 
lhe fazerem fombra eftas coufas, quando o Sol naf- 
ce ^ outros dizem que íó fe lhe imprimem eftas fi« 
^uras j fe depois de grandes chuvas aparece o Sol 
intenfo, e entre elle, e a pedra eftá alguma deftas 
coufas interpofta : a verdade he fer obra da nat»* 
reza , e em algumas merece a primeira admiração , 
porque nunca a arte pintou tanto ao vivo , o que 
(em arte íe vê nellas debuxado. Nenhuma he per« 
leitamente diáfana , mas todas jellas tem eíFa pren- 
da: ^ eu vi não poucas vidraças de todas j que fe 
bem náo introduziâo tanta luz , como as oftras | 
e madre-perolas j também não ofiendião a vifia a 
quem recreavão com as excellentes pinturas ^ e re* 
prefentações vivas de coufas, qtie nanca advertio « 

Jbe II ar- 



( 3»8 ) 

flrte para deleite do homem ; mas quem vio que à 
natureza obrava prodigios femelhantes em muito 
a eftes nas pedras de Montes Claros , e em ou- 
tras j menos eftima aquellas. Jgatbasí ^ ou jlgae-^ 
taZj chamarão em Cambaia a hum mercador riquií- 
íimo , mas tão molefto de excandefcencia do figa* 
do , que fendo pardo , ficou malhado de branco ^ 
repreíetitando aífim a cor branca , como a parda 
tantas figuras no feu corpo , que por ter alguma 
femelhança com as pedras Ágatas , lhe chamarão 
Agathaz : hum Sacerdote dos ídolos lhe aconfe- 
lho» tivefle efpecial devoção com hum , para lhe dar 
fande , e elle antes de a confeguir gaftou milhões 
no edificio , e dote de hum hofpital para brutos ^ 
e Pagode preciofo para o idolo : acabou-fe tudo 
em breve tempo á força de dinheiro ^ em que o, 
Sacerdote, que era o Superintendente, furtou mui- 
to, eíbi tal oaugmento da moleftia, que o Bania- 
ne quiz arrazar tudo , e matar o embufteiro. Neí^ 
te tempo chegou a Cambaia hum Cirurgião Por- 
tuguez , daquelles que nem íabem fangrar , mas 
como no Oriente fer Português , e Medico he o 
mefma na opinião dê Gentios , e Mouros , houve 
quem o inculcafle ao Bantane , e elle felizmente 
pendiiranda-lhe ao pefcoço hum cágado vivo em 
huma caixa , de que já tendes noticia nas Confe- 
rencias de Medicina , o curou em breve tempo , e 
Baníane julgando fuperfticiofamertte que o cágado 
o curara , nâo por natural virtude , mas por íer 
divindade , fez em cinzas o prefciofo ido)o que ti- 
nha coUocado )em> o ncyvò Pagode ^ e nomefmo lu- 
gar poz hum armário deoufo com porta àb crjrf- 

f ai ^ 



l 



tal 5 é dentro o dgado , que nnncá tnais fe foube 
ie era vivo , on morto ; porque além de não ter 
or onde fe examine , fenâo quebrando o cryítal ^ 
c tal o.refpdto que Jogo ^adquirio , que fó o que 
entre elles he Príncipe ; dos. Sagerdotes ^ pôde lá 
ehegar-fe, para limpar a tribuna ^ altar ^ armário ^ 
e mais coufas vizinhas. He aífiftido de muitos pe« 
nitentes , a que chamâo Jogues, que fó cuidão em 
receber as oâFertas de innumerareis romeiros que 
alli vão de todo o Oriente, !è atiçar as muitas lâm- 
padas de ouro , que lhe deixou oBaniane, e outras 
do mefmo metal, e de prata, que lhe tem manda* 
do Reis da AGã , onde eíla romaria , e devoção he 
táo commua para os Gentios, como a de Meca pa- 
ra os Mouros ; e Gabriel Timotheo bem conheci*^ 
do em Portugal, e todo o mundo pela íua verda- 
de, riqueza, e commercío, me diffe fora ver por 
curioíldade o Pagode, e pafmdra , affim do ouro^ 
e pedras preciofas , que nelle vira , como dos mui-« 
tos contos que rendiâo cada iemana as offcrtas dé 
dinheiro, fendo mais o que rendiâo as de feda, ai-* 
godâo , e tudo o mais que fe fabrica , e produz 
na Âíia: e náo vos admireis defta brutalidade, por- 

?ue maior culto deo a hum dente de bugio todo' o 
oriente, e ainda hoje o dá a coufas iguacs, e peío-^ 
res , de que tereis noticia a feu tempo. Jmato Lu* 
fitano , Âuthor célebre de Medicina , foi natural 
defte Reino , onde fe chamava João Rodrigues de 
Caftellobranco : eftudou em Salamanca , onde ad- 
quirio grande nome , paíTou a França , Flandes j 
e Itália , onde enfinou Medicina com grande ap- 
plaufo em Ferrara , de forte que o Rei de Polo- 
Tom. VIL Ee iii nia. 



nia , e a Republica de Raguza o oonridírâo cóffl 
grandes emolumentos para eníinar nos feus Efta* 
dos, e elle os não aceitou j mas fim , nâo poden- 
do encubrir mais tempo o veneno de Apoftata que 
tinha no coração, paflbu paraTelTalonica, mudoa 
o nome em Amato Lufitano , e declarou que vivia 
na Lei de Moyfés , em que morreo. Commentou Di- 
ofcorides , e Avicenna , e efcreveo fete Centúrias 
de obfervaçôes Medicas. Amazonas , he nome que 
derâo os Gregos a. bumas mulheres naturaes de 
Scythia , e moradoras junto ao rio Termodâo em 
Capadócia: os homens, que vierão para efte fitio 
com ellas , perturbarão os vizinhos todos , e eftes 
juntos os vencerão , e matarão , íem efcaparem 
com vida mais que poucos mancebos , que forão 
levar efta noticia ás mulheres , as quaes os mata- 
rão , e cheias de furor tomarão as armas , vence- 
rão em muitas batalhas os povos vizinhos , con- 
quiftárão muitas Cidades, elegerão duas Rainhas , 
huma para as governar em caía , e outra na cam- 
panha, eftabelecêrão leis, huma das quaes., dizHi- 
pocrates, era guardar virgindade até matarem trez 
homens feus vizinhos, criarem fó as filhas, e ma- 
tarem os filhos , queimarem o peito direito , para 
manejarem melhor as fettas>no arco, enão admit« 
tir homem fenão até conceber ; porém como ifto 
era mais cafa de loucas , do que Republica , fó ti- 
verão quatro Rainhas, e no reinado das fegundas 
as vencerão , e degotlárão os vizinhos todas. Efta 
he a hiftoria verdadeira das Amazonas, que extra^ 
hio de antigos monumentos de Grécia Monítur 
Rogleier , e tudo o mats que delias contão , são 

fa- 



(331) 

fabulas ', que inventarão os antigos Poetas ; como 
confefsãoMoreri, e outros^ que tiverão paciência 
para trasladallas. Na America he célebre o rio cha- 
mado das Amazonas , cuja boca tem mais de trin- 
ta léguas de largura , e tem o leu nafcimento nas 
ferras do Peru , defde o qual até o mar recebe mui- 
tos y e caudalofos rios , e abraça quaíi todas as 
Conquiftas de Portugal , e Hefpanhli , regando as 
coftas, por onde fe dividem ambas, e cortando pe- 
lo meio o melhor da America. Francifco Orelha- 
no y Tenente General de Gonçalo Piflarro , Gover- 
nador do Peru j intentou navegar todo efte rio ; e 
conftando-lhe por informação de hum Principe da- 
quelles Salvagens , que mais adiante habitaváo ha^ 
mas mulheres guerreiras , as quaes caufavâo terror 
ás nações vizinhas , veio contar ifto em Hefpanha 
com tal encarecimento , fendo aliàs fabula , que 
aludindo ás antigas Amazonas ^ chamarão os Hef- 
panhoes a efte rio o rio delias. Todo o paiz, que 
rega j he excellente , com ar temperado , nâo obftan- 
te a vizinhança da linha Equinocial : e o mais di- 
rei quando falia r nas terras , e Provincias delle. 
nimbar y he huma matéria a mais difpofta para re- 
ceber , e confervar fem diminuição toda , e qual- 
quer outra cbeirofa, ou fedorenta. Huns dos erros 
communs nefte Reino , ainda entre os Dronuiftas , 
e boticários , como fe vê na Farmocopea Tubalen- 
fe 9 e outras , he crer que o âmbar bruto , a que 
chamão âmbar gris, he cheiro fo, fendo certo, que 
o âmbar nunca foi , nem ha de fer cheiroíb , mas 
fó fim recebe , e conferva fempre o cheiro da pri* 
meira matéria odorifera^ que fe lhe avizinha ^ e cop* 

mo 



f 33») 

oio os mercadores o pôeoi fem razão na claíTè dos 
gromas , e entre elles o conduzem j pega-fe-Ihe o 
cheiro do mais vizinho ; e as bolas de âmbar eo» 
gaftadfts em filagrana y ou fem ornato , que vem da 
índia , he âmbar mifturado com almiícar ^ e óleos 
aromáticos , manefa£èura que eu vi fazer muitas 
vezes nas boticas de Goa para contrato ; e he ifto 
tâo certo y qffè todo o âmbar , que fe acha na ÂfrH 
ca, defde o Cabo das Agulhas até o mar vermelho ^ 
na Aíia defde os Cabos de Comorim até Timor ^ 
e Solor , todo fede a marifco j em quanto fe não 
feca ao Sol , e perde a agua falgada j em que efie- 
ve mais , ou menos tempo. Não he o âmbar o que 
imaginarão , ou fingirão tantos Authores , Dro- 
guiftas y Boticários y e Médicos , que o chegarão 
a numerar entre as partes de animaes , chegando 
ao delírio de efcrever y que o mais ^rimorofo o 
vomitaváo asBaleas, e o mais preto evacuavão in- 
feriormente , quimera que fó inventa quem nunca 
vio Baleas y e por iiTo ignora que a mais pequena 
podia evacnar em huma femana âmbar, que occu<* 
pafle meia légua de terra , que le não perderia no 
Golfo de Sofala y onde ellas são innumeraveis , o 
mar claro, etão baixo, que em partes tem fótrez 
bral^as de altura ; o que não obftante , fó deíejão 
os moradores de Sofala , que as Baleas , e mais 
peixes lhe não comâo o muito âmbar , que as on- 
das remettem para as fuás praias , depois de tem« 
peftades grandes. O hcroe eternamente memorá- 
vel] no Oriente António CardimFroes, fendo Go- 
vernador de Moçambique , e aíEftindo nas Ilhas de 
Angoza o M. R. ?. Fr. Francifco Xavier de Santa 
i^ Ele- 



( 333 ) 

Elena j Religiofo de S. João de Deos , fizerâo e& 
pedal ajufte , e obfervação nefta matéria , depois 
da Monomocaia de 1729 , e acharão que o âmbar 
era aquella primeira cera , que as abelhas formão 
antes de conílruirem os favos , as tempeftades o 
curão cpm as ondas j e o Sol com os feus raios nos 
admiráveis rochedos daquelles mares , até que per- 
dendo muita parte da virtude rezinofa , os defpe- 
gão as ondas , e conduzem ás praias : provou-ie a 
experiência com pedaços delle imperfeito , e outro 
perfeitiílimo 9 que os pretos forão tirar dos fitios, 
em que eftiverão favos y e aflentárão , que as partes 
mais claras , e veias da mefma cor , era fegunda 
cera das mefmas abelhas íilveftres« Concorda efta 
experiência com as que fe tem feito nas Coitas de 
Pruflia 9 e Mofcovia , e o confirma a experiência 
quotidiana , porque íeparando^fe o âmbar em pe- 
daços, fe achão no feu interior mofcas, palhas , e 
finaes de outros infe£los , que nelle ficarão prezos , 
e morrerão quando eftava mais rezinoío : em fim , 
nos cortiços das abelhas manfas ( fe he que Deos 
creou algumas ) em Portugal , efpecialmente no 
tampo de íima j fe acha huma cera quafi preta , re- 
zinofa, e dura, porque a cortiça, eoSol lhe tem 
gafto as partes mais oleofas 9 e fubtis , a qual mif* 
tnrada com tormefltina ierve de emplafto para as 
quebraduras , e efta tmolhando^^fé repetidas veies 
em agua íalgada , e fecando-fe ao Sol , he âmbar 
gris perfeito , como vi muitas vezes manipular a 
peflbas curiofas. Ha outro âmbar loiro , e branco 
tranfparente , aflim chamado por muitos Autho- 
res y mas fó conhecido de todos pelo nome de 

alam-* 



(334) 

alambre ) e cfte, como confta de innumeraveis er- 
periencias modernas j he rezína de arvores Uivei- 
três y das quaes o feparâo as tempeftaJes j e depois 
íem miftura endurece , fem perder o óleo, que det- 
]e feextrahe para muitas doenças. Amianto^ he hu« 
ma pedra que íe achava na Ilha deChypre, a qual 
cozida com fabâo , e anil ( fegundo dizem ) fica de 
forte que a paisâo por fedeiros , fiâo , e tecem dei* 
la panno branco, femelhante ao noíTo de tStopZy e 
quando eftá immundo , o lançáo no fogo , que o 
purifica, fem o queimar, ainda que milhóes de ve- 
zes fe faça em braza. Na livraria do Vaticano fe 
coníerva huma toalha defta matéria, que tem nove 
palmos de comprimento, e fete de largura, a qual 
foi achada em hum tumulo de mármore fora da 
porta maior. No anno paíFado acharão por acato 
outra e^i outro fepulcro , e deftas invenções in(e^ 
rem como certo, que os antigos queimaváo os ca-< 
daveres envoltos em lançoes de Amianto para nâa 
íe perderem as cinzas , cautela que dizem inventa- 
,râo os Bracmenes ( ifte he , Gentios Sacerdotes) da 
índia y pátria de toda a mentira agigantada , fendo 
certo, que a Afia nunca vio Amianto , nem pinta- 
do, e muito menos tanto para queimar cadáveres, 
coufá , que fó , dizem , uíárâo , e certamente náo 
usâo os Pef fas , nem as outr A .nações. Também 
não foi tanto em Chypré que fe fizeíFem velas pa- 
ra os navios , e papel dos feus trapos como refere 
Le Brum mal informado de outros , que ifto foi o 
menos que fingirão. Amiens , he huma Cidade no- 
tável do Reino tle França, Capital da Província de 
Picardia fobre o rio Soma » que dividido, em trça 

cor- 



( ss? ) 

correntes formoíiífimas , e bem ornadas, a rega pelo 
meio, fervindo-lhe para todas as manufaâuras: he 
mimo da Europa a fua Cathedral , onde querem per* 
fuadir os Francezes fe guarda a Cabeça de S. João 
Baptifta : ha nella treze Paroquias , vinte Conventos , 
fincoenta mil vizinhos, efeis mil caías. NeftaCida^ 
de deo homenagem o Rei Eduardo III. de Inglater- 
ra ao Rei de França Filippe de Valois pelo Duca» 
do deGuiena , e Condado dePuthieu a 6 de Junho 
de 1 329 , eftando prefentes os Reis de Aragão , Na- 
varra, Bohemia, e Malhorca. Conquiftárâo-na os 
Hefpanhoes em 1597 , mas pouco depois a reftaurou 
Henrique o Grande; mas não acabou a fortificação , 
que íería a melhor de França, anão eftar imperfei* 
ta. Jm-Kas , he a lala do Palácio do Graô Mogor , 
onde'eUe fe deixa ver dos feus vaíTallos poucas ve^ 
zes no anno : era a coufa mais preciofa que havia no 
mundo, e fó delia extrahio Thamaz Koulikan mui- 
tos centos de camelos carregados de ouro, prata, e 
pedras preciofas ; mas aquelle Monarca he tão rico, 
e poderofo , que não obftante lhe levar o inimigo 
Feria os feus thefouros , para que forão neceflarios 
muitos mil dormedarios , e camelos , fez publicar 
que Thamaz adorara como coufa divina o feu Palá- 
cio , e fe não atrevera a damnificar , ou extrahir del- 
le coufa alguma : em quanto fe publicou efte ban* 
do naquellevaftiíOmo Império, fe adornou a fala, e 
fizerão novo throno ; mas como todos os mentiro* 
fos são efquecidos, de forte perderão osartifices as 
efpecies do primeiro throno , e ornato , que a pezar 
do fen inviolável fegredo , na primeira occaíião de 
fer vifta a fala ^ conhecerão todos que era coufa no* 

va 



(330 

va j e muito mais preciofa que a antiga , feita pela 
generoíidade do Imperador Cha-Gean , que defere- 
ve Bernier. O antigo throno de ouro j rubíns , e(« 
meraldas, e diamantes valia quinze milhões; em o 
novo fó o ouro paífa de trezentos, e as pedras delle 
nunca fe puderâo avaliar , porque além de innume* 
raveis , e exceíEvagiente grandes , são as mais finas , e 
antigas , que os Imperadores fuperfticiofamente não 
ufavão j e como coufa fagrada tinhâo em depofito, e 
thefouro occulto em trez Mefquitas , de que náo ti» 
verão os Perfas noticia. O antigo nada tinha de Ma- 
[eftade , ou arquitedlura , fendo o melhor delia dous 
^avôesReaes de ouro, cubertos de efmaltes, epe* 
dras preciofas , obra de hum Francez , que depois de 
enganar muitos Principes da Europa com pedras fal« 
fas , foi refugiar-fe na Corte do Mogor , onde teve 
grandes fortunas; e o novo tem afigura domais ex- 
ce] lente rctabolo , em cuja tribuna, e throno apparece 
o Grão Mogor veftido de ouro, e cuberto todo de 
taes diamantes, e tantos, que cega a quem olha muito 
tempo para elle, fendo entre todas as pedras a maior , 
e mais preciofa o topafio Oriental até hoje único no 
mundo , de que ufa no turbante , e fó pôde competir 
com elle a luz do Sol. A grandeza defta fala excede as 
maiores de que ha noticia : no te£lo, e paredes fóap* 
parece prata lavrada porartifices da Europa, enella 
hiftorias dos Imperadores , guerras , convites , erar 
baixadas, dividido tudo em laminas iguaes por figu- 
ras , e brotefcos de ouro mafiiço. O mefmo ornato 
tem as varandas do átrio , porque a íala , e Palácio 
são térreos, etudo alcatifado de feda, eouro. 

LISBO A\ Na Officina de Miguel Manefcal da Coda» Impreflor do 
Santo Ofiicio. Aaao 17^4. Com todas atUoonfas noo^fmks. 

I ■ 



( tn ) 
CONFERENCIA X3aX. 



r * • . 1 , - 1 






I ^. 



. A> ^ MflerdM , ou AmfteJdM ^ he huma Cidade 
/% de Hollanda íbrmofiífiiiia , muito rica , e 
y % poderofa , cujo nomei^^ier dizer : Repre^ 
' *zaM. aguas, , ou Dique de Amjiel : ha dq* 
zentos annos que efta Cidade era o mefmo que 
Olhão 9 lugar maritimo do Algarve > porque fó çoni^ 
tava de cabanas de junco , em que habiçavão po» 
bres pefcadores , cujo commercio com os vi^^inhos 
ihes áto tal angmento, que os Condes de Hollan- 
da lhe forâo. concedendo privilégios até: o de Cf- 
4ade9 que no^nno de 15.00 deo cuidado a militas 
ida Europa , que víráo acabados os feus muros , e 
fortalezas. Em cada feculoteve íeu augmento , e 
no. de 1 67; já era tão grande , que excedia muí^ 
CO a Paris , ainda que. (ó então deígraçada , por- 
que neíTe tempo lançou fofa os Miniftrpsda Igre- 
ja Romana ^ deftruio coox barbaridade inaudita os 
Templos, Al tares, ;e Imagens dos Santos, .e abra* 
^ou as hereílâs de Olvino , e Luthero , a cujas 
leitaseregio fumptuo^ílIntasQuercas, epara maior 
ruina das almas íe permicte nella deíde então até 
^agora toda a lei , iherefia , ejuperfticao , e fó he 
prphibida a verdadeira /Fé Catholica Romdna. Ef** 
.tá íituada em lugar tão baixo , que:ba muito a te» 
-riâo fubmergido as inundações , feas não evitaíTe 
.4Qm.fbrt;es , e apraKi^eis <:anaçs jje pedra^, ;ladrilhp , 
.t ofadeira gu^ri^ecidçs cop arvofesj «.p^ra/repni- 
^ír o mar|,fjuç,;jl>^.ftça,eippíf^liíl«i tctn.osadfnir 
' Tom. VII. Ff " ' ra. 



( «n 

rareís diques formados das mefmas matérias j en« 
tre o^/í)aa0S7mc6rlo*^mttiM de 

todas às pVftès doinundó^ íegoíás. CorividSo ama* 
ior admiração muitos dos feus edifícios, como são 
õGUuftrofdá communicaçSo ;dos homens' de iwgo- 
cio «hamddo a.BdíÀ V ^ ^^^ das''Jddia$ , 09 Ar- 
fcnaeít , â Igrejft' ^Iha, ^"^ ^^ dedicada ^ S^jNico- 
]ão Bffpo/a quem perdoárSío por cauta dos riquif* 
fimos Maufoleos, que nella íê confervão , c í de 
Sanfta Catharina compadecidos do púlpito j e or<í* 
gãòs^ qi»è cuftáráo milhões decnizados. Gavemão 
efte Empório trinta fe féis Senadores , que alguui 
dia erâo eleitos dos mais ricos j e hoje dos mais 
doutos, e sâo perpétuos : eftes nomeão os MagiT^ 
trados da Cidade, que correipondem a Correge- 
dores , e Juizes dos -Bairros por tetiipo limitado \ 
e agora aió confirmados politicamente pelo Sra- 
touder y dignidade da Cala de Orange. Os Sena- 
dores podem tirar do Banco , ou Erário público 
todo o dinheiro neceíTafio para o bem da Cidade , 
aífiftindo os Mágiftrado9 , «que tem as chaves defte 
thefouro o maior* do mundd , que fe guarda em hu- 
mas grandes abobadas debaixo da cafa do Senado 
com portas fortiffimas die bronze , guardado de 
dia , eckffioite com muitas t^otppanlWas do Prefídio. 
As mefmas guardas tt^m oErapio dos partiéu1arçs> 
no qual tem cáfda Mm^o-itu; dinheiro pafa lhe evi- 
tar os perigos -^ que pódé ter nas caías particura- 
res. O mefmo nome Âmftérdâò derâo os Hollan- 
dezes a hiHna Cklade dònovò Paíz baixo na Ame- 
rica Sô|}tehfrionaIS'aí>h(iniA Ilha entre nora Hol>- 
landa > >e>'Mada>^(rfeà^ i'ie outras 'no uar 'áÈí Ihdia> 



B:Q\m^t\]/liâ^diaiii)i}it ci^cfli>;ò» Ladinos) bhnriár^ 
^ãnàtíisiav^ i^ liuiraí^ dilat»<ít' Provincis tir.>HefpQ«* 
Bha^ que comf>iieheride quft&todé a antígi JBetica : 
eofténa da parte dOf Oriente com o Reino-, de Qra^ 
sada ^ do SeptentriSo com a Eftremàdura 9 e Caf-* 
têUa i^va ^ do M tiodía com o Oceano ^loMedrter-^ 
raneo', è do Occidente com Po||pgaI , onde a fé-r 
para do Algarve o rio Guadiana ? terá noventa le^ 
guas de comprimento defde Âyamònte fronteiro a* 
Caftromarim acé Ubeda^ e feffenta deiargura^oc*- 
cupando <)uafi ! fincoenta léguas dé cofta no Ocea^* 
noy doze no Eibeito de Gibaitar,: e nove no Mê^ 
direrraqeò : a .fi» -Capkal he* Sevilha , e os feus 
cavallos os Aielhores. de Hefpanha» < Angela.Rocca^ 
ea Rúccba.j rSáct^Aá* do Papa. Clemente VIIL , Bíf- 
po^dé Tagacfte y fbi Eremita de Santo. Agoftinho ,• 
e Fundadot de httm ^ dos Cohverftos defta Sagrada 
R^eligifío isfif Roma : naíceo em Rocca Contrata , 
lugar dai Marca .de Ancona , eftudou em Roma j 
Veneza;, Pevhíia ^ e.Padua , otldefoi grádnadò Dou*: 
^^9 pregoa depois em iVeneza com fuAioioti^p*- 
plattfo»^ e dabi o chamou pata Roma o Revcren- 
díífimo P. M. Fr. Agoílinbo Pavizani Geral da Or- 
dem , pUra lograr a Guria as grandes noticias, qne 
tinha das antiguidades Ecciéfiailicas. O Papa Xift; 
to V. lhe encommendou ^ emenda , e ímprriefsâo das 
Bíblias, ConciHosi^ e Santos Padiies, e> morrendo 
fem' premiar os íèus trabalhos , e taflentos ,0 fe^ 
Qemente VIII. , de quem não quiz aceitar o Ca- 
pc!lb» de.Cdiijeal , contentando*fe com a graúdt 
botmii de; Sacrifta y e pedindo-lhe comóHitafle a pur-r 
pura em.beneficios para a íua. amada Religião/ O 

Ffii \í^- 



Papa retido . o.feá reNgiofo defiotereíTe tlhe enttô' 
goo .o^gflíverno:f.e Erário , de quèiáè aproveito\i 
com benep^cita feu para: fundar a In/iraria Angér 
líca ,' que d«l!e tomou o nome no Convento da fut 
Ocdèm 9 a qnalíeftá patente todas as mâhbans para 
todos os.que neUa querem eftudar; e f ó o que D. 
Fr. Ângelo Rocq^efcreveo j e imprimioy ( díJbMo^ 
rerí) podia formar huma livraria : morreo em Ro- 
ma a 7 de: Abril de 1620 de ietenta e íinco ânnos^ 
defejado de^ todos. JÍngelicfis , -sâò humas Relígio*« 
ias^ qlie fó tem dousConvento&emlf alia, hum etn 
MtlSo, outro em Crema: fundouras Luiza Torrel- 
li, Condefla deGulbla, com licença do Papa Pau- 
lo IIL eiti i5'34, e dahí a dous annos as exímio do 
Arci^bifpó de Miiáo o mefioio. Sontifide ^ fujeitan» 
do-às ao$ Clérigos Regiidares de S. Paiiío chàmt-* 
dos Bet^nabitas ; S. Cartos Borroòieo J^es íez as 
ConftitufçÔes, que approvou Urbano Yííí. , e sãò 
os dous Conventos o refiigio das Princesas j e Ser 
nhoras principaes de Itália. AHgdla^ helium Rei- 
no emAfricay cujas praias, e o melhoc^das terras 
interiores compõem hum grande domínio de. Por- 
tugal j cuja conquifta , e progreflbs ouvireis cedo 
a outro Académico no defcubrimento do Congo j 
a quem pertence effe Reino: o íeu porto principal 
he Loanda^ bem conhecido. por fer a pátria da do- 
ença chamada Efcorbuto, á qual os navegantes da 
índia 9 que a padecem fem verem Angola , chamâo 
commummeme mal de Loanda , e os ignorantes 
mal de Hollanda. Tem Governador , Bi^o , e Sé 
com muitos Cónegos y muita riqueza, commercio^ 
e abundância de carnes^ p^^?^ hortaliçasy efriH 

tas 9 



(«4» ) 

tas , tudo excellente y dcliciofo j e Baratiffimo : a 
fiofla induíbria y trabalho j e conveniência fez da^ 
quelles matos incultos hum jardim primorofo de 
arvores de efpinho j e mais frutas da Europa , que 
muitas melhorarão naquelle ardente clima junta- 
mente com todas as da America , que le náo pode* 
ria fuâentar fem Angola , donde lhe vão os efcra» 
ros para todos os empregos lâboriofos. Quando 
entrámos em Angola cada Província tinha hum So- 
berano chamado Sova , que reconhecia por Supe- 
rior o Rei de Congo : depois hum deftes com a 
iiofl*a aliança ^ e foccorro conquiftou as Províncias 
dos outros j e eftabeleceo hum Reino, e ao nome 
de Angola , que antes tinha , accrefcencou o fobre- 
iiome de Ineva : deixou por morte trez filhas y e hum 
fobrinho , a mais velha , e baptizada chamava *fe 
Anua Xinga, feroz , altiva, e valerofa ; e vendo 

?ue o fobrinho lhe ufurpava a Coroa ajudado dos 
iortuguezes, apoftatou daFé, e recolhida aoCer* 
tão com os principaes nos fez dura guerra , mas 
fempre comdefgraça., e perda de muitos mil vaÚTalr 
Jos , pois houve choque, em que duzentos Portu- 
guezes matarão feflenta mil negros, coufa fácil de 
crer, porque eftes falvagens fem forma, nus, efem 
armas de fogo apenas recebiâo a primeira defcar- 
ga, viravão as coftas todos os que ficavão illéfos, 
ecahíndo huns fobre outros, huns morrião dasba^ 
las, outros de medo, e outros fufibcados. Confe^ 
jguio em fim a paz com Portugal , e moveo a guer^ 
ja contra osjagos, que vençeo, e expejlio das me- 
JUiores terras^ tão barbara, e defefpelrada , que fa- 
crificava ao feu idolo homens ^ e mulhcrçs antes 4« 
Tom. VIL Ff iii qual- 



( 34* ) 

qualquer batalha , vivia no exercito , e era a pri* 
meira para tudo. Hoje o Rei de Angola habita em 
hum monte feguriffimo , porque tem hum fó cami- 
nho difficultolo : o feu deleite he creação de Par 
voes, e o bom que produzem as fuás terras he dos 
Portuguezes. Ha nos Certoes defte vaftiffimo Im- 
pério innumeravcis homens , e mulheres íilveftres , 
a quem os negros chamão Quojas-Morroii, e nós j 
falvagens : p>ouco differem dos pretos feios ^ co* 
mem com aíTeio , dormem como racionaes , não fal* 
lâo, mas uivâo, e em tudo o mais são brutos , qwe 
podeis ver admiravelmente retratados na hiftòria 
do mundo no eftado prefenre, compofta em Italia- 
no com eíta^npas. Nos lagos , e rios deAe Paiz vi- 
vem as antigas , e celebradas Serêas , de quem tan- 
to fingirão os Poetas : os negros lhes chamâo Am* 
biciangolo , e nós peixe mulher, ha machos^ e fê- 
meas com figura humana disforme , porque quaíi 
não tem barba, nem orelhas, pefcão-íe com redes ^ 
e nellas os matâo com flexas : apenas feridos , ge- 
mem como osracionaes j^ aílim efpirão, a fuá car- 
ne tem o mefmo cheiro , e gofto que a de porco, 
são quaíi pretos , tem os dedos das mios «uito 
compridos , os olhos ovados , o nariz chato , a 
tefta alta , grande a boca , e eftatura maior que a 
humana ordinária. Também neftes lagos hamuitQS 
Cavallos marinhoa, innumeraveis Tartarugas , t ^ 
muitas Baleas , porque íe communicão com o mar 
por dilatadas bahias , e enfeadas fundas, jlnno já 
X^beis o que he , e de quantos dias confta hoje ) 
depois da reforma, que nelle fez o Papa Gregoríá 
XIIL y t íó refta dizcr*vos que o aono civil do» 

He- 



(M3) 

Hebreos começari «a Lua nora do Otitbno , c o 
Ecclefiaftíco tia Paícoa em: Marca: oaGaulas ^e 
Sãxonios começarâa o anno enr> Setembro ; :os pri^ 
meiros Romanos em Março ,< depois em Janeifó ; 
os Egypcios, Perías, Armeiiios, Athenienfts ^ e 
Tebanos no mez dè Julho , e principio dos Cani;* 
culares ; ò& Arábios em. Março;. os Indioer em Ja* 
peiro ; os Macedonios em Setembro ; os: Franceses 
antigos no primeiro de Março', como fevê no Gof>- 
cilio Vernonenfe celebrado no anno de fetecentos 
e iíncoentja.ie finoo , depois áté Carlos IX. .come^ 
çaráo o. anno no dia. dó Nafcimento-de Chrifto a 
T^S de Dezembna, a que chama vao Eatarnaçao: 
mefmo fizerâo fempre os Inglezes Catholicos at^ 
o reinado de Guilherme Conquiftador : t>* mefmo 
ufárão os Alemães ; porém oi Florentinos , Pifá^ 
tic» '; e quafi toda a Itália começavSo .o^anno a ^5 
deMarça:<ifmo Cii/2/a;^, célebre eotre. os.Chrofoo* 
lógicos ,' confiava de trezentos e feíTenta.e finco 
4ia8, diftribaidos emdoze mezes de trinta dias ca- 
da- Jrám y a que; accrefcentavao íiílco .chamados £pa<» 
gomenos , fem f^izer cafo 'dé^ feia. horas ; ^m r^m 
confusão^ que náo merece gafto de: tempo: AnifiQ 
yuiiaHo tomou onome dejulio Gefar, qufe o emen- 
dou, *e:redazio ao eftado prefentc, fendo terceira 
irezf Go«pfnl yi da.iorte que^anno vidgar y anna Ju- 
liano , ahno Civil'!,> e anno Gregoriano he on^elr 
mok Jinno Sabbático na Lei efcrita era o fetimó, ,e 
em todo elle fenâo trabalhava, pelo que Deos no 
IMAo-fpxto lhe dava frutois. para trez annos; Anno 
<êo JubiUatKtst os Me fc geoa r era > o i i^írt quagefima^ 
«ontâèdoaaimò^ejobijco antecedente; ins^ní^ 

o COQp 



(m) 

O contando 5 era; O t|aadragefinio nono : a primei 
ro dizem fora defde-Outubro de 26^7 do mundo p 
até o ^mefmb met do ieguinte anno : do anno do 
Jubileo na Lei da Graça já tendes noticia na Híf* 
teria Romana. Anno Platónico ^ aífim chamada , por« 
que o intentou Platão , he o tempo , que hão de 
gaftár todos os PJanetas,«lBftrellas fixas no íen 
moimento até pararem no íeu primeiro, eftado ^ 
no qoe dizem hnns fe gaftáo quinze mil annos ^ e 
outros que trinta efeis mil. Ariftoteles Ibechamoo 
o anno grande ^^ alguns Filoíofos julgáiao que 
acal>ando oicírcolo dos Aftrbs em Capricórnio cau» 
faria unirerÍBl diluvio, e íè em Câncer total inceiv 
dio. A rerdade nefta matéria he que eftes tècs 
nunca puderâo faber com certeza quando haveria 
chuva , ou calma« Ama Egypciaco conftava de trin* 
ta dias ^ ou trinta e hum , conforme o cufíb da Loa ; 
ma^ durou pouco efte Hfo entre o^ primeiros E^* 
pcfos. Afhtú V^âgo são doze mezes Lunares fem E- 
paâa. AfMos Climatéricos , Críticos , ou Decr etários ^ 
he hum do9 famoíos delirios 9 em qni; osí homens 
gaftár^ o tempo : di2em que sâo todos os annos 
da vida humana , em que ha noves , ou íc^^ , e 
por iíTo fatal o felFenta e trez , porque nelle íè juo- 
tão fete vezes nove 9 e nove vezes fete^ outros 
juigâotnais fianefto o anno oitenta é hum poj* cooir 
tar deiíove vezes novey rporquèneKa idade mor»^ 
rêrâo Platão , Diógenes Cynico , Dionyíio Cracleo- 
tes 9 Brafthotenes j e outros homens grandes 9 co? 
mó fe houveíTeniimerp algum de annos 9 emi)ue. 9S9 
amteStm íonitos incsm^iini^ fk> 

4|aeeíte$^ e&ndo:oertoyà>^^ 

til- 



( U^ ) 

thlhnò Feijó nas vidas dos. Santos '> homens Hlnf-> 
triffimos, e livros de óbitos, que hè raro o iogei-» 
to , íque inorre cm anno climatérico. Eui tive a ineí- 
ma credulidade j quando fó tinha quinze annos y 
fem fiie lembrar de que tive nove annos climate*- 
ricos fQCceíIi\ros 9 porque até os nove todos os 
ahnos tive huma doença mortal ; mas defcnganei- 
me logo na náo Santa Terefa , ondcf com quinze , 
etrez mezes eíkive iacramentado , e vi morrer tre- 
zentas e;feírenta e duas pcfibas j que perguntadas 
pelos CapelUes 9 e Enfermeiros,. a quem euy e ou- 
tros curiofos O' recommendámos , quando peflbal'- 
mente o não pudemos fazer ^ nenhum eftava em 
anno crítico , ou climatérico , fendo ao mefmo 
tempo certo que o Capitão de mar e guerra Cu(- 
todio António da Gama j o Piloto mór , . e o Mef« 
^re^. :doiiS'Religiófos de.S. Domiilgos, que Trunca 
tinhão embarcado, Joíé de Soufa, que depois foi 
Clérigo , e deixando o feculo morreo na Ordem 
Seráfica , e outros muitos eftavão em annos críti- 
cos., c dos mais agoirados , e nem huma dor de 
cabeça tiverão. A verdade infalUvel nefta matéria 
he Í6f»^anno , é dia critico , climatérico , fatal ^ e 
decretorio aquelle, em que cada. hum morre, equc 
em todos íe morre , e ha igual perigo de morrer. 
iántequera , ou Antiquara ^ he huma excellente ,. e 
rica Cidade de Hbfpanha , que^ihndárâo os Mòu-> 
ros^.doze léguas diftante de Granada ^ e oito de 
Málaga , fe bem he certo havia eiti outro iitio vi^ 
zinho outra do nfiefmo.nome, que fe julga fundara 
Tubal : teoiriete mii vizinhos , onze Conventos 
de Religioibsy^e íete. de.Religiofas > excellenttQ 

Hoí- 



( J4Í ) 

HoipíttAyttéi, Ekaàoáy tíntíze^ErmdAs:^ GoHq^ 
dft^ ootaiTel :de Cooegos , ecmtras prebendaa, lítoí* 
to rica , porqtie nao paga alcavalts o que nella fc 
compra, erende, motivo, porquje cada Temana fe 
jnútía mais de trez mil pdEoM na feira. O que 
nella ba mai9 digoo de memoria (le i^ Arfeoál ^ ou 
Trem de ttmm Moiirífcas no Caftelio, e fára det« 
la excellentes Caldas. Jnta , he hum aotma] bem 
conhecido nas montanhas de Bifcaia , em a%ttmaa 
de Hefpanha, e em todas as do Norte: tem moi- 
ta íemvthança comrOS^ machos , e mQlasiV>eàom 09 
pbrcbs no focinho^ tem empoada mão quatro. QidMS 
ocas, e no5 pés trezc , cauda curta, côr cinzenta, 
a fna pelle bem preparada refifte a eftocadas, e ti^ 
ros de mafquete. Jnúlbas chamão a nmitas Ilhas 
fítuadas entre o continente da America MevWtio*^ 
nzXy e a. parte Orientai de S. João de ^ottouricoy 
outros lhes chamão Caraíbas , ou Cannibaila&: Fran* 
cezes , Inglezes , e Hoilandezes as pofluem todas ^ 
fendo a melhor dos primeiros a Martinica ^ e a 
maior a de S. Martiaho commua a todas^ as trez 
nações. Antimonio ^^ foi medicamebto ignòFado até 
o duodécimo fecuio , em que o enímou a preparar 
Boiíilio Valentino , e Paracelfo Ibe.deo o raaior 
credito com os feus: encarecimentos^ de que refal^ 
tou o feu ufo y e com elle a morte detamas* mil 
peflbas: ,. que 0( Parlamento de Batia o coádeAoii.^ 
e prohfbio no aiMo^dei^òá ^ etpuUandò dv &cuU 
dade Medica a Bernier , que o defendia ;. uns fbi 
admittido, htun:^ e outra pelo. mdmò Parlamenta 
ao aono de iéc^y ^ondra o parecer ée iCSuída Pati- 
ntífy que.ercrevco:còikra.'èUehchfinaadbt^lbd'V^ 

co' 



.1 



( S47 ) 

CD dos etifefinÒ8>^è compoz hinn catalogo ^ dos 
mortos ) cujo tiralo foi : Martyrologio. do Jntinto^ 
nio : o que nâo obftante he certo , que depois do ^ 

ciptS preparado , conforme a Farmocopea dejacobó 
dt Cafiro Sarmento , hè a infusão do Ântimonio 
preparado^ óu vitrificado o mais excellente, e fe^ 
;tiro emético. Antioquia , chamada hoje Ânthaquia ^ 
le a Cidade Patriarcal , cabeça de toda a Syria , on- 
de S^i Pedro teve a primeira Sé , è Cadeira Pontí» 
ficai : dizem muitos que ella foi a antiga Ribla ^ 
ou Ktblata ^ de que falia o livro quarto dos Reis 
no cap. 23. huns que a fundara Ântigono, outros 
que Antioquo IV. chamado Epiíànes , ou Illu& 
ttâ; o certo he que foi a terceira Cidade do mun* 
do chamada Capital do Oriente , Corte dos íeus 
Imperadores y o rio Oronto a dividia delicioíamen^ 
te em: quatro partes , tendo légua e meia Hefpa* 
iihola de comprimento^ e pouco menos de largo^ 
ornadas todas as fuás ruas de Palácios ^ e admira*- 
veis edificios : tudo arruinarão dous terremotos 
fios annos de Chriflx) ^ 15* ye i id, reinando Trajano. 
ReftaurOQ^-fe coni o favor dos Imperadores, mas 
nos annos 334, 394, 396, e458 padeceo tão fii- 
riofos terremotos, que (é arruinarão os principaes 
edificios ; em fim, quando efperava melhorar* fe , 
huma íefta feira 29 de Maio de 52 6 padeceo ornais 
liorrivel , de que ha memoria , equarta feira 29 de 
Novjsmbro de 528 o ultimo,. que a arrazou de to« 
do. No de 5*29 a reíburou Juftiniano , chamandoí- 
lhe Teopolis, que quer dizer Cidade dcDeos^im 
548 a conquifbou Chofroes Rei da Fèrfia , degol- 

j[ou Os mõradoies , qnehnoiiDS edíftaps:tiidp-Tr^ 



( 348 ) 

« 

taàron Jdftiniana em 552', edifica odona -mis' règo^ 
lar, e formo fa y e tudo ddftruío Cfaofroes fegaoda 
vez ; em fim , depois de muitas vezes reftaurada pe- 
los Imperadores , :e Reis de Jerafalem já do terre» 
moto de 31 de Outubro dè 6^7 y cm que morre- 
rão feíTenta mil pefibas , já do domínio dos Fer- 
ias 9 e Turcos , eftes a poíTuem defde o anno de 
1268 , fem confcrvar do feu antigo eiplendor for- 
moiura , e grandeza mais do que em cada bàhãt' 
te huma ciftema grande , e excellente : tere mui^ 
tos Patriarcas Santos , más hum hereíiarca , e tnuw 
tos hereges , hoje hum ícifmatíco Grego« Anton-' 
gily he huma Bahia da Ilha MaJdagafcar, mais co- 
nhecida pelo nome de S. Lourenço no Oceano O- 
riental : foi defcuberta pelo Capitão Portuguez 
António Gil, de quem tomou o nome, mas não a 
felicidade , porque elle a teve em fer Mi^onario 
de muitos portos do Oriente , que guardáo a tra- 
dição 9 e agradecida lembrança de que António 
Gil lhes enfinára as primeiras luzes do Cathecif- 
mo : e efta excellente Bahia , que tem aonde me- 
nos nove léguas de largura , e foi o feu primeiro 
defcubrimento , nada abraçou , nem conferva delle 
mais do que huma Cruz de pedra preta , que ain- 
da ímâo pode demolir, por mais diligencias,. que 
para íiTo fizerâò os bárbaros*, ç. hereges, impedi- 
dos todos de fuperior impulfo. No meio ,defta Ba- 
hia tem os Hoiiandezes huma povoação pequena 
fundada emjiirmallba abundante de viveres , !fe lhos 
fiâo: negbreói o3 Cafres*^' e boasi aguas, exom oid6 
peças de. artiíèeria , Hojeícoufa^efcufada»! . 

í- 1 S B O A . Natàrtclna de MÍgacf MíAtelTcál^-da Cbfta .^teprcflof db 
" ■ Santo Officio. Anão 17^4. C^mtoiaêutJtccn^asncccJ^ariêu 



- . ' 



CONFERENCIA XXX. 



••í 




Surgidouro defta Bahia de Madagafcar 
( continuou o Letrado ) he dos melhores 
para náos grandes, mas o clima terrivel 
para os naturaes da Europa, de forte que 
ió não tem febre continua , os que. bebem agua ar« 
dente como nós bebemos agua , nem fe defcubrío 
até hoje outro remédio para confervar nefta Gofta 
de Africa ( como já diíTe de Moçambique , Sena , 
Sofala y && ) a vida. Outro maior inimigo tem el- 
la nefta Bahia , e são os mpíquitos ínnumeraveis.^ 
€ tão grandes , que o não acreditâo os Europeos, 
fenáo quando fogem perieguidos delles : a náo N. 
Senhora do^Livramento , que fahio de Lisboa pa* 
^a Goa em 1729 arribou a efta Ilha , e por miia- 
;re fe achava com muito pouca gente em Moçanv- 
âqueem 1730 y onde osfeus Oificiaes.me conta- 
rão os trabalhos que tinhão padecido naquelle por* 
tOy e os muitos centos de companheiros, que nel* 
Ic tinhâa morrido , moftrando*me arnda muitos as 
ocatrfzes ?das venenofas mordeduras dos agigan* 
tados mofquitos. Os primeiros HoJlandezes^ que a 
ipovovrao^' morrerão parte degollados pelos nátu-^ 
raes indómitos , parte de epederhia, hoje fó tem a 
pensão da bebida, que nunca lhes falta, e ade po4 
Jeijar de dia com os mofquito^ ^ porque^.de noitq 
ps defendem os mofqueiròs j a> qiie no Oríeúte cha^ 
flkâo Mogerins :, e os naturaes pom £3gnQÍi'as de 
iiei ^as fecas 9 mais por coílumè^ do^que por necef^^ 
-.Tom. VIL Gg fi- 



(35^0 

íidade, como elles confefsâo^ porque além dafam» 
ma dQWZâ (U fua cútis , e cetjcuila tofiada do calor 
ardentitlimo daquella região, e por iíTo menos fen- 
ilvel j o coftume de tolerarem innumeraveis pica- 
das daquelles monítraofos infeélm defde ha<feido«, 
os faz infenfívets ao que os Eurapeos fentetn roaii 
do que eftocadas. Efta Bahia he o único t^faâo 
dos navios , que padecem ruína no Garbo de Boa 
efperança iodo para a índia, e também para josiqoe 
¥em , e o jnâo podem montar h, nera jretciooeffer.pa»- 
ra Moçatnbique ; iporque Tafel Bai joÍo tem posi* 
to, nem furgidoiro capaz , efiando no meHior ii^ 
para os nec^itados , porque eAá fundada oa çomí^ 
ta ào Gabo. Antónia , chamada por outros Íutís 
antigamente , he hnma montanha de Jeriifalem , fo» 
bre a qual oiandon >Herodes o <jrande ievantar a 
mais regular ^ e forte torre , que vío o mundo , á 
qual chamou Antónia^ nome derivado de António 
feu intimo jamigo. Box Herodes em todas aa foas 
obras magnifico , porém nefta excedeo os limites 
do conceito , que delle tinha feito a Paleftina nas 
obras do Templo, e outras : depois de fetta a tor/- 
re com a mais .excellente arquiteâura , a mando* 
cubrir de mármore branco tâo artificioíamentc nnif" 
do , que parecia hnma fò pedra liza toda a obra: 
o fim dcífta inveâiira foi deixalla inexpqgraaTel , e 
incapaz de conquifta naquelle tempo , em que nâo 
havia pólvora ; mas como talvez então fubejava 
por iíro;a ifiduAria , ^vinte Toldados , hum Alferes ^ 
e hum* trombeta !d(f exercito de Tito ci«qoiftárâo^ 
o que hoje não expugnariâo cem mil homens^; poc« 
^le achando as feotinellaadoriiiiiodo por fatigadas^ 

- ■ Ulm 



C jn ) 

(nbfrSa ao alto com varies engenhos j degoWirío 
todas j e Tito a fez demolir toda em (ete dias. 
Muitos lhe perfuadírâo nâo arruinafle aquella ma- 
ravilhofa fabrica , que toda junta reprefentava hu- 
ma Cidade formoíiífima, com Palácios, e pequenas 
torres no antemural j que tinha íincoenfa corados 
de altura ; mas como efia era a principal defeza do 
Templo 9 e efte a Cidadella^ refugio , e defeza da 
Cidade j nío quiz perder aquella importante en^ 
preza j por confervar efta noaravilha. Antes da re^ 
iKttlkO dos Hebreos , e no pacifico governo dos Ro^^ 
manos ^ guarda vâo elles nefta torre os ornamentos: 
Pontificaes riquiflimos t e quando ferviâo huma íd 
vez no anno em a fcfta Tirfi , no decimo dia da^ 
Lua de Setembro f lhos davão os.Romanes/ conri' 
a condido de qúe- acabada a ièfta os liaviâo ttcâi« 
tuir Jogo ao theíouro daquelle prefidio» Jnionia 
doozelU Portugueza ^ cuja pátria le ignora j na an**. 
oo cie 1606 fugio de cafa de huma irmá fua, e vef^ 
tida em trage de homem paflbu a Mazagâo y onde 
liarvio com grande V;alar.na guerra contra os iVfou-% 
ros: ás dopzellas da Praça axtrrahid!^ da fua gentia 
kza y e fama ^ a pertendéf âo para maridp com tia 
importuna eficácia j que ella h vio obrigada a de& 
cttbrif ao Governadof ^ que era doiuiella : cafou 
eom: himi OíRcial daquella Praça , e o Rei D. Fi^ 
lippe IL de Portiigal^ e III. de Hefpanha aí docoii 
liberalmente com [luma grande tença. Jhttaninos y 
ou Âttiouiftas j sâo buns Religioíos de Santo An- 
tão Cónegos .Regrantea de Santo Agoftinbo : o 
fen habito hç túnica^ ecapa preta, e fobre huma^ 
e outca coufa huma Cmz Grega azul ^ que nada 

Cg ii dif- 



C 3r» ) 

diffcKréoX grande dos Latinos. A Ordem Mili- 
tar de Santo Antão foi inftituida em Henao pelo 
Conde Alberto de Baviera, para coníeguir do San- 
to o remédio de huma epedemia , a que chamSo 
fbgo de Santo Antão : fó entravão nella Fidalgos^ 
da primeira grandeza , que deixarão eterno nome 
nas batalhas contra os infiéis da PrníEa, e Africa^ 
mas durou pouco tempo : a fua divifa era hum 
cordão , e nelle pendurados hum báculo ,. e huma 
campainha. Antros ^ he huma pequena Ilha de Fran- 
ça em Guiena na boca do rio Garona^^oude eftá o 
grande farol , e torre do Co rd o vão para guiar as 
embarcações , que entrão nefte porto para irem a 
Burdeos* Anveres y ouAmbereSy he huma excelicn- 
te Cidade dos Paizes baixos Catholicos , a que tos 
Latinos ^ .eiPortn^uezes chamão Antuérpia , ho]C 
fó conhecida pelas notáveis Imprentas* para toda 
a cafta de obras. Em milhões de fabulas eftabele- 
cêrão Authores crédulos , e Poetas a fua fundação^ 
e origem dos feus moradores : foi certamente a 
mefma que tiverão as outra» Províncias , começaa^ 
do em cabanas, como todas as Cidades populolas; 
a vizinhança de Amftcrdão Ihediminuio o commer- 
cio 9 muitos incêndios a formofura, e preciofidade 
incrivel de muitos edificios , as guerras civis lhe 
cailíárlo maiores danos, como ouvireis à feu tem«- 
po: foi o theatro do, chamado por antonomaíia. 
Grande Capitão de Hefpaniia j que a cercou , e 
rendeo cercado do exercito inimigo , que a foccor- 
ria ; mas depois de tantas ruinas , além^da íingu- 
\ar , e natural formofura do terreno j em. que eftá 
fundada com oito canaes , por onde entrão os na* 

vios 



( 3S3 ) 

▼1Ó9 até i Cidade , communicadòs com fetenta 'ie 
quatro pontes, e capazes cada hum de cem navios, 
tem duzentas e doze ruas eípaçofas , e povoadas 
de palácios 9 e caías magnificas , vinte e duas Fran- 
ças excellentes , huma das melhores Cathedraes 
que tem o mundo j com feíTetita e féis Capellas de 
jafpes 5 e porfidos finiífimos com montes dé oitro, 
quinhentos pés de comprimento, e duzentos equa^^ 
rcnta de largo , e a torre com duzentos e quarenta 
de altura , fuftentando trinta e quatro finos bons, 
t grandes. O Clauftro de communicáçâo dos ho^ 
mens de negocio ( chamado Bolfa etn todas as ná^ 
çâes do Norte ) dizem ei^cede hoje o de Amftéf^ 
dão , e a cafa Capitular com quatro Palacioã , e á 
Hofpedaria antiga das Cidades ^Qfèderadas sâo 
huns dos melhores edifícios da Efiròpa; jAnnunciã^ 
dãj palavra, que fignifica a Embaixada do Arcanjo 
S» Gabriel á' Virgem Senhora nofla , e EAcarnaçSc) 
do Divino Verbo , he huma das princípaes feftaá 
da Igreja zi$ de Março: no Sacramentat^io d&Pa^ 
paGelafíoI. venerado do6 Gregos^ conftaltavia efi 
ta feila na Igreja antes do anno 491$ , e o decihid 
Concilio Toletanõ a manda celebrar a tÉ dà De^ 
Mmbro , e d méfihõ obfervrfráo muitas ígre/asdé 
Ftartçâ, e Hefpanhã, até qitô em íeu lugâí eftàbe- 
lecêrio a fefta da Expe£laçãò. Tem aCathedtal dô 
Noffa Senhora de Pui em Langnedóc o privilegio 
de celebrar efta fefta íempre a 25 de Março com 
jubileo , ainda que t(k dia íeja ( cômo muftaldf Vt^ 
Msfucéede ) fétta ^eirá maior. Muitas Cbrtgt^&gb-* 
$6és fe dtdicárão à eftfe Myfterio ew todo o Orbtf 
Cathõlico i e S. Filippe Benkio \hú d^dicdu a fua* 
Tom. VIL Gg iii Re- 



^ 



JR^eligião dos SerVitás, Amadeo VI. Duque de Sa* 
bóia chamado o Verde, no anno de 1362 fundos 
por efpecial devoção a efte Myíterio ( e não a ha* 
ma Dama , que dizem lhe mandira hum coUar te» 
eido dos (eus cabellos ) huma Qjdem Militar da 
Annunciaçáo , cuja primeira divifa foi hum collar 
de laços com manto branco j depois em algumas 
funções efcarlate com extremos de ouro , logo azul 
com forro de prata , e ultimamente de encarnado 
obfcuro , ou cor própria da flor Amaranro , que 
chamâo flor veludo , com forro verde em chão de 
prata , e no mefmo campo huma Cruz floreada da 
cor do manto fufpenfa no collar antigo. Aqflay he 
hum valle dos Alpes , que confina com o l^hman-^ 
te, e Sabóia , tão grande , e ácompnhado de Vil- 
las y e povoações , que forma tudo hum dos mais 
antigos Bifpados de Itália , cuja Sé tem e/pecial 
rito j e canto por iíTo, e com grave fundamento^ 
porque no anno de 408 era feu BifpOcPaíchaíiO) a 
quem fuccedeo Eufl:áchio. Os Romanos a julgarão 
neceflaria para a confervação dos feus domínios , 
e a guarnecerão com muitos mil foldados , cha* 
mando-lhe Augujia Fretaria : o mais notável nelia 
são as Caldas , que frequentão no Verão innume- 
raveis peflbas. Apelles Principe dos Pintores di- 
zem huns nalcêra na Ilha de Coo , outros que em 
Efefo y e outros que em Telecfon. Não podemos 
julgar fe alguém o igualou , ou excedeo , porque 
nunca virão as fuás pmturas , os que dizem mara- 
vilha^ delias '5 e fe algum as vio y certamente não 
vio as que nos outros feculos admirarão o mundo; 
hei certo porém que foi ioílgne ^ e ditofo; porque 



( 35^5 ) 

itfaqne^IhedeoAJexandre Magno pé\ò feh retrai 
to , ( cfoe fò quiz o fi^eíTe Apelles ) baftava para 
fer riquií&mo , e além díflb o amou com tanto ex* 
tremo , que mandando-lhe retrataíTe fua concubina 
Campafpç , e vendo^o namorado delia y lha deo 
bem .dotada^ Floreceo trezentos annos antes do 
nafcimentó* de .Chriftò , dizem nunca tivera dia o- 
ciofo no feu emprego ^ de que naíceo o provérbio : 
Nullus dies fine lineaj eque efcrevêra muitas obras, 
e regras pafa a arte da pintura j que fe perderão. 
Contão-(e vários defafios entre, elle , e Protogenes 
feu . contemporâneo ; mas na verdade sâo fabulas 
inventadas por outros Pintores. Jnverftij íobreno- 
nie da mais memorável Dama de Heípanha no fe* 
culo paíTado ^ chamada D. Ifabel de Anverfa : depois 
de muitos difvélos , e maiores difpendios , a con- 
feguio para mulher própria D. FrancifcoValcarcel, 
Alcaide da Corte , e Cafa de Filippe IV. de Heí- 
panha, e ella defprezando as obrigações, e lei do 
matrimonio , admittio no tbalamo ao Conde Du- 
que de Olivares, e a outros: naíceo delia hum fi- 
lho, a que chamarão Julião , fabula daquelle fecu- 
lo, e péla da fortuna, porque nem D. Francifco, 
nem o Conde Duque , e menos os outros o reco- 
nheciãò por filho , defgraça que o obrigou a mili- 
tar nas índias , onde foi condenado á forca , e o 
livrou da pena dizer que era filho de D. Franctfi- 
CO : militou depois em Flandes , e fempre com 
máos cofiumes : veio á Corte ; e achando a mâi 
fepultada , pedio a D. Francifco , que ao menos lhe 
permittiíTe o fobrcnomè de Valcaxcel , renunciando 
toda a herança ^ porém ^Ik ceito em que. não era 

ícu 



fen pai , fó na bora da morte y para evitar us im- 
portunaçóes do Conde Duque , o reconheceo , e 
elle aproveitou logo bem a nobreza j cafando com 
D. Leonor de Verzueta , dama pública da Corte | 

2ue lhe proteftott fe não queria embaraçar cotd ú 
londe Duque j fe tinha parentefco com elle. Ce^ 
lebrou-fe o matrimonio em cafa da mãi da noiva 
em prefença do feu próprio Pároco ; mas para dí^ 
vertimento do mundo ^ de repente com authorida* 
de Regia appareceo Juiiâo Valcarcel declarado £^ 
iho do Conde Duque^i que perdidas as efperançaa 
de tèr íucceíTôr para a fua grande Cafa*, efcolheo 
efte filho duvidofo para fuccefsâo delia ; e como o 
nome Julião he abominado em Hefpanha , deíde 
que o Conde defte nome a entregou aos Mouros 
toda •) o imaginado pai mudou o nome ao filho y 
que dahi poi^ diante fechamou D. Henrique Fi)i« 
pez de Gufmão : crefceo o delirio^ querendo-o ca- 
lar^ fendo legitimamente cafado, fahia a Juizo em 
Roma a nullidade do primeiro matrimonio y co«% 
metteo o Papa o exame ao Bifpo de Ávila , que o 
julgou nullo pelo bem achado y e fálfo titnlo de 
que o matrimonio fe contrahíra em cafa da tnâi y 
que vivia em Paroquia difierente , da em que mo^ 
rava a filha y e náo aíliftir o Pároco defta. Socegi-^ 
râo o^ clamores de D« Leonor ,.cafando-a logo 
com hum Bacharel ^ a quem derâo largo dote y e 
o ofEcio de Ouvidor nas índias ; e o Conde Du- 
que ajuftou logo D. Henrique côm D. Joanna Yc^ 
lafco , fiiha mais velha do Condeftavel de Caftellâ 
da primeira Granddza de Hefpanha y^c DaAia do 

Paço. Emudecêráa os damores dos; parentes ^ -0 

her- 



. ( %n ) 

Iferdeiiios íi^tlmbs do Conde Duque' ^ vendo qué 
o Rei fazia ao noivo as maiores honras, e Ihepro- 
metti» outras com os titulos y e dous Ducados de 
fett imaginado pai : cada hum lhe mandou o me* 
Uior que tinha , e o Duque de Medina de las Tor* 
res lhe mandou tanto^ que excedeo o valor de hum 
milhão de cruzados o mimo. Teve o chamado D. 
Henrique hum filho , que morreo menino em 1 644 , 
e feguindo-fe logo a defgraça , e morte do Conde 
Duqtie^ como já ouviftes na vida do Rei D; João 
IV., os feus parentes , e herdeiros, vendo que o 
Rei abominava o íuppofto filho , moftrárâo ^ que 
eiie tinha outro pai , de que fe ieguio privallo o 
Rei das honras ^ e herança, o Almeirante do tha« 
lamo da filha , e o defgofto da vida ^ ultimas cir* 
cunftancias, que Moreri cala para não renovar mais 
alguma dolo roía memoria deHefpanha, onde aii^ 
da muitos defejâo efcurecer a verdade defta trage- 
dia impreíTa hoje em todas as linguas da Europa. 
Apicia , era* nome irriforio que os Romanos derãd 
âoi^: glutões do. feà tempo ^ em que houve muitos^ 
e hum 'tão célebre y que abrio efcola pública de 
gloroneria na Cúria j em que enfinava os modos, 
com que o homem fe podia excitar para comer mui- 
to ,. e deu á luz para iíTo hum livro do mefmo a(^ 
fumpto: efte gaftou emguizados fuperfluos milhão 
emeio>;e vendo que lhe ficava já pouco para con* 
tinuar o vicio , matou»fe com veneno , que para 
tal bruto foi o melhor bocado. Apocalypfe^ já fabeis 
que he hum livro do Teftamento Novo revelado t 
S. JoâoEuangelifta , que o efcreveo ; porém no anno 
de 1674 ie levantou em Roma huma íociedade de 

lou- 



Umcoi officlats inecatiicos ^ intitiiladois Cavriieirot. 
do Âpocalypfe^ cnjo iflftitutx> diziâo clles, era de^: 
fender a Igreja da perfegurçio do AntichriAa^ qoe 
eftava próxima : trazíâo por habito , e dírifa nos 
vefiidos bama catana j e bum baftão em a(pa com 
a letra : Gabriel ^ Micbael ^ Rãpbael ; chegarão ao 
numero de oitenta y em que entrário alguns nobres 
attrabidos dã conveniência j que tinhâo nos erFOS^ 
que em fegredo eofinavâo os fundadores , a £iber: 
que todas ás mulheres, como não faltaffero emcem^ 
po algum com o debito a feus maridos , podiSo 
lervic qúándo quizeffem a todos j e que oa ca&H 
dos, eípecialmente fendo defta ordem, podiao re- 
pudiar as mulheres, qnandolhenâoagradaflTein; fa^ 
râo venerados do povo , porque da vão muitas ef* 
molas y favoreciSo a todos , e pfofefla,váo tão ri- 
gorofamente a cavalleria , que trabalhando em of- 
ficios , Que requerem bem expedito o cx>rpo j nâa 
tiravâo da cinta a efpada, como parte do habito ; 
ipas durarão pouco ^ porque o feu Meíkre> e fuivt 
dador Agoftinho Gabrino natural de Brefcia y que 
entre oa Cavalleiroa fcf intitulava Príncipe do wme^ 
ro feptenwio , e o Menarca da Sautiffima Trindade ^ 
foi pre^o nomeímo anno da fundaç^; porque em 
dia de Ramos , quando na Igreja de S.. Pedro /e 
carltoQ na Prociíáâo o verfo , oue diz : Quem be cA 
te Rei da Gloria ? de repente aefembainhou a efpa^ 
da 9 e com ella nua fe introduziu na Cammnnida- 
de dos Clérigos gritando, e dizendo: Emfotíy eu 
foH ejje Rei da Gloria \ levárfio-no logo paria a cafa 
dos loucos , e pouco depois oiitro declaiKUii úb er< 
ros da nova naiíicia > pelo. que forão tcinu pregos > 

ceai- 



«caftigixIoS) o que baftou para curar Síiàâo$.'\/fpá9 
€ryfy. Efte nome <enrre o vulgo tem accepçâo to- 
talmente dnrería do que fignifica , e figni£cou fem« 
pre j fwrque os ignorantes , e muitos que ignoráo 
ter efle ddetto, entendem^que apocryfo quer dizer 
coufa falfa^ fingida , mentírbfa , e inventada , quan* 
do aliás efte nome derivado do Grego , nunca íi- 
gnificou 9 nem pôde fignificar leoão x:ou(a occulta ^ 
eignot;aqÍa9 [de forte qiie pòdc bum livro (er Xagra* 
do, ou divimi., e chanTar^íe apocryfo , porqus ã^ 
cando dlguin tempo occulto , e fendo muitos an* 
nos , € por muitos íbgeitx>s oao conhecido , dd* 
inerecfo a fé poUica da Igneja j que í& o pode re^ 
CQobecer ^ e publicar íàgradío ^ ou divino , como 
rào 'todos os que o Sagrado Concilio Tridtxitino 
oos pmrpoz^ ieapprovou por verdadeiros , eCano- 
níícos no .Corpo da Bíblia , deixando por apocry*. 
fos os bvros terceiro, e quarto deEídras, eaOra** 
çSo de.M|inaíres,;tudo pertencente ao.Teftamento 
Velho , pi*quacs «áo ohftante íerem algumas vezes 
citados pelos Santos Padres , o commum da Igrga 
os ignorou muito tempo y e Santo £pifanio diz não 
íe achirâo com os outros. Santo Agoftinbo no li*- 
yro 15. de Cmta^e Utei ap, 23. d|z fe chama livro 
opocpyfo j ainda que íèja Santo , a todo aquelle y 
cuja origem não eftá conhecida : ifio bafta. Jlpolo^ 
adoradq por todo o Gentiliímo do mundo como 
Deos daMuíica, Poezia, e Medicina, objeâo das 
maiores ficções Poéticas , e defatinos , qne adora** 
xáo, e crêráo.os homens (a cu}as eftatuas erigirão 
Templos, que fe podiâo numerar entre as maravif 

i|ias ido mnndoj entre as^uaes adcDelfos erabníp 

dos 



( 3^o ) 

doá^racolos / por cuja boca reípondia o demónio 
ao que fe lhe perguntava ) toi hum homem perito 
na Medicina , Poezia , cMuíica, cuja pátria feigno^ 
ra, mas floreceo em Grécia ^ onde depois de mor- 
to^ ou aufente, lhe levantarão a primeira eftarua: 
julga Voffio/ que oidolo Jubal de que falia oTex* 
to Sagrado era Apolo , mas foráo tantos os Apo- 
los de Grécia , e Egypto todos adorados \ qnè fe 
não pôde aflentar émqúal dellesfi^ía Jubal, equal 
o pai do Medico Efculapio, €{ue também foi Dcos 
daGentiHimo. Amrou Benlaith i, ow.Laitb II. P ria* 
cipe da Dynaftia dos Soffaridas, Senhor daPerfia, 
e terras dos antigos Parthos mereceo efpectai Jerm 
branca por hum dito jocolo: vencido ^ epriziooei» 
ro efte grande Príncipe no arino de 900 potlfmael 
Samaili, deígraçá de que foi caufa ofeu caraUo^o 
qual desbocando fe o introdu^io no exercito inimh! 
go , pedio a hum foldado lhe guizaíTepara comer 
alguma coufa , e efte poz a cozer hum pedaço de 
carne no caldeirão ^ em que bebião os cavallos ^ atra* 
vcíTando-Ihe nas azas bum páb: veio hum cãorwi^ 
bar a carne , e efcaidahdo no caldo o focinho y íe 
retirou com tal preíFa, que levou o caldeirão pen» 
durado napefcoço pdo páo.que tinha atraveffado: 
Amrou qiievio tudo^ rio com tal exceíTo , que, o 
jeprehendêrão os íeus, dizendo não era tempo pa« 
ra rifada» , a que elle refpondeo : Rithme j par^ 
ejia manhã me dijfe o meu Mordomo , que trezentos ca* 
meios não podião levar a minha cozinha , t -xigora ve^ 
jo , qtte hum fá cão a leva toda : morreo dcr fome 
prezo. 



# « f 



LISBO A , Na Officina de Miguel Mancfcal daCofta; ImprcíIor'<fi 
Santo OíScio. An no 17^4. Com todas êsiicçnfas ncc^ãriâSt 



( 3<' ) 

CONFERENCIA XXXI. 

ALbornoZj hefobrenome do Cardeal Gil Al- 
vares Carrilho Albornoz, hum dos fogei- 
tos mais excellentes , que nafcêrão cm Hef- 
panha : defcendia dos Reis de Leão por 
feu pai , e dos de Caftella por fua mãi : foi gra- 
duado em Direito Canónico, Efmoler mór de D. 
AíFonfo XI. de Caftella, Arcediago de Calatrava, 
e Arcebifpo de Toledo : fez grandes íerviços a ef- 
te Rei, livrando-o de Alboazem, Monarca pode- 
roíiíEmo dos Mouros , e alcançando-lhe do Papa 
Clemente VI. , e do Rei Filippe de Valois gran- 
des donativos. Morto o Rei D. AíFonfo, feu fuc- 
ceíTor D. Pedro o Cruel o intentou matar , fugio 
para Avinhão, onde eftava o Papa Clemente VI. , 
que lhe deo o Capello no mefmo anno de 135:0: 
Innocencio VI. feu fucceífor o mandou por Lega- 
do , e General a Itália , a qual reduzio toda á obe- 
diência do Papa, caftigando, e vencendo todos os 
ufurpadores do Património de S. Pedro: Innocen- 
cio V. o chamou a Roma, eUrbano V. depois de 
oeftimar, como merecia, IhediíTe: (para fe diver- 
tir com a refpofta ) Dizei-me: Onde gajiajles tantos 
milhões de cruzados da Igreja na guerra de Itália ? 
Sem alteração refppndeo Albornoz , que no dia fe- 
guinte lho moftraria: nelle fez vir o Cardeal á pra- 
ça do Palácio Pontificio hum carro com todas as 
chaves , e ferrolhos das portas das Cidades , que 
reduzira á obediência da Igreja , e convidou o Pa- 
Tom. VIL Hh ^^ 



pa a que viíTe efte rol do gafto defde huma janel>' 
la. Antes de morrer fe rcfiron para Viterbo a tra* 
tar fó em o negocio da falvaçao : morfco no anna 
de 1367, foi (entida pelo Papa, c toda a Cúria a 
fua mone^ e concedeo muitas Indulgências a quem 
acompanhaíTe o feu cadáver defde a Igreja de S. 
Francifco de AíEs , onde foi fepultado , até a de 
Toledo, para onde o trasladarão. Fundou em Bo- 
lonha o Collegio dos Heípanhoes , reedificou a fo^ 
bredita Igreja de S. Francifco de AíEs , e foi táa 
deíintereíiado , que apenas recebeo o Capello, re- 
nunciou logo o Arcebifpado ; e eftranhando^lhe aK 
guns íguaes efta acção heróica , refpondeo : He 
CO ufa indigna vituperar^me j porque deixo a Efpofãj 
que não pojfo guardar , nem fervir , quando o meu 
Rei deixa buma excellente EJpofa por D. Maria àt 
Padilba. Albufeira j he Villa antigamente íorúBitna. 
no Reino do Algarve, hoje, depois do tcrremota 
d^ ^755 y apenas Aldeã, fe bem antes já o era, e 
menos alguma coufa , porque nella fe não acha 
coufa alguma do neceflfario para a vida humana ^ 
nem huma fó peífoa , que firva outra , elevados , 
ainda os mais pobres y e mendigos , na fua antiga 
imaginaria nobreza, que feria grande, fefofle pof- 
fivel confervar-fe no domínio de tantas nações ^ 
que a dominarão , a que lhe deo Tubal , que ( fe- 
gundo as memorias de Luiz de Couto Fclix ) paf- 
íou nella para a eternidade, e dahi o levarão a fe- 
pultar , como ordenou y ao Cabo , ou Promonto^ 
rio Sacro , hoje chamado de S. Vicente, Merece 
porém efta Villa efpecial memoria entre todas as 
da nação Portugueza y porque no anno de 1593 > 

ha- 



( 3«3 ) 

havendo pefte nefte Reino, e efpecialmente em Al- 
bufeira ) onde havia huma Capella dedicada a S* 
Sebaftiâo , na noite do dia trez de Fevereiro , ifto 
he , na primeira hora do dia quatro do dito mez , 
porque foi pela meia noite , fahio da íua Capella 
a imagem de S, Sebaftiâo acompanhado de vinte e 

Suatro Anjos com tochas accezas , formando em 
uas alas huma viftofa , e celeftial procifsão , que 
os moradores atónitos virão das íuas janellas , e 
portas: caminhou aprocifsâo por todas as ruas, e 
outros Anjos invidyelmente abrirão as portas de 
todas as Igrejas, ou Capellas da Villa, entrou na 
Matriz peia porta principal , e íahío pela mefma ^ 
entrou na Capella de Santa Anna por huma por- 
ta , e fahio pela outra , e fó náo entrou na Igreja 
da Mifericordia , ainda que eíbva a porta aberta ; 
excepção , que fenão foíTe myfteriofa , e celeftial j 
podiamos attribuir a nojo, que os Anjos, e o San- 
to tiverão de entrar nella , porque ainda hoje , de- 
pois de concertada, creio he a caía deoração mais 
indigna defle nome , que ha em todos os dominios 
da nação Portugneza , e a que melhor repreíenta 
agora com o Sacrário , a eftrebaria, em que nafceo 
Chrifto Senhor noíFo. Recolheo-fe a Procifsão á 
Capella do Santo , deixando livres da pefte todos 
os que moravão nas ruas , por onde ella circulou : 
fecharão os Anjos as portas , e collocárão a ima- 
gem no Altar. Pela manhã cedo communicárão os 
moradores mutuamente o que tinhão vifto , e a 
melhora repentina, que os âpeftados havião expe* 
rimcntado ; e para que não julgaíTem fora engano 
da fantezia^ o que era íingular maravilha da omni- 

Hh ii ^^-^ 






f otencia 9 acharão nas ruas muitas fettas do Sao-' 
to , que elie deixou cahir para teftemunho de que 
por cilas andara, e nas pedras limpas das ruas pin- 
gos de cera das tochas , que os Anjos levarão ac- 
cezas: correrão todos com o Pároco, e Clero de- 
votos com as íettas a Capella do Santo , e acha- 
rão que não fó erão as mefmas, que fempre teve, 
e lhe faltavão^ mas virão outro prodigio maior, e 
até hoje certamente único em todo o Orbe Catho^ 
lico , teftemunho divino , perenne authentíco de 
todo o referido: acharão a imagem do Santo (que 
antes não tinha defeito na encarnação , e membros) 
com o corpo todo cuberto de nódoas pardas, que 
era o mefmo , que antes padecião os apeftados , 
com os olhos noCeo, o pé efquerdo fixo, e o di* 
reito no ar , como fe eftiveíTe para fubir alguma 
efcada para o Ceo , e ( o que mais he, e faz paf- 
mar ) hum dedo de mais em cada mão , prodígio 
o mais raro , e myfterio incógnito , que ha cento 
e fetenta annos tem fatigado com efpeculaçóes os 
Pregadores mais doutos, e engenhofos; e porque 
os prodígios não coftumão ter femelhança com os 
defeitos, pois são obras de Deos, e perfeitas to- 
das, o dedo, que o Santo tem de mais em cada 
mão, não eftá pegado áraiz dopollex, como fuc- 
cede nos homens , e mulheres , que naícem com 
féis dedos , mas fim he hum de mais entre os de- 
dos compridos , com tal igualdade; na raiz com os 
outros , que fe ignora qual he o novo , e prodi- 
;iofo , e quaes fó os que lhe fez o Efcul tor ^ e fó 
fe vê que he bum dos compridos de mais , e que 
íendo proporcionados > são féis. Appareceo liga- 
do 



( s^s ) 

do á arvore 9 como antes eftava , e com acção mais 
penofa, e violenta do que antes tinha, quando fir- 
mava os dous pés na peanha y e não levantava a 
cabeça. Â imagem he de madeira , e boa efcultii- 
ra ^ de forte que osartifíces, íem (lie verem os de- 
dos , conhecem que ha nelle coufa , que excede a 
arte na dífpoíiçâo do corpo , que pouco excede a 
altura de trez palmos. Quando andou pelas ruas a 
pé no fim das duas alas de Anjos, foi folco, efem 
a arvore , a que eftá ligado , e á que fe reftituio 
logo. Com o terremoto de 17551 cahio a fua Ca- 
pella y que agora lhe levantão melhorada no defe- 
nho : todos os annos o fefiejâo no dia quatro de 
Fevereiro , e o Pregador he obrigado a referir, e 
ponderar todas as circumftancias defte raro prodi* 
gío: aílifte o Senado, e no fim daMiíTa vai o San- 
to em Procifsão pelas ruas acompanhado de vinte 
e quatro Anjos, em memoria dos verdadeiros, que 
o acompanharão naquella feljz noite. Conferva as 
mefmas nódoas da pefte , que tomou íobre fi para 
livrar aquelle povo ; e aílim eftá exppfto todo o 
anno aquelle protento na ciiamada Igreja da Mife- 
ricordía em hum Altar nada decente, e pobriflimo 
entre as mais imagens, que eftavao na Matriz, que 
cahio; e por náo haver ou^ra alguma Igreja, em 
ue ter o Sacrário , ecelebrar os Officios Divinos, 
e mudou para a dita Mifericordia , onde íe náo 
pôde dizer com decência huma Mifla rezada , quan- 
do aliás efta rara maravilha da omnipotência devia 
jcftar com o maior reíguardo, ^c^glto tpido o anno 
efcoodida , e moArar-íe ^^àlle ih , em qiie 
delJa fe faz memoria, para!i||B(t)f:^ú^ ^eÍ3 dcvo^ 
To m. VIL Hh iíi çáo , 



i 



çáo j' piedade , religião , e conhecimento do qne 
devemos a Deos , e a efte grande Santo. EftoE 
certo que íe efta Santa Imagem eftiveíTe ( quando 
obrou o prodígio) no maior Eritio de qualquer ou-' 
tra Província do Reino , a devoção lhe edificaria 
o melhor Templo , e o perenne concurfo de ro- 
meiros , e devotos fariáo huma populofa j e bem 
afliftidaV^Ua, o que antes náo ttveíTe huma caía; e 
fenâo, lembrai- vos dos Santuários íó defte termo^ 
cujos princípios foráo defertos , e hoje delicíofos 
povoados abuqdantiflimos com Templos magnifir 
cos j tudo fruto das efmolas dos romeiros , e cí- 
rios. Efta chamada Villa, onde não ha forno para 
e povo, nem conía alguma de venda y nem moço, 
ou criada ^ que firva , em fim , onde tudo faka , c 
fó a neceífidade de tudo fobeja , tem Juiz de Fo- 
ra, huma cafa rica, algumas abundantes | e todos 
até o nvais pobre , e miferavel fervente de pefca^ 
dor, nobres. Creio não tem a Coroa Portugueza 
dominio tanto , nem mais apto para caftigar hum 
vaíTâllo com degredo ; porque Caftromarim ^ Ma- 
zagão , Cacheo , &c. á vifta de Albufeira são Pa- 
raizos terreftres ; mas fora da Villa tem os mora* 
dores as mais alegres , e bem difpoftas fazendas : 
e fe bem ordinariamente chamão quinta a hum pe- 
queno figueiral com huma vil cabana de junco, to- 
das merecem a nome pelos frutos, deliciofo fitio, 
vifta excellente do mar , e aftmosfera fafntifera ; e 
entre eftas ha quintas verdadeiras , e mais rendo- 
fas , qiie as das outras Províncias , femelhanteâ na 
extenção : os feos frutos principaes são os melho- 
res figos de muitas eípecies^ bufcados por iflb dos 

na* 



tiattiraes ^ e eftranhos ; beneficies , que devem ás 
arêas , que eflerilízando-lhe as terras para outras 
colheitas , lhe faz as dos figos mais preciofas. O 
feu peixe he o primeiro , que no Algarve fe parece 
no gofto com o de Setuval , Lisboa , e Peniche , 
porque eftá fundada em rochedos , c cofta brava ; 
mas podendo-o ter com abundância , padece até 
diíTo j como de tudo , penúria , porque como os 
pefcadores fe juigâo nobres antiquifiíimos , fó obri-- 
gados pela Juftiça, ou fome fahem a pefcar, etâo 
perto de terra , com tal medo , perguiça , e frou* 
zidáo y que nSo ha memoria de que pefcador de 
Albufeira foíTe a Argel. Segundo as memorias de 
Luiz de Couto Feiix^ foi Albufeira o primeiro 
porto de Annibal , donde paflfou a fundar o que ho- 
je chamão Villanova de PortimSío, e o Portus An^ 
nibalis , que o terremoto defcubrio. Os Romanos , 
e Mouros a julgarão inconquiftavel com grave fun- 
damento ^ e aínm o experimentou o Rei D. Affbn- 
fo IIL : nada deveo efta Villa ao Moreri ^ e a mim 
fá me deverá o dizer a verdade. 

Depois de vos contar ( difle o Letrado) tu* 
do o que vi , e ouvi no Oriente das pedras Aga- 
thas ^ me lembrou a fingularídade de huma , que 
•tem j e muito eftima o Duque Carlos de Lorena 
'irmáo do Imperador de Alemanha , e Governador 
dos Paizes baixos : he efta pedra opaca em humas 
partes , e diáfana em ou^tras , tem muitas , e di>- 
verfas manchas brancas , pardas , e vermelhas , no 
meio delia fe vê prímorofamente pintado pela na» 
tureza hum Cifne, e eípecialmente por huma das 
faces, ou lados da pedra ^ e o que nella tem admi- 
ra- 



( i^B ) 

râdo o orbe literário, e fatigado osentendimeatos 
dos melhores Filofofos defte feculo, he que le enr 
volvem efta pedra em hum papel molhado em a- 
gua , defapparece totalmente a pintura do Cifne , 
confuadem-íe as manchas das partes opacas , e fó 
fica apparecendo huma pintura cinzenta , ao mef- 
mo tempo em que as manchas vermelhas ficão mais 
vivas y e preciofas y e as das partes diáfanas mais 
pequenas, e efcuras: fe pôe efta pedra fingular em 
fitio húmido , ou fobrç .alguma pedra molhada , 
padece as mefmas mutações , poréoi nunca tão 
grandes, como quando a envolvem em papel, ou 
panno molhado, porque o Cifne não defapparece ^ 
ainda que fe lhe alterâo as cores , como também 
alguma coufa as das manchas: e o fegundo prodí- 
gio natural, que nella fe admira he apparecer oCiC- 
ne, e reftituirem-fe todas as cores ao feu primeiro 
eftado , ao compaflfo que fe lhe evapora com oSolj 
ou vizinhança do fogo a humidade , que recebeo 
do panno , paliei , pedra , ou íítio molhado. O 
Revercndiflimo Padre D. Thomaz Mangearx Mon- 
ge de S. Bento da Congregação de S. Vannes , e 
Antiquário do Duque imprimio em Bruxelas no 
aono de 17 Si huma doutiíEma diífertaçâo a ref- 
peito defte fenómeno , que muito louvâo os Padres 
de Trevoux uas memorias, do olefmo anuo. Creio 
ierão mais feníiveis , e dignas de admiração as ma* 
taçôes ncfta pedra: fe a molharem com agua falga- 
da, ou. vinho, vinagre, azeite, ficc. e que fe báo 
de reitituir as fuás primeiras oones , tanto que eva- ^ 
porar as huiijidades , poirquí .na ná(}..Madr« 4p ^ 
Dcos , em que }á vos diíft: trazia itttlit;<^ centos 

def. 



( 3^9 ) 

deftas pedras Gabriel Timotheo , e João de Mel- 
lo huma excellente no tampo de huma caixa : per* 
deo efta todas as cores , e a pintura de hum boi 
comendo os frutos de huma arvore , porque a te- 
ve debaixo do traveíTeiro no tempo, em que pade- 
ceo hum copiofííSmo íuor na defpedida de huma 
cezao^ o qual molhou a pedra, e caixa toda: hum 
Cirurgião, que vinha namefma náo, eprefumia de 
viageiro, e naturalifta, a mandou lavar com vina- 
gre forte , com o que ficou abfolutamente branca , 
tendo-a o fuor deixado fem pintura , e toda ama*» 
relia: aíHi£lo o dono com o infortúnio, emáocon- 
felho, me pedio lha guardafle , e eu fem mais di* 
ligencia , nem beneficio , que tirar-lhe o tabaco , e 
envolvella em roupa branca , a achei dahi a hum 
tnez, e alguns dias na barra da Bahia, tão precio*^ 
fa como era , e com a mefma pintura , manchas , e 
tudo o mais que tinha: a fegunda peífoa, a quem 
logo communiquei efta admirável obra da nature- 
za , foi Gabriel Timotheo , ao qual pedi exami- 
naíTe as Âgathas , que trazia , e fe bem lhe não 
havia tocado agua faígada , nem a íua avarey.a con- 
fentia experiências na mais vil de todas , confeíFou 
tinhão as cores mudadas , reípeftivamente , ás que 
tinhão, quando as embarcou em Goa; mas expon* 
do-as ao Sol na Bahia com o meu confelho , de- 
pois me fegurou que tanto as penetrava o calor y 
como renaícião as pinturas , e cores mortificadas , 
até o eftado natural, em que, dizia, eftavão quan- 
do as moftrou. Na opinião dos Filofofos moder- 
nos , e verdadeira , confifte efta mudança em íerem 
muito flexiveis as fibras^, e partes ténues defta pe-^ 

dra y 



(370) 

drsíy motivo, porque a humidade , e qualquer ca- 
tro exterior agente lhes muda a configuração , e 
moíbráo diverfa cor y aílim como a prata !iza , cu 
quebrada, tirada do cadinho-, ou batida , a agua 
de galhas , e caparrofa , e mil exemplos, de que 
tendes noticia , ao que fe accrefcenta a experiên- 
cia , e noticia de que as Agathas fó recebem , e 
coníervâo para íempre as cores , e figuras que íe 
lhe antepõem ao Sol depois de molhadas com a 
chuva , que naquellas Provincias he morna , e no 
tempo da maior calma , de forte , que todas as 
manchas Julgáo os naturaes forâo antes figuras y 
mas que faltando o Sol intenfo para roborar as 
íbmbras ( e como nós dizemos ) pôr em tono , e 
configuração competente as fibras , e partes infen- 
fiveis da pedra , repetindo-fe humas fobre outras , 
vem a fer mancha , o que pudera íer admírave/ re- 
trato de alguma coufa. Albuquerque ^ he huma Ci- 
dade, e Praça fronteira de Hefpanha na fua Eftre- 
madura , julgada inexpugnável pela vaidade Hcf- 
panhola , que fe defenganou muito á fua cufta , 
vendo->a rendida ao Conde das Galveas no anno 
de 1704, fó com trez dias de fitio , e fogo , fem 
lhe valer a íua eminente , e fortiíEma Cidadela , e 
mais obras dignas fó de apreço pela antiguidade. 
yJ/exandria , chamada a Grande para diftinçâo das 
outras, que tiverâo o meímo nome, he huma Ci« 
dade Patriarcal do Egypto fobre o mar Mediter- 
râneo : Alexandre Magno a fundou pelo deíenho 
do memorável Arquiteto Denocrates, ou Steficra- 
tes, para memoria das fuás conquiftas , e vitorias 
trezentos e trinta e dous annos antes donafcimen- 

to 



( 371 ) 
to de Chrifto Senhor Noflb : foi fituada entre o 
mar, ehum braço do rio Nilo , no lugar onde an- 
tes eftava a Aldeã Rachotis : foi a primeira Cida- 
de de África depois que padeceo a ultima ruina 
Cartago y e a primeira Cidade do mundo depois 
de Roma na eftimação dos Imperadores , e fogei- 
tos grandes. Letras , Armas , abundância , e de- 
licias parecia que fó nella havíSo nafcido , porém 
iflb fez os feus moradores tão foberbos , e fatyri- 
cos , que o Imperador Caracala para lhes caftigar 
as línguas , fingio queria erigir humas novas , e 
honradas tropas dos mancebos illuftres Alexandri-» 
nos j e juntando muitos mil em hum campo , on- 
de concorrerão o.^ país, parentes , amigos, e ou- 
tros para feftejarem a fortuna dos eleitos , os de- 
gollou a todos. Ornar III. Calife dos Mouros a 
conquiftou , e deftruio , e os Turcos , que a pof- 
fúcta defde o anno de 15:17 , a fizerão hum monte 
de pedras : deftruirão a celebre torre do Farol , 
que nella edificou Ptololomeu Filadelfos , e os 
mais primorofos edifícios , em que fe empenharão 
os Cidadãos , e Imperadores Romanos muitas ve- 
zes eleitos pelos Alexandrinos , que afpiravão a 
fazer a fua pátria a primeira Cidade do mundo. 
Depois do refgate de S. Luiz a defmantelárão os 
Francezes , e Venezianos com fogo , reftaurou a 
Soldâo as muralhas, e os Turcos as ruas, que os 
naturaes defamparárão perleguidos do contagio y 
que lhes refulta das aguas corruptas das cifternas, 
e na verdade efpecial caftigo de Deos, porque an- 
tes fe não corrompião. No primeiro de Agofto 
com grande feftejo abrem o canal, por onde o rio 

Ni- 




( 37i ) 

Nilo entra na Cidade por baixo das muralhas , e 
com a fua agua enchem as cifternas cubertas de 
abobadas , e defta agua bebem todo o anno , por- 
que não tem outra; mas , ou porque faltou a lim- 
peza nas cifternas y ou porque adquirirão alguma 
eftranha qualidade , no Verão íe corrompe. Hum 
Veneziano , que a frequentou muitas vezes , me 
aíTeverou y que a corrupção annual dos ares de A- 
lexandria não era a corrupção das aguas do Nilo 
guardadas nas maiores ciílernas , que ( elle dizia ) 
ie virão até hoje , cobertas de abobadas y mas dca 
o fedor dos banhos dos Turcos. Ainda exiftem na 
Cidade algumas ruinas dos Palácios de Cleópatra; 
da coluna de Pompeio íeira de huma fó pedra ar- 
tificial^ que hoje Te não fabe fundir, e não admit- 
te polimento; o Conclave, onde os fetenta Inter- 
pretes verterão os Livros fagrados, de que já ten- 
des noticia ; huma pequena Igreja , de que tem 
hum Catholico a chave para a moftrar aos pere- 
grinos , dedicada a Santa Catharina Virgem , e 
Martyr, natural deíla Cidade , e edificada no fitio 
onde efteve preza; outra Igreja de S. Marcos, que 
poíTuem os Chriílãos Scifmaticos Cofitos , onde 
eítá ofepulcro, mas não o corpo de S.João Euan- 
geiiíta, que dizem roubarão os Venezianos, fenda 
certo, que nem elles, nem outros o virão. No fim 
da Cidade efiá hum grande forno , em que dizem 
exercitara Jacob Almanfor o officio de padeiro , c 
os Mouros, que venerão eíle Rei de Marrocos por 
Santo , vifítão com muita devoção o dito forno , 
jnlí>ândo que nelle eftá enterrado. 

LISBOA, Na Offícina de Miguel Manefcal da Cofta , Impreflbr do 
Santo Officio. Anno I764. Com todas qs licenças nccejfariau 



( 373 1 







CONFERENaA XXXII. 

Ifta efta Cidade de Alexandria, (cont^uioiz 
o Letrado ) da do Cairá quatro* léguas ^ 
motivo, porque o mar roxo, e o Nilo lhe 
introduziáo com fumma abundância todas 
as riquezas da Afia, e Africa , que Jogo com gran-!» 
des lucros fe communicavâo á Europa^ mas como 
o fea porto ^ fendo excellente, be perigofo na en» 
trada , por caufa de dous penhafcos , hum chama- 
do Diamante, e outro Gírofele, e o noífo defcu- 
hrimento da < navegação da índia kz. mais fácil 
efte commercio para toda a Europa ^ -hoje apenas 
frequentâo cem navios cada anno o porto.de Ale^ 
xaildria. Teve efta Cidade as maiores , e melhores 
livrarias antigas : a de Ptolomeu , que abrazou Jú- 
lio Ceíar, e a de Cleópatra, $}ue Marco António 
accre&entou com a de Attalo Rei de Pergamo ^ 
8 qualjuntamente.com o Templo de Sarapis qtlei^ 
márão os Catholicos comiicença do Imperador 
Theodoíio, e extinguirão neUa o maior Arquivo ^ 
e theíouro da Aiperftiçâo Gentílica*. No anno jTo. 
de Chriíb fundou S. Marcos efta Igreja , em que 
£31 o primeiro Bifpo , e a dividio , e cxtendeo de 
íõrte , que o Patriarcado de Alexandria tiriha dez 
Arcebifpados , e innumeraveisBiípos fuffraganeos; 
poréfii^cQmo foi pátria da herefia Arriana , e ptr>^ 
j&guia ao feu Patriarca Santo Athanafioi , pei^deo 
toda a honra , e gloria , que lhe tinhão, adquiri- 
do tantos Concílios, íinco Patriarcas Samos, mui- 
• Tom. VII. li tos 



( 574 ) 

tos Doutores 9 e fogeitos egrégios, de forte, qne 
hojeiciin tzStiàõ dos fcilmas , jeherefits , ít vê caf- 
tigada, como toda a Grécia , com hum Biipo , e 
poucos Clérigos Gregos , idiotas , pobriíEmos , dei- 

Seaados-) crfctfmaftiobs fujèitos b Ot)nâ:antino{lk. 
ouve' outras latiftás Cidades com o mefáo no- 
me y como fpráo JÍJtxandria Sarmata^ que Âlexiii- 
dre Mamo edificou junto aoTanais rio da Sarma- 
cia ça Europii \ esjuiaba fe^enta efiadios de circui^ 
to : outra /andada pelo mefmo no* trtònte CauoN 
íb y humt em Trácia , outra na índia , todati ex« 
tintas : e ultimamente Alexandria da Palba , que 
fundirão os naturaes de Cremona y Placencia , e 
Milão para "defenderem o partido do Summo Pon- 
tifice Alexandre 111/ contra o Imperador Frederi- 
co Barbarroxa , o qual dizem, que por ignominia 
lhe chamara Alexandria de palna : outros que lhe 
dera efte iobrenome irríforio a fundação ptimeira 
dos fens muros , que er âo de terra , e palbiços ^ ou 
paHias, e fenos ^ ò que he incrível, fendo ella fun» 
dada ( como diisem todos ) no anno At \i$^ ^ t^ 
conM> duvidio alguns, em X170, quando aArqui- 
teâura das Praças inexpugnáveis , antes da inven* 
çâo diabólica da pólvora , tinha chegado ao maior 
auge de periciçia, e facilidade para fe^rdticar; e 
certamente falfo, íenáo mentem Platina, VoUtír-^ 
rano , Merula , e outros muitos , que afleverâo fé 
defenderão fei^ meMs de filio quinze mil vizinhos 
valerofamente ^ e obrigarão Barbarroxa a retirar- 
íe. Foi protegidànos primeiros anÀofS pela Sé A^ 
poftolica , que Ilieerigio Bífpado : depois a coih 
quiftárão os Duques de Milão « os Francezes . e 

Híf- 



( 57^ ) 

Herparihoés , na cjne padcceo muito , e tiío menos 
oo cerco y que lhe pnaeráo fem fruto o Príncipe de 
Conti , e o Duque de Modena em 165*7 : o Impe« 
rador a entregou como feudo do Império ao Du- 
que de Sabóia í^ anno de 1707 com todas as ter- 
ras dependentes» Jkxandre Magna y terceira defke 
nome entre os Reis de Macedónia, e o que ih me- 
rece efpecial lembrança y fsÀ filho de FJHppe y e 
Olympias : nafceo trezentos e íiQCoenta e féis wor 
nos antes deChcifto Senhor noSb para caftiga das 
nações do Oiiente : abrasou^fe o admirável tem* 
pio de Diana ensi Efefo na noite da feiroaícicneGK 
tfíy òe que inferifão os. Agoireiros hama grande 
fatalidade no munda , fe Alexandre chegafie a ter 
nelle daminio* Apenas teve forças para manejar as 
armas , íervia de forte a &u pai em direrfas cam- 
panhas y qiue em hnaia.lhe íalvou a vida^ e nas 011-^ 
trás fervia de admiração aos Geoeraes mais expe« 
rimentados. Sentido juftamente de que Filippe re«» 
pudiafle fua mãi .CHympias para cafar com Cko^ 
patra y foi fervir na guerraf a íeu tia miatemo Rei 
de Epíro y donde veio obrigado do amo€ de (ena 
vaflTaJIos y de cujos corações fe fez fcnhor com be^ 
neficíos , e liberalidades. Aâaífinou Paufanias a fen 
pai o Rei Filippe y tenda vinte annos Alexandre y 
vingou a morte y focegou o Reino , conquiíloii 
Traâa^ cUliria^atemotizoa: toda aGrecbi com; a 
deíbruiçâo de Tebas y declarou guerra aos PerÊis y 
e entrou na Afia 9 venceo. Memnon General dcEla^ 
riOiReir da Perfia« na Firygia maior ^expugtiou Efe* 
íb > Mileto y Halicafinafoíf e Sardes y eoicpiif)»)» 
con^ fomma bsrevidadls toda ^Lydia ^ Jonia y Caria 

li ii Pam- 



( 370 

Pamfiliâ^ e Capadócia: cortôa com a efpada ò nd 
de Gordio j que nSo pode defatar , e a que eftatt 
annexò o agoiro, de que fò gozaria dàÁfia , quem 
o diflolvelTe : venceo o Rei Dário em hum paflb 
eftreico junto a Iflus j poíTuio os feus grandes the^ 
íouros I caftigon os que o matarão , e tratoa com 
rara modeftia , e urbanidade a mâí , mulher j fi- 
lho , e duas filhas defte infeliz Principe : conquif* 
tou logo Fenicia, Sydonia, Damafco, Tyro, Ga- 
ZB. E^reveo ( fegtmdo refere Jofefo ) ao Summo 
Pontífice dos Hebreos , pedindolhe o mefmo loc* 
corro , qne dava aos Perfas para conquiftar Tyro ; 
c vendo lho negava , moveo depois da conqnífta 
o exercito contra Judéa : o Pontífice ( diz Jofefo ) 
enfinado por Deos em fonhos , fahio a recebello 
veftido com o preciofo Pontifical , e todos os Le« 
vitas, e Anciãos de gala: pafmou Alexandre quan- 
do o vio , e proftrado adorou o Santi/fimo Nome 
de Deos , que o Pontifice trazia efcalpido na fa- 
ce anterior da Tiara ; e admirando*fe todos defta 
inaudita mudança , refpondeo Alexandre , que náo 
adorara o Pontífice , mas fim a Deos , de quem era 
Miniftro , o qual lhe apparecêra em fonhos vefti- 
do daquella mefma forte , quando meditava entrar 
na Afia', e lhe diflera paflafle animofo oHelefpon- 
to. O Pontifice lhe moftrou nas Profecias de Da- 
niel y que hum Principe Grego havia de dominar 
a Perfia , e Alexandre agradecido offereceo grandes 
facrificios a Deos, e fez muitos beneficios ao Poo» 
tifice y Sacerdotes , e povo Judaico. Conquiftoa 
logo o Egypto j e coníultando o demónio no orá- 
culo de Jopiter Amon, eAe lhe chamou filho ^ de 



( 377 ) 

queelle fejaélou depois com efcándalo de fui mãi, 
c de todos : venceo na batalha de Arbela as reli» 
quias dos Perlas y tomou Babilónia^ Suzania^ Per-^ 
íepolis y toda a Media , Hircania, e Provindas vi* 
zinhas: venceo o Rei Poro, fujeitou toda t Afia, 
e vendo íe lhe acabava no Oceano a conquifta , 
voltou para Babilónia , onde, dizem, que lhe aca- 
barão com veneno a vida , pouco depois de rece« 
ber Embaixadores de todas as nações , que náo ha- 
via conquiftado , as quacs lhe mandavão render 
obediência. Viveo trinta edous annos^ e oito me* 
zes, reinou doze : era pequeno do corpo , olhos 
grandes , e boca , cor morena , cabello preto , e 
creípo, affavel , e gentil prefença , membros for- 
tes, livre de enfermidades , ágil, vigilante, libe- 
raliíEmo , amigo das letras , e Varões doutos , pai 
dos foldados , e nas marchas , e trabalhos irmão 
de todos ; mas todas eftas prendas , que o fizerSo 
taiemoravel entre os maiores heroes , que admira- 
rão o mundo , efcurecêrão os abomináveis , e pú- 
blicos vícios , que teve dcfde os primeiros annos, 
que fbrão íoberba , ambição , laícivia , e vinho : 
efte ultimo ( como fempre , e em todos ) foi o 
peior ; porque eftando preoccupado delle matou 
léus colaços , e amigos , que depois de dormir , 
iencio com o maior exceflTo : efte o fez cafar com 
huma mulher vil , tratar efcandalofamentc com o 
Eunuco Bagoas , trazer comfigo trezentas concu*^ 
binas, e fazer mil deíatinos, e loucuras, que obri* 
gárâo aAntipater, e outros a commetter o infame 
attentado da fua morte , le he que não morreo , 
como outros dizem, de. febre. caufada de yinfho, c 
Tom. VIL li iii agua 



(378) 

agua ardente, na Perda, e Babilónia ^Iradiçâo cociA 
tante. Alguns Authores, que fó goftárâo de fabu- 
las y crerão que Alexandre nâo era filho de FiUp- 
pe, mas ílm de hum feiticeiro, que fingi ndo-^fe Jú- 
piter o gerara; outros, que attrahíra com feitiços 
Olympias para concubina; alguns , queFilippe an- 
tes de morrer declarara nâo era feu filho Alexan- 
dre , ou foíTe para condecorar o repudio da mâi, 
e novo amor , ou porque fe achava offendido , e 
que nifto fe fundara Alexandre para dizer era filho 
de Júpiter ; outros , que elle poflTuido do ym\\o , 
aífim o mandara publicar no exercito , depois que 
venceo Dário , e que comprara o principal Sacer- 
dote do oráculo para em nome de Júpiter lhe cha- 
mar filho, verdade, que dizem provâo muitas me- 
dalhas defte Príncipe , nas quaes eftá efcujpido o 
Sacerdote moftrando^lhe o novo pai figurado na 
cabeça de hum carneiro. Muito ignora a que che- 
ga a natureza fem graça , quem julgar impoflivel 
oualquer deftas loucuras ; mas he certo , que fe 
Alexandre nâo bebeíTe vinho com exceSb , nin* 
guem lhe difputaria entre os Reis fer o maior , e 
melhor no Gentilifmo. No primeiro anno do rei- 
nado deXhamaz Koulikan appareceo naPerfia hum 
retrato de Alexandre , que tanto moítrava a fua 
antiguidade, como a aftucia, e adulação de quent 
o fez , ou mandou fazer para lifongear o novo 
Rei , que em pouco parecia lhe era diíTemelhante ; 
porém Thamaz, que tinha melhor juizo do que o 
adulador , tanto que o vio , o mandou queimar ^ 
dizendo : Sinto muito ter Jemelhança com quem dej^ 
truio o Império da Ferfia^ Jpojlolo , hc palavra Gre^ 



( 379 ) 
ga , que fignifica Enviado y nome dado por Chrif- 
tó Senhor noflb is Colunas da íua Igreja , que el- 
le mandou por Embaixadores feus a todo o mun- 
do, dignidade altiíEma, que elles fó gozarão: de- 
pois da morte de Chrifto onze annos ( fegundo a 
opinião de Godeau no primeiro livro da hiAoria 
da Igreja) repartirão os Apoftolos entre íi as Pro- 
vindas do mundo , para nellas eftabelecerem a Fé 
de Chriíto ; e para maior conhecimento em fum* 
ma do que obrarão vos participarei a Cronologia 
de Riccioli , que chamão reformada , e verdadeira. 
No anno 33 do nafcimento de Chrifto, em que el« 
iemorreo por nós, foi martyrizado Santo Eftevão, 
e Sant-Iago Menor deputado primeiro Bifpo de 
Jerufalem: em 34 fe levantou a primeira perfegui- 
ção contra os Chriftãos , que durou mais de hum 
anno , fendo Saulo o Capitão dos perfeguidores : 
ém 35" fuccedeo a conversão de S. Paulo , a fua 
viagem a Arábia , donde voltou para Damafco , e 
S. Pedro foi á Paleftina: em 36 S. Pedro em Jeru- 
falem com os mais Apoftolos aflentárão em ad* 
mittir os Gentios ao Baptifmo , compuzerão o 
Symbolo da Fé , que vós fó conheceis pelo nome 
Credo y efcreveo S, Mattheus o feu Euangelho : 
£cárão em Jerufalem a Virgem Senhora com S. 
Joâo^ eSant-Iago Menor: dividírão-le os Apofto- 
los pelas fuás Provincias, e fundou S. Pedro aCa- 
thedral de Antioquia : no anno 37 dizem viera 
SantJago Maior a Hefpanha y e os que ncgão a 
fua vinda , provão tpdo com o fundamento foiidõ 
de que os Apoftolos fe não dividirão pelo mundo ^ 
íe não depois do martyrio dcfte Santo Apcftolo : 

em 



( 38o ) 

em 38 Irrroii Deos a S. Paulo da perfeguiçâo em 
Damaíco , vifitou elle a Sant-Iago Menor , e a S. 
Pedro em Jcrufalem , e dahi fe retirou para Ccft- 
rca, e logo para Tarfo em Cilicia: em 39 foiS. 
Bernabé a Tarfo bufcar S. Paulo , e o lerou a An- 
tioquia j onde os Fieis fe chamarão Cbriftâos j e 
forao os primeiros que tomarão eíTe nome: noan* 
tio 40 o Profeta Agabo em Antioquia raticinoa 
huma fome univerfal, motivo porque osC/iriAáos 
daquella Cidade , e difcipulos juntarão eimolas , 

âue remettêráo aos de Judéa por S. Paulo , e S. 
ernabé: em 41 perfeguio Herodes os CbriMos^ 
c martyrizoa Sant-Iago Maior : em 4^ IiVron o 
Anjo a S. Pedro do cárcere , em que Herodes o 
tinha prezo, foi a Antioquia, e logo a Roma, fa* 
hírão daquella Cidade S. Paulo j e S. Bernabé pa- 
ra Seleticia , e dahi para Chypre : em 43 S« Pau- 
lo , e S. Bernabé fizerâo grandes milagres em Chy^ 
pre y chegou S. Pedro a Roma y e eftabeheceo nel- 
la a fua fuprcma Cadeira ; em 44 S. Paulo , e S. 
Bernabé paíTárâo a Pamfilia , e dahi a Antioquia 
de Píidia : em 45* expulfirão os Judeos de Píidia a 
S. Paulo , e a S. Bernabé , os quaes fe retirarão 
para Iconio : em 46 forao para Lyftra , e depois 
para Derbe : em 47 os mefmos vierão a Lyftra , 
onde forão tidos por Júpiter , e Mercúrio , reti- 
rárão-fe para Derbe , vierão outra vez is Mifsôes 
de Lyftra , e Iconio y e paíFando por Píidia y forão 
a Pamfilia : em 48 pregarão em Pamfilia , e Ara- 
bia^^ e vierão para Antioquia de Syria : em 40 
forão lançados de Roma todos os Judeos , foi Sé 
Pedro a Judea , celebrou ahi o primeiro Concilio> 

em 



( 38i ) 
em que fe decidio, que osCatHolicos não eftavâo 
fujeitos á circumcisSo; e S. Paulo, e S. Barnabé^ 
que tinhão vindo de Antioquia y levarão o Decre- 
to defte Concilio áquella Igreja y que logo viíitou 
S. Pedro : em 50 S» Paulo , e S. Barnabé forâo 
pregar o Euangelho a muitas , e diverfas Provin- 
cias , e S. Paulo em Athenas converteo S. Diony- 
fio Areopagita : em 5*1 paíTon S. Paulo de Athe- 
nas a Corinthoy onde efteve anno e meio: em 5*2 
no meio do anno foi S. Paulo de Corintho para 
ft Syria com Aquila , e Prifcila , de quem fe íepa- 
rou em Efefo j e foi fó a Cefarea , logo a Jerufa- 
lem y depois a Antioquia y Galacia y e Frigia : em 
53 , e 5*4 pregou S, Paulo a Fé em Efefo : em çf 
paííbu a Macedónia y e Grécia : em $6 foi S. Pe- 
dro a Roma , porque eftava revogado o Edi£lo do 
Imperador Cláudio : em 57 pregou S. Paulo em 
muitas Provincias , e Ilhas ; e vindo a Jerufalem 
nas vefperas de Pentecoftes y foi prezo , e remertido 
a Cefarea y e depois a Roma : em 5*8^ depois de 
eftar trez mezes em Malta porcaufa do naufrágio, 
foi S. Paulo levado a Roma, onde lhe íbi permit- 
tido viver com hum foldado da guarda continuo : 
em 59 lhe deo liberdade o Imperador Nero : em 60 
fez muitas viagens, e miísôes: em 61 foi martyrí- 
2ado S. Barnabé em Chypre , e Santo André em 
Achaia : em 62 foi S. Marcos martyrizado em A- 
lexandria: em 63 Sant-Iago Menor em Jerufalem, 
S. Simão , e S. Judas na Perfia : em 64 S. Matbias : 
em 6$ Nero , que mandou lançar fogo a toda Ro» 
ma , imputou o incêndio aos Catholicos : em 66 

S. Pedro % e S* Panlo forão para Roma : em 67 

S. 



( J80 
& Pedfo fbi naqnella Cidack crucificado, e S. Paii« 
la degottado par ordctn de Nero : em 70 conqoif» 
tou 9 e deftruto Tito a Qdade de Jerii falem : em 

71 foi S. BartbolQmeii marty rizado na Perfia : eoi 

72 padeceo laartyrio na Cidade de Meliapor na 
índia Oriental S. Thomé : em 73 o Pfocx)i>ful de 
Eifefo rcRietteo prezo a Roma S. João , e fahíndo 
iUéfo da caldeira de azeite fervendo , em que foi 
metttdo y Q degradarão para a liba de Pathoios : 
cm 94 eícreveo nefta Ilha o Apocalypfe aos vinte 
e hum atHios do feu degredo : em 96 teve Uceo^^a. 
4I0 Imperador Ncfva, e foi para o feu Bífpado de 
Efefo: e no anoo loa morfeo na mefma Cidade, 
tendo t^venta anno^^ Igaora-fe o anno , cm q»e íoi 
snartyrizado S. Mattbet^ aa Ethiopia , e mmtas 
oatrasi coufas' pertencentes á Chronología. Na re-- 
partição derão a S. Pedro aparte Occideiiral> em 
que í'e comprehendia Roma ^ a Santo Aádré A- 
chaia , Grécia , Epôrro , Trácia , Scythia, Egyp- 
to, e Ethiopia : em quanto á fundação das igre- 
jas de Conftantinopía , então chamada Byzancio y 
e deNicea emBytbinia, ha muita dúvida,, e oPa^ 
pa Agappíto em huma carta efciita ao quinto Sy« 
nodô aífevera , que S. Pedro eofinou a Fé neilas* 
Sant^Ia^Q Menor não fahio de Jeruíalem ; S. Judas 
Tadeo. pi^égou na Syria, Arábia, eMefopotamia; 
S» Thomé na Perfia, índia, e Ethiopia \ S. Bar- 
tholommi na Arménia maior ^ Lycaonia, Albânia, 
e na índia da pa«e Occidental do Ganges ; S. Fi- 
lippe na Scythia , e Afia Superior ; S. Mattheus 
cm Judéa , e na Ethiopia ; em fim piré^rão. cm 
todo o munda , poiéoi na America; & nao aclioa 

mm- 



( l«J ) 

imuca v&fttgi» dk^úé ridlá fo&A^ 6 Eââligélhl» ^ 
qoandõ alias eM todas as PrbVinciáS ínai3 rcitiOtas ^ 
eincúltas ha íirtats diílb. Apòfiolkos ^ fóifôbrenDine 
d« tôdo6 ds Bifpas , qtíe fucGedêráb cegamente 
aos Apolbk)^ tid òÉciô dè Paftorès j nlás tiSlo em 
o de Enviados , e Âpoftõlos , cOmó Já fabeis : de- 
pois fe d6o 6ft6 titulo fó aos Bifpos dás Igrejas ^ 
qúé ftíndárão os Apoftolofi, e de que forâo òs pH- 
meifos Bifpos , coroo foi Jerhfaleih de SantJago, 
At^thtdqUia de S. Pedro , «é. até que a Igreja ti- 
rou áos Bifpos ô nome de Papas ^ que uíttrãò mui^ 
tos feculOs y còfíio fe vê nas Cattãs de S. Jerony- 
mo a Santo Agóftinho no de 300, e em muitas de- 
pois ; e juíbameilte ordenou /que fò ao Sdmnlõi 
PontiSee (echamaíTe Apoftolico, eApoftolica a Sé 
deRoma , que hc á Bafilica Latetarienfe^ de for-^ 
te, que quando nas Ladainhas oliVirêâ pronundaf 
Dbmnum ApófttsUtUYH , hé oSummo Poritifice á péí^ 
foa pòf quem pedis a Dcos. Jipotheó/is ^ erô á ca- 
fiof»!zaçSo dos Gentios Plonifcnos^ ifto hej é afto, 
e cerèrtiòrtias gerttilicaí , com que dêcldhavio pof 
Deos, ou Dèofa algum hotnem, ou miílhér: q(ie- 
rèní alguns foflerti os Gr^egos oS pf irileií^ós inven- 
tores defta )d(fCUra , t que o demónio falUndo eni 
âigúm oráculo declafaVa por Deos o fogeito , nó 
que fe féguiSo feftas, hyítlnos , jogos , erecçáa dd 
altares, eíacrífidos. He certo qtte Alexandre Ma-* 

fío bem peffuido de vinho fez Deos a fen amigo 
feftiSo ; e hum certo Filippe , que enf âo chegava 
de Babylónia . diíTe publicamente , par* liíongejrí 
d miferia de Aléxanare , que o oracuío cíe Júpiter 
Amoo ^ era AiiHMmi t>nh» dito f ^ue EfòftiSo era 

Dcos y 



(384) 

Pcos I e como tal ordenara folTe adorado ; e Ale»^ 
«ndre^ que ainda náo tinha dormido j o mandoa 
adorar 9 e lhe offereceo em facrificio dez mil viSúr^ 
mas. Os Âthenienfes não fó adoráráo por Deofes 
PS homens mortos , mas também os vivos ; e os 
Romanos , que aprenderão , e obfervárão as fa- 
perftiçóes de todos os Gentios, aquém domináráO| 
como mais politicos , e religiofos j defde o tempo 
de Numa, eftabeleçêrão hum ceremonial mais rídi^ 
culo para eftas declarações dos Deofes , e Deoías 
novos. A primeira acção era o Decreto do Sena- 
do y que o declarava Deos , ou Deofa ; e publicado 
elle j o Poncifice á cufta do erário publico fazia 
todo o gafto j que 'julgareis agora por exceílivo : 
apenas eípirava o Imperador, ou o que havia defer 
canonizado , fe veftia o Imperador novo , e todo o 
povo de luto ; e feitas as exéquias , de que já tendes 
noticia com a maior pompa , fazião hiima c&ãtua 
de cera bem parecida ao defunto, ou defunta, e a 
collocavâo na principal fala dofeu Palácio em hum 
leito de marfim cuberta com colcha bordada de 
ouro , e tudo o mais preciofiífimo : alli vinhâo de 
manha, e tarde os Senadores Romanos, e Senho» 
ras da Cúria fete dias vifitar o enfermp de cera, e 
lhe aíliftiáo junto ao leito fentados , as Senhoras 
da parte direita , e os Senadores da efquerda, la- 
mentando a fua doença , como fe eftiveífe alli vi- 
vo; e os Médicos fazião as mefmas vilitas, e ob* 
fervaçQcs no pulfo de cera , dizendo aos circum- 
ftantes , que o enfermo cada vez eftava peior* 

LI S B o A , Na Oíiidna de Migticl Manefcal daCoíU » Impreffor do 
SaiKo Oíikio. Aano 17^4. C§m tjdas êsUcmfat, nçiifiaãt. 



(J8f ) 

CONFERENCIA XXXIII. 

AO dia oitavo ( continuou o Letrado ) os 
principaes Senadores levav ao efte leito com 
a eftatua á praça Romana , fazendo cami- 
nho pela chamada Via Sacra : na praça eí* 
tava hum grande tablado cor de pedra , no meio 
delle outro leito mais preciolo de marfim , e ouro ^ 
e mais preciofa cama y com aíTentos para o 1mpe« 
rador , e Nobreza , e arcos cubertos para as oe« 
nhoras , porque todos eftes acompanhavâo o.de« 
funto decera, veftidos de gala /atrás dos que oie« 
vavâo na cama. Chegados ao tablado y deitavâo a 
eftatua na cama de refpeito^ fentavão-fe todos , e 
cantava a Mufica os louvores , e acções memorá- 
veis do defunto; o que feito y começava a procii- 
são para o Campo de Marte pelo modo feguinte: 
Hiâo diante as eftatuas dos Varões illuftres Koma« 
nos deíde Rómulo , logo as figuras das Cidades 
fujeitas ao Império feitas debronze, íeguiâo-fe as 
dos grandes Oradores y e homens celebres y atrás 
os Cavalleiros Romanos y e íoldados y levando os 
últimos hum altar de ouro, marfim , e pedras pre- 
ciofas, logo a carnal refpeito, que eftava no ta- 
blado, levada pelos Cavalleiros Romanos , prece- 
dida de alguns Senadores y e atrás com os mais 
o Imperador, Nobreza de ambos os fexos , e mi- 
lícia. No Campo deM|M^:eftufa a pyra de finco, 
on féis fobrados rechea^ps de 1h^ lenha miúda , c 
cuberta de pannos de ouTQ. jefeda , guarnecida de 
Tom. VIL J» fi- 



(380 
figuras de marfim: no alto delia eftara o carro tit* 
untai do Imperador , fe tinha gozado triunfo em 
vida, e nos (obrados eftava o Pontífice com os Sa- 
cerdotes ; a eftes entregavão a cama com a efta- 
tua, e eiles a collocavão no fegundo íobrado, lan- 
çando preciofos aromas : então os Cavalleiros Ro- 
manos davão muitas voltas ao redor da pyra , ie- 
giitdos dos loldados infantes , e eftes de muitos , 
e preciofos carros rafios ; em fim , retiraráo-íè o 
Pontífice , e Sacerdotes , e o Imperador com os 
parentes do defunto, hião quebrar a eftatua de c&- 
ra, fentavâo-fe para acabarem de rer acavalgata: 
dava o Imperador fogo áquella maquina com hu- 
ma tocha acceza , o mefmo Êizia o Conful , e Ma- 
giJírados, e fahia de dentro da pyra huma Águia 
roando , em que diziâo hia para o Ceo a alma da 
novo Deos. Se a pefiba , que declararão no na- 
mero dos Deofes , era Imperatriz , ou mulher il- 
luítre, em lugar daÃguia fahia da p)^ra hum Pavão 
Real. Reduzida a cinza toda efta preciofa maqui- 
na , fe edificava hum Templo ao Deos , ou Deo- 
fa novos, e fe deputavão Sacerdotes , e Miniftros 
para lhe darem culto, eofferecerem facrificlos. AP 
fim canonizou Roma a Rómulo , e a fua ama Lau- 
rencia, Anna Perena, e outras, febem dizem mui- 
tos , que então não houve mais ceremonias , que 
publicallos Deofes ; e a primeira Apotheofis , oa 
declaração com efta folemnidade fe fèz ajnlio Ce- 
far, e depois a todos , ou quafi todos os Impera- 
dores, e Imperatrizes bons, mios, e peflimos,,a 
huns por agradecimento, a outros por lifonja aos 
gareates, e amigos jriyos j loucura , que já fabeis 

ain- 



(387) 

ainda hoje fe pratica na China , onde todos os Im-* 
peradores, e Imperatrizes sâo adorados porDeo* 
fes, e os Varões illuftres. Aquilea^ Cidade de Itá- 
lia entre os rios Ânía , e Torre , foi tâo populofa j 
que juftamente lhe chamão fecunda Roma : nella 
aíEftio Áugufto Tibério , e foi acclamado Vefpa- 
íiano. Os Teus moradores erao tâo leaes aos Ro- 
pianos y que íendo cercados por Maximino^ e fal* 
tando«lhes cordas para os arcos, asfizerâo dos ca^ 
bellos de fuás mulheres ; em memoria , e agrade* 
cimento do que o Senado , para complemento da 
loucura gentilica Romana , edificou hum Templo 
«Vénus a Caíra. TeveAquilea doze milhas decir* 
cnito, foi a defeza de toda a Itália contra os bar* 
baros y que tantas rezes a deftruírâo , fujeitárâo* 
na os Lombardos y depois a governarão os íeus 
Patriarcas , feguírão-íc os Duques de Friul , Ve- 
nezianos , Cala de Auftria , e ultimamente o Im- 
pério , que hoje a poiTue no mais vil eftado , por- 
que toda a fua antiga , e memorável grandeza ef« 
tá reduzida a hum muito pequeno Lugar, em que 
habitâo poucos , e pobres pefcadores ; cafiigo de 
Deos por admittir o Arrianifmo , e muitos fcif- 
mzs j depois de fer pátria de muitos Santos , e ter 
recebido os documentos de Patriarcas, Concilios, 
e Varões canonizados. Dizem eftá deferta , por- 
que os feus ares sâo malignos , e eu creio o sâo , 
porque lhe falrâo os habitadores, e por iflb os fo- 
gos , fe já não he que a herefia he pefte, que de- 
pois de inficionar as almas, faz para lempre omef- 
mo effeito nos ares, Jquitaniay Província deFran- 
ça>^ que tanto fatigou of Authores antigos na def- 

Kk ii cri- 



( 388 ) 

crípçâo dos feiís limites em diverfos tempos : foi 
Reino, que erigio Carlos Magno para feu filho Pe- 
pino j accrefcentando^lhe Languedoc , Bifcaia ^ GaC- 
cunha , Marca de Hefpânha , Condado de Barce- 
lona j e outras terras : aíEm o gozarão muitos fi- 
lhos dos Reis de França , até que Carlos Calvo j 
que o deo a feu filho fegundo , íupprimio a hoa- 
ra de Reino , e o fez Ducado. As guerras civis , 
e defordens o dividirão em feudos , hoje he Pro- 
víncia, em que eftão os Condados dePotiers, Au- 
vernia , Limoges , Ducado de Guiena , &c. Aroi^ 
bia , a quem os Orientaes chamão Arabíftan , os 
Latinos Arábia , he hum dilatado Paiz da Afia y 
cujos limites nunca fe hão de faber , porque cada 
dia padecem novas mutações : efte nome fignifica 
folidão , deferto , e coufa inhabitada , porque fe 
deriva de Arabah , que fignifica o mefmo , c asL 
verdade a maior parte defte Paiz he de/erto , fen<« 
do hoje mais que nunca povoado. Pelo Oriente 
confina com o Golfo Perfico , pelo Melodia com o 
mar da Arábia , e eftreito de Babel mandei , pelo 
Occidente com o mar roxo , e de Meca , e pelo Se- 
ptentrião com a Syria , Diarbe , e Yerac. Divide- 
íe em Pétrea, Deferta , e Feliz : a Pétrea confina 
com o mar roxo , Egypto , Paleftina , Syria , e 
montanhas , que a dividem da Arábia Feliz : em 
outro tempo habitarão nella os Amalecitas , Moa- 
bitas, Madianitas, e Idumeos, o que não obftan- 
te era tão deferta , que nos feus deíertos viverão 
quarenta annos os Ifraelitas : nella eílâo os mon- 
tes fantos Oreb , e Sinay , de que já tendes muitas 
noticias ^ e das coufas prodigiofas ; que ha neftes 

def- 



( 389 ) 

I 

defertos , onde obrou Deos tantos prodígios cm 
benefício daquelles ingratos , cegos , e depois re* 
cebeo tantos louvores dos Catholicos. Nas vizi- 
nhanças do mar fe acha o mais fino alabaftro , co- 
ral , e tanto iman , que fingirão íó chegavâo alli 
náos j que náo levavâo pregos y fob pena de lhes 
voarem todos. Hoje he toda deferta 9 porque na« 
da exifte das povoações , que occupárâo as nações 
fobreditas ; porém he melhor para jornadas , do que 
a chamada Deferta , porque náo tem os horriveis 
areaes^ e ventos , que na outra são mortiferos. A 
Arábia deferta fe não he a peior parte do mundo ^ 
ignora-fe qual feja, porque além do que agora dif- 
íe, tem cobras , e outros bixos peçonhentos : não 
tem eftradas certas « nem balizas para o governo 
das Cáfilas , de forte que os guias delias fe gover- 
náo pelo Sol , e pelas Eftrellas j fempre com o pe* 
rigo de morrerem de fede j ou cubertos de arêa y 
fc houver tempeftade , que a mude, como derepen- 
te fuccede : tem poucos poços, e de aguas fulfu- 
reas , e por iíTo fó os camelos , e dormidarios , 
que tolerão muitos dias a fede , podem fervir nejftas 
viagens. A Arábia Feliz , aífim chamada , porque 
nella fe criáo os melhores aromas , eftá dividida 
cm muitos Reinos , e Provincias unidas , de forte 
que nenhum Author dos que allega Moreri nefta 
matéria , hoje merece credito pelas grandes mu- 
danças, que efte Paiz todo padeceo deíde o reina- 
do de Amurares IV. , no qual a guerra com os 
Perías , e a civil em todo o Império Ottomano 
animou os Arábios a facudir o jugo , e conhecer 
que fó tinhão na união o remédio : não fó coroá- 
Tom. VIL Kk iii rão 



(59<5 ) 

rio novos Monarcas , e fizerão até das AMets 
mais pobres grandes Republicas , mas povoarão, 
e fizeráo inexpugnáveis muitas terras deferras , e 
conquiftáráo muitas, que nunca forâo fuás, como 
são Mombaça , Patê j Zanzibar , e o melhor da 
contracofta de Africa fora do mar roxo , e Golfo 
Perlico , onde , e no mar Arábico tem excellentes 
portos de commercío ; e até o tempo do primeira 
governo do Marquez do Louriçal na índia tiabâo 
Armadas de alto bordo formidáveis a todo o Ori- 
ente , e mais ás noíTas Conquiftas , para cuja dtte^ 
za confervámos até eíTe tempo a Armada do mac 
roxo, e nella o refpeito, riqueza, e valor naquel-^ 
le Eftado. São os Arábios intrépidos, bríofos, íb* 
berbos , deftros , e applicados á Medicina, Mathe^ 
matjca , e Filofofia : nas artes mecânicas ninguém 
os excede , e menos na deftreza de mandar os ca- 
vallos os iguala. São politicos , verdadeiros , ab/^ 
tinentes , e alheios de todos os vicios , que mal 
informado lhes impõe Moreri, de forte que Álva- 
ro Caetano perdeo Mombaça, por não caftigar os 
vicios dos foidados Portuguezes , que efcandalizá- 
râo os negros Mouros y e eftes chamarão para os 
dominarem os Arábios , que havião repudiado por 
caufa dos tributos , edificados do feu procedimen- 
to» São morenos , usão as barbas crefcidas fem ali«- 
nho, como todos os Orientaes, comem pouco, a 
íua efpecial bebida he leite azedo , delicia barba* 
ra , e na índia commua. He raro entre elJes ho- 
mem , ou mulher gordos , porque o clima he ar« 
dentií&mo , e as aguas de aço : os feus cavallos y 
fendo pequenos, e magros, são os melhores, roais 

li- 



(390 

ligeiros ) fieis , domáveis , fortes , e foffredores de 
fome, e fede, que tem o mundo. A fua lingua he 
tão univerfal, eeftímada no Oriente, como na Eu- 
ropa a Latina: querem conferve ainda hoje a meí- 
ma pureza, com que fahio da torre de Babylonía, 
o que prováo com efcritos antiquiíEmos dos feus 
Médicos, eAftrologos, como são Averroes, Avi- 
cenna , e outros innumeraveis : e na verdade o feu 
Diccionario excede o de todas as linguas, de que 
temos noticia , porque o mais diminuto confta de 
doze milhões trezentas e feflenta e finco mil equa^» 
renta e duas vozes , de forte que íó Mafoma ( di- 
zem elles ) a foubera toda , e nelle hão de fallar 
osbemaventurados da fua lei. Efte maldito feu na« 
tural os fubjugou no anno de 625* , em que total^ 
mente perderão a Lei Euangelica , c natural, por« 
que a idolatria entre elles foi fempre a menor de 
toda a Afia , talvez porque certamente defcendem 
de Ifmacl , de que tem a maior vaidade , e ainda 
hoje venerão a torre de Alçará, que dizem he fun- 
dação fua : o mefmo refpeito tem fua mâi Agar ^ 
e por iíFo íe intitulão Agarenos , e límaelitas , o 
que não obitante , no leu princípio adorarão os 
Aftros , mas não confta que ainda deftes tiveíTem 
Ídolos. Floreceo muito a Fé Catholica na Arábia^ 
e nella houve dous Concílios, no fegnndo dos 
quaes Origenes convenceo os hereges , e os fez ab- 
jurar. O feu principal commercio são aromas, dro* 
Íras medicinaes , pérolas , e algumas pedras precio- 
as : a praça maritima hoje mais frequentada he 
Mafcate , que foi noíTa , e já não tem Armadas ^ 
que perturbem os vizinhos» Ha outros Arábios bar- 
ba- 



( 39^ ) 

bãtosy flagello dos Turcos, que vivem nos matos, 
e delles fâhem a roubar os paíTageiros , aífim na 
Arábia Pétrea, eDeferta, como naPaleftina: ou* 
tros domefticos femifturárão, e confundirão total- 
mente com os Mouros de África já no tempo, em 
c]ue dominarão a melhor , e maior parte delia , já 
quando paíTárâo a Hefpanha tantos mil , que fecu- 
los a dominarão toda. Aragão^ he hum Reino an- 
tigo da Hefpanha, o qual confina com osP/r/Vieos 
pela parte de França , e com Navarra , Catalunha , 
Reino de Valença , Caftella nova , e velha : foi 
habitado pelos Jaccetanios fundadores de Jacca , e 
depois pelos Lacetanios , Acitanios , Sederaníos, 
Surdoanios , e Ilergetes : o Paiz he afpero por cau* 
fa dos montes, pedras, arêas, e nitro, o que tu- 
do o faz cfteril. A Cidade principal he Çaragoça 
fobre o rio ^bro , as outras de maior nome são 
Huefca, Jacca , Tarragona , Monção, Albarazim , 
Balballro , Daroca , Calataiud , Teruei, &c. foi 
Condado , logo Reino ; o mais vede nas vidas dos 
Reis de Hefpanha. Aranjuez , he huma caía de 
campo dos Reis de Hefpanha em Caftella a nova, 
a quem os Tradutores de Moreri chamão Paraifo 
da terra , como fe ifto o houveíTe de ler fó gente 
ruftica , e não exiftiífem Verfalhes , e as cafas de 
campo de França, Itália, e mais Príncipes da Eu- 
ropa, a cuja vifta Aranjuez he nada: difta fete lé- 
guas de Madrid , eftá fituada entre os rios Tejo', 
e Xarama , e toda a fua precioíidade coníifte em 
hum jardim fabricado em huma Ilha do rio Tejo, 
no qual ha camarotes , flores , arvores , e tanque 
com peixes. Arquiteíínra , he a arte de edificar , 

po- 



( 393 ) 

porem lie muito y c muito mais moderna do que 
os ediEcios: a torre de Babel teve principio no an^ 
no ICO depois do Diluvio j ( como querem mui- 
tos ) depois admirou o mundo Babylonia , Tebas j 
Mênfis , e milhões de edificios notáveis , e mara- 
vilhas da arte , fcm que nos confie houve arte , 
nem artífices delia, como depois houve na Greda , 
Roma, &c. 

De tantos mil Authores deftas naçòes não 
exifte inteiro mais do que Vitruvio para fer li«- 
do , e venerado , porque hoje confifte no que fó 
he aprazível á vifta , o que muitos antes com def«- 
gofto delia fujeitavâo a preceitos indifpenfaveis de 
huma imaginada fciencia. Conferva porém hoje a- 
inda a Arquiteâura por ceremonia alguns nomes y 
como são Tofcana , que he fimples , dcfagradavel , 
e groíTeira , própria fó para edificios míticos , e 
Anfiteatros , fendo , como dizem , parto da Itália ; 
a Dórica natural de Grécia , que he menos grof- 
feira , coni frizos ornados ; a Jónica delicada , e com 
voltas nos capiteis ; a Corinthia formofa com pe- 
nachos , folhagens , e retrocidos ; e a Compofta ^ 
Gue dizem participa deftas duas ultimas , e na ver- 
dade he o que ao Arquiteélo lhe agradou , e pa- 
receo melhor , e mandou executar , de forte que 
aflim como hoje temos os melhores , e mais excd- 
lentes Filofofos , depois que fe defpedírâo de A- 
riftoteles, os melhores , e mais infignes Médicos, 
depois que lançarão a benção a Hypocrates , e a 
outros , aífim hoje temos os melhores Arquite- 
âos , depois que cada hum delles fe refolveo a 
fugir das regras de todos os chamados Authores 

an- 



( 394 ) 

antigos. Arciprefte ^ he dignidade EccTeíiaftica das 
Igrejas Cathedraes , aíEm Latinas , como Gregas , 
ç em todas a primeira depois do Bifpo , mas hoje 
fó em' Verona , Perufa , e outras : fignifica o pri^. 
roeiro dos Presbyteros , e o que preílde a todos. 
O Direito Canónico os diftingue em duas efpecies^ 
que são Arciprefte da Sé, erarocos: o feu o£cio 
era dizer a MiíTa , e fazer as mais funções em aa« 
fencia do Bifpo , dar*lhe a communhâo , que ío 
dellc recebia , e reger os Presbyteros , é mais Cie* 
rigos da Cidade , e Bífpado. Os Gregos lhe cVva« 
ma vão Protopapas , ifto he , primeiro Papas ^ ou 
primeiro Sacerdote : o P. Goar diz, que fuccedê* 
râo aos Coepiícopos, ou Coadjutores áosBKpoSj 
que he o mefmo , e que nas Ilhas dependentes dos 
Venezianos ordena os Leitores , e julga as caufas 
Ecclefiafticas. Ha Eucologios , em que íe acha o Rf* 
tual para conferir efta dignidade , que o mefmo 
Goar compilou : hoje em quaíi todas as Sés he in- 
ferior ao Deáo , e também a outras Dignidades , 
e (ó prefenta ao Bifpo ( como antigamente em to» 
das ) os Ordinandos, Jrtico , he o Polo do Nor- 
te chamado aflim , e Septehtrional pelo capricho 
de confervar muitos nomes antigos para confusão 
dos ignorantes. Chamâo-fe terras Articas , ou Ar* 
£^icas , as que fe defcubrírâo nefte Polo , como sSo 
terra de Jeífo, nova Zembla , Groelandâ, Ilhas de 
Islanda, terra de Spirzberga , e outras. Areópago^ 
ibi o celebre Senado de Athenas, fundado (como 
dizem) uoanno , em que teve principio o Sacerdó- 
cio da Lei efcrita em Aarâo : tinha cento c quaren- 
ta paifos a caía , fundada em colunas excellcntes , c 

fór- 



. (390 
forma de meia Lua : nella fe jantavãó de noite a 
julgar as caufas os Senadores , chamados Áreopa- 
gitas , para com maior recolhimento dos fentidos 
attenderem á juftiça das partes , e não verem os 
obje£los , que podiâo movellos a compaixão : no 
feu numero primeiro iorão trinta e hum y depois 
tantos , que chegarão a quinhentos : era dignida«* 
de vitalícia , e tão venerada pela fua melancólica 
inteireza , que os mais illuftres Romanos pedião a 
honra de Âreopagitas extranumerarios. Arequipa^ 
he huma Cidade do Reino do Peru díftante do 
mar fete léguas j onde fe acondicionava antigamen* 
te Q peixe para os feus Imperadores chamados In- 
cas , e de mão em mão o conduziâo pelas eftradas 
muitos mil índios cento e vinte léguas até Cufco : 
hoje he Bifpado , e foi depoílto do ouro do Poto« 
£[. Fora da Cidade em pouca diftancia eftá hum 
horrendo monte , e no alto delle hum grande po- 
ço 9 donde faheu) continuamente fumo , e cinza : 
no anno de 1600 vomitou ifto mefmo com cham- 
jnas y e pedras queimadas com tal violência j e eí- 
trondo , que fe ouvio em Lima , tendo antes em 
1582 padecido muitos dias terremotos, que a def- 
truírão. Jrgel , he hum Reino da Berbéria em A- 
frica , cuja Cidade Capital tem o mefmo nome : he 
feu Proteftor o Grão Turco , pelo que tem nellc 
hum Baxá de ceremonia , porque nenhuma autho- 
ridade , jnem poder teiti no governo , que he de 
Republica. Da parte do Norte tem o mar Medi- 
terrâneo , do Sul o monte Atlas ^ do Occidente 
Fez , e do Oriente Tunes : he Paiz montuofo ^ 
nas fertiliíSmo ^ porque além de ter o frio ^ e ca« 

lor 



(390 

lor fummamente moderados , o regâo excellentes 
rios ^ que nafcendo no Atlas , bulcão o .Mediter* 
raneo : tem íinco Províncias , que sâo Conilanti- 
na, Argel, Bugia ^Gezaira , e Trcmecen : com- 
prehende a antiga Numidia y e Mauritanias Ceia- 
rienfe, c Sitifenfe. A Corte tem mais de cem mii 
vizinhos , em que entrão doze mil loldados : as 
ruas todas eftreitas , como era em Lisboa a Ferrai* 
ria antiga , excepto a rua do mar , que tem moita 
largura y e quaíi hum quarto de légua no compri- 
mento : eftá fundada em huma cofta de monte çot 
modo de Anfiteatro , e com grande femelhança 
com Coimbra, e Bahia: he grande o feu commer- 
cio , de forte que a fua Alfandega rende tanto ^ 
como o Reino todo : os muros sáo altos , muito 
largos y quad todos de ladrilho , e hoje com ex- 
cellcntes foíTos : os melhores edifícios s5o a MeA 
quita maior, a MàOnorra dos cativos, que confi-» 
na com ella , as caías do Baxá , a do Senado , e 
alguns banhos públicos : não tem Conte alguma , 
ou eftalagem, motivo, por que (como cm Portu- 
gal os de Miranda ) guardão a agua em talhas 
grandes , e cada hum hofpeda os feus conhecidos : 
os Judeos tem quartos feparados para hofpedarem 
os Catholicos , e são alli , como em toda a par- 
te , os mais ricos , e os mais defprezados : he 
o afylo., e refugio de todos os piratas y e coíTa- 
rios. 



LISBOA , NaOfficina de Miguel Mancfcal da Coda, ImpfcíTor do 
Santo Ófficio. Ànno I754. CQnttifdatasiictnfasnccefariêSt 



- / 



(397) 

CONFERENaA XXXIV. 

O Imperador Carlos V. (continuou o Letra- 
do; os intentou caftigar no anno de is'40, 
para o que em huma excellente Armada 
lhe poz á viíta vinte e finco mil infantes , 
e mil e quinhentos cavallos. Deos por íeus altos 
juizos impedio efta acçáo ^ porque huma horrhrel 
tempeftade lhe desfez cento e quarenta navios j 
obrigatido-o a voltar logo para Hefpanha com o 
pouco que lhe ficara. Em 1688 a Armada France* 
za, governada pelo Marechal de Eftrees, lançou den- 
tro em Argel dez mil quatrocentas e vinte bom- 
bas j as quaes arruinarão os dous terços da Cida- 
de , e algumas náps, que eftavâo. no porto ; e os 
Mouros em defpique prenderão o Conful de Fran- 
ça a hum morteiro , e o fizerâo voar até cahir em 
pedaços fobre a Armada. Argonautas j he huma das 
maiores fabulas j que inventarão os antigos Poe- 
tas 9 e com que macularão hiflorias verdadeiras : 
forão huns Gregos avarentos ^ que governados por 
Jafon aportarão em Scythia , e roubarão os the- 
fouros do Rei Ethes , guardados com grande vi- 
gilância em Colcos. JIrgonautas 9 forão huns Ca- 
jralleiros de S. Nicoláo em Nápoles , inftituidos 
or Carlos III. depois da morte da Rainha D. Ifa^ 
el para confervar a paz naquella Monarquia , por- 
que o feu emprego era defender a Fé , confervar 
paz entre fi , fobpena de infâmia , e expulforia y e 
pacificar a todos : floreceo muito ^ porém acaboa 
Tom. VIL Li com 



i 



com a vi Ja do feii Fundador efta excellente ^ e ne« 
ceíTáfia Ordem Militar 9 cnja infignia era huma háo 
paiccendo tormenta com o mote : Nbn credo tem^ 
pori , e manto branco, jirias Montano , he fobreno- 
me bem conhecido do doutiíEmo Presbytero Ben- 
to Árias M'>ntano Hefpanhol Andaluz natural de 
Sevilha , Freire da Ordem de Sant-Iago : foube 
admiravelmente as línguas Hebraica, Grega ^ Arã^ 
bica, e Caldaica, com cujas versões deo á íuz as 
Biblias , em que fe empenhou Pilippe Prudente : 
aífiftio no Concilio de Trento com o Bifpo deS^-^ 
govia , fez nos Paizes baixos o índice expurgaro- 
rio j que ordenou o mefmo Concilio j rejeitou 
muitos Biípados y foi amante da vida foHtaria , e 
penitente , faleceo de fetenta e hum annos em Se» 
yilha no Convento dos Cavalleiros da fua Ordem 
no anno de 15*9 8. Arijioteles nafceo emSragira Ci- 
dade de Macedónia 9 foi diícipulo de PJaráo, con-» 
tra quem efcreveo , e eníinou antes , e depois da 
morte de feu Meftre em toda a Grécia: foi Meftre 
de Alexandre Magno , e entrou na conjuração de 
Antipáter contra elle , invejofo das mercês , que fa« 
zia a Xenocrates : depois de profpera , e adverfa 
fortuna fe lançou no mar Euripo defeíperado de 
nâo comprehender o feu fluxo , e refluxo. Diâava 
pafleando, e por iflb lhe chamarão, e aosdifcipa-> 
los Peripateticos : duvida*fe muito dasíuas obras , 
€ honras, que fingem tivera. Aries ^ he humaCída* 
<le de França na Provença com Arcebiípo: no tem* 
po dos Romanos foi tão grande , que a dividia pe-^ 
lo meio o rio Ródano , em cuja margem eftá hoje 
jo pouco que exiAe da fua antiga opulência > que 
- ^ aia-. 



( 399 ) 

ainda teftcmuo^âô parte de liom Anfifcatrô ^ W 
hum Obelifco de fincoenta edous pés de altura ^ 
feito de huma fó pedra Granite, melhor que mar^ 
more. O Rei Carlos IX. o mandou defenterrar, e 
(Conduzir para a Corte, mas não o confeguio, fen- 
do certo , que os Romanos o troiixcrão do Egyw 
pto: hoje fe conferva na Praça maior , e nelle gra^ 
rados elogios de Luiz XIV. Armas. As primeiras 
que houve no mundo para fe oflFenderem , e defen- 
«derem os homens forão as da natureza ^ máos , 
onhas, e dentes, depois uíárão de páos, bronze ^ 
e ferro | como diífe elegantemente Lucrécio : 

Arma antiqua manus y ungues^ dentisque fuere y 
Et lapides , (y item filvarum fragmina rami , 
Pqfterius ferri vis efiy ar is que reperta^ 
Sedjprior aris erat , quam ferri cognitus ufus. 

Ignora^^fe quem inventou as primeiras armaã de-^ 
fenfivas, e oflFenfivas : o mais certo he que anecef- 
fidade as períuadio úteis , e neceíTarías , e o defe- 
jo de vencer as ideou , e fez lavrar em todas as 
nações , lem mais regra , nem lei , do que offen- 
der muito, e receber pouco, ou nenhum damno. 
Os Romanos uíárSo de todas as que acharão in- 
ventadas , e não confia que inventaíTem outras y 
mas fim que aperfeiçoarão todas , efpecialmente ds 
corpos de aço , com que tantos feculos (e armarão 
cavalleiros, e cavallos, as (aias de malha, lanças , 
•picas, dardos, e fettas. De todas as armas offen- 
fivas antigas a mais induftriofa foi a catapulta, ef* 
pecie de béfta y ou beftão , com que Jançavão pe- 
«dras, e fettas disformes dentro daâ P;'açfs fitiadas 
<-.^ LI ii á for- 



( 400 ) 

y íbrça de arcas de bronze. Ainda hoje na Afia 

Qsão a antiga helepola, ou helepolis, que be huma 

torre de madeira mais alta do que á torre, ou pra^ 

ça, que fepertende tomar, firmada fobre rodas, a 

qual empurrão dous elefantes. Armas dasFamilias^ 

he matéria , que já teve principio , e cedo lhe ouvireis 

com gofto o complemento. Arménia^ he hum vaA 

tiífimoPaizda Afia, hoje quafitodo nodominio do 

Grão Turco , fe bem o maior delia, e do mando 

{ como já ou viftes ) o tem Deos cercado , e elcoodí- 

áo : divide-fe efu maior , e menor ; aquella pelo 

Norte confina com Albânia, chamada vulgarmente 

Geórgia , e Ibéria , das quaes a dividem os montes 

Mofchicos pelo Sul; os montes Tauro, eNifato 

a dividem de Mefopotámia , e Aflyria ; pelo Occi- 

dente o Eufrates da Afia menor , ou Natolia ; e 

aqui dizem eftá fechado o caminho , por onde en« 

-trárSo oslfraelitas, que fe prefume habitâo aauel- 

']e grande, e incommunicavel Império: extenae-fe 

a menor para o Ponto Euxino , mar negro ; ainda 

:t]ue muitos fó querem dar efte' nome áquella pan- 

-te, que fica .totalmente fechada nos eftados do 

.Turco entre Capadócia , Eufrates , ^ Cilicia. He 

-a Arménia Paiz deliciofo , e tanto , que os feus 

fAuthores ,e tradições querem fofle neUa o Parai- 

sfo terreftre : ,tem admiráveis rios , como sâo Evt- 

'frates, Tigre, Araxo, Arethufa , Tofpitis , Ly- 

vchnités: excellentes planícies, bons, e grandes Ja*^ 

gos; porém muitas , e afperas montanhas , cípe-* 

-cialmente as da ferra de Ararat, e feguintes, por 

-baixo das quaes doícubtrírâo aquelle Império incog- 

:iiitoiòs>¥tfl^roâvdefgraçadoS| coma vos cootárâo 

-iÁ ii cm 



kjíl* 



( 401 ) 

«m outras Conferencias. He fértil de tudo o ne- 
ceíTario para a vida humana : produz aromas y e 
teve rendoías minas: as Romanos aeftimáráo mui* 
to. Depois de receber a Fé de S. Bartholomeu foi 
Jardim da Igreja , até que a herefia de Neftorio a 
inficionou para fempre toda, então experimentou, 
como todas as Provincias icifmaticas, a efpada da 
divina juftiça* Schach Abas Rei da Petfia a coih- 
ijuiftou quafi toda, e feus fucceflores dominâo. ho- 
je a maior , toda deftruida , os Turcos a inferior. 
São os Arménios os melhores homens de toda a 
Afia , gentis , afifáveis y verdadeiros , finceros , eí- 
moleres , não tem cm matéria de Religião os er- 
ros, que falíamente lhes imputão muitos: o cHma 
he temperado , em partes frio , faudavel todo. Ce- 
lebrárão-fe na Arménia muitos Concílios , flore- 
cêrão muitos Santos , e houve grandes Prelados : 
lioje o Patriarca fcifmatico, dizem, terá dous mi- 
lhões de fubditos. JÍrouca^ he huma antiga, eboa 
povoação defte Reino na Provincia da Beira, dif- 
tante oito léguas de Lamego , e o mefmo do Por- 
to , junto á montanha de Freitas : foi povoada por 
hum Fidalgo chamado Anfur , cafado com D. Eiva : 
pouco antes dous Portuguezes tinhSo fundado alli 
perto hum Mofteiro , e fegundo os monumentos 
•antigos fe chamavão Vandilo hum, eLoderico ou« 
tro: a eftes , ou a (eus defcendentes , o comprou 
Anfur, e bem dotado o deo ao Abbade Hermeni- 
gildo no anno de 951. Santa Mafalda Rainha de 
Cailella , filha do Rei D. Sancho L de Portugal , 
introduzio nelle as Religiofas de Cifter , com el- 
Jas riveo , e acabou íantamente : tem obrado alli 
Tom. VII. LI iii gran- 



( 40i ) 

j^andes pródigios o feu cadáver. Jrtemifa , Rai- 
nha de Caria, acompanhou o Rei Xerxes na guer- 
ra contra os Gregos: moftroa o feu grande talen- 
to j e deftreza na batalha naval j em que Xerxes 
foi vencido pelos Gregos junto a Salamina ; por- 
que vendo tudo perdido , tirou do feu navio a 
bandeira Perílana , e inveftío com hum da fua na* 
^o, eefquadra, o qual lançou a pique com tal for- 
tuna , que não efcapou delle huma (ó peíToa, que 
pudeflTe dizer aos Gregos a indúftria de Artecnifa ; 
e eftes julgando fer navio de Gregos , o que obra- 
ra a façanha , o não perfeguírão , e ella íe poz em 
{alvo. Entregou-lhe Xerxes o governo da Períia y 
e creação de feus filhos , quando por feu coníêibo 
emprehendeo nova guerra : teve eftatua em Lace- 
demonia entre as dos grandes Generaes da Perda; 
foi opprobrio da nação Grega , que não perdoou a 
diligencia alguma para lhe tirar ávida: conquiftou 
a Cidade de La t mus , entrando-a com o paci&co 
pretexto de viíitar no feu templo a mãi dos Deo- 
fes : desluftrou a fua fama , namorando*fe depois de 
velha do mancebo Dardano ; e vendo que eite a 
^defprezava , lhe tirou os olhos , eftando dormin- 
do,.^ deíefperada fe precipitou em Leucadia, on- 
de Ihederão íepultura. Arfenioj Santo, Monge do 
deferto de Scythis, foi illuftre por naícimento , e 
muito douto : o mais certo he, que foi de nação 
Grego. Era Diácono da Igreja Romana oo tem- 
po de S. Damazo, o qual no anno de 383 o man- 
dou a Conftantinopla para Meftre de Arcádio pri- 
mogénito do Imperador Theodoíio , e feu compa- 
nheiro no Império defde a idade de íete annos : 

hum 



f ■ 



( 403 ) 

iium dia por acafo entrou o pai no quarto ] on* 
de Arfenio eníinava o filho , e vio efte Tentado , e 
o Meftrc em pé , queixou- fe-lhe dizendo y fazia vil 
a dignidade Magiftral , e Arfenio o fatisfez com a 
defculpa , de que nâo devia fentar*fe diante de 
quem já era Imperador ; mas Theodofio fabio , c 
virtuofo tirou as iníignias Imperiaes ao filho , e 
fez que em pé defcuberto déíTe lição a íeu Meftre 
Arfenio fentado , dizendo : Meus filhos ferão dig^ 
nos do Império , quando fouberem unir a piedade com 
a /ciência. Nada aproveitou a Arcádio eíle exem- 
plo de feu pai Theodoíio , antes paífado pouco 
tempo ordenou a hum Oificial de guerra mataíTe 
•íea Meftre Arfenio : teve efte a bondade de o aví* 
•iar logo 5 e elle defenganado de colher fruto em 
tal difcipulo^ retirou-íc para o deíerto deScythis^ 
tendo entáo fó quarenta annos de idade. Dizem 
que Arcádio depois da morte do pai , íabendo on- 
ját eftava Arfenio , lhe efcrevêra com muita humil- 
dade 9 e lhe mandara grandes prefentes , que elle 
rejeitou com o fanto defintereíTe , que fempre ti- 
vera ; pois levando-lhe hum OiEcial de juftiça o 
teftamento de hum feu parente y que o inftituíra 
herdeiro , perguntou ^quanto tempo havia que o 
iofiituidor era falecido y e refpondendo que havia 
poucos mezes , replicou elle : Muito mais tempo 
ha que eu morri , e não pojfo morto fer feu herdeiro. 
Hum dia eftando em oração , o affligírâo receios 
de que fe nâo íalvaria, eouvio huma voz doCeo, 
que lhe difle : Arjenio foge , cala j e defcança. Os 
bárbaros o lançarão fora daquelle fanto ermo com 
todos os outros Monges^ pouco antes de conquif* 



s 



C404 ) 

tarem Roma os Godos : reftituio-fe com elfes i 
fnefma foiidáo j onde paflbu para a celeftial pátria 
na idade de noventa e hum annos ^ e o celebra a 
Igreja a 19 de Julho j os Gregos a 8 de Maio. 
arfado Santo , de que tratâo os Martyrologios 
Komanos a 1 6 de Agofto j foi Perla de nação ^ 
Monge emNícomedia depois de Soldado , e Guar- 
da leões do Imperador : baptizou-fe no tempo em 
que Licínio perfeguia a Igreja j e logo profeifbii o 
Monacato : revelou ^Ihe Deos o caftigo que^avia 
mandar a Nicomedia, e elle avifou os moradoiesA^ 
que fe não emendarão , até que no anno de 35S 
hum horrível terremoto deftruio a Cidade , e íe- 
pultou nasruinas quaíi todos os habitadores: 9chá^ 
rão depois o Santo morto em huma to^re da Ci* 
dade, que lhe fervia de cella , proflrado no chao^ 
e na mefma poftura , em que orava ^ fem IcsSo al- 
guma ; de forte que julgarão alcançara de Deos 
preciofa morte antes de ver a ruína da Cidade. 
Jrtois , he huma Província do Paiz baixo perten- 
cente ao Rei de França com o titulo de Conda- 
do : a Cidade Capital he Arras , tem outras mui* 
tas 9 oitocentas e fíncoenta Aldeias , e grande nu« 
mero de Mofteiros ^ e ricas Abbadias. Jffyria , he 
huma grande parte da Afia , e foi hum dos maio- 
res Impérios delia : confinava pelo Occidente com 
vMédia j pelo Norte com Arménia , pelo Sul com 
Sufiana , ou com Mefopotamia pelo Occidente y e 
.pelo Oriente com Média. Somos tão limitados , 
que fendo efte o Império primeiro do mundo 9 nem 
os limites j nem coufa alguma fabemos com certe- 
za^ excepto o que exprefla a vulgata: o mais cer- 
to 



( 40ir ) 

to he^ que o fundou ÂíTur filho de Sem, neto de 
Noe j e depois Nembrod filho de' Chus", neto de 
Cham, itmão deSem, homem ferox, e grande ca- 
çador, conquiftou efte Paiz , que Abrabâo achou 
dividido em muitos Reinos. Nino foi o primeiro^ 
que fez efte Império podcrofo ,.e florecente , pc^ 
]o que foi adorado: ignora-íe o tempo que durou. 
Ofeu ultimo Rei foi Sardanapalo, que fe queimou 
em Ninive com todo o precioío que tinha. Efta 
famofa Cidade , que foi Corte dos Áflyrios j def^ 
truírão Nabucodonofor , e Afliíero y depois oue 
das ruinas dos AfiTyrios fe levantou o Império dos 
Medos, efoi Babylonit a Corte principal domuiv- 
do y de forte que huns o dividem huma vez , e ex- 
tinguem outra ; aqueiles lhe confiderâo duas Cor- 
tes , Babylonia , e NiniVe , outros fó efta , huna 
querem duraiTc feifceâtos^.è trinta e féis annos y ou** 
tros-maia^ alguns , e iiielhor , que menos : aflen* 
ta-fe que- o* catalogo dos fens Imperadores he qua- 
fi todo fabulofo. Náo ha coufa mais confula , e 
tnenos certa nahiftoria , nem que mais teftemunhe a 
furdencia deMoreri «m trasladalla, porextenfo y coe»- 
feíTando o que digo. Ha* em Babylonia hum grande 
pedaço de edificio , como dauftro redondo , fubmeb> 
gido em ruinas de muitos^, donde fe tem cxtrahidò 
algumas obras de pedras diverfas y excellentes y e 
bem lavradas, que dizem fer da Palaciade Nabucd 
JJlabat y kit huma Cidade da Arménia y ou Turcomi^ 
fiia na-fí-onteira da Perfia , diftante huma légua do 
rio Araaco y pequena y mas bella , rica y e fertiliíEma : 
he o único rbiz f que ncftè mundo produz oRooaay 
ou Ronaz ^^ com que :áe tingem de encarnado vjh 



< 4o6 ) 

fj^Y e excellente as roupas de toda acofta de Coro* 
fnandei^ é he tal a abundância defta raiz, que na(^ 
ce, e fe extende por baixo da terra, que vem aiuú 
cas Cáfilas de Camelos a Ormuz fò com efta mer« 
^adoria , que logo comprão para tintas os merca* 
dores de todo o Oriente. AJlarothy ídolo dosFilif* 
jthcos^ Sidoníos,e outros Gentios do Oriente, a quem 
adorou Salamáa , e os Ifraelitas , e a quem aores 
lia via mandado reduzir a cinzas o Profeta Saoiiie/; 
na melhor opinião era a Lua figurada na eftattta de 
liuma ovelha , e o nome figntfica rebanho de ove\hts ^ 
« riqueza. Àftracâo ^ he bu ma excellente ProWocia 
<io Império da Ruífia , no que chamarão Ducado de 
Mofcovía fobre o mar Caípio , e boca do río VoI«- 
-ga: foi fujeita a hum Rei Tártaro, que fó adomir 
nava, depois ao Senhor da Tartaria como feudo ^ 
«Província até o anno de 15*5:4 , em que aconqitiA> 
•tou João Bazilovitz Grão Duque de Mofcovía.. He 
Empório grande de commercio com a Tartaria , Per* 
iia, e Ruflia: padece exceífivos calores em Serem» 
broy e Outubro; edous mezes fò delnvcrpo, em 
que fegelão os rios , eadmittem carros , produí^oi 
ibelhores melões , e hoje muitas uvas por iaduftria 
de hum Monge Grego: confina com a Tartaria de- 
derta, e não admitte Tártaros dentro das muralhas; 
:inas elles a fazem rica de gados , que tem fora deW 
ii& em cabanas. As cafas todas sio de madeira fem 
aperfeiçoes^ e toda afbrniofura confifte em muitos ^ 
'ealtimmos campanários, e torres. Atbenasj^ mimo 
da Grécia, pátria dasfcíencias, e valor, cabeça do 
Paiz Attico, fundação de Aâ:eo, fegundo Paufanias , 
«O deCecrope^ como dizem outros : depois deíer 
çtr ^ tão 



C 407 } 

tio cxcellente , política , abundante, c digna de ver-r 
fk 9 que julgavâo bruto , a quem n$o habitava nelU 
tflgum tempo para fer inftruido , e a quem depoi» 
de inftruido a deixava para habitar em outra parte 
do mundo: depois de muitos Reis , e Duques, que 
a governarão , dosquaes íe ignora grande parte dos 
nomes , e façanhas , foi dominada pelos Imperado- 
res do Oriente , e diveríos Príncipes Italianos , Hef- 
panhoes , logo pelos Turcos , e Venezianos , hoje (e 
diama Setinas fundada em diverfo fitio , e já nada 
^Gonferva do que efcreveo Moreri havia nella em o 
íeculo paflado. Jttila Rei dos Hunnos , Scytha de 
fiação j idolatra , intitulado Açoute de Deos y conquif-* 
too , e deftruio todo o Oriente , venceo, e fez tribu* 
tario o Imperador Theodoíio moço, deftruio Ale^ 
manha , e França , ficando fó illéfos Paris , e Troyes ^ 
âquella pelas orações de Santa Genoveva , efta pela 
intercefsão do feo Bifpo S. Lupb« Quando havia de 
caminhar efte raio para Itália , lhe preíentárão ba- 
talha unidos Meroveo Rei de França , Âecio Gene- 
ral dos Romanos , eTheodorico Rei dos Vicegodos 
com tal fortuna , que nos campos de Solonia juntp 
a Orleães perdeo Áttila duzentos mil foldados no 
anno de45:i ; mas não baftou iSo para o decepar: 
entrou na Itália, deftruio Áquilea, e outras muitas 
Cidades , até que lhe fahio ao encontro S. Leão 
Papa , e lhe pérluadio não deftruifle Roma , e o que 
jreáava da Itália: pafmárão os Capitães, e amigos ^ 
vendo obedecer Attila aS. Leão ; eelle que os co* 
nheceo , admirados de coufa tão rara no feu diabolí'* 
CO génio, difle que lhe tinha obedecido, e o tinha 

f efp^^tâdò , pçi^ junto a çHç;, Inrar Ipwtciii 



(408) 

reftídò de Pontifical, que lhe diíTera o havia matar 
íeDao executaíTe o que o Papa lhe dizia : determinou 
então deftruir toda a Afia , e África ; mas eftando 
de caminho em Panonia , não obftante o ter hum 
grande numero de concubinas y quiz receber outra 
formoíiílima , e coroalla Rainha , por íer filha do Rei 
dosBaârianos, e porque a amava com o maior ex« 
tremo. Na noite da boda comeo , e bebeo com tal 
excefib, que, oudiflb, ou do muito que fefiiíigotf 
com a noiva , lhe refultou , eftando dormindo , hum 
fluxo de fangue pelos narizes tão grande , que lhe 
impedio a refpiraçâo , e tirou a vida : alguns duri« 
dão da fegunda caufa , porque dizem tinha ceoto e 
vinte e quatro annos quando morreo. &a pequena 
de corpo , mas capaz de infundir medo com os olhos 
nos homens mais intrépidos : teve aftucia para per* 
fuadir ao (eu exercito que era divino, e que tinha 
achado o alfange de Marte, (que todos os Gentios 
adoravão) no qual tinhão vinculado os fados o Im- 
pério de todo o mundo. Intitulava-fe filho deBen- 
demo, neto deNembrot, creado emEngadíi , por 
graça de Deos Rei dos Hunnos , Medos , Godos , c 
Dacios , terror do Univerfo , açoute de Deos : dizia 
que as Eftrellas cahião quando olhava para ellas , que 
a terra tremia , quando colérico â calcava, e que era 
martello de todo o mundo. Que foi açoute permit- 
tido por Deos para caftigo do mundo naquel le feculo 
quinto da noíTa redempção, he certo; que tinha todos 
os vicios, e era doido, he innega vel; e que Deos o ma- 
tou obrigado das orações dos juftos , e compadecido 
das lâ grimas , e penitencia dos arrependido^^ certo» 

Lisboa', tii Ofl^a'de^ígu«rmne{ha^iiC«(b, ithféaot áé 



( 40? ) 

CONFERENCIA XXXV. 

AVicena , Fílofofo , e Medico Arábio , fi- 
lho de Áli , e Citara , nafceo em Bochara 
Província deTranfoxana noanno dcChrií- 
to 980, não foi ( como alguns fonhárâo) 
difcipulo de Averroes em Córdova , e de Rhafis 
em Alexandria : teve muitos Meftres , e excedeo 4 
todos. Na idade de dezefeis annos era Filofofo j 
Medico 9 eMathematico confummado; nos dezoi^ 
to lhe faltou que aprender , e fe applicou is politi- 
cas: foi Medico, eGráo Vifir do Sultáo Chabous 
na Geórgia : morreo de íincoenta e oito annos j 
porque os feus exceíTos lhe adquirirão muitas en- 
fermidades. O Papa Xifto IV. fez imprimir as íuas 
obras em Roma na lingua Arábica em 1489 , de- 
pois fe traduzirão em Latim com excellentes no- 
tas , e fe imprimirão em Veneza , Roma , Franc- 
fort, e outras partes. Ávila ^ he huma Cidade de 
Hefpanha em Caítella a velha com Biípo fuffraga- 
neo a Compoftella y célebre por íer pátria de San- 
ta Terefa de Jefus, íituada em cabeças de montes 
nas margens do rio Adaja : tem os feus muros an- 
tigos nove mil e fetenta e íinco pés de circumfe- 
xencia , e nelles oitenta e féis torres , cento e vin- 
te e fete ruas , excellentes edifícios , Igrejas , e 
Moiteiros : he rica , abundante , e quaíi inexpug- 
nável. He pátria da fidelidade Hefpanhola , por<* 
que os feus naturaes criarão nella occulto com mi^- 
mo* refpeitO| lealdade adnniravel ^ e íegredo w^ 
' Tora. VIL Mm trc 



( 4IO ) 

trc tantos prodigioío , ao grande Monarca D, A^ 
fonfoVlII. chamado Imperador, defendendo-o af- 
fim da morte , que feu padrafto AflFonfo VII. lhe 
maquinou; pelo que defde então as fuás armas são 
huma torre , e na janella hum Rei com coroa , e 
fceptro com a letra Ávila de El-Rei. He pátria de 
D. Ximena Vafques , mulher de Fernão Lopes Tril- 
lo, a quem D. Affbnfo VIL deo o privilegio, de 
que aâ mulheres da fua deícendencia pudeíTem vo- 
tar, e governar como os homens, em premio das 
façanhas , que ella obrou em companhia de feus &« 
lhos, e noras na defeza da pátria contra o Rei 
Mouro Abdala Alhacera. Avinbão , he hum Efta- 
do doSummo Pontífice, que toma o nome da Ci- 
dade Capital em França na parte chamada Gallia 
Provençal, ou Narboneníe : confta da Cidade , e 
território de Avinhão , e do Condado de VeneA 
lim : tem de comprimento onze léguas Francezas, 
e íeis de largura , he banhado dos rios Sorgua j 
Durança, e Ródano, he abundante de tudo, tem 
hum Arcebifpo , etrezBifpos fuíFraganeos. He ce- 
lebre a Cidade pelos íeus fete fetenarios , porque 
tem; fete portas , fete Palácios , fete Freguezias , 
fete Igrejas Collegiadas , fete Hoípitaes , fete 
Conventos de Religiofos , e fete de Religíofas. 
He memorável a fua ponte altiífima com dezenove 
arcos fobre o Ródano, cuja corrente he arrebata- 
da , em tudo he formofa , e dizem fora mandada 
fabricar por ordem efpeciat de Deos , de quem foi 
menfageiro hum menino Santo de doze annos cha- 
mado Bento ; e dizendo«lhe o Governador , que 
íó lhe daria credito íe elie tomaíTe aos hombros 



<4iO 

huma pedra monftruofa, qué tinha prefentc, o me- 
nino fem diíficuldade o fez , e elle convencido a 
mandou edificar : o menino he venerado em Avi* 
nhâo com o nome de S. Bentinho , e o prodígio 
fuccedeo no anno de ii77- Não fe fabe com cer- 
teza como veio efte Eftado para o dominio da 
Igreja , porque Clemente V. j que levou para Fran* 
ça a Cadeira de S* Pedro ^ o náo poíTuio y mas fim 
Clemente VI. íeu terceiro fucceflbr , o qual di- 
zem comprara efte Eftado j em que os Papas até 
então aflíiftiâo por empreftimo , a Joanna Rainha 
de Sicilia, eCondeça de Provença por oitenta mil 
florins no anno de 1348 , em que ella o herdou 
juntamente com o fceptro : huns dizem que houve 
cfta^ venda , e que exifte a efcritura , mas que o Pa- 
pa não dera o dinheiro , ou que a Rainha lho não 
aceitara : alguns querem feja fabulofa a venda y e 
que a Rainha o dera ao Summo Pontífice em lu- 
gar do feudo , e tributo , que o Reino de Nápo- 
les pagava áSé Apoftolica : o certo he que os Pa* 
pas o poíTuem defde o fobredito anno j e defdc 
que mudarão para Roma a Cadeira o governâo 
^or hum Legado. Os moradores j ainda que cm 
tudo y e por tudo são vafiallos do Papa y sáo re- 
putados por Francezes , como os outros , e ad- 
mittidos a todas as honras y e empregos Ecclefiaft 
ticos 9 e Civis em toda a Monarquia de França.! A 
Cathedral he primorofa y e nelle eftâo as fepultu<t 
ras de Benedi£lo XIL , e João XXIL : excede a 
todos o notável Maufuleo de Clemente VIL no 
Coro dos Monges Celeftinos da mefma Cidade y 
cujo commercio he grande. Aujlriay he hum Pai^ 

Mm ii de 



(4iO 

de Alemanha com titulo de Archiducado , com qne 
fe hoorâo os primogénitos dos Imperadores j aa« 
tes de ferem Reis dos Romanos : he a mefma Pro- 
víncia , a quem os antigos chamâo Panonia fupe- 
rior : confina do Nafcente com Hungria , do Po- 
ente com Baviera j do Norte com Moravia ^ e do 
Sul com Stiria : o rio Danúbio a divide em alta , 
e baixa , fendo a alta a que fica da parte de ca a 
refpeito de nós : he fertiliíEma , e delicio/à. Era, 
fronteira do Império contra os Húngaros , e mais 
nações confinantes então bárbaros , e cruéis immi^ 
gos ; e o Imperador Henrique I. deo a enveâidura 
defte Archiducado y quando erSo matos , e bofques 
a maior y e melhor parte delle , a Leopoldo o II- 
luftre para o defender, fò com o titulo de Conde: 
Frederico Barbarroxa o fez Ducado, e ultimamenr 
te foi unido i Caía de Auftria por Rodolfo L j 
quando matou Ottocaro Rei de Bohemia ^ que o 
havia ufurpado por morte do ultimo Duque Fre- 
derico j qne morreo de garrote , e deixou Auftria 
em a defefperação de pedir aos Marquezes de Mi& 
nia a quizeíTem dominar. O Imperador Frederico 
o Pacifico a fez Archiducado para feu filho M axi- 
miliano , a quem deu o privilegio de crear em to- 
da Auftria Condes, Baróes, eGentis-homens, que 
defde o nafcímento foflem Confelheiros do Impe- 
lador : que recebeflem a enveftidura dos Eftados 
a cavallo , com hum manto Real , e coroa de duas 
pontas, baftão de General na mâo, e outros gran- 
des priviíegios. A Genealogia da Cafa de Auftria , 
fendo huma das mais illuftres da Europa ^ foi tão 
viciada pelos mentirofos^ e aduladores^ que Car- 
los 



( 413 ) 

los V. 9 quando lhe fallavâo nella ^ para atalhar lí- 
Ibnjas, e mentiras, dizia, que os feus afcendentes 
erâo as fuás obras: alguns a deduzirão de Noé, e 
fizerão mal não a contarem de Adão, porque am- 
bos são primogenitores certos. Todos os ferios, 
cordatos , e verdadeiros a contâo defde Rodolfo 
Conde de Afpurg , familia antiga , nobiliflima , e 
relígiofa de Alemanha , a quem Deos elevou ao 
throno Imperial delia em remuneração da fé, pie- 
dade , humildade , e veneração , com que acompa^ 
nhou a pé defcuberto o SantiíEmo Sacramenta, 
que hum Pároco levava a pé a huip enfermo , fa^ 
zendo-o montar no feu cavallo , fegurando-lhe a 
eftribo , e dando-lhe o cavallo : fuccedeo ifto no 
anno de 1273 , e defde então até agora teve efta 
Cafa Auguftiflima vinte e trez Imperadores , e a 
Imperatriz reinante na fua defcendencia. Morerí 
diz , que tem dado a Cafa de Auftria em quatro-^ 
centos annos ao Império de Alemanha vinte e qua- 
tro Imperadores , e féis Reis a Heípanha , e que 
Carlos VL , pai da Imperatriz Rainha de Hun^ 
ria, e Bohemia, fora o decimo fexto Imperador 
la fua familia : nenhuma utilidade coniidero em 
averiguar a conta. Auftria^ por fobrenome bem 
merecido : D. João de Auftria , filho illegitimo de 
Carlos V. , e de huma Senhora , cuja honra encu» 
brio outra , que fe publicou mãi , nafceo em Ra- 
tisbona no anno de 15^47, e íendo de hum anno, 
foi conduzido a Hefpanha , e educado com o maior 
fegredo por Luiz de Queixada , até que o Impera* 
dor na hora da morte o reconheceo, e recommen- 
dou a Filippe Prudente , o qual , paflados dons 
Tom. VIL Mm iii an- 



C 414 ) 

annos , muito contra fua vontade , o admittío na 
CQmpanhia do Príncipe Carlos , e Alexandre Far- 
aeíiò j íó com o tratamento de Excellencia ^ de que 
nunca paíFou. Nâo quizD.Joâo ordcnar-fe, como 
feu paidefejára, efeu irmão queria, eefta foi a ori- 
gem de toda a ília defgraça: fugio de Madrid com 
muitos Gentis-homens para a guerra de Malta; mas 
retrocedeo com rara obediência , apenas recebeo 
ordem do Rei em Barcelona : efta acção o fez amá- 
vel, e muito mais o revelar a I^lippe as aleivofas 
maquinas.do Principe D. Carlos. Fez acções memcH 
ravcis de valor, e prudência na guerra de Granada 
contra os Mouros: foi General da Liga Cathoiíca 
contra o Turco, e venceo afempre memorável ba- 
talha deLepanto: conquiftou depois as Cidades de 
Tunes, eBiíTerta: entrou na Itália com triunfo ipd^ 
blico , levando nelle o Rei de Tunes prizioneiro^ 
Contra as ordens do Rei íeu irmão deixou Tunes 
guarnecido, e procurou a enveftidara de Rei del- 
le por intervenção do Papa, acções, que totalmen- 
te defgoftdrãoFilippe; epara lhe cortar eftas«gran* 
des efperanças, affim da Coroa de Tunes , quç pe* 
dia, como da de Inglaterra, que dizião fe lhe of« 
ferecia com o cafamento da Rainha Ifabel, o man- 
dou pacificar, e fubjugar os Paizes baixos, faltan- 
do*lhe com os foccorros , e meios neceíTarios. D. 
João vendo^fe expofto a perder a liberdade , c cre» 
dito , mandou a Hefpanha o feu Secretario , que 
logo foi morto , e elle faleceo no primeiro de Ou- 
tubro de I jr78 de paixão , ou veneno , como diz 
Moreri, e querem os Hefpanhoes. Autom^ hc hum 
monte 9 que vomita inceíTaatemente fogo^ ou cin<» 

zas 



(A^S ) 

zas com fumo negro , e fedorento na Província de 
Chucuito Reino de Chile na America de Hefpa* 
nha, junto ao nafcimento tio rio Riobio, para fer 
mais admirável efta obra da natureza. Jtituna^ he 
huma Cidade de França em Borgonha fobre o rio 
Arroux, com Bifpado íuffraganeo a Leáo : he a 
mais antiga Cidade daqueile Reino , fegundo di^ 
zem os Chroniftas delle: no tempo dos Romanos 
tinha hum Magiftrado , que a governava cada an« 
no, chamado Vergobreto , com dominio total nos 
bens y e vidas dos habitadores. Os Druidas tinhão 
nclla hum Senado, eosGauIas moços eftudos. Ti« 
nhâo os feus muros quaíl dous mil paíTos em cir* 
cuito, notáveis edificios, hum Capitólio, grandes 
privilégios , e em fim os Romanos lhes chamavâo 
irmãos : tudo deâruio Attila em 4$'i , e os Nor* 
manos depois. Os Reis da Caía de Borgonha fo* 
rão os feus maiores inimigos : teve depois Con- 
des , e fe incorporon no Condado de Borgonha : 
padeceo muito nas guerras civis ; mas foi tão beU 
la , rica , e mageftofa , que depois de tantos , e táo 
grandes infortúnios, ainda conferva antigos, e ad* 
miráveis edificios, huma das melhores Cathedraes 
da Europa, vinte e quatro Arcipreftes , feifcentas 
Freguezias em toda a Diecefe, Bifpo com Pallio, 
(efpecial privilegio) innumeraveis, e ricos MoAei^ 
ros , e Abbadias feculares : teve muitos Prelados 
Santos, e produzio Varões doutiíEmos. Do Gen^ 
tilifmo exiftem eftatuas, colunas, aqueduélos , ar^ 
cos triunfaes , hum templo de Jano , a habitação 
dos Druidas, o campo de Marte , e o de Júpiter. 
Celebrárâo^le nella muitos Concilios y e muitos 

íe- 



( 4iO 

feculos forâo oráculos os feus Ecciefiafticos por 
doutos, e pios, Auvernia , ou Alvernia^ he huma 
Província de França com título de Condado : tem 
hum ribeiro, cujas aguas petríficáo o que nellas ef- 
tá muito tempo : são glutinoías com tal exceflb , 
que as fuás partes fuperficíaes formarão huma pon- 
te , que por fer maravilha da natureza a mais in- 
crível y a foi examinar o Rei Carlos IX. peílbal* 
mente. Tem outro de aguas tanto , ou mais glu- 
tinoías , em que muitas vezes £cáo prezes os paf- 
faros , como no v ifco : tem huma lagoa fem fun- 
do , e fe lhe lançâo dentro huma pedra j levanta 
hum vapor efpeíTo: he fértil efpecialmente de plan- 
tas medicínaes no monte Cantai. Teve Reis, Go- 
vernadores chamados Condes j depois Condes fo- 
beranosy logo outros fujeitos aos Reis de França ^ 
que hoje são Senhores defta Província , em que os 
Godos extinguirão todas as obras dignas de admi- 
ração , e memoria. Âyamonte , he huoia Cidade de 
Hefpanha fronteira de Caftromarim de Portugal 
na margem do Guadiana em fértil j deliciofo , e 
aprazível íitio , abundantiffima de peixe , e tudo 
o mais neceíTario para ávida humana. O noflb Rei 
D. Sancho 11. (diz Moreri) aconquiftou aos Mou- 
ros em 1240 : creio fe engana , como também em 
dizer a deo a D. Paio Peres Corrêa, Commenda- 
dor de Alcacere do Sal na Ordem de San t lago , 
porque D. Paio, fendo Portuguez, era vaíTallo de 
Caftella, elá Meftre da Ordem de Santiago: nef- 
tc officio começou a conquifta do Algarve , reinan- 
do em Portugal D. AflFonfo III. , a quem entregou 
D. Paio os fete Caftellos , que tinha conquiftado , 

CO* 



( 417 ) 

como já ouviftes na vida defte Rei , e muito an^t 
tes 9 ( como confta dos Cartórios daquella Cida- 
de então Villa ^ndada nomonte, onde hoje eilá o 
Caftello)já não havia finaes de Mouros nella. Tem 
huma fó rua boa, e nas mais rninas, que lhe fize^ 
râo as balas da Fortaleza deCaftromarim no tem- 
po da guerra de Carlos IIL Carlos V. a deo ao 
primeiro Duque de Bejar com o titulo de Mar- 
quezado j e aflim fe conferva na fua defcendencia. 
jízot , foi huma das finco principaes Cidades dos 
Filifteos , em que elles detiverâo cativa a Arca do 
Teftamento , e experimentarão o caftigo : conquif- 
tárão*na os AíTyrios j e depois os Egypcios com 
tão grande trabalho j confiancia y e defcommodo y 
que gaftárão vinte e nove annos no fitio : Baldui- 
no Rei de Jerufalem a tomou aòs infiéis no anno 
de iioi y e fundou nella Bifpado fuffraganeo aCe- 
farea y cuja Cathedral y e Palácio edificarão no lu*^ 
;ar onde os Anjos deixarão S. Filippe, depois que 
laptizou o Eunuco da Rainha Candace. No tem- 
po de S. Jeronymo era Praça de armas fortiífima y 
hoje a dominão os Turcos y e he pequena^Aldea ^ 
a que chamão Alfcta. Jzpilcuita y he íobrenome 
do Venerável Doutor Martinho de Azpilcueta , co- 
nhecido pelo de Navarro y porque naíceo na Cida- 
de de Pamplona , Reino de Navarra : foi gradua- 
do, eMeftre em Tolofa, Salamanca, e Coimbra^ 
onde foi ouvido como oráculo do Direito : foi 
Presbytero , e Cónego Regular da Congregação 
de Roncefvalhes , Theologo, e defenfor do Arce- 
bifpo de Toledo em Roma , Penitenciário do Pa- 
pa, e venerado de toda a Europa pelas fuás letras^ 

vir- 



( 4t8 •) 

.virtudes j e efcritos copiofos , qae exiftem. Nim« 
ca vid poJ^re, que oâo^Temediafle , de forte que a 
fnula parava em vendo pobre y atites que lhe fuf« 
pendeflfe as rédeas : morreo de noventa e dous an« 
nos em Roma no de 15:86 , jaz com hum notável 
epitáfio na Igreja de Santo António de Portugal 

HE tempo ( difle o Soldado ) de completar- 
mos a vida do Auguftiífimo Rei D. Pedro lí. ^ 
e referirmos a de feu filho o Senhor D.João V. 
Publicada a paz entre a Coroa Portugueza, e ade 
Hefpanha , como vos contei no fim da Confcren* 
cia quinta do quarto Tomo , reconheceo a Corte 
Romana ao Senhor D. Pedro legitimo Rei de Por- 
tugal, e comefta felicidade veio a licença para no- 
mear Bifpos no Reino , e Conquiftas , que havia 
)i vinte e nove annos eftaváo íem Paftores. MoO^ 
trou logo Hefpanha quanto neceflitava do noffo 
valor, e forças para defender a Praça deOrão , íi- 
tiada por hum formidável exercito de Mouros, que 
fez retirar Pedro Jaques de Magalhães, General da 
noíTa^rmada , com que o invifto Rei D^ Pedro 
mandou foccorrer a Praça. Segunda vez nos pedio 
pouco depois Hefpanha auxilio para a deteza de 
Ceuta, para onde partio logo de Lisboa com hum 
Regimento de Infanteria o memorável heroe Pe- 
dro Mafcarenhas , cuja prefença julgamos baftou 
para affiigentar os bárbaros. Sendo elle Conde de 
Sandomil , e Vice*Rei da índia me contou fcm a 
menor fombra de ja£lancia , antes com humildade 
virtuofa , que-ós Mouros entrarão ná' Praça de 
Ceuta depois do meio dia , a tempo que elíe do- 

en- 



.« 



( 419 ) 

ente , e fangrado no tneímo dia terceira vez def- 
cançava na cama.: acordou com o eftrondo , que 
faziâo os moradores fugindo y e gritando : foube 
que as muralhas , e ruas eftavâo cheias de Mouros 
vencedores , fahio da cama em roupa interior, co- 
mo nella cftava y metteo os pés nas chenellas y ikh 
movi o broquel 9 e efpada, fahio á rua, que achoiv 
tomada de bárbaros ^ quQ. em poucos inftantes ca*- 
hírão a feus pés mortos, fugirão logo os outros, 
que vínhão foccorrellos , e aíEm atemorizados , e 
confufos todos, os que já dominavâo as ruas, ba- 
luartes , e muralhas^ fe lattçárâo no foíTo, em quê 
perderão a maior parte as vidas , além dos mui- 
tos , que não fugindo , as deixarão nos £os da ef- 
pada de Pedro Mafcarenhas, o qual dava fim a ef- 
ta memorável hiftoria , dizendo : Cr^io os encheo 
de horror a vijla dék minha defcompojiura , pdrqtie os 
animaes temem y e refpeitâo os homens mis. Intentou* 
o Rei caiar fua filha primogénita a Senhora Infan- 
' te D. Ifabel , Princeza jurada herdeira defies Rei- 
nos, com o Duque de Sabóia feu primo, chamoa 
a Cortes^ e nellaa fe^ dilpenfou a Lei .fundamental 
das de Lamego, que probibe çafemcom Príncit:)esí 
eftranhos as filhas herdeiras defte Reino : prepa-t 
roíi-fe a mais luzida Armada, cuja Capitania cfaa-i 
niárão Monte de ouro, porque na realidade o re-» 
prelçntava , n^çUa foi o Duquç do ÇadavaJ paç^ 
conduzir o Príncipe, e ó General Pe(&ò Jaq^es de 
Magalhães para governar a Armada , que chegan- 
do felizmente a Turim , não teve eflFeito o feu dei- 
tino , porque eftava o Principe gravemente enfer- 
mo: pertendêrão também eíta Princeza os Duques 



de Tofcflna j e Parma ; maa Deos que a 3, 

tinado para melhor Coroa , a leFOU p iis 

de Outubro de 1690 em Lisboa , ond/ ^y^ 

tada no Conrento das Capuchas Frar tcU 

dação da Rainha lua mSi , que fete ■ Im- 

bavia falecido em Palhavi , e jazia nr neím» 

vento. Em 11 de Agofto de 1687 c ~ar po- 

funda Tez com a Senhora O. Mar'^ lina/do, 

IhadeFilippeVilhelmo, Eleitor P' , que foi 

de Neoburg: foi conduzida a Rair roçai, (\|ae 
huma Armada Inglesa , que gov .^fti mau çtt- 
de Graffcon Henrique Fitz , fiíh<' .1 . làmi Moafaiw 
II. de Inglaterra , a qual entron 1 jou o CafteUo , 
boa a II de Setembro de 1Ó87. 3I D. Fnaãíoa 
faleceo em Madrid no primeirt. ..-rcito vinha foo^ 
Rei de Hefpanha Carlos IL U.. no Alentejo para 
xando o Reino a feu fobrihho ijhio feiro em £■»- 
Duque de Anjou , neto de LnK inimigoa j entrou 
depois em Hefpanha Filippe Vq, &qneouy c qoci- 
nomeaçSo ao Imperador Leopo|$ ét Março dei704 
fundado em que a Infanta de)!, Pedro acompanhar 
Terefa irmã de Carlos defuntq|jMÍ ii opeiaçfiea da 
Luiz XIV. renunciara todo «^«IliTa o exerâco , 
feus filhos , e netos podião J|^||ina« y cnjo quar* 
Hefpanha. ^ Mmmara as tropas 

I ^QJlwyy, porque o 
LISBOA, N.offidn» de Miguel M^dfelM* Inglaterra, e 

SantoOflkio. Atuo ijí^ em^ng/m^t ICOS MíniA 
^40 <tercÍtos na pàSa^ 
^ h Hefpanhoí de 
r o Almci- 
t it não dfr- 




' 0» " ' 












;.ijL 



( 4^i ) 

Beira , ganhou algumas povoações fem reílftencia , 
e por ^íHiho Mòníati^, e fdanha a nova, entroa 
em Caftélíòbranco , pàflbu em Villa velha o Tejo 
em ponte de barcas, rendeo Portalegre , e CafteU 
lo de Vide , fujeitando outros lugares menos im- 
portantes. Sahio em campanha na Beira ao mefmo 
tempo o Marquez das Minas j mandou atacar pe^ 
lo Conde de S. João a Vilia de Fuente Guinaldo, 
fica j e depoíito das riquezas de outras ^ que foi 
rendida a pezar da valerofa defeza das tropas , que 
a guarnecião , e entregue ao faque fem mais ptt- 
da, que a de hum Toldado noflb: aviftou Monfath' 
to prefidiado por Francezes , ganhou o Caftello ^ 
e venceo em campanha o General D. Francifca 
Ronquilho , que com todo o exercito vinha foc** 
corrello. O Conde das Galveas no Alentejo para 
caftigar os damnos, que nos tinhâo feito em San- 
to Aleixo j e outras Aldeãs os inimigos y entroa 
' no Condado de Niebla , rendeo , faqueou , e quew 
mou a Villa de Alqueria. A 28 de Março de 1704 
fahio de Lisboa o noflb Rei D. Pedro acompanha- 
do de Carlos III. para afliftirem is operações da 
campanha na Beira , onde fe achava o exercito y 
que governava o Marquez das Minas y cujo quar- 
tel General era em Almeida : governava as tropas 
Inglezas o General Conde de Galoway y porque o 
deSchomberg fe havia retirado para Inglaterra, e 
acompanharão as Mageftades todos os leas Minií^ 
tros , e Corte. Aviftárão-fe os exércitos na páfla- 
geni do rio Águeda j e conftando o Hefpanhol de 
muito maior numero de tropas do que o Almei- 
rante figurava ) aflentárão os Monarcas fc nâo de- 
via 



ria expor a lium fó lance da fortuna ^ o qne diW- 
dido podia melhor confeguir a conquifta de Hef- 
paoha íem perda de gente tão valerofa , e neceíTa- 
ria. Voltarão os Reis para Lisboa, e continuarão 
felizmente os Generaes Portugoezes a guerra | por- 
que o Conde das Galveas ganhou Valença de Al- 
cântara , neíTe tempo huma das mais fortificadas Pra- 
ças j e em trez dias rendeo Albuquerque : no mef- 
mo tempo o Marquez das Minas na Beira recupe- 
rou a Praça de Salvaterra , que tinha fido empre- 
go da ira do Conde deBcrvich , ficando a guarni- 
;ão prizioneira de guerra; faqueou o rico lugar de 
larça prefidiado por Francezes « demolio os edifi- 
cios , e queimou a ViJla. Nefte anno , que era já 
o de 1705* 9 entrou em Lisboa a Armada de Ingla- 
terra , e Hollanda , que deixando em Lisboa treze 
tiáos da fua efquadra, com as mais conduzio o Rei 
Carlos IIL a Catalunha , afliftindo-lhe como Em- 
baixador de - Portugal o Conde de Afluman No 
Outono feguinte pertendeo , íem efieito^ o Mar- 
quez idas Minas a conquifta de Badajoz, tendo á 
vjfta o exercito Ileípanhol governado pelo Conde 
de Tcfle, que nem lhe impedio o valor, e glorio- 
fa memoria defta acção a mais rara, nem tâo pou- 
co a retirada de todo o exercito para Elvas com 
paufii ,.íem dano , lou fadiga* No mefmo tempo 
conqiiiftou Carlos IIL Barcelona depois de hum 
porfiado fitio, e fendo logo cercada porFilippe V. 
por mar com a Armada Franceza, que governava 
o Conde de Todoía ,'e por terra com trmta e fin» 
CO mil homens do Marechal deTeflfe, todos fe r&* 
tirarão apenas chegou o foccorro dos Aliados f 

Nn ii fen- 



( 4M ) 

fendo na verdade o que os obrigou à fugir o ra* 
Jor dos Porcuguezes, aflfás bem conhecido de am- 
bas as nações nos feíTenta annos próximos. A 31 
de Março de 1706 fahio á campanha o noflb exer- 
cito çompofto de todas as tropas das Provindas , 
e governado em chefe pelo Marquez das Minas : 
conquiftou Membrio, e S, Vicente , derrotou j e 
venceo o Duque de Bervich , quando intentava de- 
fender Brocas, que foi emprego da noifa ira,* reo- 
deo a fámofa Praça de Alcântara a 14 de Abril , 
ficando a guarnição prizioneira,~Coria, CaUifteo^ 
Cáceres , e Trugillo , a Cidade de Placencia ^ on^ ' 
de fegunda vez triunfou do Duque , que intentava 
foccorrelia , a Cidade de Rodrigo , julgada inex- 
pugnável , todas as povoações de huma , e outra 
margem do Tejo , Salamanca , Ávila , e ultima^ 
mente com gloria immortal Madrid , qne Fji/ppe 
V. havia defamparadò , onde entrou o Marquez , 
e exercito no dia fempre memorável '27* de Junho, 
em que foi naquella Corte acclamado Carlos IIL 
Efta felicidade das armas Portuguezas'aflbiiibrou 
toda a Europa, de forte, que o Summo Pontífice 
Clemente XI. reconheceo por legitimo Rei deHcf- 
panha a Carlos IIL logo , os Aliados , e inimigos 
refpeitáráo o noflb valor, e intrepidez, os primei- 
ros derâo parabéns ao nofib invi£lo Monarca ^ e 
para os receber dos fegundos', Muley límael Im- 
perador de Marrocos lhos deo em huma carta 
cheia de refpeito , e temor das nofias armas , fa- 
zendo nella memoria da fineza , com qtie oRciD^ 
Sebaftião expuzera vida , honra , e fazenda para 
reftituir o Reino ao Xarife feu parente^ que antes 

iem 



( 4^5- ) 

fcm eflFeitò fe tinha valido do patrocínio de HeC- 
panha, offerecendo refgate para todos os cativos, 
e tudo o que era , e podia ao ferviço do Rei , a 
quem tanto refpeitava j quanto temia. O Vifcon- 
de de Barbacena , que governava as armas na Pro- 
víncia de Alentejo , no meímo tempo rendeo a 20 
de Maio Xerez de los Cavalheros depois de ven- 
cer o Marquez de Bay y que intentou com exerci» 
to foccorrer aVilla, ganhou as de Barcarrota , ÂI* 
conchel , Salva Leão , e outros lugares menos con» 
iideraveis , com que fe fez refpeitado , e obedeci- 
do em toda a Fronteira. Eftâ era a otcaíiâo mais 
opportuna para Carlos IIL dominar toda a Hefpa- 
nha , eftabelecendo-fe na Corte de Madrid já con- 
quiftada ; mas Deos , que tinha determinado para 
Filippe V* efta Coroa , para o.Imperador Jofé a 
da Bemaventurança , e para Carlos a Imperial de 
Alemanha , fez que efte tardafle em vir tomar pof- 
áe do throno ; e o Marquez das Minas vendo que 
elle não vinha unir-fe com o feu exercito , ao mef- 
mo tempo ^, em que os foccorros de França aug«- 
tnentavâo o contrario , e algumas Praças conquis- 
tadas feguião Filippe V. , fahio de Madrid a buf- 
car o exercito de Carlos, que encontrou em Cara» 
goça , Capital do Reino de Aragão , que logo o 
«cdacnou : determinarão ambos atacar os inimigos 
governados pelo Duque de Berwich a 8 de Âgof- 
€o; mas vendo-fe faltos de alimentos, e forragens^ 
fe retirarão para Cinchon, a 15* paíTárão os Alia- 
dos, e Hefpanhoeso Te^o^èm pouca diftancia dt 
imns a ohtro^ ^ e fem mais operação alguota n6(^ 
ta eftação^ « aono, tomooqiiKarteifi^JQfita a Valea^ 
.Tom. VIL Nn iii ça 



-• . 



( 42^ ) 

ça o noíTo exercito. Nefte tempo faleceo no Paí^-^ 
do da Bempofta a Senhora D. Cathariná , Rainha 
daGrâo Bretanha, viuva de Carlos IL, a qnal ti- 
nha vindo para efte Reino no anno de 1693 , e foi 
fepultada em Belém. A 9 de Dezembro de 1706 
faleceo no Palácio de Alcântara o SereniíEmo Rei 
D. Pedro j contando íincoenta e oito annos e 
meio de idade , e vinte e trez de governo , e foi 
fepultado no Mofteíro de S. Vicente de Fora: ti- 
nha grande eftatura j robuftez admirável j afpeâo 
mageftofo ^ cor trigueira y olhos grandes , nanx 
aquilino , boca groua j cabello preto : foi dotado 
defumma piedade, efta o obrigou a fuftentar o re- 
£liíIimo Tribunal do Santo Oíficio contra os que 
pertendêrâo em Roma íe alterafle o feu modo de 
proceder , e fenteocear : degradou todos os com* 
prehendidos em crime de herefia , mandou Mi/Zio- 
narios a pregar a Fé entre bárbaros , foccorreo o 
Papa Innocencio XL com grandes fommas de di* 
nheiro para a guerra contra o Grão Turco Maho- 
met IV. , que íitiou Vienna de Auftria , fubjugoa 
com vitorias o Rei negro do Congo , mandou po- 
voar as Minas geraes | que fe defcubrírão no fea 
tempo y inftituio a Junta do Tabaco , extinguia 
toda a moeda falíificada , ou diminuída ^ lavrando 
^ cufta da fazenda Real outra augmentada : tlcati» 
çou da Sé Apoftolica paíTalfe a fer Metropolitano 
o Bifpado da Bahia , e fe creaflem de novo os do 
Rio de Janeiro 9 Maranhão^ Pekim, eNankim na 
China : por nomeação íua creou o Papa Clemen^ 
te X. Cardeal aCefar deEílrees^ Bifpo Duque de 
Laon em 1672^ Innocencio XL aD« Veriffimo de 



(4n) 

Laocaftre, Inqnifidor Geral em i626y e Innoceficid 
XII. a D. Luiz de Sottfa ) Aroebifpo de Lisboa em 
1697: mandou para a Convento dejerufalem hoiri 
preciofo ornamento bordado de ouro ^ huma no* 
tavel bacia de prata para o lavapés y é duas lâm- 
padas do . mefmo metal primorofamente obradas ; 
e para arderem fempre^ coniignou na Gafa da ín- 
dia fuperabundante renda. Fez Duque doGadavai 
a D. Luiz Âmbrofio de Mello ^ e a feu irmão D. 
Jaime de Mello , Marquez das Minas ao Gonde 
do Prado D. Francifco de Soufa y Marauez de 
Fronteira ao Gonde da Torre D. JoSo Mafcare* 
nhãs , Marquez também ao Gonde de S. João y 
Marquez de Alegrete ao Gonde de Villar maior 
Manoel Telles da Silva , Gonde de Goculim a D. 
Francifco Mafcarenhas, Gonde de Vianna aD.Jo* 
fé de Menezes, Gonde do Redondo a D. Manoel 
Goutinho y Gonde das Galveas a Diniz de Mello 
de Gaftro y Gonde do Lavradio a Luiz de Men* 
donça, Gonde deAflumar a D. João de .Almeida^ 
Gonde de Valladares a D. Miguel Luiz de Mener 
zes , Gonde do Rio grande a Lopo Furtado de 
.Mendonça, Gonde de Taroca a João Gomes da 
Silva, Gonde de Alvor a D. Francifco, e Vifcon- 
de de Fonte Arcada a Pedro Jaquez Magalhães. 
Do primeira matrimonio tevit fó^&^inceza D* Ifa- 
bel , do fegundo lete filhos : o Principe D. João, 
que nafceo em Lisboa, e íó viveo dezoito dias; x> 
Principe D. João , que reinou , e fuccedco a íea 
Augufto Pai; o Infante D. Francifco y^que nafceo 
em Lisboa a zf; de Maio de 1691 , é morreo. na 
quinta de Gomes Freire junto ás Galdas em ai dê 



''^^Êmmim 



(418) 

Jcdíi9'de 1742 ; o Infante O: Áatairio ^ qve mSxo 
em Lfsbok ai ijr;de Março de í6^^; a Inãtata D. 
Ttrefa ^ que nafceo em Lisboa a 24 de Ferereiro 
de 1696 I e morreo a 16 de Fevereiro de 1704 * 
o Infante D. Manoel , que nafceo em Lisboa a 3 
de Agoflo de 161^7 ^ a Infanta D: Fraocífca j qnc 
nafceo em Lisboa a 30 de Janeiro de 16999 ^^^^ 
reo a i ^ de Julho de 1736, Teve mais trez £lhos 
illegitímos y que deixou reconhecidos : a Senhora 
D. Luiza y que nafceo em Lisboa á 9 de ]aneiro 
ite 1^79, càíou duasl vezos-^ primeira' com D, Lm 
AmbroMO de-Mello^ Duque do Cadáv<il, e morren- 
do eftc fem filho» '^ irafou com ftu cunhado o Du- 
que D. Jaime 9 de quem n£o teve fucceísáo 9 e fa- 
leceo a Jt3 de Dezembro de 1732 ; o Senhor D. 
Miguel 9 que haíceo em Lisboa a 1$* de Outubro 
de 1699 9 caiou com D. 'Maria Cafimira de Naf^ 
fab 9 herdeira da Caía de Arronches , e morreo laf- 
timofamente afibgado. no Tejo em 13 de Janeiro 
de 1724 ; .0 Senhor D. Jofé 9 que nafceo em Lif- 
boa a 6 de Maio de ^703 , foi nomeado Arcebif-- 
po Primar de Braga em 1 1 de Ferereiro de 17399 
fagrado na Bafilica Patriarcal a ^ «de Fevereiro de 
1741 pelo Cardeal Patriarca, tomou poffe da fiia 
Igreja em 23 de J^lho do meTmo ^nno. No feliz 
ninado do SenhoriCX Pedro gòvernáráo a Igreja 
de Deo6 Alexandre VIL, ClemcntòílX; 9 Clemen- 
te X. 9 Innocencio XI. 9 Atexandrei.VIIL 9 Inno- 
cencio XIL 9 è Clemente XI. No Imptrio deAIe- 
roaoha reinarão Leopoldo L:yJafé.L9 e Carlos 
VL>: conquiílir^o os Turcoá a Cidade de: Candim 
Capital da Ilha dcfte nomefujeilta aos Venezianos ^ 

cu- 



( 4^9 > 

cujo fitio durou vinte e finco mezes : no mefino an- 
no canonizou Clemente IX, a S. Pedro de Alcân- 
tara j e a Santa Maria M agdalena dè Pazzi. No 
anno de 1670 fe celebrou emBruíTellas^ Cidade da 
Provinda deBrabante, humjubileo detrez mil ao* 
nos em memoria do milagre fuccedido na Frcgue«> 
zia de Santa Catharina no anno de 1370, em que 
huns Judeos roubando humas hoftias confagradas y 
e dando-lhe punhaladas , fahio delias fangue-, pe^ 
lo que os fez queimar vivos o Duque de Braban^ 
te : confervão-fe ainda as hoftias com os finaes do 
fangue y e todos os annos fe moftrâo ao povo com 
procifsáo folemne. Morreo em Roma no anno de 
1677 o Padre Ottomano, bem conhecido por efte 
nome 9 e pelas fuás muius letras, e grandes virtu*- 
des ^ era filho , ou irmão do Imperador de Con& 
tantinopla Ibraim y e fisndo- cativo no mar pelos 
Maltezes , pedio o baptifmo , e habito de S. Do^ 
mingos, em cuja efclarecida Ordem viveo, e mor- 
reo com fama de jufto. No mefmo anno cercou 
Vienna de Âufiria o Grão Vifir Muftaíà por ordem 
de feu fogro Mahomet IV. com trezentos mil Tur- 
cos , e em 12 de Setembro foi vencido , e dcrro* 
tado pelo Rei de Polónia , Duque de Lorena , Elei- 
tor de Brandemburg , e de Baviera, perdendo os 
Turcos o eftandarte do Império , toda a Artilha- 
ria , e bagagem , e o Grão Vifir a cabeça , e vida 
por ordem de feu fogro , a quem tinha aconfelha«* 
do efta empreza. No anno feguinte . morreo am 
Londres Carlos IL, cafado com a Senhora D.Ca- 
thariha , filha do Rei D. João IV. , e íegUndo a 
fama conftante reconciliado com a Igre^ Romana t 

fttC* 



(430 ) 

focccdco-lhcna Coroa feii írmâo o Duque de Yorch , 
chamado Jacobò IL , a quem difputou o Reino o 
Duque de Montmout j filho illegitimo de Carlos 
IL ; mas prezo , e degoiiado por fentença do Par- 
lamento, focegou o Reino até 17 de Novembro^ 
em que entrou o Príncipe de Orange em Londres 
com a mais poderofa Armada , e tirou a Jocoba 
IL a Coroa. No anno de 169 1 a 19 de Agofto 
venceo o Principe de Badem , General de L€opol^ 
do L , a celebre batalha de Salankemcnt y na qual 
além de innumeraveis mortos, e prizioneiros ficou 
toda a bagagem , cento e íincoenta e oito peças ^ 
quinze morteiros, e os mais preciofos armamentos 
dos Turcos, fabricados com nova invenção para e/^ 
ta campanha. No anno de 1704 £tiárão os Ingle- 
ses , e Hollandezes a Praça de Gibaltar por terra 
com numerofas tropas , á por mar com oitenta, 
náos , e a entrarão a 4 de Agofto : Filíppe V. a íi* 
tiou no mefmo anno ', mas logo o obrigarão a le* 
vantar o íitio fem efpeito ; o mais ouvireis a feu 
tempo , a quem pertenéer , i]ue já nos convida o 
gofto de ouvir as gloriofas acções do Sereniífimo 
Rei D.João o Grande. Nafceo elle 322 de Outu- 
bro de 1689, foi baptizado a 19 deNovembro pe- 
io Arcebiípo D. Luiz de Soufa , foi jurado Prin* 
cfpe noprimeiro deDezembro de 1697, dia o mais 
fanfto para efte Reino por fer o da acclamação de 
feu avô o Senhor D, João IV. No primeiro de 
Janeiro de 1707 foi acclamadó Rei , fcrvindo neA 
ta acção de Condeftavel feu irmão o Infante D. 
Franciíco : fegurou logo aos Embaixadores de In* 
glaterra , e Hòllanda , que continuaria na mefma 

aU- 



( 430 

aliança, que feu pai tinha feito com o Imperador ^ 
e mais Potencias , em tefteniunho do que mandou 
continuar vigoroíamente a guerra. O Marquez das 
Minas , que governara o exercito Aliado em Ca- 
talunha , expugnou o Caftello de Vilhena , quiz 
atacar os inimigos em Ecla , e Monte alegre ; mas 
evjtando-lhe efta acção o Duque de Berwích , fe- 
guío o Marquez o caminho de Âlmança y onde a* 
campou j e depois em Caudete , onde fe aviftáráo 
os exércitos <! e depois de bem difputada a batalha , 
deixou ao Duque com grande perda do feu exer- 
cito a vitoria : éfta infelicidade foi caufa de que 
na Beira , theatro deftínado para a campanha defte 
anno , fe malograíTe a interpreza , e a idéa do Du- 
que do Cadaval , que governava o exercito ^ e fe 
havia incorporar com o Aliado ; porque chegando* 
lhe a noticia do ínfaufto fncceflb de %^ de Abril ^ 
aíTentárâo que acudiíTem as tropas ás íms Provia- 
cias, de que fefeguio perdermos Alcântara; o que 
vendo o Duque de OíTuna entrou na Província de 
Alentejo, ganhou Serpa, que tinha pouca defeza, 
e Moura com brecha aberta , depois de fer valero- 
famente defendida porFranciíco de Mello, Senhor 
de Ficalho : o Marquez de Fronteira , que já go- 
vernava em Alentejo o exercito por aufencia do 
Vifconde , fez retirar o Marquez de Bay do blo- 
queio de Olivença; mas adoecendo, fe retirou para 
a Corte, e o Conde de S.João, que Ihefuccedco, 
não pode reftaurar Moura , por eftar bem guarne- 
cida, e vir o Marquez de Bay foccorrelía. A9 dô 
Julho de 1708 cafou o Rei com a Senhora D. Ma- 
ria Anna de Auilria , filha do Imperador Leopol- 
do 



C 43» ) 

da I. : cclebroiwfe efte afto em Cloíftre Neobnrg ; 
e ^m 17 de Outubro do cnefmo. anão entroii a Rai- 
nha em Lisboa-, .conduzida pelo Conde de Villar- 
maior em huma luzida Armada Ingleza, governa- 
da pelo General Jorge Bings, a quem a Rainha de 
Inglaterra tinha recommendado efte cortejo. Nefte 
mòlmo annoichegou de:Catalunha o Marquez das 
Miuas^e Milord Galoway General das tropas In- 
glezàs j e Embaixador extraordinário. Intentarão 
as Cortes de França , e Inglaterra feparar o Rei 
da grande Aliança com condições ventajofas j (\\it 
defprezou o feu incomparável èípirito com tanto 
ardor, que fez angmentar o numero das tropas, e 
asreduzio a melhor difciplina, extinguindo os Ter* 
ços , formando Regimentos , e augmentando in- 
comparavelmente o numero dos poftos , e gaftos^ 
Acabou a campanha deite annó com a valero/â ao-^ 
ção do Marquez de Fronteira , que á vi&a do Mar- 
quez de Bay demolio Valença de Alcântara , de 
que fe feguio deixarem os inimigos Moura , e Ser* 
pa , e outros lugares , que haviâo occupado na 
rrovincia de Alentejo , onde no anno feguiote de 
1709 fahio de Eivas o noflb exercito governado 
pelo Marquez de Fronteira , compofto de trinta e 
finco batalhões , e treze Regimentos de cavallaria , 
e iabendo que o inimigo com toda a cavallaria oc- 
çupaya as fearas de Campo maior , paíTou o exer- 
cito o Caia , e quando fazia retirar os inimigos ^ 
que íó buícava , le vio empenhado em huma bata- 
lha. . 



LI S B o A , Na OfHdna de Miguel Manefcal da Coda , Impreíloc dqt 
Saiuo Offido. Anuo 1754.. C^m tydas ^sliccifféis ni$^mi^* 



( 433 ) 

» " » 

CONFERENCIA XXXVII. 

NEfta batalha ( continuou o Soldado ) pa«» 
deceo todo o lado efquerdo do noflo Cor- 
po y fendo rotos na primeira linha os In- 
glezes com o fen General Galowai , e na 
fegunda muitos Regimentos j fem que pudeíTe evi- 
tar efta ruina o valor do Marquez , e do Meftre 
de Campo General Pedro Mafcarenhas , que fe lhe 
poz na frente y acompanhado do Conde de Alvor : 
o mefmo padeceo a cavalleria da fegunda linha ^ 
fem a poder voltar o esforço do Conde da Ericei- 
ra ; e o mefmo (uccedeo á do lado direito , que 
governava o Conde de S. João j que ficou prizio- 
neiro ^ e o Regimento de Dragões de Traz dos 
Montes desbaratado : a Infanteria do lado direita 
he que feconfervon impenetrável com grande per- 
da do inimigo , fuftentada pelos Generaes D. João 
Diogo deÂtaide, e D. João Manoel de Noronha ^ 
que íem perderem a forma íe retirarão com elU 
para Campo maior : tivemos oitocentos homens 
morros y e feridos y ficirâo dous Regimentos In- 
glezes prizioneiros y fendo igual a perda dos ini- 
iritgos* Continuava Carlos IIL com profpefo íuc* 
ceuo a campanha em Catalunha y de forte que no 
anno de 1 710 a 27 de Julho atacou o exercito ini« 
migo junto ao rio Nogueira, que fervio de memo« 
ravel fepulcura aos que efcapárâo dos fios das ef- 
padas Portuguezas , deixando a Carlos a vitoria 
com toda a bagagem « e artilhería. Succedeo lo« 
Tom. VIL Oo go 



f< 



( «4 ) 

O o choque de Cundafnos junto a Aragão , a que 
e tègjãiq i bafai Ka de Ç^r^g^Ç^^ úijc gifthimo^ a 
ao de Àgofto com^Toria immòrtal dos cfous Ge- 
neraes Conde de Aífumar , e Conde de Atalaia , e 
do Marechal Guido Baldo , Conde de Eflarait^berj; y 
que mandava as tropas Aliadas, eque ajndado fín- 
oularmente dás noflTâs venceo a batalha de Villa- 
Yiçofa a IO de Dezembro. Na Província de Traz 
dos Montes tivemos a infelicidade de occiípareoi 
6s inimigos a Praça de Miranda , fem mais difpen* 
dio, que o vil preço , porque avendeb aosHe(ipa- 
Ahoes hum Portugnez rico , que entre elles acabou , 
pedindo cfmola com fummo defprezo , pequeno 
caftigo para deli£lo tão infame, e execrando. Da* 

âui Te feguio penetrarem os mimigos até á Torre 
e Moncorvo, tirando groíTas contribuições, que 
fe não puderão evitar , porque eftavâo no Alentejo 
as tropas , que lhe havião de rcfiftir. Neíla Provín- 
cia lahio o Marquez de Fronteira a 30 de Setem*^ 
bro em campanha, rendeo Xeres , demolio a fop- 
tificação, e encravou a artilheria. No mefmo tem- 
po em Traz dos Montes Pedro Mafcarenhas to- 
mou Carvajales no Reino de Leão, Alcaniças , Sa» 
nabria Praça importante , e poz em contribuição 
aquelles povos. Os inimigos , que poflTuião Mir|n«* 
da , quizerão defaggravar-fç , pedindo huma grande 
contribuição aos noiTos povos, que lhe impedio o 
General de batalha Francifco Xavier. Intentarão 
depois reftaurar por interpreza Carvajales , que de- 
fcndeo valerolamente o feu Governador Manoel de 
Almeida de Caftellobranco , ficando na empreza 
mortos quatrocentos Hefpanhoes^ que mandava o 

Mar- 



t 435^ ) 

Marquez de Quiús : fegnío-fe a reftauraçáo de Mi*» 
randa , que a 30 de Março entregou ao Conde da 
Atalaia o feu Governador D. António de Almeida 
Sandoval) ficando prizioneiro commil e trinta Tol- 
dados , que tinha de guarnição. Na feguinte Pri- 
mavera o Conde de Villaverdc , General do exercií- 
to na Província de Alentejo, ganhou Almcndral ^ 
Nogales , e Safra , fero mais perda que eftragarera 
os inimigos entre tanto as fearas de Borba. Nefte 
mefmo anno o Rio de Janeiro , que tinha reíiftido 
no antecedente á primeira invasão dos Franceses 
em 6 de Agofto y foi íáqueado por elles a 13 de 
Setembro : retirarão os moradores para o Ccrtâo 
o que permíttio o tempo, e comprarão depois a 
fahida do inimigo. Morto o Imperador Joíé 9 foi 
eleito Carlos III. feu irmão, que íe achava em Bar^ 
celona , donde paflbu a Alemanha a fer Carlos VL 
nó throno Imperial^ coroado em 21 de Dezembro 
em Francfbrt : começarão logo as efperanças da 
paz , e foi nomeada a Cidade de Utrech para o 
congrefib, onde brevemente fe acharão os Embais 
xadores de todas as Potencias belligerantes ; mas 
entretanto o Marquez de Bay íahio em campanha 
no Alentejo , intentou ganhar Barbacena , e Ar* 
r«pche« fena eflFeitb 9 e perdendo muita gente nat 
duas expedições, emuito mais na retirada para os 
quartéis, em que o fegnío , e perfcguiovigor^a* 
mente Pedro Mafcarenhas, General donoflb exer- 
cito , e Província. Houve logo fufpensâo de ar» 
snas entre Hefpanha ,* França , e Inglaterra j qtiè 
«andou reíurmat* asÁias trtfpas'^ e ficámos nós fuí^^ 
iemattdo ÍÒ a guerra ,com a$ nacionaes.. A 2q^dé 

Oo ii Sc- 



( 43^ ) 

Setembro íahio em campanha o Marquez de Bay 
com onumerofo exercito de oito mil cavallos, dez 
mil infantes, trez mil gaftadores, vinte e deus ca- 
nhões , dezoito peças de campanha , onze mortei- 
ros , cem carros de faxina , e todos os tnftru men- 
tos de expugnaçâo : juigou-fe que (e dirigia con* 
tra Elvas efte grande apparato militar, que a 28 de 
Setembro começou a marchar para Campo maior , 
que governava Eftevâo da Gama acompanhado de 
valeroíos Oíficiaes , mas fó com quatro Regimen- 
tos j e deíbes fó novecentos e quarenta e iete ioU 
dados capazes de peleijar , trezentos paizanos , 
poucos artilheiros, e quarenta cavallos. Em dia de 
S. Francifco começou o inimigo os ataques , e nef- 
fe pelas dez horas da noite entrou de foccorro na 
Praça com valor íiogular , e fortuna o Conde da 
RibNsira com trezentos granadeiros , a pezar de 
quaíi toda a cavalieria inimiga: com oitocentos ti- 
ros cada dia baterão a brecha , de forte c\ue em 
▼inte dias eftava capaz de fer enveftida : entretan- 
to qniz o Conde da Ribeira encravar a artilheria , 
e mandou a eíTa temerária , ou mais que valorofa 
expedição o Tenente Coronel André Ferreira com 

Íiuatro Companhias de granadeiros , os quaes ^ 
el)em não obráráo o que fe defejára , tiverá%.a 
gloria de degoUarem nos ataques trezentos inimi- 
gos , e ferirem outros tantos , fem perderem mais 
que hum Alferes , e finco granadeiros , como ou- 
vi a muitos , que feachárâo nefta honrada eaipreza. 
Pedro Mafcarenhas^ a quem dava o maior cuidado 
cfte fitio, conftando^Uie que o baluarte de S. João 
batido com riata c- quatro peças de huma parte % 

ediías 



(437) 

e doas da outra permittia o aflalto y ordenou ao 
Brigadeiro João MaíTé y que fizeíTe cortar grande 
^quantidade de lenha , e bem alcatroada , e acceza 
fe lançaíTe na brecha : fez marchar para foccorro 
da Praça trez Companhias de granadeiros , c qui- 
nhentos infantes ás ordens do Conde da Ericeira 
D. Luiz de Menezes , e do General de batalha 
Paulo Caetano , ao que tudo fe juntarão feifcentos 
homens dos quartéis de Villa-Viçofa : e para co- 
nhecer em EWas, donde fahio o foccorro, que en- 
tra vão na Praça com bom fucceflb j derSo final 
com foguetes na pafiTagem do Caia, para faber Pe- 
dro Mafcarenhas que tinhâo paíTado livres as pri- 
meiras íentinellas, as quaes julgarão que erão tro- 
pas fuás : o mefmo.fizerâo na entrada da Praça , 
que confeguírâo com a efpada na mão , rompendo 
as tropas, que lhes difputárâo ospaflTos; acção tão 
rara , que tem raros exemplos na hiftoria. ÂíTaltá- 
râo finalmente os inimigos a brecha , e não poden- 
do foffrer o incêndio , e valor , com que lhes refif- 
tião os da Praça , fe retirarão : fegunda , e tercei- 
ra vez intentarão o mefmo obrigados do pejo , e 
animados com vozes , e promefiTas do Marquez de 
Bay ; porém defenganados de que fó conieguião o 
pgrder temerariamente as vidas, deixarão a empre* 
za , e levantarão o fitio , ficando no campo , bre« 
cha , e ataques dous mil e duzentos homens mortos ^ 
numero , a que excederão os feridos , não perdendo 
mais que fetenta os noflbs. No mefmo tempo que 
íe feftejava em Lisboa efta fortuna das noílas ar- 
mas , entrou no feu porto felizmente a pezar das 
elquadras inimigas a firota do Brazil com íincoenta 
Tom. VIL Oo iii mi« 



(438) 

milhões : a 6 de Fevereiro aíHnárâo os nolTos Ple- 
nipotenciários Conde de Tarouca , e D. Luiz da 
Cunha o tratado da paz , que foi publicada êm 
Lisboa a 6 de Abril dd mefmo anno de 171^. Pa- 
ra fer total , e confiante a paz neíle Reino , pro» 
hibio logo o noflb Monarca as armas de fogo , ada- 
gas 9 e facas , degradou os Siganos y eftabeieceo os 
commercios y e premiou a todos os que tinhâo /èr- 
vido na guerra com valor, e gloria daNaçáo. Pre- 
miou Deos logo efta juftiça diftributiva ^ defentra^ 
nhando-íe no feu tempo o Brazil em ouro y e pe- 
dras preciofas, taes, e tantas ^ como nunca ãs vi» 
rão os Reis, e naturaes dolndoftâo, primeira pá- 
tria defta incógnita matéria, e geração. Se acaba-- 
râo as fuás vitorias na Europa., foi para as confe- 
guir maiores na Aíia , onde o General do mar ro- 
xo D. Lopo de Almeida, depois de ycncidos em 
batalhas navaes os Reis do Canará , e Sanda , em 
17 17 reduzío a cinzas a Cidade de Porpatane , e 
deftruio de forte a Armada dos Arábios , que fò 
ficarão poucos, que fervirão de triunfo ao valero- 
fiílimo António de Figueiredo Utra em 1719* Se- 
guiofe defia fortuna huma fó difgraça , que foi 
intorpeíTerem com o ócio os militares na índia , 
porque o Arábio ficou rencido para fempre , aca- 
bou-fe a Armada do mar roxo , que fahia todos os 
annos a peleijar com aquelle poderofo , e valente 
inimigo , acabon-fe a Feitoria do Congo , defca- 
hio a riqueza, e abundância da Índia, porque cei- 
fou totalmente ocommercio daPerfia; e como na- 
quelle ardente , e deliciofo clima fó vive quem 
uabalba | morréráo em poucos anooa tantos Cai» 



( 439 ) 

bos j e foi ciados Talerofos , qoâ quando o 
Rei João de Saldanha da Gama intentou caftigar 
o SardeíTai de Cuddale , já em Goa , como eu fui 
teftemunha , fe promettiâo mais Novenas , do que 
fe limpavão armas ; mas como a fortuna do noíTo 
invjfto Monarca 9 e o feu agigantado efpirito pa- 
rece animava aos feus vaflallos em todo o mundo ^ 
conquiftámos Bicbolim , que fendo importantiffi- 
ma 9 como depois conheceo Portugal , fe largou : 
queimámos Peligâo, Maim ^ e outras povoações y 
e ceATárâo as vitorias , porque concedemos ao Sar» 
deífai a paz. Annos depois hum temerário defcui- 
do do General do Norte o perdeo todo , fem baf* 
tarem para atemorizar o Maratá a noticia das fa« 
canhas do Conde de Sandomil 9 a prefença do in^ 
comparável António Cardim Froes , e os fubíidios ^ 
que o Rei mandou de Portugal , eípecíalmente o 
que acompanhou ao Conde da Ericeira , que foi 
fucceder no governo com igual, ou menos fortu* 
na, porque acabou a vida, quando a índia com a 
fua amabiliflima prefença efperava ver-fe reftaurada. 
Ficou para o Conde deAíFumar eíFa gloria, que fe 
não reftaurou o Norte , que fó fe lhe fazia mais 
dijfficultofo por diftante , conquiftou Alorna, fem» 
pre avaliada por inexpugnável , Bicholim igUaU 
mente proveitofa pela fua Alfandega , em fim toda$ 
as Praças, que faziâo ao SardeíTai rico, e por iíTa 
atrevido , e poderofo , e fizerâo defde então rica 
a Coroa naquelle Eftado, que nunca feria diminui^ 
àoy íe foíTe junto; nunca lhe ufurparião as nações 
da Europa , e Aíia tantos , e tão grandes domi. 
BH>8^ fenâo foflem aeceflarias Armacks ^ e munçóes 

de 



( 440 ) 

de tempos para foccorrellos j quando forão ataca- 
dos. Na Africa triunfou o noíTo Rei ao meímo 
tempo y porque o General D. Joáo Manoel de No- 
ronha venceo y e domou , até pedir a paz , o re- 
belde Principe negro deCaconda, vizinho deBen- 
galla : o Tenente Coronel Rafael Alvares da Sil- 
va venceo em trez batalhas ao Imperador Mono- 
motapa, ouChangamira, vizinho de Sena: o Te- 
nente Coronel Anfelmo de Moraes teve a mefma 
fortuna, e além diíTo venceo, e matou ao celebra- 
do Apoftata facrilego , que nem merece fer noroeti- 
do j terror de todas noíTas Conquiftas no conti- 
nente do Monomotapa , e profanador das Igrejas 
de toda aquella Mifsâo, cujas alfaias fagradas fer- 
vírâo de librés aos negros , que o carretarão para 
a ultima batalha, em que foi vencido, e morto a 
punhaladas por Aníelmo de Moraes. Na Amer/ca 
triunfou o noíTo Rei na Colónia do Sacramento y 
onde António Pedro de Vafconcellos , e JoCé da 
Silva Paes alcançarão muitas vitorias , e taes , que 
baftárão para nos rogarem depois com a troca de 
muito mais extenfas , e defejadas terras. E para 
que a Europa não julgaíTe que a falta de guerra 
diminuia o brio dos vaÓTallos , que gozavão a fua 
prefença , duas vezes triunfou do Grão Turco y 
inftado pelo Papa Clemente XI. , que vendo já con- 
quiílada Morea aos Venezianos , e ameaçada allha 
de Corfú pelos mefmos Agarenos , íe valeo do 
hoíTo fempre invi£lo , e Augufto D. Joáo o Gran- 
de , por hum Breve expedido a 1 8 de Janeiro de 
1715' , em que lhe pedia acudiíTe a efte perigo da 
Chriftandade y o que elle fez com huma Armada f 

que 



( 441 ) 
que fahio de Lisboa em j de Julho do mefmo aiv^ 
no, c fe recolheo em 2$ de Novembro com a gloi- 
ria, de que tendo o Turco noticia dcfte foccorro, 
levantara ofitio daquella Ilha, que defendia o Ma- 
rechal de Scoulembourg. No anno de 171 7 foi fe- 
gunda vez amefma Armada, governada pelo meí» 
mo General o Conde do Rio Grande, o qual avif- 
tando a Armada Ottomana , que fe compunha de 
vinte e duas Sultanas , vinte e féis navios de Ale- 
xandria , e Barberia , fe poz em linha , e fem fahk 
delia tolerou dez horas o fogo de toda a efqua- 
dra inimiga , fazendo tal efirago em toda ella , que 
nos deixou , depois de rota a lua linha, com a per» 
da de muitas Sultanas, e náos, amais memorável 
vitoria naval defte feculo, aíEftindo ao longe doas 
navios de Malta , e huma fragata Veneziana , que 
fó forâo teftemunhar o valor , e zelo , com que o 
noflb Monarca era obfequio da Sé Apofiolica , e 
bem da Chriftandade defendia os Eftados da íiia 
Republica. No anno de 1716, á inftancia do Au» 
gufto Rei D. João o Grande , eregio Baíilica Pa* 
triarcal a Capella do Paço o Papa Clemente XI. , 
€ foi feu primeiro Patriarca D. Thomaz de Almei* 
iia j que antes fora Bifpo de Lamego , e do Poiw 
to , Chanceller daquella Relação , e Governador 
das Armas, dignidades, a que precederão outraa 
muitas. Extinguio a antiga Collegiada , e em feu 
lugar entrou a celebrar os Officios Divinos hum 
novo Cabido , compofto da Nobreza do Reina , 
e á imitação do de Braga , e outros muitos da 
Europa : concedeo o Papa a todos vcâes PrelatH 
cias 11 e ufo de Pontifical com o tratamento de Sfh 

iiho«* 



( 44^ ) 

«hom Illuftriílima , que então fò tinliSo os Bifpos : e 
para melhor harmonia no governo, por Decreto de 
1^ de Janeiro de 17 17, dividio o Rei a Cidade de 
Lisboa em duas, feparando o governo efpiritual) 
c temporal de ambas. Por Bulia de Clemente XII. , 
expedida a oito de Fevereiro de 1738 , fc unirão 
ás rendas defta Santa Bafilica certas partes dos Bií* 
pados, e mais Benefícios grandes do Reino, com 
faculdade para fe inftituirem novas prebeodas com 
diverfos titulos : e em virtude defta concefsão o 
Patriarca já então Cardeal , crcado a 20 de De* 
membro do anno antecedente , com confentimento 
do Rei nomeou Principaes , os que antes íe cha- 
mavâo Cónegos , e creou de novo fetenta e dous 
Prelados com differença de ordens entre Presbytc- 
ros, Prothonotarios , Subdiaconos, e Âcolythos^ 
vinte Canonicatos , trinta e dous Beneficiador , e 
trinta e dous Clérigos Beneficiados , todos do Pa- 
droado Real , a que fe juntou hum grande nume* 
ro dos melhores Muficos nacionaes , além dos já 
antigos Italianos , e com grande renda todos* O 
tneímo Papa cedeo ao Rei em 8 de Março de 1737 
para fempre a Sé Oriental , dando-lhe o Padroa* 
do , e nella eregio aquelle Augufto Monarca a Ba- 
filica de Santa Maria com novas Dignidades , e 
Capellanias, compondo hum fò Cabido com aPa^ 
triarcal, para o que unio as duas Cidades por hum 
Alvará de 3 1 de Agofto do mefmo anno , e extín- 
^uio o fegundo Senado, que no tempo da fepart- 
ção houve na Caía de Santo António. Em quanto 
iè occupava neftas gloriofas fadigas , e na conti- 
nua de enriquecer a Bafilica Patriarcal com o mais 

prc* 



( 443 ) 
preciofo thefouro devafos, e alfaias fagradas, què 
fe vio na Europa, edificou a Baíilica deNoíTa Ser 
«hora, e Santo António junto a Mafra, Conven- 
to de Religioíos da Provinda da Arrábida , cerca* 
do de dons Palácios Régios , e iromediata á cerca 
ha huma excellentiíEma tapada , obra , que depois 
de competir com as melhores , de que ha noticia , 
tem devido as primeiras attençôes á fama. E por- 
que o feu incaníavel efpirito nem dividido em mui* 
tos empregos era menos vigorofo , quando o cui- 
dado deftas grandes obras o podiâo divertir de 
outras , então fe occupou na erecção da Acade» 
mia Real dasSciencias ; na fundação do Convento 
do Louríçal de Religiofas da primeira Regra de 
Santa Clara, comLaufperenne; na reedificação da 
Praça deCampo maior, aquém deftruio hum raio; 
e na do Convento das Commendadeiras de_ Avis , 
a quem abrazou hum incêndio ; na fabrica da Ca» 
pclla de S. João Baptifta em S. Roque , de pedra 
lapislafuli a maior parte , e com trez painéis de 
obra Mofaica ; na de S. Benedifto em Xabregas , 
a quem feu Augufto pai a havia promettido ; na 
fabrica da Igreja , Convento , Palácio , e Claítes 
para eftudos de NoíTa Senhora das Ncceífidades ; 
em fim o novo Hofpital , e banhos nas Caldas^da 
Rainha; a fabrica da feda na Cotovia; e os Trens 
de Eftremoz, e U^boa. Nada difto lhe imredía o 
eftudo da Mathematica , para o que mandou bnf- 

r^fl^n^ ^í!r ^'^/"^ ' ^"ft^^^^ inftrnmento., 
affiftmdo á obfervação dos eclipfes , e pftm. O 

IST/r."? ' ^*"^^ ''^ e difpendio lhe devêríò 

ípda6 aslçieoaaa, e artes, em que foi perito, ma„^ 

dan- 



( 444 ) 

dando vir de Inglaterra, e França todas as maqui- 
nas neceíTarias para a explicação daFiloíofia expe- 
rimental chamada moderna j fendo a mais antiga ^ 
e para a Cirurgia. Fundou a Cadeira de Contro- 
verfias na Univeríidade de Coimbra , cujo primei» 
ro Lente foi o Doutor Fr. Nicoláo Valefio , Ere- 
mita de Santo Ágoítinho : e quiz mandar fora do 
Reino os melhores Anathomicos j para nas ob/cr- 
vaçóes de Mompelher , e outras Cidades | em que 
mais fe applicâo os Cirurgiões, fe fazerem os nof- 
fos iníignes , c memoráveis ; e fe não teve effeito 
efte feu defejo , foi porque elles lhe fouberâo per- 
fuadir que labiâo tudo. Âccrefcentou a Capella 
de feus avós os Sereniílimos Duques de Bragstnça 
no edificio , aflfeio , riquiílimo thefouro de vafos 
fagrados , e alfaias precioíií&mas , grande numero 
de Capelláes, eMuíicos com groíTas rendas, tor- 
re com muitos íinos , que fonoramente im/táo no 
toque á Baíilica Lateraneníe : e ultimamente no- 
meando Bilpo Capellâo mór delia , e Deão o Se- 
nhor D. João da Silva , que fora antes Cónego j 
e Vigário Geral de Braga. O mefmo cuidado lhe 
deveo a Igreja de Santo Agoftinho de Villa-Viço- 
ía dos Eremitas do mefmo Santo , fundação tão 
antiga , que já no tempo do Santo Condeftavel 
Nuno Alvares Pereira foi reftaurada i fua cufta , e 
defde então do Padroado , e Cafa de Bragança y 
cujos Duques forão Priores daquelle feliz Conven- 
to , Padroeiros de toda a Ordem Auguftiniaoa , e 
nelle jazem fepulcados em primorofos maufoleos. 



LISBOA, NaOffidna de Miguel Maoe (cal daCofta, Impfeffot de» 
Santo Offido. Aono 1764. Cmt^jhêMU^^S^Ji^^jf^J^ 



( 44f ) 

CONFERENCIA XXXVIII. 



PÂra o notável Cruzeiro defta Igreja de San- 
to Agoftinho deVilla-Viçofa, (continuou o 
Soldado ) fundado novamente pelo Senhor 
Rei D. João IV. j e acabado por feu filho 
D. Pedro II. y mandou o liberaliíEmo Rei D.João 
o Grande quatorze buftos de Santos da mefma 
Ordem , feitos em Roma , de prata finiílima j efta- 
tura agigantada , e groflTura mais que de pataca 
antiga Uefpanhola, Cruz , e féis caftiçaes do mef- 
mo metal de onze dinheiros , todas peças as mais 
altas , e groíTas j que ha neíle Reino daquelle gé- 
nero^ e ló proporcionadas para encherem com os 
féis buftos a grande banqueta do Altar niór y que 
fendo para tão grande Capella proporcionado, he 
o maior do Reino : e para acompanharem os oito 
buítos dos dous Altares coUateraes mandou doze 
cajQiiçaes , e duas Cruzes do mefmo metal de onze 
dinheiros,, proporcionados ás banquetas, tudo com 
as Armas Reaes primoroíiífima mente lavrado , e 
conduzido com capas de bombazina em caixas for- 
radas por fora de carneira, e por dentro de pelli- 
ca encarnada, eeftas em outras de madeira pintadt 
como armários , acompanhado tudo de preciofos 
ornameotos , pavilhões de Sacrário , pannos dos púl- 
pitos, e livros do Coro, fem numerar o continuo 
dífpendio em fundir fínos, concertar ruinas detém* 
peáades ^ e outros.. beneficios. , que com fumma ^ 
Real, .e igual liberalidade contiwU feu filho nof-» 
Tom. VIL Pp • fo 



C440 

fo Fideliílimo Augufto Rei D. Jofé I. Por carta 
circular firmada da íua mio em 12 de Novembro de 
1717, mandou o Rei D. Joáo o Grande a todos os 
Prelados das Cathedraes , e Collegiadas celebraf- 
fem com a maior folemnidade , e fagrada pompa a 
ícfta da puriíEma Conceição da Virgem Maria nof* 
ia Senhora , a quem fen Augufto avo fizera Padro- 
eira do Reino. Feftejou á íua enfia com Real ma- 
gnificência as Canonizações de S. Luiz Gonzaga , 
Sanro Eftanislao Koska^ S. João Francifco Re^^ 
S* Toribio Morovejo , S. Peregrino , e S. Vicente 
de Paulo y Fundador dos Clerigo;^ Regulares Miífio- 
narios y dando-lhes ao mefmo tempo licença y íi- 
tio^ e dinheiro para fundarem o Convento deRí- 
Ihafoies y aíEfiindo a todas eftas íunçdes ; e ultima- 
mente a de S. Camillo deLcliis^ que mandou fef- 
tejar com igual liberalidade trez dias na Igreja do 
Hofpical. B porque cfte Reino , e todo o mundo 
era pequena esfera para adequar a fua liberalida- 
de , e beneficência , chegou efta ao Purgatório , 
mandando dizer todos os annos muitos mil croza>* 
dos de MiíTas de doze vinténs de eímola pelas AI« 
mas , e alcançando do Summo Pontifice Benediâo 
XIV. faculdade, para que todos os Sacerdotes do 
feu Reino, edominios pudeflem celebrar trez Mif» 
^ fas no dia de todos os Fieis defuntos pelas Almas 
delles. Enriqueceo com preciofos ornamentos , e 
armação de veludo , boraado de ouro com as fuaa 
Armas y a Igreja do Santo Sepulcro de Jerafalem. 
Fundou novamente a Igreja dos ReUgiolos de S. 
Francifco de Badajoz com tal liberalidade , e mag- 
nificência^ que £esi pafmar Hdfpanba^ e fem outro 



(447) 

motivo 9 que pedir-lhe o Giiardião daqnelle Con« 
vento htima cfmola para as obras delia : beneficio 
que experimentarão outras muitas da mefma Or- 
dem , e nação , que no tempo da íua doença lhe 
mandarão alfaias de imagens milagrofas. Não ca^ 
be nos termos de todo o encarecimento o paternal 
cuidado y que tinha de feus vaíTaltos : além dos 
muitos contos, que defpendia em remediar pobres 
pelas mãos de muitos thefoureiros j e efmoleres 
occultos , aíliftio a todos os enfermos pobres de 
Lisboa no contagio de 1723 com Médicos y Ci» 
rurgiòes , remedips , e dinheiro : o mefmo nfoa 
com os moradores de Campo maior j apenas lhe 
confiou o incêndio de 1732 : e com os do Campo 
de Ourique na laftimofa efterilidade de 17349 foc* 
correndo-os com dinheiro , e alimentos. Com fum* 
mo difpendio juntou no íeu Palácio a mais nume* 
roía livraria de exquifitos Authores antigos, e mo* 
dernos, enobreceo o Palácio de Villa-Viçofa , e o 
da mefma Cafa de Bragança em Lisboa com edifi^ 
cios , e admiráveis pinturas : eftimou eftas , e os 
feus artífices naturaes , e eftranbos , de forte que 
8 todos os infignes fes ditofos, e ricos: íó Ronit 
pôde dizer, o que nclla defpendeo, e os milhões^ 
com que a augmentou. A' fua iiÀancia creou a 
papa Clemente Xf, o Bifpado do Grão Pará , ca* 
ja Catfaedral mandou o Rei edificar á fua cufia , e 
adornou como coftumava , nomeando para feu pri^ 
cneiro Bifpo o Senhor D. Fr. Bartholomeu do Pi- 
lar , Religiofo Carmelita Calçado, Por nomína 
fua forâo creados q«atro Cardeaes nefie Reino : 
Nuno da Cnnba In^uifidor Ge»l ob 16 da Mar* 

Pp ii ço 



( 448 ) 

ço de 17x2 j D. Jofé Pereira de Lacerda Bifpo do 
Algarve em 19 deNovembro de 1719 j ambos por 
Clemente Xf. : D. João da Mota e Silva por Be- 
nedito XIII. a 9 de Dezembro de 1726 , c D. 
Thomaz de Almeida Patriarca de Lisboa ^ e Carw 
deal nacional, dignidade para fempreanncxa á pri- 
meira por Clemente XIL a 20 de Dezembro de 
1737. Era infatigável noeftudo, e obíervancia dos 
fagrados Ritos 9 e a elle íe dcveo o defengano de 
que era grande , e intolerável abiifo nefte Keino 
ter o Santiílimo Sacramento expofto cm Cuftoà\a 
no dia, e noite de quinta feira íanta contra a Ru- 
brica do MiíTal Romano, Ceremonial dos BifpoSf 
e Decretos , dizendo que era privilegio das Hef- 
panhas, coufa inaudita , e que nunca houve , co- 
mo o Rei mandou publicar pelo Padre Fr. João de 
S. Joíé do Prado , primeiro Meftre das Ceremo- 
nias de Mafra , na Semana fanta illuftrada. No an- 
no de 1725' ajuftou o Rei D. João o Grande o ca- 
famento de feu filho o Príncipe D. Jofé com a Se- 
nhora Infanta D. Marianna Vitoria , filha do Rei 
de Hefpanha Filippe V; , e a Senhora D. Maria 
Barbara coro o Prmcipe das Afturias D. Fernan- 
do , fendo Embaixador na Corte de Madrid o Mar- 
quez de Abrantes , e na de Lisboa o Marquez dos 
Balbazes : celebrarão- íe os defpoforios do noflb 
Principe em Madrid , e os do Principe . das Aftu- 
rias na Santa Bafitica Patriarcal. Concordarão os 
Reis no tempo y em que fe havlâo mutuamente en- 
tregar as Princezas , e partio de Madrid toda a 
Corte de Hefpanha em Dezembro de 1728 , o nof- 
lo Augufio Monarca (ahio de Lisboa a 8 de Janei* 

ro 



( 449 ) 

ro de i7t9 com toda a Família Real, e Nobreza, 
o Cardeal da Cunha , e o Patriarca com grande 

5 arte do feu Sacro CoUegio^ e paflados nove dias 
e feliz jornada , entrou em EIvas« No dia da en« 
trega fe yíráo , e cumprimentarão as Mageftades 
em hum magnifico Palácio , fabricado fobre o rio 
Caia , limite das duas Monarquias j e acabou á 
conferencia levando cada Rainha a Princeza , futu« 
ra herdeira da fua Coroa. Em 28 de Fevereiro en- 
trou em Lisboa o Rei com os novos Efpofos ; e 
por cerco nâo vio Roma applauíos, e arcos triUn- 
faes táo ricos nas entradas y e triunfos dos feus Im-- 
peradores vifloriofos y como então admirarão os 
naturaes j e eftranhos. Teve o Rei a coftumada 
providencia de obrigar com muitas mil MiíTas as 
Almas do Purgatório, para que ihe alcançaflem de 
Deos boni tempo em todo o da jornada , e triun- 
fo 9 e com effeito admirarão os noflbs olhos os 
Ceos encubertos , e as nuvens cheias y fem diftila- 
rem buma fó gota em todo o tempo neceflario 
para efta funçáo luzidiíSma. Continuoii efta nova 
aliança entre o noíTo Rei , e o de Hefpanha y até 
que efte começou a perturballa primeiro com a 
uíurpaçâo de Monte Vidio, logo com a dífputa da 
nova Colónia do Sacramento cedida no tratado de 
Utrech, e ultimamente com adefattençâo feita em 
Madrid ao Plenipotenciário defta Coroa Pedro Al- 
vares Cabral , a quem o Prefidente de Caftella 
mandou prender os criados dentro no feu Palácio y 
quebrando aimmunidade maior, e direito das gen- 
tes y e faltando á de;vida fatisfaçâo defte attenta- 
do: oqnefabendaoQofibRei Ao^ftq^ prpcedeo 
^Tom. VIL Pp iii com 



( 45^9 ) 

C9m diferente : moderaçáô^; com o Embaixador do 
Kei CathoHco q Marquez, de Capeceiatra y ãitidm 
que lhe maodoa prender os criados: e paíTacido lo« 
go a Londres por Enviado Marco Ámonio de Aze^ 
vedo, fez que expedi0e o Rei da Cirâo' Bertaiiht ^ 
aniigo:^ efideliffimo Aliado ^ hiuna poderofa Ar« 
nada compofta de vinte eilnco náos de linha, bur«* 
lotes de fogo , e outras embarcações governada 
pelo famofo Almirante Henrique Noris : e oomeA 
IDO tempo reclutadas as tropas y fe viráo em cam« 
panlia quarenta mil foklados noíTos, e outros ttci- 
tos Auxiliares também pagos , fendo General de 
todo efte corpo D. João Manoel de Noronha Con^ 
de da Atalaia, General daCavalleria D. Pedro de 
Almeida Conde de AíTumar , e da Artilhetia D» 
António Telles da Silva y porém Inglaterra , ^ae 
ceíTc tempo era neutral na guerra y que França^ a 
Hefpanha faziáo ao Imperador em Alemanha , e 
Itália, empenbou*íe em evitar efta guerra, confe-% 
guindo com França ,: e os EAados Geraes a £u& 
peasao defte rompimento , e harmonia entre os 
dous^ Monarcas xto noefmo anno de i735'« Adoeceo 
gravemente o Rei ^ fegundo jnlgáráo os Médicos^ 
de parlezia em 8 de Maio de 1742 : vio-fe com:^ 
pafmo das nações eâranhas o exceilb, com que os 
Portugueses leaes arnSoaosíeus Reis, enaturaes 
Senhores , nos extremos de íentinnento , que en- 
tão obrarão em Lisboa f e todo o Reino ^ implo- 
rando a Divina mifericordia , e clemência , para 
que lhe déflfe faude , e dil^afle a vida , que Deos 
IhecoiKedeo oito annos, nosquaes foi ofeu maior 
«mprego wgmeour le.rirtudea^. que fempre tiver 



( 4f X ) 

ra , e i^raticára j dando*1he pór mènós occupádor^ 
máfior exercício , até que a 30 de Julho de 17$^ 
efttrcgou ao Cfeador aqaelle-cfpirito , que tirado 
ao corpo parece qile fó vivia para ibe dar culto j 
e jaz lepultado em S. Vicente deFóra.. DaSerenit- 
fitna Rainha D, Maria Anna de Auftria , íua unict 
Efpòfa y que faleeeo quatro annos depois em B» 
lém a 14 de AgoftO de i7S4 j e jaz cmS. João Np- 
pomuceno 9 teve íeis filhos : a infanta D. Marra 
mrbara y que nafceo a 4 de Dezembro de 171 ' f 
foi Rainha de Hcípútíb^y e lá faleeeo: D: Pedro ^ 
Príncipe doBrazil^ que narfceo a rp de Outubro d« 
2712 y e morreo em 29 de QtKubro de 17x4^ fie^ 
pultado em S. Vicente de Fora: o Serediffimo Se-^ 
nhor Rei D. Jòfé I. noflb Aogufto ^ e feiicífllmo 
Monarca^ que Deos profpere, e guarde para con* 
folaçâo y e amparo de kus leaes vaflallos y o qual 
nafceo a 6 de Junho de 17149 e fdi baptizado a 27 
deAgofto pelo Cardeal daCimha^ Capelláo mor^ 
começou a reinar em 31 de Julho de i7SO^ foi bo* 
clamado em 7 de Setembro do roefmo anno : o io^ 
fante D« Carlos , que nafceo em doiís de Maro de 
2716^ e morreo a 30 de Março die 1736, fepulta^í 
do em S. Vicente de Fora : o Sereniffinfio Infante 
D« Pedro^ que nafceo a 5 de Julho de 17 17 j foi 
baptizado a 29 deAgofto pelo Patriarca de Lisboa' 
D* Thomaz de Almeida > forâo feus Padrinhos or 
Papa Clemente XI ^ e a Infanta D. Maria Barba-» 
ra y fui irmã ; calou com a Sereniflima Princeza dtf 
Brazil) herdeira doReino> em 6 de Junho de 1760^ 
e delia teve o noflb defejado de todas as getiteá 
( como fe VÍ9 na alegria do íen nafeímentx) } o Se«^ 

re* 



•s 



( 45^1 ) 

^niíEmo Príncipe D. Jofé a 21 de Agofto de 17^1 ; 
•o Infante D. Âleiandre , que nafceo a 27 de Se- 
tembro de 1723 , é morreo a 2 de Agofto de 1728 y 
/epultado em S. Vicente de Fora. Pez Duques de 
Alafóes a feu fobrinho D. Pedro Henrique de Bra« 
ganca e Soufa , e a fua mãi ; ao Ck)nde de Villa* 
▼erde Marquez de Angeja ; ao Conde de Santa 
Cruz Marquez de Gouvea ; ao Conde de Vimiofo 
Marquez de Valença , e a feu filho Conde de Ví- 
jnioío j continuando-lhe o tratamento de fobrinho ; 
e com elle fez Marquez de Abrantes ao Marqutx 
de Fontes 9 e a íeu filho Conde de Penaguião fez 
Macquez.de Fontes 9 e depois de Abrantes: a D, 
Luiz de Menezes quinto Conde da Ericeira ((|ue tír 
nha fido Vice-Rei na índia com fumma teliadadé, 
e fora roubado na Ilha de Mafcarenhas pertencente 
a França no Oceano Indico j e contracofta de Afirim 
ca por hum Coflario Francez , que rendeo a náo 
totalmente deftruida de huma tempeilade , ancora* 
da y efem gente) fez Marquez do Louriçal , quan* 
do fegunda vez o mandou Vice^Rei para a índia 
a fucceder ao Conde de Sandomil Pedro Mafcare- 
nhas , e reftaurar o que inculpavelmente fe tinha 
perdido no feu governo ; e a feu filho fez Conde 
da Ericeira, e depois Marquez do Louriçal, hoje 
Governador, e Capitão General do Reino do Al- 
garve, onde he amado de todos , como pai beni- 
gno , e compaillvo com o maior extremo , que fe 
Tio entre Governador , e fubditos : ao Senhor de 
^:ouvea fez Conde do Redondo ; ao de Víraiolo 
londe da mefma Villa ; a D. António dê Almeida 
Conde do Layr.adio.de juro ; a D. João. Diogo de 

Atai- 



( 45^3 ) 

Ataidé Conde de Alya ; a Vafco Fernandes Geíar 
Conde de Sabugoía>, o depois a feu fiího Luiz Ce-? 
far ; a Pedro Malcarenhas Conde de Sandomil j 
quando o mandou para a índia Vice-Rei , fuccef- 
for de Joáo de Saldanha da Gama , que fahio da*^ 
qnèlle Eftado comefpecial licença, deixando*o ea- 
tregue a trez Governadores ; ao Conde de Monfan- 
to fez Marquez deCafcaes com tmtamento de fo« 
brinho , quando cafou com D. Joanna Perpetua , a 
quem deo honras de Duqueza ; a D. João de Bra« 
gança Soufa e Ligne , leu fobrinho j deo honras 
de Marquez ; ao Conde de Afliimar , quando o 
mandou Vice*Rei para a índia fucceder ao Conde 
da Ericeira Marquez dòLouriçal lá defunto f Mar* 
quez de Caftello novo , e depois da conquifta de 
Alorha Marquez da mefma , e a feu filho Conde dè 
AíFúmar : a feu fobrinho , filho do Infante D. Fran* 
cifco, o tratamento de Senhor D. João, com pre* 
cedência a todos os Grandes* No feu tempo rei* 
náráo na Igreja de Deos quatro Summos Pontifi^ 
ces , Clemente XI. , Innocencio XIL , Benediâe 
XIII. , e Benedifto XJV. ForSo Imperadores Jo- 
íé I., Carlos VI. , Carlos VIL, eFranciíco I. Grão 
Duque da Tofcana , cafado com a Rainha de Hun- 
gria, eBohemia , a quem os Eleitores regeitáráp 
por morte de Carlos /VI.,» pai ,da dita Rainha , e 
elegerão o Duque de Baviera , que íendo coroado 
em Francfort com exceífivo faufio , diífe fazia os 
gafios do enterro , que não tardou muito. Defde 
o anno de 1706 até 1714 foi íEurop»theatrod« 
xnaior guerra entre o Impeeadqr , ç França , eÂa 
perdeo varias batalhas efpecialmente adeRamiles: 

no 



(4r4) 

no meftto anno a 7 <ie Setembro fez o Principt 
Eugénio de Sabóia levantar o cerco , que Luiz XI V« 
mandou pòr a Turim pelo Duque de la Fevillade, 
que perdeo nefta empreza a maior parte das tro« 
pas y e toda a artilheria. A xi de Julho de 1708 
venceo o Príncipe Eugénio junto a Ordena rda ^ 
lugar da ProVincia de Flandres, o Duque deMart 
bouroug ) General do exercito aliado , e uos On* 
ques de Borgonha , e Vandoma y Generaes de Fran-^ 
ça j que perderão finco mil homens ncftabata\ha« 
No anno de 1709 a 6 de Janeiro cahio hum t^o 
eípeflb gelo em toda a Europa , que durou norc 
femanas , fazendo o principal eftrago em França. 
Carlos XII. Rei de Suécia foi vencido por Pedro I. 
Imperador da Ruflia , e fe refugiou nas terras do 
Turco. Tomou poffe Augiífto iSy throno de Poló- 
nia j e lançou fóra delle a Eílanislao ^ a quem Car^ 
los Rei de Suécia haria introduzido víoíentamen* 
te. Em 1 1 de Setembro perderão os Ftance^es a 
célebre batalha de Mafaqtiet. Em 14 de Abril de 
1711 morreo Luiz Delfim de França , filho único 
de Luiz XIV., e de D. Maria Terefa do.Auftria, 
Infanta de Hefpânha : feu filho primogénito Du- 
que de Borgonha foi reconhecido Delfim , c mon- 
reo èm 171 2, pouco depois de fua mulher : deo 
Luiíi XlV, o titiilo de Delfim ao Duque de Breta- 
nha, primogénito do Delfim defunto, cue morreo 
de fincoenta annos , e paíTou o Delfiâa^o ao Dii»* 
que de Anjou , irmão do defutito, bifneto de Luiz 
XIV», emctfja mefnoridade sovemou França o Du- 
que dé Orléaiis. Em 171 y fíkceo em Veríalhea no 
t^rimeíro de Setembro ^ grande LuiaXlV. , liareti^ 

do 



( 45íf ) 

do reinado fetentt e dous annos. No feguinte an«> 
oo conquiftárâo os Turcos aos Venezianos a Mo-*- 
rca , c o Príncipe Eugénio os cafiigoti , vencen- 
do-os na batalha memorável de Petervaradin , ede^ 
pois lhes tomou a Praça de Trenoefvar. Em i8 de 
Junho de 17 17 conquiftou o mefmo Principe Bel- 
grado, Cidade capital da Servia ^ evenceooformi-^ 
davel exercito dos Turcos , quÈ vier ao foccorrella. 
Em 1 1 do mez de Dezembro do dito anno morreo 
de huma bala o grande Carlos XII. Rei de Suécia , 
no íitio de Frederixhal , e fuccçdeo-lhe no thro» 
no fua irmã Ulriqua Eleonora : foi heroe , de que 
nunca feefquecerá a fama, e para focego de muitos 
acabou na breve idade de trinta cieis annos ávida. 
Em 1720 fe eftabeleceo huma fufpénsâo de armas 
entre o Imperador , e Filippe V. , em virtude da qual 
tomou o Imperador poíTe do Reino de Sicília , com 
a condição , de que os Inglezes reftituirião GibaU 
tar , e Porto Mahon : e o Duque de Sabóia em atten* 
çao ao Imperador fez deixaçâo do dito Reino de» 
pois da paz de Badtâat , tomando o titulo de Rei de 
Sait^denha. A 30 de Janeiro de 1724 cedeo Filippe Y^ 
a Coroa de Hcfpanha em feu filho primogénito ^ que 
fe chamou Luiz L , que morreo em 3 1 de Agofto 
do mefmo anno. No anno de 1728 foi achado em 
Pavia o corpo do Exímio Doutor da Igreja Santo 
Agoftinito j em hiima abobada debaixo do Presby** 
terio, da parte do Convento dos Padres Eremitas > 
onde o havia efcondido Luitprando , Rei da Lom* 
bardia. E a 29 de Marco do dito anno canonizoa 
Benediâo XIII. a S. João Nepomuceno , martyriza- 

Úo em Praga noanno de i}9^ pdoRci Venceslaa 

He 



(4fO 

HE tempo ( difle o Theologo ) de vos expli- 
car as funçòes Pontifioaes, aífim dosBifpos, 
como do Papa , as quaes nunca viftes , nem facil- 
mente Vereis ; e como a mais abundante de cere- 
monias , e myfterios he a fagraçâo de qualquer Igre- 
ja, feja eíTa a primeira noticia. O Papa S. Silvef- 
tre foi o Author deftes ritos , aífiftido pelo Efpiri^ 
to Santo, porque fe bem antes da milagro/a con- 
versão, ebaptifmo do Imperador Conftantino Ma- 
gno havia Oratórios , e lugares dedicados pata as 
funções íagradas, aflim nos Cemitérios, como nas 
cafas dos Catholicos , como }i ouviftes nas notí- 
cias de Roma , nunca fe erigio Templo regular , 
e publico com Altar de pedra , ungido com Chríf- 
ma figura de Chrifto , fcnâo quando o Imperador 
Conftantino edificou no feu Palácio Lateranenfe a 
primçiraSé , e Bafilica de todo o orbe Catboiico , jc 
cAafoi a primeira., que foi fagrada pelo Papa S. SíU 
veftre, de que reza toda a Igreja a^db^nez deDe^ 
zembro com o titulo Dedicação da Bafilica doSalva* 
dor , em memoria do feu fantiíEmo retrato , que nel* 
Jaappareceorndre dia, como já vos contarão. De^ 
de então começarão iaé fagraçóes dás Igrejas; enão 
obítante (er a mais laboríofa função Eccleílaftica , em 
Portugal creio forão innumeraveis as Igrejas íagrar 
das, porque as vemos das peiores Aldeãs ,>fe já não 
he quedos Fundadores déU as, e Párocos rfal tos de 
noticias lhes puzêrâo as mefmas Cruzes , que fó tem^ 
€ podem ter naá .paredes as Igrejas fagradas ; ou 
também o feria , porque naquelle tempo erão ralve^c 
Gidadçs. populofas, o que hoje são pnbrits Aldeãs* 

I I |■Piy^^^^^^i#^^^<^^^iPiWi^i^*^■^^^ 

LI5BO A, Na Officin& áe MÍiiuerMaiferckl daCofta, ImpreíTòr dtt 
• -Santo Officio. Anuo 176V C«n^t«das mIícch^m n««t]f«nM« 




( 4J7 ) 

CONFERENCIA XXXIX. 

Freguezia dos dous bem peqaenos Luga- 
res ÂJBÍalye Ramalhal, (continuou oTheo* 
logo ) diftante de Torres vedras huma pe« 
quena légua j he fagrada , e fazendo eu on* 
ze anno3 todas as diligencias para faber que po- 
voaçSò grande houvera na quelle íitíó^ ou fe forâo 
povoados os montes defertoS| onde eftá fundada 9* 
motivo y por que lhe tirarão o Sacrário para huma 
Ermida , nenhuma tradição pude defcuorir ^ nem 
ver a authentica do Bifpo ^ que a fagrou , porque 
julgámos eftava profundamente enterrada 00 Altar 
com as Reliquias', acção | que hoje fe faz mais fu- 
perficiaL Dous dias antes daquelle ^ em que fe ha 
de celebrar a função 9 o Arcediago , ou por elle 
qualquer outro Miniftro éo Bifpo | deve avifar o 
povo da Cidade, ou Villa, para que todos jejuem 
na vefpera , porque o Bifpo Conlecrante ^ e o Pa^ 
droeiro, ou quem lhe pede que fagre a Igreja, de- 
vem jejuar nefle antecedente dia. No meímo de tar-* 
de o Bifpo accommoda as Reliquias dos Santos ^ 
que fe hão de fepultar no Altar mór , em huma 
caixa .de metal ,. ou madeira incorruptivel ; mas or«^ 
dinaWamente ainda efta fe mete em outra de chum- 
bo. Com as Reliquias pôe o Bifpo trez grãos de 
incenfo, e hum pergaminho, que he a authentica ^ 
cujo formulário traduzido da lingua Latina, he o 
íeguinte: No amo dè N. em tal dia de talmefn yen 
ar. Bifpo de Zf. çonfygrei efia Igreja , e Altar dedi^ 
Tora. VII. Qa ^^- 



(458) 

caào a S. N.y e nelle fepuJtei as Relíquias dos SantBT 
Mariyrts N. , tN. , e concedi neffe dia bmam^ de 
Indulgência i^ edahi por diante quarenta dias no anni'- 
verjario , fegundo o xojiume da Igreja. N. Bifpo de N. 
Ifto feito y c fellado com as iuas armas d peq.iKna 
tumulo das Rdiquias o pôe íbbre hum ef(|oife> ou 
andor, em alguma Ermida y ôu Capella vizinha • 
e quando a hâo haja , em huma de madeira fè/ra ío 
para iflb defronte jda porta da Igreja ,:qiie ha de 
fer iâgrada ,. fobre decente peanlia aita : e depois 
de o cubrír com pan^o rico ^ o SacriMo fórcna o 
íepulcro de luzes conforme a liberalidade do Pa- 
droeiro y porque a obrigação he fó duas tochas de 
cera y e duas lâmpadas. Ifto feito , no meímo lu-- 
car canta òBiípo com o Clero Vefperas^ e depois 
Matinas y e Laudes em honra dos Santos , cujas 
Reliquia^ aili fe achâo. Entre tanto osMeftres das 
CeremoniaS) e Sacriftas preparâo na Igreja , c Sa-» 
criftia o neceíTario para a função do dia fegaiate , 
a faber : Âmbula do Santo Chrifina y e a do olep 
dos Catbecumenos y duas libras de incenfo y ame^ 
tade em grão y turibulo com naveta y e colher ^ fo- 
gareiro com brazas y hum vafo com cin!i^ em abun- 
dância , de lorte que cubra todo o pavimento da 
Igreja efpalhada y hum vafo com fal , outro com 
vinho, humAíperforio feito de hervá hy fopo , toar 
lhas de liqho groflfo para limpar a meza do Altar ^ 
cada vez que for neceflario y huma toalha de linho 
fino encerado para cubrir o Altar^ ele forem mui- 
tos os que íe hão de fagrar y para cada hum fua^ 
finco Cruzes feitas de rolo mais delgado , algumas 

colheres direicas ^ a que chamão c^tulas os Bo<« 

ti- 



( 4Í9 ) 

tícanos > para raípar o Altar > é vafo pára as cin< 
zas dos rolos j e íncenfo j caí , e arêa miftiiradas 
para tapar o (epulcro , colher de pedreiro de pra- 
ta para a Bifpo dar principio a efta obra , falva ^ 
ou bacia do.mefma , em que fe lhe oferece. a ma- 
téria , pedreiro para a finalizar , duas tochas parai 
acompanharem íempre o Bifpo, bacia, e jarro pa«' 
ra elle lavar as mãos , miolo de páo , e toalhas , 
duas libras de feda , algodão ^ oo eítopa fina para' 
limpar os oleos , duas caldeirinhas de agua benta y 
huma para fóta da Igreja , e outra para fervir na 
Presbyterío, toalhas novas para os Altares. Alény 
difto fe háo de pintar na Igreja doze Cruzes le- 
vantadas da terra dez palmos , trez em cada huma 
das quatro paredes > ena cabeça década huma hum 
ferra como efcapxila , ê em cada ferro huma vélâ 
de onça , huma efcada de madeira* com bons de* 
;ráos , e corrimão para o Bifpo fobir , e comino^ 
lamente tocar todas as Cruzes , as pias dã agua' ' 
benta vazias, e limpas, e em fim o corpo da Igre- 
ja por dentro, e poribra totalmente defemharaça- 
do, de forte, que o Bifpo pofla andar em roda' dei- 
la fem detrimento. Pela maUhá vem o Bifpo eÁí 
habito quotidiano, pergunta fe eftá preparado tu^ 
doj manda accênder as doze velas das Cruzes , è 
pôr o Faldiftorio no. meio da Igreja , arnádo íbbre' 
hum tapete: ordena logo que todos, fe retireni da; 
Igreja, e fe fechem as portas, efó deixa nella hum- 
Diácono veftido com Amifhx, Alva , e Eftola braníp> 
ca, í^m Oaimatka, o qual deve eftar aíEm prepa«- 
Mdo^ ances que chegne o Bifpo» Ifto feito ^ vai a 
Bifpo com o Clero ,..e povo á Capella onde efiio 

Qg 11 aa 



( 4<5o ) 

as Relíquias , e feita breve oração tio genniexo^ 
rio , levanta em voz baixa ^ e fem íolfa a Antífona 
dosPfalmos Penitenciaes , que todos rezão de joe- 
lhos, e elle entre tanto tira aMurça, toma o A- 
miâo^ Alva^ Cinsnio, Cruz peitoral , Eftola, e 
Pluvial branco , e Mitra fimples , o que tudo IheF 
miniftra hum Diácono ^ ehum Subdiacono com to- 
dos os paramentos, excepto as Dalmaticas ; e aca- 
bados os Píalmos , precedido dos Acolythos com 
tocheiros accezos , e mais Clero com fobrepelU« 
zes y caminha para a porta principal da Igreja , que 
eftá fechada , e diante delia deve achar fobre hum 
tapete outro Faldiftorio, junto ao qual em pé fem 
Mitra, nem Bago, levanta huma Antifbna; eaca« 
bada pelo Coro , diz a Oração ; e logo tomando a 
Mitra, reclinado fobre o Faldiftorio, começa as La- 
dainhas , a que refpondem todos , até o veríb ^i^ 
omni maio , excluíive : então fe levanta o Bifpo y e 
benze fal , e agua , com a qual fe toca , e aos cir- 
cumftantes , dizendo a cofiumada Antífotui Afper^ 
ges ; e logo apenas a levanta começa o primeiro 
circulo á roda da Igreja , começando pela fua par- 
te direita , e lançando agua benta nas paredes , e 
alicerfes , ifto he , em o nafcente delias , depois àc 
a lançar até onde a pcSde elevar o impulfo do faf- 
fope^ acabada a Antifona , canta o Coro hum Ref- 
ponfof io , e acabado o circulo diante da porta prin^ 
cipal da Igreja , tira o Bifpo a Mitra , e diz a Ora- 
ção virado para a porta : acabada ella , toma a Mi« 
tra ^ e Bago , e çhegando-fe á porta da Igreja fe- 
chada , bate nella com a parte inferior do Bago hu- 
ma i6 yez ^ dizendo em vos alça 9 verío do PfaW 

mo 



( 4<íi ) 
mõ t^'. Jttoiite partas y ér^^y e o Diácono ^ qne d^ 
tá da parte de dentro , refponde com o íeguince 
verío, perguntando: Quis ejl ifte Rex ghriat Co- 
meça logo com o Clero ^ e povo o fegundo circu- 
lo y dizendo o melmo , e lançando agua benta naa 
paredes , e alicerces : entretanto o Goro xranta on^ 
tro Refponforio 9 e acabado elle juntamente Com 
o círculo tira o Bifpo a Mitra , diz a Oração , e 
logo tomando a Mitra ^ e Bago^ vai dar a fegun- 
da pancada na porta da Igreja , dizendo o mefmo 
Terfo, a que o Diácono refponde de dentro o mcfif 
010, como fe fegue no Píalmo, e a Bifpo lhe re£« 
ponde com orerfo feguinte; DominusfortiSj érc: 
deixa logo o Bago ^ toma o Áfperforio , e faz a 
terceiro circulo , dizendo o méfmo | canta o Cora 
outto Kefponíoríoi ; e acabado o circulo , diz fem» 
Mitra wterceíra Oraçilo ^ e logo ^cem ella vai dar 
a terceira pancada na porta , dizendo o mefmo; e^ 
depois de refponder o Diácono : Quis eji ifte Rex 
gloria ? refponde. o Bifpo o ultimo yerfo ; Dimi^ 
nus mrtutum ipfe eft Rex'glgria , é o Coro todd di2 ^ 
JÍperise^ Aperite y Aperite ^ eiítSo fáí o Bii^ coftf 
o Bago huma Cruz grande com braços iguaes núi' 
liminar da porta dizendo hum verfo ^ e aberta ell* 
diz : Fax buic domui ^ a que rei ponde o DítfCònot 
In intfoitu veftro j e todosi dizem Amev^ Entra í^ o 
Bifpo com os Meftres das Ceremonias ^ Miniftros^ 
Cantores, e Pedreiros neceflarios para o fepulcro^ 
ou collocação da pedra do Altar , feeftá feparad*^ 
para cubrir o fepulcfo: fica defòra oQero, e po- 
vo y fecha-íe a porta , cantão ^e dua9 Antífonas^ 
eftafido.oBifpoeki^ pé junto aô PaldiAoria com étf^ 
Tom. VIL Qa iii ^v- 



(4»0 

Miniftros<9 e Acolythos^ e acabadas ellaa ían Mi^ 
tra j nem Bago , de joelhos levanta o Hymno : Z^- 
iri Creatar Spiritus ; e acabados os primeiros qua- 
tro verfos I fe levanta , e fem Mitra efpera alli que 
ie acabe. Entre tanto os Meftres das Ceremonias 
com OQtroa Míniftcos lançâo a cinza no pavimento 
da Igreja em fórma de afpa v ou X , e para maior 
commodidade coftuma efta figura já eftar feita com 
letras grandes de papelão de todo o Abcedario L^ 
tino , e Grego , em afpa hum com outro , começan- 
do o Grego da parte, efquerda de quem entra na 
Igreja até o lado da Epiftola no corpo da Igreja ^ 
e o Latino do lado direito de quem entra até o 
lado do Euangelho , e (obre as ditas \ttns ãrmcs 
lançâo a cinsa , de forte que .ficao cubertas. Aca- 
bado o Hymoo^ toma a Mitra, reclina^fe noFjal^ 
diftoirio I t )OSf Cantores começão novamente a La- 
dainha dos Santos , repetindo duas vezes o. nome 
daqueUe> a quem he dedicada, e daquelics, cujas 
Reliquias fe hão de fepult^r no Altar: dito over- 
fo : . Úi^ omnibus fi^lihus y (^r. , levanta*fe o Bifpo y 
toma na mâo efquerda o Bago, e diz finco verios, 
os trez últimos com benção , em qne pede a Deos 
vifite aquelle Templp , mande Anjos para afiifti* 
rem nelle, abençoe, fantifique, e confagre aqueiia 
Igreja , e Altar , e a cada hum refponde o Coro : 
Te rogamus audi nos : deixa o Báculo , reclina-fe até 
fe acabarem as Ladainhas, diz em pé fem Mitra 
duas Orações, levanta humá Antífona, que íe n^ 
pete entre todos, os verfos do Cântico Benediãus 
pelo Coro ; e elle tomando logo a Mitra , e Bago 
na mão direita ^ efcreve com elle oa cinza 06 dous 



Atâbetos^ pr&drot) Grego y édq)ois ò Latino'^ 
começando cada httm da parte que já diíTe y e na 
mefma afpa, e para ifio fenrem as letras de pape«» 
láo , porque facilmente as deícobre com a ponta 
do Bago ,.^e faltando elbs , he.grande trabalho a 
formatura do Alfabeto Grego, náo obAante o tei 
di^té de íi pintado no Pontifical , e maior traba^ 
Jho para osMeftresdasCeremoniasocompaíTo das 
letras 9 e perfeição da afpa. Feito ifto, caminha o 
Bifpo até o Altar mór paraiiOifagfar'^ e perto xlel-; 
Ip femLMitra,.% flgm BaTO ^iinplorfijrcz vezes o 
aâxilío divitiT), dizendo de-joeihos,^e levantandd 

cadai vez mais a voz : Deus in adjuttnrium mettm i^^ 
tende , a que refponde o Coro : ]evanta*fe ao G/ó^ 
tia fútfi y km Alleluiãj e entre tanto Ihesrbcgâi 
ò Faldiftima^ onde-^Ue^emada^coso^Mitra-benz' 
a efpecial agua para efia lagraçao y que leva lal ^ 
Cf nza 9 «e vinho I tudo primeiramente exbccizada,:' é 
bento^ y excepto i o viíiho^^^que^fó be bento 9 ea^cjnzá. 
Acabada a. wndlo' da agua -com faty!cioK*r^ v^ 
nho I toma jo -Bifpâ o Baga>Hem'á^|)Ofra da Sne^ 
ja',ecom aj^arte ipferioi! delle faz ndlâ duasCmé 
zes, huma no mais alto ye outra junto ao liminar 
tudo da parte de dentro :;e logo deixando o Ba» 
go, diz huma dilatada Oraçãp: acabadaélla^vai 
com Bago outta vez : para oUgar, émque^benzeo 
a fobredita acrua y efemelle com Mitra exliorta em 
Latim os affiftenteS) para que peçfo a Dèos íé di* 
gne com a íiia benção , (que lança humá vez tó^<!t 
com a afpersão daauella agua y fal y cinza y e vi* 
nhQifantifiéaiviíquelle Templo : 6 que diroyáffim 
como fiftá: con^ a £agfaçâo do Altar y levantan* 

da 



do* t Ahtifona : ! htrmbút ad altare Det-^ que o Och 

to profegue com o Píaimo : jMáka me Deus^ ^c. ^ 
repetindo-a em cada Tcrfo com fumma pauía: che^ 
a o Biípo ao Altar ^ e molhando o dedo polVcx 
a mâo direita, na agua efpeciai , fiiz huma Crazi 
fiooieto da pedra ^ qoe o cobre todo com Oração, 
e qnatro bençios ; molha fegunda rez o dedo j e 
com elle faz quatro Cruzes nos quatro cantos do 
Altar 9 dizendo em cada huma a meíma depreca- 
^a^ ' € diípondo-as affim : 



i 




ifto feito, diz huma Oração fem A(itra, etoman- 
do-a logo 5 anda á roda do Altar Tetc rezes, lan«> 

gndo. agua henta da ultima benção natneza , é no 
ndamento delle; Nor.prtociprâ de cada citculo 
levanta a Antífona J^ftrges /que o. Coro profe^ 
gue com os trez vcrfosfeguintes no Pfalmo Mift^ 
rere y e em nenhum fe diz Ghria Patri : acabados 
os círculos do Altar , faz^ trez por toda a Igreja in-^ 
tertormente , lançando agua benta .xlar. mefma íorte 
oo alto das paredes , e naícente delias , cantando 
o Coro huma Antífona. Ifto feito, o Biípo fe pôe 
detrás do Altar virado para a porta da Igrga , e 
dahi começa hum circulo a toda a Igreja , come- 
çando pela parte^direita , e lançando ék tal agua 
benta na parte infiicior dafi^ paiedes.:í ^cantando o 

Co- 



Cõft> liutna Antífonii , e Pfalintt^ àcBÍià o cir- 
culo no mefino fitio 5 em que o começou : e logo 
dá principio a outro , lançando a dita agua pelas pa- 
redes na altura dofeu rofto, cantando o Coro ou- 
tra Antífona, é Pfalmo, acaba tto mefmo lugar tf 
Oftculo; e logo começa terceiro pela parte e^uer-» 
da lançando a dita agua a maior altura das pare^^ 
des y a que a podem facudir as hervas hvlopos ^ can- 
tando entre tanto o Coro outra Ântirana , e Pfat- 
mo 9 todos tre% fem Gloria Patri. Acabado o cir- 
culo ^ como os outros detrás do Altar ^' v«i direi- 
to á porta principal da Igreja lançando a tal aguft 
no pavimento j t depois bplca o meio da parede 
direita , t vai lançando agua até o meio da pare^ 
de efquerda ,* piara ficar a ajíjpersâo em forma d& 
Cruz 9 vetn logo^ ao meio da -Igreja \ e ahi parado 
knça agua para ' a parte do Oriente no ar j logo 
para o Occidei^te ^ oepois pára o Norte , e ultima*- 
mente para o Sul ^^ç* entre tanto ò Coro íem ce(« 
iar canta varias Antífonas competentes a eftas ac« 
çôes : acabadas eílas , o Biftío-no mefmo lugar vira^ 
do para á porta da Igreja di2 duas Oraçfie^, a íe-» 

funda dilatada , e com muitas: bênçãos , e no fini 
ella bum grande Prefacio , que acaba fubmiífa vo^ 
ce ^ toma a Mitra , que tirou para as Orações, e 
Tai para o Altar mòr, e junto aelle lança ã tal ef-» 
pecial«gua benta fúbre a cal, earèa, queos MI-^' 
niftros The prefentâo cm v afilha de prata , e cotti 
colher de pedreiro do mefmo metaí miftura tuda 
com brevidade , tira a Mitra , e bcní&e com Ora« 
ção efpécial efta argamafla , que le guarda em' lu^ 
gar decente^ e to£i a oímís tgw^ de faly cinaa r « 



vifthch) qttç.íob^eJQii ^ fe l»nçainiinedil|UQiciite á tc^ 
da dõ Altar pelojnafcenfcdeljo. lílo feito ^ ?ein a 
Crnz,^ e fahe oBifpo em procifsâoa bufcar as R.e«^ 
liquiaaii e então fe abrem as portas ida Igreja ^ mas 
Binguem «ntra«ne)}a j e, fai}m Sacerdote «coippinha 
o Bifpo com a.ÇhriÁna. até á porta4:prioQJpiil vpor 
cnderfaète a prOcíísao y c ahí fica com a AmbuU ^ 
e concha 9. ou p^CQOA prompta. Todo o QerA^ c 
po iTQ ^qnc até çfte tempo efti iÒra da Igreja | íefii^ 
ver, «Pttfa. âlgnm$ do maito que: fe. obrou deptro 
delia ^ .acoqiparibâo a procíísâo até á porta da Et*, 
mtda 9 .onde.eftâo a$ &eli()uiás , mas ninguém en^ 
tra. Chega o Bifpo 4 porta j e diz Oremos ^ logo 
o Diácono FhStamus genua , ajoelhâo todos ^ diz 
O Subdiaçono hftvatty e levantâo-íe : ( « ífto mef- 
mo tem |}rece()ii^Ta'qua(i todas advOraçôes , c^ue 
o Bifpo tem d^to^e precede a outras íeis^ qoe ajiK 
da faltâo para dizer ) levantados^ todos ^ e o Bif^ 
po fem Mitra diz hupa Oração ^ e \ogo toman^r 
do^a, entra com. os Sacerdotes ^eGleco n^ Ermi- 
da cantando muitas Antífonas 9 e o Píalmo Venite 
exuUemtiffii Coros fem Qlaria Pai ri ^ ou hum Ref-, 
ponforio dos Santos , cujqs sáo asReliquias : aca- 
bado iftoy tira a Mitra ^ eeftando junto ao tumulo 
diz outra Oração, tomn a Mitra ^e fahe a piodf* 
são 9 tdiante aCru? com os tqcfaíeiros; fegii^íe o 
Clero 9 e Corq cantando qu^ro AiKifooas , logo 
Sacerdotes com muitas tochas accezas 9 e quatro 
com o tumulo das Relíquias fuftentado nos bom- 
bros , ultimamente Q Bifpo com os Miniftros , e 
Mcftres das Ceremftpiaç, ? qqem feguc o Padroei- 
ro d« Igrçjí , ç PPOYQ jíf^ á.iJCKt* 4q TproplQ %^ 

00- 



on3e^cáo todas ^^i e q^ Biipo preeedlão dr Cras \ 
Acolythos , Turibnlario ^ e os quatro Sacerdotes 
com o feretro das Reliqoias' , e fegoido :dò poTO 
daoundo emaUas vozes Kytie ^eJçifanf ^ dá^liiuba 
tòha.a toda algrgapela paiite^d^ fóra v cantando 
o Garo. com aCDlero is ÀritffotnS' folmditis^ m 
Adro y onde fe p6e logo hitm Faldiftorio^ para o 
Bifpo > o qrkl V acabado o cfircolo v té aflenta nàU 
k com Mitra ^!ê Bago^ tendo^' da^ fKarte direita o 
toniulo das ReliqiEdas'; nos ibi[açÒ9^ dosirSaceiçdotM^ 
é dúm 18 cofta&('para*4i,povta^>^'%mja f ínÁhfiàk 
breve Sermáo-ao povo , 'em quê trâtjHÍ da vei^nu 
ção que devemos ter i Igreja e* no fim''mahda ler 
em voz. alra^donsOecretoado Concilio Tridehti^ 
nú\ qnè sáa.Jo .«biSelfeáo asiTio0p.^sjji:de;J&^^ 
mafionr i e da Stl^ú a^f.cshx nsJ^da dieíirm ma^ 
teria : ifto còíhinia lerhnm^AAièídiago,^ c n!a'*fak 
ta dellex|ualqueiiÍQUttt>^*'e lògo^^zoBíípo bnnii 
breve Pxapíca ào Foadadorfòi) Padroeiro: di;Igré« 
ja, fe o teoiyie efl»(^preí^te^ em qne^llw léinbra 
o grandelervíço, qae tem hiw a^Ueos f^jhonrfí 
que ha tèr^ jè como a Igre)a Ihehã deacndirfCOíiti 
parte do que lhe deopará dote ^ fe elle necellitar t 
depois lhe faz as perguntas neceflarias ; e refpon* 
dendo elie;^< e o povo j ^quõ filão: promptos para 
obedecerem* ièmitndo^ íe fazKpublico- inftnimetito 
por Notário , ^para conftar. o dote da Igreja 9 qaainiL 
tidade de Miniftros 9 « tudo o mais ^. que deoy oil 
promette dar, e eftabelecer o^Futidadorr o quia 

fei CQ ^ jidaaoefta a Biípo,iL|MffiQ.> 4ma^ íVK>J»att&a 
Dcps pçlo Fuodadof r/r^í^SPÊTOiRP^? mm 
fao da Igreja i porea leoaa lM(Siuidaav<ynicaba 

da 



( 4«8 ) 

dft a Plratlca di.twieraçãò 9* que £e tieVe ter iosla^ 
gares fagrados , íe levanta o Bifpo , e fem Mitra ^ 
oem Bago ^ canta o Goro hama Antífona , c dis 
eUe huraa^ Oração : toma a .Mitra^ Uht o Clerigp 
comoChnfma ^/fecha-íe. a porta da Igreja^ e o 
Bifpo . a nngé com' o óleo íagradò; com deprecaçâo 
coaipqtente, fazendo-^lhe trez Cruzes r a que feito, 
p6em os Sacerdotes.t>&retro nosJiombroS| abre-íc 
a porta , e eQ|tiia.a.prQcifsâa. na Igreja da meíoia 
fofftclque veittida Qapella, cantando o Goro duas 
Ant&tona9 :» {tftnix>.^« chegio ao Altar mór y àA- 
canção o efqmfe das Relíquias no meio da Capei* 
}a em lugar ^Iro com luzes por todas as partes , e 
o Bifpo iíom Mitra levanta outra -Antífona , que o 
Goro pròfegue«^ com xlous Pfálmos fem Glma Pa^ 
tri-} entorfim diza Oração^ Sobe logo com Mitra 
ao Altar , e molhando o poUex no íanto Cbrífmã 
unge os. quatro ângulos do íepulcro^ onde fe bio 
de fépôltar as Relíquias , fazendo íiuiDa Cruz em 
cada iringulo com deprecaçãocompetçntti c forma 
quaíi commua de todas as fagfaçôes , que levão un-p 
çao , tira a Mitra , e fepuita o caixão das Reli* 
quias^ e depois as incenfa, toma logo a Mitra ^.e 
na ipSo efquerda a taboa de pedra , que ha de ícT'^ 
FÍrjde campa do lépulcro ^ e com o poUex da di^ 
reítà : molhada > do Çhrifma íagrado- lhe. faz hutiia 
Qxxm 00 meio. daquella: face > que ha de âcar para 
baixo, eimmediata ao caixão das Relíquias ^ com 
deprecaçloi e benção. 

' Jíl^Jb^À : 'ija<)fficíb'àc iMigiicmincfai! daCofti, Imprcflbt do 



( 4<!S> ) 

CONFERENCIA XL: 

TOma logo o Bif po a colher de prata , ( con- 
tinuou o Theologo ) e tirando com ella 
argamaíTa benta lha pôe nos lados ^ e ta* 
pa. com ella o fepulcro , entoando huma 
Antífona , que profegue o Coro , e logo outra com 
Gloria Patrij tira a Mitra ^e diz huma Oração, e 
tomando-a, lhe oíFerecem a colher com argamaíTa 
benta , com a qual dá principio á firmeza , e boa 
claufura da campa: deixa a colher, e os Pedreiros 
acabâo a obra com a meíma argamafla benta : o 
que feito , o Bifpo molha o pouex direito no fa- 
grado Chrifma , e forma com elle huma Cruz fo- 
bre a campa com deprecaçâo competente , e ben- 
ção 9 o que feito , os Pedreiros acabão o que faU 
ta, ou pôe fobre o fepulcro direita a Ara, que ef« 
tá para iíFo fufpenfa , conforme o fitio do fepulcro ; 
porque huns Altares o tem no meio , outros na 

Earte anterior dá Ara , que o cobre todo , e embe- 
ido na fua grofliira , outros na parte pofterior da 
mefma forte , alguns na parte anterior da meza ^ 
que fuftenta a pedra Ara, e outros (que parece fer 
o melhor) no mero da dita meza, de forte que lo- 
bre a campa defcahça bem ligada a grande Afa , 
com o que íe evitâo as curiofidades dever, e abrir 
o fepulcro , e tumulo , ler a authentica , e fur* 
tar as Reliquias , como eu vi fazer muitas vezes« 
Quando o fepulcro he no meio da meza , o metho- 
do mais commum he ter fobre ella a grande Ara 
Tom. VIL Rr íuf- 



\ 



( 470 ) 

fnípenfa em duas, ou quatro peanhas de madeira, 
altas y de forte que o J9i(po iem ^ejui^o da Mi- 
tra , ou deformidade nas acçòes , poíTa ungir , e 
fagrar ofepulcro, collocar o caixão das Relíquias, 
e aflentar a campa: o que. feito, osSacerdotes en-^ 
coftão os hombros á grande Ára , como quem a 
íuftenta, os Pedreiros com gatos (inftrumenpo cé* 
lebre para levantar os maiores pezos que ba , cm 
diftancia de trez palmos, chamado gato cmPortu^ 
gal) a levantâo, tirão 'as peanhas , aflentâo ape- 
dra fobre argamafla benta , e entre tanto canta o 
Coro mais duas Ántifonas , que o Pontifical pref- 
creve na fagração do Altar , que tem o fepulcra 
nefte fitio. Outros põem a grande Ara fobre gran- 
des peanhas no fuppedãneo ; mas depois dá ifto 
grande trabalho , porque en^re elU , e a meza , on- 
ae fepultâo as Reliquias, fica grande diftancia pa- 
ra o Bifpo fazer os círculos , e mais acçóes , de 
que fe fegue confusão , porque os Sacerdotes pe- 
gão , os Pedreiros fuftentão , e o pexo obriga a 
^ue fallem todos , não obftante o refpeito que in- 
funde a prefença do Biípo , e a Religião , e pie- 
dade deftas acções fantiíEmas , cuja formofura , e 
harmonia fobeja para convencer, e confundir Athe- 
iftas , Hereges , e Gentios. Fui Meftre de Cereino- 
nias, vi íagrar muitas Igrejas , e com diverfos Se- 
pulcros, o melhor he o que já dííTe com a Ara fuf- 
penfa , que fó accreícenta o gafto de hum banco 
largo com dous degráos de cada parte para o BiA 
po fubir , e fazer no tempo competente as finco 
Cruzes com agua benta na Ara. Acabada a obra 
do fepulcro, de qualquer forte que elle feja, e ex- 

pc- 



( 471 ) 

pedito o Altar, o Bifpo com Mitra benze incenfo 
no turibulo , tira a Mitra , levanta hama Ántifo* 
na, que proíegue o Coro, toma a Mitra, e incen- 
fa o Altar, como naMiíTa, em quanto dura aSoI^ 
fa , que deve fer pauíada : acabada ella , no meio 
do Altar diz huma Oração; e tomando a Mitra , fe 
aíTenta no lado da Epiftòla no Faldiftorio virado 
para o povo , em quanto os Mimftros limpâo a 
grande Ara com toalhas. Ifto feito , levanta-fe , e 
com o turibulo faz íinco Cruzes , incenfando fobre 
a dita pedra nos lugares, em que poz a agua ben- 
ta , como fe vê na eftampa da Conferencia paíFa^ 
da , pôe logo fegunda vez incenío no turibulo com 
benção , e o entrega a hum Sacerdote veftido de 
fobrepelliz y ( que não tenha moleftia na cabeça ^ 
como vertigens , &c. ) o qual defde logo anda (em-^ 
pre "á roda do Altar todo , fem ceifar incenfando ^ 
e fó pára quando o Bifpo incenfa , o qual lhe en- 
trega logo o turibulo , e elle vai continuando os 
círculos, até que fe acaba a fagração do Altar, tra*^ 
balho que fó o pôde avaliar , quem o experimen-» 
tou. Ifto feito , o Bifpo levanta' com Mitra huma 
Antifona, que profegue o Coro; e logo tomando 
o turibulo , com que faz os contínuos círculos o 
Clérigo , com elle faz trez círculos á roda do AU 
tar incenfando , entrega o turibulo ao Sacerdo« 
te, levanta outra Antifona, que profegue o Coro 
com hum Pfalmo fem Gloria Patri , e entre tanto 
molha o dedo poUex da mão direita no fanto óleo 
dos Cathecumenos , e faz finco Cruzes no Altar 
nos mefmos lugares , ecom a mefma difpofição^ com 
qM fez as outras com água benta ^ e fe vê na ef#. 

Kr ii tam- 



( 47^ ) 

tampa y dizendo em cada htima das Cruzes a de^ 
precação y e forma das fagraçôes , a fabcr : Satt^ 
ííi ^ ficetur , eS^ confe i^t cretur lápis ijie in nomine 
Pa ^ tris j ir Fi^ IH j & Spiritus iji Sanai , m 
honor em Dei , ^ glorio f a Virginis Mari£ , atque om^ 
nium San£íorum , ad nometi , é^ memoriam SanHi N. 
Pax tibi. Ifto feito , e limpo o dedo , põe novo 
incenfo bento noturibulo, comqae anda o Sacer- 
dote j e com elle faz hum circulo ao Altar iaccor 
fandoy em quanto o Coro canta hum Reíponforio, 
a que elle dá principio antes de começar o circulo > 
no fim do qual entrega o tu ribulo ao Sacerdote pa- 
ra os continuar, eíem Mitra , precedendo (como 
quaíi íempre ) genuflexão de todos , diz duas Ora- 
ções , e levanta huma Antifona j que o Coro pro- 
iegue com hum Pfalmo grande , toma logo a Mi- 
tra j e em quanto elle fe canta , molha o dedo pol- 
lex no fagrado Chrifma , e faz finco Cruzes no Al- 
tar , onde fez as outras , dizendo o mefmo , põe 
novo incenfo bento no turibulo do Sacerdote , que 
faz os círculos, levanta outra Antifona , e em quan- 
to o Coro, a canta faz elle hum circulo ao Altar, 
começando pela parte efquerda; e acabado elle, e 
o Canto, tira a Mitra , e diz outra Oração com 
Fleílamus genua : levanta logo outra Antifona , que 
proíegue o Coro com hum rfalmo, toma a Mitra ^ 
e pegando com a mão direita na ambula do fan* 
to Chrifma , e com a efquerda na do óleo íanto 
dos Cathecumenos, lança ao mefmo tempo partes 
iguaes de ambos os fantos óleos no meio do AU 
tar , e com a mão direita aberta unge a pedra to-- 
da pela parte íuperior^ limpa a mão ^ levanta ou» 

tra 



t 473 ? 

ttà Antífona , <jue oCbro profegue com huniPfalf 
mo , fem Gloria Patri , como todos , e no fim dcl^ 
le com Mitra virado para o povo em pé diz em 
Latim huma inftrttcçâoy.ijue conjDém o mMivâ das 
unções daquella' pecha, xqnefae. paira Deos neUa rér 
ceber osnofibs votos ^e facríficios , e convida á 
todos j para que peçâp a Di^os iftb mefmo , refponf 
de o Coro Jímen : levanta lo^ outra Antífona ^^ 
que o Coro profegue • com linm Pfalmo ^^ e dous 
Refponforios em tom pfiufado',. porque .entre tan^ 
to tem o Bífpo- o tiiaior , e mais dilatado, trabalho ^ 
porque em quanto áit a ioftrucção lhe pôe a e(ca<» 
da detrás do Altar^ e levantada aAntifona, molha 
o dedo pollex. no fantOiCbrifma, ^íbbe pela efcada^ 
e unge á iprimeira Crut {nntàda» Da^ poTrede da. par^ 
ce dàreita /em cuja cdoiéç» cftá .atvÀa ardçDda né 
gahc6o , fazendo netla/finco Crazea^^' e difcendo t 
Sanai ífificetur^ érc9nfe(í^cretur boc temphtm^ irc.í^ 
o que afeito ^ limpa o dedo^ e tomando o tURtbulo^ 
incenfa a. Cruz trez vezes ^ xiefce i efcadi jáí£srii 
o^tuTÍbulo , e «fpera i^ueL» a, Icvem^para itic^mc 
Oiuz 9 onde faz a meÁna unção , e coríficaçâo;, e 
cm todas a» mais ^ que são doze-, como -^ vos dâír 
fe, movendo^fcjpacajtodas amefma efcàda ^ aconif^ 
4)inHando o^ Bifpo òs.Mttiiftro&i^ AccQ^^lBâs tsom 
tochas , Saoerdvte coÃOyrííma^ sqtybs.ioom mi»- 
4o de pko, ^ftda ^ eAopas^ ou algodiò^^pnaciiibpár 
Os iantos 4>lèos ,. Meu/es das Coreaumias /^ejiòi^ 
pellSes do V(M|tifical , ^eferuia oomTéèa aocsza ^ ob 
èSÁttz^ do Bago^ e ieiK Anccdnfpò^yré Ak^Gtoz^ 
*<^ie<indifpanri(f dn^fM)éí)vaá diantbdft 
«09 cifouios diaN^fltti^-^ito fioJDOíiOti^xodis; as 4^916- 
•-Tom. VII. Rr iii dcs 



de$ :da l^rejff:, Cttja ultima Cruz cftá detrás dò AI* 
tar, como a primeira que fe ungio , vera o Biípo 
para o meio do Altar ^ e o incenfa levantando ha» 
ma Andfona^ a.quai acabada^ pelo Coro, diz com 
'Mitra ^ que. ainda 'Cohíerva-, huma depcecaçâo y e 
logo benze com efpeciat bepção oJncenfo, que fe 
ha de queimar fobre o Altar , para o que tira a Mi- 
tra , e a toma depois de lhe lançar agua benta : eP 
te incenfo ha dé fer do mais puro de hgryma ^ c 
hão de fer vinte e. finco .grãos limpos , e foltos ; 
porque acabada a bènçSo , lO Bifpo-iòrma com os 
ditos grãos dé incenfo finco Cruzes iobre a pedra 
do Altar , nos mefmos lugares , e da melma forte 
que formoti as Cruzes com agua benta, oleo dos 
Cathecumenos , e Griímá^ fazendo cada Cruz coni 
finco grãos de^iocénfo , bum no meio., e quatro 
nosiados; logo toma o rolo* de cera bem delga* 
do , e cortado em bocadinhos iguaes ao compri- 
mento das Cruzes feitas dos grãos de incenfo ^ 
fómm fihco X>uzes de rolo , as quaespôe fobre 
as Cruzes de jncenfo , e com outro rolo accezo , 
acceride as quatro pontas das Cruzes de rolo , .pa- 
ra fazerem arder o incenfo : o que tudo feito , em 
quanto ardem tira a Mitra, e pofto de joelhos di- 
ante do Altai^ áÀzAlleluèa , Fetd Smãe SfiritMS , 
4yc^ cantando; e fe afagração he em tempo depoia 
da Septuagefima , diz fó o Verfo itmAlleluia ; e taiif- 
to que o acaba de cantar o Coro , íe levanta o Bií- 

})o , e começa outro com fegunda Aotifona , a que 
è ifegue'X>ração cóm Fleãamus genua\ entre tanto 
fçiiaçabao de queimar os rolos , e grãos de incet^ 
é}y eldgo oBifpo diz outra Oração, como apre«- 



>, 



<47f) 

cedente na genuflexão!' ^ c^ogo ham bem éxtenía 
Prefacio com muitas bênçãos j a que refponde o 
Coro Amen ^ e o Bifpo levanta huma Ántifona ^ 
que o Coro profegue com Pfalmo extenfo y e en- 
tretanto o Bifpo com Mitra molha o poUex no 
Crifnía fagrado ^ e unge a face da pedra do AU 
far, que refpeita a porta da Igreja ^ fcm dizer cou* 
fa alguma ao fazer da Cruz: acabado o canto, ti- 
ra a Mitra j e diz huma grande Oração : entretan« 
to rafpãp os Sacerdotes com as efpatulas y ou co^ 
Iheres de páo o Altar , e lançâo as cinzas dos ro^ 
los j e incenfo no fumitorio : acabada a Oração y o 
Bifpo molha o pollex no fanto Crifma , e forma 
quatro Cruzes com elle nos quatro ângulos do Al- 
tar^ as quaes Cruzes hão de abraçar apedra delle^ 
ns jimtas^ e a bafe, ou mcza, que fuftenta a An 
total ligada') dizendo em cada Cruz In nomne Pof 
trisy ^c. com trez bênçãos: tira logo a Mitra, e 
diz no meio do Altar huma Oração íem Fleãamus 
genua y^\ogo tomando a Mitra, fe fenta noFaldií^ 
tório,, esfrega, as mãos com .miolo de pão , e de- 
pois as lava, eftando todo o Clero, epovo dejoe» 
lhos em quanto faz ifto , excepto dous Sacerdotes^ 
que esfregão ao mefmo tempo a pedra do Altar 
com toalhas. groflas, e o limpão todo dos óleos , e 
cinzas , as quaes toalhas fe queimão logo na Sa« 
Cfiftia, e a cinza delias fe lança no fumitorio: aca^ 
bado o lavatório das mãos, dous Subdiaconos fem 
Dalmaticas , ou dous Acolythos na falta delles^ 
com iobrepeUi;^es., de joelhos prefentão ao B(tfpo 
todos os valos ^ e toalhas, que hÍo de fenri^ na 
%eja :^ i£kô he , jÇalices ., . Fyxides j Ornamentas 



(470 

dts todflt M cores j ie já nâo sCtf intigos ^ c be» 
tos por tlie ) ou por t)iiem tem anthorídade parj 
iflTo ; porque fendo affim , acabada a ablu^áo das 
mãos 9 fe levanta oBifpo, e tirada a Mitra, íe in« 
clína á Cruz^ que já eftá no Altar entre cafttçaes ^ 
éelle com toalhas, tudo preparado pelos Sacriftas, 
c Acoiythos, começa a Antífona Oínms terra ado^ 
ret te , é^ pfa/lat ttbi y istc. e em quanto o Coro 
« canta , elle inctnfa o Altar ,^ fazendo nelle coib o 
turibulp huma Crus; acabada a Antífona, a torna 
« priífcipiar ^ e entretahto , fórma coa o tufibu\o 
oqtra Ct-uz ) e acabada dia , a começa terceira 
vez, e faz terceira Cruz com oturibulo em qaan* 
to ella fe canta: oque feiro, diz duas Oxzij6tSj e 
«depois Dominns vohifcum <, e Bene^camms Dimifto.^ 
1 <^ue refpohde oCoro i>^o^r^?fitfr.,.e.$âo as uUiv 
nas palavras da HlgraiçSo da Igrejiu Porém íe os 
vafos fágrados , toalhas do Altar , e ornamentos 
não eftãò bentos , como fó colhi ma Aicceder nas 
Igrejas novas, o Bitpo, depois de purificar, e k^ 
var as mSos, benze «m pé fetii Mitra tudo, ^o que 
JbepreíentSo os Subdiacohos , feA^ythos,e logo 
ps oacriftas p6em fobre o Altar o Crifoial ^ ( iSô 
he , tx>alha de linho fino encerada ) e logo as ou- 
'trás, e o Bífpo em ipé levanta • Antífona Ciram^ 
iate Levita áltwe Domíni ^ érr* eiogo outra cona 
4Kim BLefponforro ^ e o PfalmO fSi^ vom Gloria P^ 
tri ) no fim do qual o Bilpo fiiz o qoe já diffelnos 
até o Benedkãmus Domino \ e tanto que o Coto rtG 
fronde Deo igraiim ^ totoa a Mjtm ^ \ iVaí pahi a Sa- 
criília , titã o Piuvífil , calça as^fandaNis ^> e tudo 
« «ais 5 e vem ò(Mti os ^Miniftirès. cohrfietepVBS ce^ 

le- 



{ 477 ) 

lebrar Miffa Pontifical. Entre tanto feorna algrèd 
ja com muitas luzes , e fe repicáo os finos ^ mas 
não fe barre o pavimento , nem fe tirão y ou apa**- 
gão as letras dos dons Abcdarios, fenSo depois de 
acabada a Mifia Pontifical, que então fe lança tn- 
ijo no fnmitorio. No fim da MiflTa ha Sermão da 
dedicação da Igreja , a que afijfte o Bifpo , e to» 
dos ; e fe elle quer fagrar os mais Altares , em ca- 
da hum ha de fazer o mefmo, que temos dito do 
Altar mór, e em cada hum ha de fepultar hum cai*;- 
xãozinho de Reliquias ; porém os circulos para as 
fagraçôes das Cruzes , de toda a Igreja y hão de 
começar detrás do Altar mór. Eftou certoporém, 
que fe o Bifpo fagrar todos os Altares j por mais 
perito que elle feja nos ritos , e expedito nas ac^ 
çôes , como também os Muficos no canto , hiú 
de gaftar vinte e quatro horas na função, ifto he^ 
hão de começar pela meia noite , e hão de acabar 
na meia noite feguinte : exemplo temos bem per^ 
to na fagração dS Sacrofanta Bafilica de NofiTa So^ 
nhora , e Santo António de Mafra , a qual come- 
çou de noite o Patriarca D. Thomaz de Almei* 
da, então fó Patriarca , íagrou fó o Altar mór, 
porque os outros fagrárão no mefmo tempo ou- 
tros Bifpos , o que não obftante , foi a confagra* 
ção da Mifia Pontifical na hora , em que fe havia 
tocar ás Ave Marias, e no tempo do Sermão dor» 
mião no Coro mais de trezentos Sacerdotes , fati- 
gados , porque todos eftavão em jejum : nem me 
alleguem com a brevidade, nunca vifta , com que 
04nefmo Patriarca , já Cardeal , fagrou a Sacró^r 
fanta Bafilica Patriarcal j e menos digão^ que eftar 



C 478 ) 

»Ío então os Meftres das Cerémonias mais ezpe* 
;ditos , ( porque eu os conheci , e me conhecerão 
todos, efempre forâo peritíífimos , e únicos , e tal 
ivez mais expeditos em Mafra , por terem menos 
annos ) porque toda eíTa brevidade y de que pa& 
ináráo aquelles, que nunca aprenderão ritos , con- 
fiftio na difpenía de muitos , que erão impoífiveis, 
c que a Igreja dirpenfa, quando o são , como erão 
os circulos externos todos , que fó voando, e pe-^ 
xietrando as paredçs do Palácio , e vizinhos , fe 
podião fazer , e outros muitos j todos dilatados. 
Já tendes noticia da função Pontifical mais dilata- 
da y e laborioía ,. agora a tereis de outra mais ra* 
ra j e que o povo ainda menos goza , que he a 
Coroação de hum Rei , e Rainha. Ávifa o Rei 
todos os Bifpos dos feus Dominios , para que ve- 
phão aiEftir*lhe á Coroação , que ha de fer em hum 
Domingo 9 e elle na femana antecedente jejua na 
quarta feira , íèxta , e fabbado , e fe prepara para 
a commiinbão do dia feguinte depois de Coroado: 
arma-fe a Igreja o melhor que he pofllveli na Ca- 
jpella mór tudo o neceflario para MiíTa Pontifical , 
jTobre o Altar fe põem a efpada , Coroa , e Scep* 
tro do Rei , em íegunda credencia a Ambula ^ e 
jconcha do oleo dos Cathecumenos ^ feda para U* 
gar , e limpar os Santos olcos^ e faixa do meímo 
para eífe fim , throno para o Rei cm parte compe- 
tente ^ e que não exceda na altura o ultimo degráo 
ào Altar j no Cruzeiro hum pavilhão rico para o 
:Rei mudar os veftidos ; e íe a Rainha ha de fer 
juntamente Coroada , no throno do Rei cadeira 
.para ella ^ e no Cruzeiro outro pavilhão para fe 

vef- 



( 479 ) 

Tcftir: prepan-fe além do throno Pontifica}, Fal-. 
diftorio para oBifpo, que faz a fnnção, epara ca», 
da Bifpo aíHfiente o feu. No Domingo pela manha 
íe ajimcão quafi todos os Bifpos na Igreja , o que 
ha de coroar vefte tudo o neceffario para celebrar 
MiíTa, e os outros fobre os Roquetes fò Eftolas, 
e Plnviaes da côr da fefta , e com Mitras fe aíTen- 
tão todos junto ao Áltar , o Celebrante no meio 
com as coftas para elle , e os mais em circulo , os 
Miniftros nos degráos do Altar j e os familiares 
nos do throno : entretanto vem o Rei acompanha- 
do de alguns Bifpos , e Prelados em habito ordi- 
nário, e com hum veftido militar, que facilmente 
fedifpa, onde for neceíTario para as unções : tan- 
to que chega perto do Presbyterio , os dous Bif- 
pos paramentados, que eftâo mais próximos íe le^ 
vantâo , e com as Mitras na cabeça lhe fazem itiM 
cHnação , a que elle correfponde ; e mettendo-o na 
meio, o prefentâo ao Celebrante fentado, aquém 
o Rei faz huma inclinação profunda : entretanto fe 
levantão os outros Bifpos paramentados, e os mie 
vierâo com o Rei tomâo aíTentos no plano da Ca* 

Êella da parte do Euangelho , e os Grandes da 
Leino, que o feguírâo, da parte da Epiftola, os 
mais no Cruzeiro com a meima ordem. Feita a in- 
clinaçSo ao Celebrante , fica o Rei em pé no mei0 
dos dous Bifpos ^ e o mais digno delles , que fae 
o da mão direita , diz ao Celebrante na lingua La« 
tina: Reverendiffima Padre ^ a Santa Mai Igreja Ca^, 
tholica vos pede y que eleveis ejie exceUente Soldado â 
dignidade Real^ ifta diz Xem Mitra ^ e q Cel^^ran- 
te íentado com ella y refponde perguntando : Sa- 

beis 



( 48o ) 

Sabeis que elle be digno ^ e útil para ejla dignidade} 
ao que refponde o Bilpo : Sabemos , e cremos , que 
elle be digno , e útil para a Igreja de Deos y e gover-- 
no dejle Reino y ao que o Celebrante refpoade : Deo 
gratias. Toma o Bifpo a Micra | e retirando-fe to- 
dos trez hum pouco para trás , fe fentão j fican- 
do o Rei no meio dos dous Bifpos ^ fentado em 
cadeira raza preciofa, elles nos Faldiftorios , e to- 
dos virados para o Celebrante ^ o qual lhe lé eai 
voz alta a admoeftaçãò ^ e inftrucçâo para o gover- 
no do Reino , que traz o Pontifical ; e acabada e\- 
la , fe levanta o Rei 9 e pofto de joelhos junto ao 
Celebrante com as mãos no livro dos Euangelhos y 
que elle tem fobre o Gremial , faz o juramento de 
bem governar o feu povo, adminiftrarjuftiça, &c. 
na lingua Latina , como o tem o Pontifical , e no 
fim beija a mão do Celebrante , o qual tira logo 
a Mitra , o que também fazem os outros j e tcti^ 
do o Rei de joelhos aos feus pés , diz em voz alta 
fobre elle huma Oração , a qual também os outros 
Bifpos dizem em voz fubmiíTa y míniftrando a cada 
lium hum Capellão o Pontifical, e omefmo fazem 
até o fim da Coroação : quando na Oração difpôe 
a Rubrica benção, todos os Bifpos com o Cele- 
brante a lanção fobre o Rei ; e acabado ifto , to- 
mão todos as Mitras , e poftos de joelhos, le re- 
clinão fobre os Faldiílorios , virados para o Al- 
tan 



LISBOA, NaOfficina de Miguel Mancfcal daCofta, Impreífor do 
SamoOfficio. Anão 17^4. C^mt^iaiaiikenfaímcej^ariãít 



(40 

índice 

DO SÉTIMO TOMO DA ACADEMIA 

dos Humildes , e Ignorante^. 

...'■■ ' .■ -•.■'..■ •■ • ;.. 

ADVERTÊNCIA NECESSÁRIA. 

• *• • • ■ . . 

AS obras compoftas.por Alfabeto , conjo Mo- 
rerirj e outras ^.não tem , nem devem ter In-^i 
dice, porque ellas o são , e ocpntrarjp' fe- 
ria índice de índice, e obrigar os.curioíbs 
a comprar dous volumes quaíi iguaes ^ e hum total-^ 
mente fuperliuo» Na Conferencia IV. e pag.37. co- 
meça o Âlfa^efo da Arte Militar^ ç Fortificação , 
e acaba na Qppferencia X* pag* ipi9» No principio 
delle achará ,o Leitor todas as noticias á^ Fortifir 
cação antiga, depois em Abçedario a moderna , e 
commua , e Arte Militar , e no fim a FortilScaçáo 
deThomaz Koulikan. Naí Conferencia X. pag. 113. 
começa o Alfabeto da tracíucçáo , recopilação , e ad- 
ditamentbS <le A/íTrm y que contém alçtra^^í, e i^íf- 
te achará o Leitor todos os nomes , e fobrenodhes 
de Cidades , Villas , Aldeias , rios, montes , e vários 
{Uuftres, ceremonias , &ç. qi\e pertencem a çfta le- 
tra, até a Conibrencia XXXV. pag. 418, e tadq o 
mais que fe não contém neftes dousAlfabetos , que 
vão no corpo da obra, hum completo, e outrp co- 
çK^a^o , fe achará ,neáe índice, no qual o Ci:figQÍ- 
fica Conferencia > e o P. pagina. 



' 1. • 



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('48» ) 

ív"' •'■-«fc,^ ■rA"T "^^t'" T 

ABolimiqiíe;t^rincípec!eMarrócog. C. t. p. ii. 
D. Affonfp Sábio ^ Rei dè HêrplAhà. C i. 
p. I. até IO,., ,,, : 

D. AíFonío de Gufmâo. Sua conftancia. C.i.p.6. 
D. Affbnfó.*dé'Lacerda. Rei de Murcia. G. i.p.7. 
D. Affbnfo j undécimo Rei de Hefpanha. Sua vida. 

C. I. p. 8, até C 2. p. 4. 
Santo AgoftinhO) invenção do feii corpb em Pavia. 

'C.3».p.45'5'. ■ 

Alcântara cotaquiftada. Q^^^. p.424; 

Akravala , tributo. C. i«p. 3. 

Andronico Emperador. Chama os Catalães para o 

defenderem dos Turcos. C; 2. p.is» 

Apologia de toda a obra. C. i o.- p; 9. até 12. 

Armada de Henrique Noris em LisboarCjS. p. 45-0. 

Atar. Senhor de Málaga. C. i. p»3; 

■■ B 



.1 < 



BAncfuéte rnemMàvel dôs Grandes de Hèfpabhâ. 
Q 3. p. 25-. eió. 
Barcelona tonqniftada. Q 3<í. p. 413. 
Baíilicas erigidas iib reinado do Setítiõt Bcéi D&m 

Joâô V* Q 37.p. 441% e feguintesv' 
Batalha de Àlmáttça'. Cé^7.fK433. e4^4« ' . ' ^ 
Batalha de Raitviks. C.3«.p. 45- 3.^4^4. 

IX Beltrão Claquim, Ge^ral Francez, t^.Uj^.ã^. 

e 15. • '•* '^'' 

Birpados, e Dignidades, que fe erigirão no tempo 
do Senhor Rei D. Pedro IL C,36. p.426. 

Cam* 



c 

CAmpo Maior cercado» G37-p.43^«€43jr. T 
Gafidía conquiftácMu^ Q 96Í p; 4x8;. y H^^ 
Carlos II. Rei de Hefpanbai^Stia snórte^^ e.tofta* 

mento. C. 35'.p. 420. 
Carlos III. coroado Relede Hefpanha em Viennar 

C. 36. p. 421. Sua entrada em Portugal y ibi. 
Oarlôs 11/ Rfsri de Ihglaserra« Sua morte. C. ^'ó. p. 

429, ■ '1 : -. . ' . ;; V M 

C^fa de Lara. C. i.p. 1. * >" i 

Catalogo dos Reis de Hefpanha. Cr i.p.^.e lo, e 

C. 3. p. 34. até 36. * 

D. Catharina , Rainha de Inglaterra. Sua morte. 

C. 36. p. 426. [ 

Cifneiros, Cardeal. Seu confelho, e governo. C. 3. 

p.32. e33. ^ 
Condes 9 como fe infiituiâo em Hefpanha. C. 2. p. 

Coiide de Sandomil. Seu valor, e dito' célebre* C. 
3$-. p. 418. 0419. * ' 

Conde de Galowai j General de Inglaterra hefte Rei- 
no. C. 36. p.422. 

Conde das Galveaa. Sua$ acçóes. C.3tf.{:(.422.até 

C.37. p.438. 
Conquiílas dos Catalães em Grécia. C.2.p. 16. 
Coroação dos Reis. Como fe faz. C. 40. p. 478. 

até o fim. 
Conradino Príncipe , degollado; C. i. p^ 3. 
Conílantinopla^rdida*^ C. 3«p<28. 



Ss ii CkC- 



,t 



DEfcubrimento d'i nora Hefptnha. C. j. p.31. 
Ouque de Saboyá.* Ocftiíiada Briocipe de&es 



I « " 



• ■ E • 

EUgeoio j Principe<jfeQcraI do Império» Soas ri- 
tlorias. C. 38,p,45r4. e 4jr5. 
Exercito do Senhor Rei D.João V. .contra Hefpa- 

nha. C. 38*p*4yQ* 
Expulsão dos j udeos de Hefpanha. C 3. p. 3 1. 

F 



f \ 



D Fernando de Lacerda. C. i. p. 4. até 8. 
.Dom Fernando Infante. Soa lealdade. C. j. 
p. 27. Accções, pag. 28. 
D. Fernando y Rei Gatholico 4e Hefpanha toda. 
O primeiro, que a dominou aifim depois de Dom 
Rodrig09.t)ltin}oReidosGodos.C.3.p«28.até 32. 
Filippe, Arquiduque de Auftria, pai de Carlos V. 
C. 3. p. 32./Saa jnorte, p. 33. . 

G 

GIbaltar (Itiada. C»3é,p.43o. 
Gginíalo Fernandes de. Córdova , GeneraL 
Suas acções.. C, 3%p.;32^ ;,i j 
Gregos» Sua aleivofia. C. 2. p. ijr. 
Guerra da grande aliança. C. 36. p.421. até C. 37# 
p^438. D.Hea- 



{4S5) 

H 

D Henrique, Rei de Caftella. C. 2. p. 17, Sua 
acclamaçáo, p. 20. até 22. 
D. Henrique IIL Rei de. Caftella. Sua vida. C. 3. 

p. 23. até 27. 
D. Henrique IV. Rei de Caftella. C. 3.p. z8.c 29. 
Hudiel , Rei de Murcia. C. i. p. 2. 



DJayme , Rei de Aragão. C. i. p. 6. 
.Igrejas. Sua fagraçâo, e ritos delia. C. 38. 
p. 456. C. 39. toda, e C. 40. até p. 438. 

D. Joanna , Princeza de Hefpanha , mâi de Carlos 
V. C. 3. p. 32. 

D. João, Conde de Guipofcoa. Sua morte. C. i. 
p. II. 

D. João I. Rei de Caftella. Sua vida. C. 2. p. 22. 
até 24. 

D. João II. Rei de Caftella. Sua vida. C. 3. p. 27. 
até 28. 

D.João V. Seu nafcimcnto. C. 36. p. 427. Sua ac- 
clamação, ibi p. 430. Suas vi6lorias , ibi p. 432. 
e C. 37* p. 438. até 441. Sua doença , e morte. 
C. 38. p. 450. c 45 1. Sua magnificência nos Tem- 
plos. C. 37. p. 441. até C. 38. p. 446. Seus fi- 
lhos. C. 38.p.45'i. Títulos que deo. C. 38.p.4f3t 

S.João Nepomuceno canonizado. C. 38. p. 45*5'. 

D. Joíé I. noíTo Senhor. Seu nafcimento felícifiimo. 
G. 36. p. 430. Seu augufto derpoforio. C 3'. 
p. 448, e 449. 

DaCa- 



-'.• t 



( 48<5 ) 

D. Ifabel , e D. Fernando , Reis Catholícos de Caf- 
tella, Aragão, &c. C. 3. p. 28. até 32. 

D. Ifâbel , Princeza jurada deftes Reinos. C i^. 
p. 419. Sua morte. C. 35'. p. 420. 

Jubileç de trez mil annos emBruflelas. C^^ó.p.j^z^ 

L 

LEâo , Rei' de Arménia y recebido em Hefpanha. 
C. 2. p. 23. 
D. Leonor Nunes de Gufmão. Sua morte , c def- 

graça. C. 2. p. 17. 
Luiz XIV. Rei de França. Sua morte. C. 38. p. 43:4. 

M 

D Maria Sofia , Rainha de Portugal. Seu defpo- 
. forio. C. 35r. p. 420. 
Marquez das Minas. Suas vidlorias. C. 36. p. 424. 

e 425-. 
Miranda reftaurada. C. 37. p. 435:. 
Mouros expulfos de Hefpanha. C. 37. p. 43 5^* 



N 



N 



Uno de Lara degollado. C. i. p. 3. 



O 



ORão conquiftado. C. 3. p* 32. 
Orâo defendido por Pedro Jaques de Maga- 
lhães. C. 35'. p. 4x8. 

Or- 



(487) 

Ordem daMonteza. Sua fundação^ e infignias. C. 

2. p. 14. e ijT. 
O P. Otcoinano. Sua vida. C. 36. p. 429. 

P 

PAz em 17 ly. C. 374 p. 438. até 4^0. 
D. Pedro, Rei de Aragão. C. 2. p. xy. 
D. Pedro, Rei de Caftella. Sua vida. C. 2. p. x^. 

até 19. 
D.Pedro II. Rei de Portugal. Sua vida. C. 35'. p* 
418. Sua morte. C. 36. p. 426. Seus filhos, ibi. 



R 



R 

Io de Janeiro faqneado. C. 37. p. 43?. 
Roberto de Rocafort, General. C. 2. p. 16, 

s 



SAgração das Igrejas. C. 38. p. 456. C. 39* to- 
da, e C. 40. até p. 438. 
Salado. Batalha memorável. Q i. p. 12. até Q 2. 

p. 13. 
D. Sancho de Lacerda. C. i. p. 4. até 8. 
D. Sancho , filho de D. Affonfo. C. i, p. 4. até 6. 

Amaldiçoado por feu pai. C. i. p. 4. 
D. Sancho Infante , Arcebifpo de Toledo. C. i. 
p. 2. Sua morte defgraçada, p. 3. 



Ti. 



(488) 

T 

Títulos , que deo o Senhor Rei Dom Pedro.^ 
C. 36. pag. 427. 
Titulos, que deo o Senhor Rei D. João V. C. 38. 

p. 4y3* 

V 

VIenna de Auftria íltiada. C. ^6. p. 42^. 
D. Violante, Rainha. Q i. p. 4. 



FIM DO SÉTIMO TOMO. 





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